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      Elisabeth Kbler-Ross


    A Roda da Vida


     Memrias do
     Viver e do Morrer









       2 edio






         SEXTANTE




























       Dedico este livro a meus filhos,
       Kenneth e Barbara









         Quando acabamos de fazer tudo o que viemos fazer aqui
         na Terra, podemos sair de nosso corpo, que aprisiona
         nossa alma como um casulo aprisiona a futura borboleta.
         E, na hora certa, podemos deix-lo para trs, e no sentimos
         mais dor, nem medo, nem preocupaes - estamos livres
         como uma linda borboleta voltando para casa, para Deus...

        - de uma carta a uma criana com cncer



















    Agradecimentos

        Desejo aproveitar esta oportunidade para agradecer no apenas a meus amigos dos dias felizes, mas a todos que sempre ficaram a meu lado nos bons e nos maus
tempos.
        A David Richie, que encontrei nos "velhos tempos" da Polnia e da Blgica e que, apesar da idade avanada, continua a manter contato comigo e visitar-me.
        A Ruth Oliver, cujo amor sempre foi incondicional.
        A Francis Luethy, que muito me ajudou durante os meus tempos na Virgnia.
        Gostaria tambm de agradecer a Gregg Furth, Rick Hurst, Rita Feild, Ira Sapin, Steven Levine e Gladys McGarrey, por muitos e muitos anos de amizade.
        A Cheryl, Paul e seu filho (meu afilhado) ET Joseph, por suas visitas frequentes.
        Ao Dr. e  Dra. Durrer, por sua permanente amizade.
        A Peggy e Alison Marengo, por adotarem sete bebs com AIDS e serem uma inspirao para todos ns. Assim como a minha afilhada Lucy.
        E, naturalmente, a minhas duas irms, Erika e Eva, como tambm ao marido de Eva, Peter Bacher.










    A Roda da Vida


       "O CAMUNDONGO"
        (primeiros anos de vida)
         O camundongo gosta de entrar e sair de todos os lugares,  ativo e travesso, est sempre  frente dos outros.


       "O URSO"
        (incio da meia-idade)
         O urso vive satisfeito e gosta de hibernar. Reflete sobre os primeiros anos de sua vida e ri do camundongo que corre de um lado para outro.


       "O BFALO"
        (final da meia-idade)
         O bfalo adora vagar pelas pradarias. Analisa a vida de uma posio confortvel e espera um dia livrar-se da pesada carga e tornar-se uma guia.


       "A GUIA"
        (ltimos anos de vida)
         A guia gosta de pairar nas alturas, acima do mundo, no para ver as pessoas de cima, mas para estimul-las a olhar para cima.




      CAPTULO 1

    Nada acontece por acaso

Talvez isto ajude. H anos tenho sido perseguida por uma certa m reputao. Na verdade, tenho sido perseguida por pessoas que me vem como Aquela Senhora que Fala
Sobre a Morte e o Morrer. Acreditam que o fato de ter passado mais de trs dcadas fazendo pesquisas sobre a morte e a vida depois da morte faz de mim uma especialista
no assunto. Acho que no compreenderam bem.
        O nico fato incontestvel em meu trabalho  a importncia da vida.
        Sempre digo que a morte pode ser uma das maiores experincias que se pode ter. Se voc vive bem cada dia de sua vida, no tem o que temer.
        Talvez este, que  certamente meu ltimo livro, torne isso mais claro. Poder tambm despertar algumas novas perguntas e talvez at mesmo fornecer respostas.
        Hoje, aqui sentada nesta sala cheia de flores de minha casa em Scottsdale, Arizona, os ltimos setenta anos de minha vida me parecem extraordinrios. Aquela
menina criada na Sua que eu fui jamais poderia prever, nem em seus sonhos mais extravagantes - e eles eram bastante extravagantes -, que acabaria sendo a autora
mundialmente famosa de Sobre a Morte e o Morrer, um livro que, ao explorar o trecho final da vida, lanou-me no centro de uma controvrsia mdica e teolgica. Nem
muito menos poderia imaginar que em seguida passaria o resto de seus dias explicando que a morte no existe.
        Com os pais que tive, eu deveria ter sido uma boa e piedosa dona de casa sua. Em vez disso, acabei vindo para o Sudoeste norte-americano e sendo uma psiquiatra
obstinada, escritora e conferencista, que se comunica com espritos de um mundo onde acredita haver muito mais amor e glria do que no nosso. Acho que a medicina
moderna se tornou uma espcie de profeta que oferece uma vida sem dores. Isso  absurdo. A nica coisa que conheo capaz de curar realmente as pessoas  o amor incondicional.
        Alguns dos meus pontos de vista so pouco convencionais. Por exemplo, ao longo dos ltimos anos, sofri uma meia dzia de derrames, entre estes um mais leve
logo depois do Natal de 1996. Meus mdicos primeiro me fizeram advertncias e em seguida me imploraram que deixasse de fumar, tomar caf e comer chocolate. Mas ainda
me permito esses pequenos prazeres. Por que no?  a minha vida.
         como sempre tenho vivido. Se sou independente, aferrada s minhas opinies e modos de ser, se estou um pouco fora dos padres, e da?  assim que sou.
        Isoladas, as peas s vezes parecem no se encaixar bem umas nas outras.
        Mas aprendi com a experincia que nada acontece por acaso na vida. Coisas que aconteceram comigo tinham de acontecer.
        Era meu destino trabalhar com doentes terminais. No tive escolha quando deparei com meu primeiro paciente de AIDS. Achei que precisava viajar mais de quatrocentos
mil quilmetros a cada ano para coordenar seminrios que ajudavam as pessoas a lidar com os aspectos mais dolorosos da vida, da morte e da transio de uma para
outra. Mais tarde em minha vida, senti o impulso de comprar uma fazenda de trezentos acres numa regio rural da Virgnia, onde criei meu prprio centro de tratamento,
fazendo planos de adotar bebs contaminados pela AIDS e, embora seja difcil admitir, vejo que era meu destino ser obrigada a sair daquele lugar idlico.
        Em 1985, depois de anunciar minha inteno de adotar bebs contaminados pela AIDS, tornei-me a pessoa mais desprezada de todo o vale de Shenandoah e, apesar
de ter logo abandonado meus planos, havia um grupo de homens que fez de tudo, exceto me matar, para eu ir embora. Disparavam tiros em minhas janelas e alvejavam
meus animais. Enviavam uma espcie de mensagem que tornava perigosa e desagradvel a vida naquele lugar deslumbrante. Mas ali era o meu lar e eu teimosamente me
recusei a deix-lo.
        Havia me mudado dez anos antes para a fazenda, que ficava em Head Waters, na Virgnia. A fazenda concretizava todos os meus sonhos e enterrei ali todo o
dinheiro que ganhara com livros e conferncias para transformar esses sonhos em realidade. Ergui ali minha casa, um chal nas proximidades e uma casa de fazenda.
Constru um centro de tratamento onde realizava seminrios, o que me permitiu reduzir meu frentico programa de viagens. Estava planejando adotar bebs contaminados
pela AIDS, que assim poderiam desfrutar dos dias que lhes restassem em meio ao esplendor da vida ao ar livre no campo.
        A vida simples da fazenda era tudo para mim. Nada era mais relaxante depois de uma longa viagem de avio do que chegar ao caminho sinuoso que levava  minha
casa. O sossego da noite tinha um efeito mais calmante do que o de uma plula para dormir. Acordava com uma sinfonia de vozes de vacas, cavalos, galinhas, porcos,
burros, lhamas... toda a barulhenta bicharada dando-me boas-vindas. Os campos desdobravam-se at onde minha vista podia alcanar, cintilando sob o orvalho fresco
da manh. rvores antigas ofereciam sua sabedoria silenciosa.
        Havia trabalho de verdade a fazer. Minhas mos ficavam sujas. Tocavam a terra, a gua, o sol. Trabalhavam com a matria-prima da vida.
        Minha vida.
        Minha alma estava ali.
        Ento, no dia 6 de outubro de 1994, puseram fogo na minha casa.
        Queimou inteira e foi considerada perda total. Todos os meus papis foram destrudos. Tudo o que eu tinha transformou-se em cinzas.
        Eu estava correndo pelo aeroporto de Baltimore, tentando pegar um avio de volta para casa, quando recebi a notcia de que tudo estava em chamas. A pessoa 
amiga que me contou isso insistiu que eu no fosse direto para l, pelo menos por enquanto. Mas pela minha vida afora j me tinham dito para no seguir a carreira 
de mdica, para no falar com pacientes terminais, para no comear um hospital especial para doentes de AIDS na  priso e, a cada vez, eu teimosamente fiz o que 
achava certo, em vez de fazer o que se esperava que eu fizesse. Dessa vez no foi diferente.
        Todo mundo enfrenta momentos difceis na vida. Quanto mais momentos difceis enfrentamos, mais crescemos e aprendemos.
        O avio seguiu zunindo. Em breve, eu estava no banco de trs do carro de um amigo, correndo pelas estradas escuras do campo. Era quase meia-noite. A uma 
distncia de alguns quilmetros, vislumbrei os primeiros sinais da fumaa e das chamas. Destacavam-se contra o cu inteiramente negro. Dava para ver que era um grande 
incndio. De perto, a casa, ou o que restava dela, mal se distinguia atravs das labaredas. Comparei a cena com estar no meio do inferno. Os bombeiros disseram que 
nunca tinham visto nada igual. O calor intenso manteve-os a distncia a noite toda e pela manh adentro.
        Bem tarde, naquela primeira noite, procurei abrigo numa fazenda vizinha que costumava receber hspedes. Preparei uma xcara de caf, acendi um cigarro e 
refleti sobre aquela minha tremenda perda pessoal na fornalha enraivecida que um dia fora a minha casa. Era devastadora, atordoante, acima de qualquer compreenso. 
A lista inclua os dirios que meu pai escrevera sobre a minha infncia, meus papis e dirios pessoais, umas vinte mil anamnsias relacionadas  minha pesquisa 
sobre a vida depois da morte, minha coleo de arte nativa norte-americana, fotografias, roupas... tudo.
        Por vinte e quatro horas, fiquei em estado de choque. No sabia como reagir, se chorava, gritava, sacudia os punhos para Deus ou apenas ficava pasma com 
a dureza da mo do destino.
        As adversidades somente nos tornam mais fortes.
        As pessoas sempre me perguntam como  a morte. Digo-lhes que  sublime.  a coisa mais fcil que tero de fazer.
        A vida  dura. A vida  luta.
        Viver  como ir para a escola. Do a voc muitas lies para estudar. Quanto mais voc aprende, mais difceis ficam as lies.
        Aquela experincia foi uma dessas lies. J que no adiantava negar a perda, eu a aceitei. O que mais poderia fazer? De qualquer forma, era s um monte 
de coisas e, mesmo sendo importantes ou tendo valor sentimental, nada que pudesse ser comparado ao valor da vida. Eu estava ilesa. Meus dois filhos, crescidos, Kenneth 
e Barbara, estavam vivos. Um bando de idiotas tinha conseguido queimar minha casa com tudo o que estava dentro, mas no tinham conseguido me destruir.
        Quando aprendemos as lies, a dor se vai.
        Esta minha vida, que de certa maneira comeou pelo mundo afora, foi muitas coisas - mas nunca foi fcil. Isto  um fato, no uma queixa. Aprendi que no 
h alegria sem dificuldades. No existe prazer sem dor. Saberamos o que  o bem-estar da paz sem as angstias da guerra? Se no fosse a AIDS, ser que perceberamos 
que nossa humanidade est ameaada? Se no houvesse a morte, apreciaramos a vida? Se no existisse o dio, saberamos que nosso objetivo supremo  o amor?
        Como gosto de dizer: "Se protegssemos os canyons dos vendavais, nunca veramos a beleza de seus relevos."
        Confesso que aquela noite de outubro h trs anos foi uma dessas ocasies em que  difcil encontrar beleza. Mas no decorrer de minha vida j estivera em 
encruzilhadas semelhantes, buscando no horizonte algo quase impossvel de se enxergar. Nesses momentos, ou voc cai no negativismo e procura atribuir a culpa a algum 
ou opta pela recuperao e por continuar a amar. Como acredito que o nico propsito de nossa existncia  crescer, no tive problemas para fazer uma escolha.
        Assim, alguns dias depois do incndio, dirigi-me  cidade, comprei uma muda de roupas e preparei-me para o que viria em seguida.
        De certa forma, esta  a histria de minha vida.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
      CAPTULO 2
       
    O casulo
     
Ao longo da vida surgem pistas que nos indicam para que direo devemos seguir. Se no damos ateno a essas pistas, fazemos opes erradas e acabamos levando uma 
vida infeliz. Se ficamos atentos, aprendemos nossas lies e temos uma vida plena e boa, assim como uma boa morte.
        O maior dom que Deus nos concedeu foi o livre-arbtrio. O livre-arbtrio pe sobre nossos ombros a responsabilidade por fazer as melhores escolhas possveis.
        Eu estava no sexto ano escolar quando tomei minha primeira grande deciso inteiramente sozinha. Perto do fim do semestre, o professor deu uma tarefa  turma. 
Tnhamos de escrever uma redao sobre o que queramos ser quando crescssemos. Na Sua, essa tarefa especfica era um grande acontecimento. Era o que determinaria 
a nossa educao futura: receber treinamento para uma profisso ou passar anos dedicando-se a rigorosos estudos universitrios.
        Peguei no lpis e no papel com um entusiasmo fora do comum. Entretanto, embora eu acreditasse que estava definindo o meu destino, a realidade era outra. 
Nem tudo dependia da criana.
        Bastaria que eu relembrasse a noite anterior. Na hora do jantar, meu pai empurrara seu prato para o lado e estudara os rostos de sua famlia antes de fazer 
uma declarao importante. Ernst Kbler era um homem forte e rijo, com opinies coerentes com seu fsico. Era muito severo e exigente com meu irmo mais velho, Ernst 
Jnior, e obrigara-o a seguir um caminho universitrio rigoroso. Agora, estava prestes a revelar o futuro de suas filhas trigmeas.
        Uma sensao de suspense envolveu-me quando ele comeou dizendo a Erika, a mais frgil das trs, que ela seguiria um curso universitrio. Depois disse a 
Eva, a menos motivada, que ela receberia uma educao no-especializada numa escola para moas. Finalmente, seus olhos voltaram-se para mim e rezei para que ele 
me permitisse realizar o sonho de tornar-me mdica.
        Que ele certamente no ignorava.
        Mas nunca esquecerei o momento que se seguiu.
        - Elisabeth, voc vai trabalhar na minha empresa - disse ele. - Preciso de uma secretria eficiente e inteligente.  o lugar certo para voc.
        Fui tomada pelo desalento. Crescendo como trigmea, uma entre trs meninas idnticas, toda a minha vida tinha sido uma luta por minha identidade. Agora, 
mais uma vez, negavam-me o direito aos pensamentos e sentimentos que me tornavam nica. Imaginei-me trabalhando na empresa dele. Faria um trabalho burocrtico. Sentada 
o dia inteiro diante de uma mesa. Escrevendo nmeros. Os dias seriam to rgidos quanto as linhas de um grfico.
        No me via fazendo aquilo. Desde cedo, tivera uma imensa curiosidade sobre a vida. Olhava o mundo com admirao e reverncia. Sonhava tornar-me uma mdica 
do interior ou, melhor ainda, praticar a medicina entre os pobres da ndia, como meu heri Albert Schweitzer fizera na frica. No sei de onde me tinham vindo essas 
idias, mas sabia que no fora feita para trabalhar na empresa de meu pai.
        - No, muito obrigada! - retruquei bruscamente.
        Naquela poca, esse tipo de rompante vindo de uma criana no era apreciado, especialmente em minha casa. Meu pai ficou vermelho de raiva. As veias de suas 
tmporas incharam-se. Ento, ele explodiu.
        - Se no quer trabalhar comigo, ento pode passar o resto da sua vida como criada! - gritou, e entrou furioso no escritrio.
        - Para mim, est bom - respondi com aspereza, e estava sendo sincera. Preferia trabalhar como criada e aferrar-me  minha independncia do que deixar que 
qualquer pessoa, at mesmo meu pai, me condenasse a trabalhar como guarda-livros ou secretria para o resto da vida. Seria o mesmo que ir para a priso.
        Tudo isso fez meu corao bater mais forte e minha caneta correr rpida na manh seguinte quando, na escola, tivemos de escrever nossas redaes. A minha 
no fazia uma nica referncia a qualquer tipo de trabalho de escritrio. Ao contrrio, escrevi com grande entusiasmo sobre seguir o exemplo de Schweitzer e ir para 
a selva pesquisar as muitas e variadas formas de vida. "Quero encontrar o objetivo da vida." Desafiando meu pai, tambm declarei que meu sonho era ser mdica. No 
me importava se ele lesse a redao e ficasse zangado outra vez. Ningum poderia afastar de mim os meus sonhos. "Aposto que um dia poderei fazer isto por conta prpria", 
eu dizia. "Devemos sempre tentar alcanar a estrela mais alta."
        As perguntas de minha infncia: por que nasci trigmea sem nenhuma identidade prpria definida? Por que meu pai era to severo? Por que minha me era to 
amorosa?
        Tinham de ser. Era parte do plano.
        Acredito que cada pessoa tenha um anjo da guarda ou um esprito que a protege. Ele nos ajuda na transio entre a vida e a morte e tambm nos ajuda a escolher 
nossos pais antes de nascermos.
        Meus pais eram um tpico casal conservador da classe mdia alta de Zurique, na Sua. Suas personalidades eram uma prova do velho axioma da atrao dos opostos. 
Meu pai, o diretor-assistente da maior companhia de material de escritrio da cidade, era um homem forte, srio, responsvel e parcimonioso em suas despesas. Tinha 
olhos castanho-escuros e via apenas duas alternativas na vida: seus princpios e os princpios errados.
        Mas tambm tinha um enorme entusiasmo pela vida. Organizava ruidosas cantorias em torno do piano da famlia e vivia para explorar as maravilhas das paisagens 
suas. Como membro do renomado Clube de Esqui de Zurique, sua maior felicidade era fazer caminhadas, escaladas ou praticar esqui nas montanhas. Foi uma paixo que 
ele passou para seus filhos.
        Minha me parecia sempre bem disposta, bronzeada e saudvel, apesar de no participar de atividades ao ar livre com o mesmo entusiasmo de meu pai. Pequena 
e atraente, era uma perfeita e prtica dona de casa que tinha orgulho de suas habilidades. Era tima cozinheira. Costurava grande parte de suas prprias roupas, 
tricotava suteres de l, mantinha a casa organizada e cuidava de um jardim que atraa a admirao de muita gente. Era um trunfo excelente para a vida profissional 
de meu pai. Depois que meu irmo nasceu, dedicou-se a ser uma boa me.
        Mas ela queria uma filhinha bonita para completar o quadro. Ficou grvida pela segunda vez sem nenhuma dificuldade. Quando entrou em trabalho de parto em 
8 de julho de 1926, rezou por uma coisinha gorducha e macia de cabelos encaracolados que pudesse vestir como uma boneca. A doutora B., uma obstetra idosa, ajudou-a 
durante as dores e contraes. Meu pai, avisado no trabalho, chegou ao hospital para o apogeu dos nove meses de espera. A mdica curvou-se e pegou um beb, o menor 
recm-nascido que qualquer pessoa naquela sala de parto j tinha visto nascer vivo.
        Assim foi a minha chegada. Eu pesava menos de um quilo. A mdica estava horrorizada com o meu tamanho, ou melhor, com a minha falta de tamanho. Eu parecia 
um pequenino camundongo. Ningum achava que eu sobreviveria. Entretanto, assim que meu pai me ouviu chorar pela primeira vez, disparou para o telefone do corredor 
e comunicou  sua me, Frieda, que ela tinha outro neto homem.
        Quando correu de volta para a sala de parto, deram-lhe a informao correta.
        - Frau Kbler - disse a enfermeira -, na verdade, deu  luz uma menina.
        Disseram a meu pai que bebs to pequenos assim s vezes no podem ser corretamente identificados na hora do parto. De modo que ele correu de volta para 
o telefone e contou a minha av que ela ganhara a sua primeira neta. "
        - Estamos pensando em cham-la de Elisabeth - disse ele, orgulhoso.
        No momento em que meu pai entrou novamente na sala de parto para confortar minha me, no sabia que uma outra surpresa o esperava. Uma segunda menina acabara 
de nascer. Era frgil como eu, tinha menos de um quilo. Quando acabou de dar as boas-novas adicionais  minha me, verificou que ela ainda sentia dores considerveis. 
Ela jurava que ainda no havia terminado, que ia ter outra criana. Meu pai atribuiu aquela bobagem ao cansao, e a velha e experiente mdica concordou sem muita 
convico.
        De repente, minha me teve novas contraes. Comeou a fazer fora e minutos mais tarde deu  luz uma terceira menina. Essa era grande, pesava mais de trs 
quilos, o triplo do peso das outras duas. E tinha a cabecinha coberta de cachos! Minha me estava exausta mas ficou entusiasmada. Finalmente, tinha a menina com 
que sonhara durante os ltimos nove meses.
        A doutora B., uma mulher idosa, considerava-se uma clarividente. ramos as primeiras trigmeas que ela ajudava a nascer. Examinou nossos rostos detalhadamente 
e fez previses acerca de cada uma de ns para minha me. Disse que Eva, a que nascera por ltimo, estaria sempre "mais perto do corao de sua me"; enquanto Erika, 
a segunda criana, sempre "escolheria o caminho do meio". Depois, a doutora B. fez um gesto em minha direo, observou que eu abrira caminho para as outras e acrescentou: 
"Vocs nunca precisaro se preocupar com essa aqui."
        Todos os jornais locais traziam a excitante notcia do nascimento das trigmeas Kbler na edio do dia seguinte. At ler as manchetes, minha av pensava 
que meu pai havia feito uma brincadeira idiota com ela. As comemoraes prolongaram-se por muitos dias. S meu irmo no participou do entusiasmo geral. Seus dias 
de pequeno prncipe encantado tinham terminado abruptamente. Viu-se soterrado sob uma avalanche de fraldas. Logo estaria empurrando um pesado carrinho de beb ladeira 
acima e vendo suas trs irms sentarem-se em peniquinhos idnticos. Tenho certeza de que a falta de ateno que recebeu na ocasio foi a causa de seu distanciamento 
da famlia mais tarde.
        Para mim, ser trigmea era um pesadelo. No desejaria o mesmo nem para o meu pior inimigo. Eu no tinha identidade sem minhas irms. Ns ramos parecidas. 
Recebamos os mesmos presentes. Os professores nos davam as mesmas notas. Quando nos levavam para passeios no parque, os transeuntes perguntavam quem era quem. Algumas 
vezes, minha me admitia que nem ela mesma sabia.
        Era um grande peso psicolgico para carregar. No s eu tinha sido uma coisinha insignificante de menos de um quilo ao nascer, com pouca chance de sobrevivncia, 
como tambm passei toda a minha infncia tentando entender quem eu era. Sempre tive a impresso de que teria de trabalhar dez vezes mais do que qualquer pessoa e 
fazer dez vezes mais coisas para provar que merecia... algo... que merecia viver. Era uma tortura permanente.
        S quando me tornei adulta percebi que aquelas circunstncias tinham sido de fato uma bno. Tinham sido as que eu mesma escolhera para mim antes de vir 
ao mundo. Podem no ter sido agradveis. Podem no ter sido as que eu queria. Mas foram elas que me deram firmeza, determinao e energia para todo o trabalho que 
me esperava.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
      
      
      CAPTULO 3
      
    Um anjo moribundo
    
Depois de quatro anos criando trigmeas num apartamento atravancado de Zurique em que no tnhamos nem espao nem privacidade, meus pais alugaram uma encantadora 
casa de trs andares no campo, em Meilen, uma tradicional vila sua  beira de um lago e distante meia hora de trem de Zurique. A casa tinha sido pintada de verde, 
o que nos fez cham-la de "A Casa Verde".
        Nossa nova casa ficava numa colina coberta de relva de onde se via a cidade. Tinha um aspecto bem caracterstico do Velho Mundo e um pequeno ptio gramado 
onde podamos correr e brincar. Havia uma horta que nos abastecia de legumes frescos que ns mesmos colhamos. Cheia de energia, eu estava sempre ao ar livre, como 
digna filha de meu pai. s vezes, passava o dia inteiro vagando pelos bosques e campinas  procura de pssaros e animais.
        Guardo duas lembranas muito remotas desse tempo, ambas muito importantes para moldar a pessoa que eu viria a ser.
        A primeira foi a descoberta de um livro ilustrado sobre a vida numa aldeia africana, que despertou para sempre a minha curiosidade sobre as diferentes culturas 
do mundo. Fiquei imediatamente fascinada pelas fotografias de crianas de pele escura. Tentei compreend-las melhor inventando um mundo de faz-de-conta que eu podia 
explorar, inclusive com uma lngua secreta que s eu e minhas irms conhecamos. Atormentei meus pais para que me dessem uma boneca de rosto preto, que era impossvel 
encontrar na Sua. Cheguei a desistir de brincar com a minha coleo de bonecas at que me dessem uma de rosto preto.
        Quando soube que haveria uma nova exposio sobre a frica no Jardim Zoolgico de Zurique, resolvi sair de casa s escondidas para v-la. Tomei o trem como 
j fizera antes com meus pais e cheguei ao Zoolgico com a maior facilidade. Ouvi os tocadores de tambor africanos produzindo os ritmos mais belos e exticos do 
mundo. Enquanto isso, toda a cidade de Meilen estava  procura da menina Kbler fujona, da menina levada. No tinha a menor idia da preocupao que estava causando 
enquanto perambulava naquela noite, mas depois fui devidamente castigada.
        Mais ou menos na mesma poca, tambm me lembro de ter ido assistir a uma corrida de cavalos com meu pai. Como era muito pequena, ele empurrou-me para a frente 
dos adultos para que visse melhor. Sentei-me na grama mida da primavera durante toda a tarde. Apesar de sentir um pouco de frio, fiquei ali quieta para aproveitar 
a oportunidade de estar to prxima daqueles cavalos to bonitos. Peguei um resfriado logo depois, e s me lembro em seguida de uma noite de sonambulismo e delrio 
em que andei pelo poro de nossa casa.
        Eu estava totalmente desorientada quando minha me me encontrou, e ela ento me levou para o quarto de hspedes, onde podia manter-me sob observao. Era 
a primeira vez que eu dormia longe de minhas irms. Estava com uma febre alta que evoluiu rapidamente para a pleurisia e a pneumonia. Sabia que minha me estava 
aborrecida com meu pai por ele ter viajado para esquiar, deixando-a sozinha com seu trio cansativo e um menino pequeno.
        s quatro da madrugada, com minha febre nas alturas, minha me chamou uma vizinha para tomar conta de minhas irms e meu irmo e pediu a outro vizinho, o 
senhor H., que tinha um carro, para nos levar ao hospital. Enrolou-me em vrios cobertores e segurou-me em seus braos, enquanto o senhor H. seguia a toda velocidade 
para o hospital de crianas de Zurique.
        E assim fui apresentada  medicina praticada nos hospitais de uma maneira que, infelizmente,  memorvel por ter sido desagradvel. A sala de consultas era 
fria. Ningum me dirigiu uma palavra sequer. Nem "Ol". Nem "Como  que voc est?".
        Nada. Um mdico puxou os cobertores aconchegantes que envolviam meu corpo tiritante e rapidamente me despiu. Pediu a minha me que sasse da sala. Ento, 
fui pesada, cutucada, remexida, pediram-me que tossisse e trataram-me mais como uma coisa do que como uma menina pequena, enquanto procuravam a causa de meus problemas.
        Lembro-me em seguida de acordar num quarto estranho. Na verdade, parecia-se mais com uma caixa de vidro. Ou um aqurio. No havia janelas. O silncio era 
absoluto. Uma lmpada colocada no alto ficava acesa praticamente o tempo todo. Ao longo das semanas seguintes, vi pessoas vestidas com jalecos brancos entrarem e 
sarem sem pronunciar uma nica palavra ou dar um sorriso amigvel.
        Havia uma outra cama no aqurio, ocupada por uma menina uns dois anos mais velha do que eu. Tinha uma aparncia muito frgil e sua pele era to plida e 
doentia que parecia translcida. Lembrava-me um anjo sem asas, um pequeno anjo de porcelana. Ningum jamais a visitava.
        Nem sempre estava consciente, de modo que nunca nos falvamos. Mas estvamos muito bem juntas, tranqilas e acostumadas uma com a outra. Olhvamos-nos nos 
olhos durante um tempo infindvel. Era nossa forma de comunicao. Tivemos conversas longas, profundas e significativas sem jamais emitir um nico som. Era simplesmente 
uma espcie de transferncia de pensamentos. Tudo o que tnhamos de fazer era abrir nossos olhos de crianas para iniciar o fluxo. Ah, e havia muito o que falar!
        Um dia, porm, antes de minha prpria doena tomar um rumo mais drstico, abri meus olhos depois de um sono cheio de sonhos e vi minha companheira de quarto 
olhando para mim, esperando. Tivemos ento uma linda conversa, muito comovente e proveitosa. Minha pequena amiga de porcelana disse-me que iria embora mais tarde, 
naquela mesma noite. Fiquei preocupada.
        - Est tudo bem - disse. - Os anjos esto esperando por mim.
        Durante a noite, ela mexeu-se mais do que de costume.
        Quando tentava chamar sua ateno, parecia sempre olhar alm de mim, ou atravs de mim.
        -  importante que voc continue lutando - explicou. - Voc vai conseguir. Vai voltar para casa e para sua famlia.
        Fiquei muito feliz, mas meu nimo mudou abruptamente.
        - E voc? - perguntei.
        Ela disse que sua verdadeira famlia estava "do outro lado" e garantiu-me que no havia motivo para eu me preocupar. Trocamos sorrisos antes de mergulhar 
outra vez no sono. Eu no sentia medo por causa da viagem que minha nova amiga iria fazer. Ela tambm no. Parecia to natural quanto o sol sumir a cada dia e a 
lua tomar seu lugar no cu.
        Na manh seguinte, vi que a cama de minha amiga estava vazia. Nenhum dos mdicos ou enfermeiras disse uma palavra sequer sobre a partida dela, mas eu sorri 
por dentro, lembrando o que ela me confiara antes de ir. Talvez eu soubesse mais do que eles. Nunca esqueci minha pequena amiga, que aparentemente morreu sozinha, 
mas que, estou certa, foi ajudada por pessoas de um outro plano. Eu sabia que ela estava indo para um lugar melhor.
        Quanto a mim, no tinha tanta certeza. Detestava minha mdica. Culpava-a por no permitir que meus pais se aproximassem e s ficassem do outro lado do vidro. 
Olhavam para mim l de fora, enquanto eu precisava desesperadamente de um abrao. Queria ouvir as vozes deles. Queria sentir o calor da pele de meus pais e ouvir 
minhas irms e meu irmo rirem. Em vez disso, meus pais encostavam seus rostos no vidro. Mostravam desenhos mandados por minhas irms, sorriam e acenavam; e suas 
visitas no passaram disso, enquanto eu fiquei no hospital. Meu nico prazer era puxar a pele morta de meus lbios queimados. Era bom e irritava um bocado a minha 
mdica. Ela batia sempre na minha mo, ameaando amarrar meus braos e imobilizar-me se eu no parasse. Rebelde e entediada, eu continuava. No conseguia parar. 
Era a nica distrao que tinha. Um dia, porm, depois que meus pais saram, a mdica insensvel entrou em meu quarto, viu meus lbios sangrando e prendeu meus braos 
na cama para que eu no pusesse mais as mos na boca.
        E a usei os dentes. Meus lbios sangravam sem parar. A mdica detestava-me porque achava que eu era uma criana teimosa e desobediente. Mas eu no era nada 
disso. Era uma criana doente e solitria que ansiava por calor humano. Costumava esfregar os ps e as pernas uns nos outros para sentir o toque reconfortante da 
pele humana. No estavam tratando uma criana da maneira certa e, com certeza, para crianas muito mais doentes do que eu isso deve ter sido ainda pior.
        Ento, numa certa manh, vrios mdicos amontoaram-se  volta da minha cama murmurando sobre a necessidade de uma transfuso de sangue. Bem cedo, no dia 
seguinte, meu pai irrompeu por aquele meu quarto desesperadamente vazio e desanimador, parecendo-me muito grande e herico. Comunicou-me que eu iria receber um pouco 
do seu "bom sangue cigano". E, de uma hora para outra, foi como se o quarto se iluminasse. Ficamos deitados em macas vizinhas e espetaram tubos em nossos braos. 
O aparelho de suco-circulao-bombeamento era movido  manivela e parecia um moedor de caf. Papai e eu olhvamos para os tubos vermelhos. Cada vez que a manivela 
era acionada, o sangue era sugado do tubo de papai e entrava no meu.
        - Isso vai deixar voc em ponto de bala - disse, animador. -Logo vai poder voltar para casa.
        Naturalmente, eu acreditei.
        Fiquei deprimida quando tudo terminou porque ento meu pai se levantou e deixou-me sozinha outra vez. No entanto, depois de vrios dias, minha febre baixou 
e a tosse diminuiu. E, numa manh, papai apareceu outra vez. Mandou que eu levantasse meu corpo esmirrado da cama e seguisse pelo corredor at um pequeno vestirio.
        - H uma coisinha l esperando por voc - disse. Embora eu no sentisse as pernas firmes, minha animao levou-me pelo corredor, onde imaginava que encontraria 
minha me e minhas irms prontas para me fazerem uma surpresa. Em vez disso, entrei num quarto vazio. A nica coisa l dentro era uma pequena mala de couro. Meu 
pai enfiou a cabea pela porta e disse-me para abrir a maleta e vestir-me depressa. Eu estava fraca e com medo de cair, alm de mal ter foras para abrir a maleta. 
Mas no queria desobedecer a meu pai e talvez perder a oportunidade de ir para casa com ele.
        Assim, usei toda a minha energia para abrir a mala. E encontrei a melhor surpresa de toda a minha vida. Dentro, estavam minhas roupas bem dobradas, obviamente 
por minha me, e, por cima de tudo, uma boneca negra. Era a boneca negra com que eu havia sonhado por muitos meses. Peguei-a e comecei a chorar. Nunca tivera antes 
uma boneca s minha. Nem uma. Nem um brinquedo ou pea de roupa que no dividisse com minhas irms. Mas aquela boneca negra era evidentemente minha, toda minha, 
claramente distinguvel das bonecas brancas de Eva e Erika. Estava to feliz que tive vontade de danar - se minhas pernas fracas agentassem.
        Em casa, meu pai carregou-me para cima e colocou-me na cama. No decorrer das semanas seguintes, aventurei-me apenas at a espreguiadeira na sacada, onde 
descansava com a minha preciosa boneca negra nos braos, deixando que o sol aquecesse minha pele, enquanto admirava as rvores e as flores, com minhas irms brincando 
por perto. Estava to feliz por estar em casa que nem me importava por no poder brincar com elas.
        Fiquei triste por perder o incio das aulas, mas, num dia ensolarado, minha professora favorita, Frau Burkli, apareceu em nossa casa com a turma inteira. 
Reuniram-se sob minha sacada e fizeram uma serenata para mim com as minhas canes alegres favoritas. Antes de ir embora, minha professora deu-me de presente um 
adorvel urso negro cheio das mais deliciosas trufas de chocolate, que devorei em tempo recorde.
        Lenta mas seguramente, voltei ao normal. E, como percebi muito mais tarde em minha vida, muito tempo depois de ter ido engrossar as fileiras daqueles mdicos 
de hospital de jalecos brancos, minha recuperao deveu-se em grande parte ao melhor remdio do mundo: os cuidados, o conforto e o amor que recebi em casa... alm 
de alguns chocolates!
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
       CAPTULO 4
    
    Meu coelhinho preto
    
Em reunies de famlia, meu pai adorava tirar fotografias que depois arrumava meticulosamente em lbuns. Tambm mantinha dirios detalhados em que registrava quando 
cada um de ns tinha pronunciado as primeiras palavras, aprendido a engatinhar, a falar, dito algo engraado ou inteligente - recordaes preciosas que sempre me 
faziam sorrir, at que a maioria delas foi destruda. Graas a Deus, ainda esto todas guardadas em minha memria.
        O Natal era a melhor poca do ano. Na Sua, todas as crianas trabalham muito antes das festas preparando presentes feitos por elas mesmas para todos os 
membros da famlia e parentes prximos. Nos dias que precediam o Natal, ficvamos juntas tricotando capas para cabides de roupas, bordando lenos com motivos elaborados 
e escolhendo novos pontos para toalhas de mesa e panos de mesa decorativos. Fiquei muito orgulhosa de meu irmo quando ele trouxe para casa um conjunto para polir 
sapatos que fizera na oficina de carpintaria da escola.
        Minha me era a melhor cozinheira do mundo, mas esmerava-se em preparar cardpios novos e especiais para as festas de fim de ano. Era muito exigente com 
relao aos lugares onde comprava sua carne e seus legumes e no se esquivava de andar quilmetros para conseguir alguma coisa em especial, mesmo que s pudesse 
encontr-la em uma loja do outro lado da cidade.
        Embora considerssemos papai uma pessoa econmica, no Natal ele sempre trazia para casa um buqu de flores frescas, anmonas, rannculos, margaridas e mimosas. 
Todo ms de dezembro, ainda sou capaz de sentir o perfume dessas flores se apenas fechar os olhos. Papai tambm trazia para casa caixas de tmaras, um pouco de figos 
secos e outras guloseimas que tornavam mstica e especial a poca do Advento. Minha me enchia todos os vasos com flores e ramos de pinheiro e decorava a casa de 
modo especialmente bonito. Havia sempre uma atmosfera de expectativa e excitao por toda a parte.
        No dia 25 de dezembro, papai levava todas as crianas para uma longa caminhada  procura do Menino Jesus. Um bom contador de histrias, ele nos fazia acreditar 
que a cintilao na neve era um sinal de que o beb Jesus estava apenas um pouco adiante de ns. Nunca lhe fazamos perguntas enquanto caminhvamos atravs de florestas 
e subamos colinas, sempre esperando ver o Menino Jesus com nossos prprios olhos. A caminhada durava vrias horas, at escurecer, quando meu pai, com um suspiro, 
desistia e decidia que era hora de voltar, para que mame no ficasse preocupada.
        Porm, assim que chegvamos ao jardim, encontrvamos mame envolta num casaco grosso chegando tambm, talvez de alguma compra de ltima hora. Entrvamos 
todos ao mesmo tempo em casa e, com grande excitao, descobramos que o Menino Jesus estivera com certeza em nossa sala e acendera todas as velas de uma imensa 
e muito enfeitada rvore-de-natal. Havia embrulhos sob a rvore. Comamos uma grande ceia, enquanto as velas tremeluziam.
        Mais tarde, amos para a outra sala, que servia de sala de msica e biblioteca, e minha famlia comeava a cantar as antigas e queridas canes de Natal. 
Minha irm Eva tocava piano e meu irmo acompanhava-a no acordeo. Meu pai tinha uma esplndida voz de tenor e todos cantvamos juntos. Depois, meu pai lia uma histria 
de Natal, com as crianas sentadas a seus ps escutando fascinadas. Enquanto minha me reacendia as velas da rvore e preparava a sobremesa, ns corramos para perto 
da rvore para tentar descobrir o que havia dentro de cada pacote. Por fim, depois da sobremesa, abramos os presentes e fazamos brincadeiras e jogos at a hora 
de dormir.
        Nos dias normais de trabalho, meu pai costumava sair de manh cedo para tomar o trem para Zurique. Voltava para o almoo e depois saa outra vez para a estao 
do trem. Isso deixava pouco tempo para minha me fazer as camas e limpar a casa antes de preparar o almoo, que era geralmente uma refeio completa, a principal 
do dia. Todos tnhamos de estar  mesa e estvamos sujeitos ao "olhar de guia" de meu severo pai disciplinador se fizssemos barulho demais ou deixssemos comida 
no prato. Ele raramente precisava levantar a voz, de modo que, quando o fazia, todos logo se comportavam como deviam. Se isto no acontecia, ele nos chamava para 
ir ao seu escritrio e j sabamos o que isto significava.
        No me lembro de ter visto papai alguma vez perder a pacincia com Eva ou Erika. Erika ficava o tempo todo extraordinariamente quieta e bem-comportada. Eva 
era a favorita de minha me. Portanto, Ernst e eu ramos os alvos habituais. Meu pai deu apelidos a todos ns: Erika era Augedaechli, que significa a plpebra sobre 
o olho, simbolizando o quanto ele se sentia prximo dela e talvez porque sempre a via meio sonhando, meio adormecida, com os olhos quase fechados. A mim, que estava 
sempre pulando de um galho para outro nas rvores, ele chamava de Meisli, ou pequeno pardal, que depois trocou por Museli, ou camundonguinho, porque eu nunca ficava 
parada. Eva era chamada de Leu, que quer dizer leo, provavelmente por causa da quantidade de cabelo maravilhoso que ela tinha, assim como por seu bom apetite! Ernst 
era o nico chamado por seu prprio nome.
         noite, bem depois de voltarmos da escola e meu pai do trabalho, reunamo-nos todos na sala de msica e cantvamos. Meu pai, um solicitado mestre-de-cerimnias 
do famoso Clube de Esqui de Zurique, fez questo que aprendssemos centenas de canes e baladas populares. Com o passar do tempo, ficou claro que Erika e eu no 
tnhamos nenhum talento musical e acrescentvamos apenas notas desafinadas a um concerto de vozes que poderia ser bastante animado. Como resultado, ele delegou-nos 
as tarefas da cozinha. Quase todos os dias, enquanto os outros cantavam, Erika e eu lavvamos a loua do jantar e acabvamos cantando sozinhas. Mas no nos importvamos. 
Ao terminar, em vez de ir ao encontro dos outros, ficvamos sentadas no balco da cozinha cantando e pedindo que eles cantassem canes favoritas, como Ave Maria, 
Das alte Lied e Al-ways. Bons tempos eram aqueles.
        Na hora de dormir, amos para nossas camas idnticas, cobertas com idnticos lenis e colocvamos nossas roupas idnticas em idnticas cadeiras para a manh 
seguinte. Das bonecas aos livros, tudo era igual para ns trs. Era de enlouquecer. Lembro do coitado de meu irmo sendo usado como co de guarda durante nossas 
sesses nos peniquinhos. A tarefa dele era impedir que eu me levantasse depressa demais e fugisse antes que minhas irms acabassem. Eu detestava aquele sistema e 
sentia-me como se estivesse numa camisa-de-fora. Tudo isso contribuiu para toda aquela nsia pela minha prpria identidade.
        Na escola, eu tinha muito mais caractersticas prprias do que minhas irms. Era tima aluna, especialmente em matemtica e lnguas, mas era mais conhecida 
por defender, contra os encrenqueiros, as crianas mais fracas, indefesas ou portadoras de alguma deficincia. Meus punhos socavam tantas vezes as costas dos valentes 
da escola que minha me estava acostumada a ouvir o filho do aougueiro, o mexeriqueiro da cidade, dizer, ao passar por nossa casa, depois das aulas: "Betli vai 
chegar tarde hoje. Est batendo num dos meninos." Meus pais nunca ficavam zangados porque sabiam que eu s protegia os que no podiam defender-se.
        Tambm ao contrrio de minhas irms, eu estava sempre s voltas com bichos de estimao. No final do jardim-de-infncia, um amigo da famlia voltou da frica 
e deu-me um macaquinho, a que chamei de "Chiquito". Ficamos grandes amigos rapidamente. Colecionava tambm todos os tipos de animais e criei um hospital improvisado 
no poro para pssaros, sapos e cobras feridos. Certa vez, alimentei um corvo machucado, que se recuperou e voltou a voar outra vez. Descobri que os animais sabiam 
instintivamente em quem confiar.
        Isto tambm se aplicava aos mais ou menos dez coelhos que crivamos num pequeno cercado no jardim. Eu era em princpio a responsvel pela limpeza da casa 
deles e, alm disso, cuidava de sua alimentao e brincava com eles. Apesar de minha me, de tempos em tempos, incluir ensopado de coelho no cardpio, eu nunca pensei 
na maneira como os coelhos iam parar na panela, o que era muito conveniente. Por outro lado, percebia que os coelhos s se aproximavam do porto quando eu entrava, 
nunca quando se tratava de qualquer outra pessoa de minha famlia. Esse favoritismo fazia com que eu os mimasse ainda mais. Eles, pelo menos, eram capazes de me 
distinguir de minhas irms.
        Depois que comearam a se multiplicar, meu pai decidiu diminuir o nmero de animais e s conservar uma certa quantidade mnima deles. No entendo por que 
ele fez isso. A alimentao deles no custava nada, pois s comiam dentes-de-leo e capim, o que no faltava em nosso jardim. Papai devia imaginar que, de alguma 
forma, estava poupando dinheiro. Uma manh, pediu a minha me para fazer um coelho assado. Depois, voltou-se para mim.
        - Leve um de seus coelhos para o aougueiro na ida para a escola - disse. - E traga-o de volta quando vier para o almoo, de modo que sua me tenha tempo 
de prepar-lo para o jantar.
        Embora tenha ficado sem fala por estar pensando no que ele havia pedido, obedeci. Naquela noite, assisti a minha famlia comer o "meu" coelho. Quase engasguei 
quando meu pai sugeriu que eu provasse um pedacinho. "S uma perna", disse. Recusei teimosamente, mas procurei evitar um "convite" para ir ao escritrio dele.
        Esse drama se repetiu por meses a fio, at restar apenas meu coelho favorito, "Blackie". Ele era uma grande e gorda bola macia. Eu adorava abra-lo e contar-lhe 
os meus segredos. Era um grande ouvinte, um psicanalista maravilhoso. Estava convencida de que era a nica criatura no mundo inteiro que me amava incondicionalmente. 
Ento, chegou o dia que eu mais temera. Depois do caf, meu pai disse-me para levar "Blackie" para o aougueiro. Fui andando trmula e perturbada at onde ele estava. 
Ao peg-lo, confessei-lhe o que tinham me mandado fazer. "Blackie" olhou para mim, mexendo seu nariz cor-de-rosa.
        - No posso fazer isso - disse, e coloquei-o no cho. - Fuja - implorei. - V embora! - mas ele no saiu do lugar.
        Por fim, meu tempo se esgotou. Estava na hora de ir para a escola. Agarrei "Blackie" e corri para o aougue com as lgrimas correndo pelo rosto. O pobre 
"Blackie" sentiu que algo terrvel ia acontecer, no posso deixar de pensar, pois o corao dele batia to forte quanto o meu quando o entreguei ao aougueiro e 
corri para a escola sem me despedir.
        Passei o resto do dia pensando em "Blackie". Imaginava se ele j estaria morto, se saberia que eu o amava e que sentiria falta dele para sempre. Arrependi-me 
de no ter me despedido. Essas perguntas que eu me fazia ento, sem falar na minha atitude, estavam plantando as sementes de meu futuro trabalho. Eu odiava a maneira 
como me sentia e culpava meu pai.
        Depois da escola, fui andando bem devagar at a vila. O aougueiro estava esperando  porta do aougue. Ao entregar-me a sacola em que estava "Blackie", 
disse:
        - Que pena voc ter precisado trazer esta coelha... Em um ou dois dias, ela teria tido filhotes. (Eu no sabia que "Blackie" era fmea.)
        No imaginava que pudesse sentir-me ainda pior do que j me sentia, mas foi o que aconteceu. Em casa, coloquei a sacola ainda quente sobre o balco da cozinha. 
Mais tarde, sentei-me  mesa e vi minha famlia comer "meu" coelho. No chorei. No queria que meus pais soubessem o quanto me tinham feito sofrer.
        Raciocinei que obviamente eles no me amavam e por isso eu precisava aprender a ser forte. Mais forte do que todo mundo.
        Quando meu pai cumprimentou minha me pela refeio deliciosa, eu disse a mim mesma: "Se voc for capaz de agentar isso, ser capaz de agentar qualquer 
coisa na vida."
        Quando eu tinha dez anos, meu pai comprou uma casa bem maior e mudamo-nos para o que chamvamos de "A Casa Grande", num local mais distante nas colinas, 
acima da cidade. Tnhamos seis quartos de dormir, mas meus pais continuaram colocando ns trs, as meninas, num mesmo quarto. Na poca, o nico espao que me interessava 
era o exterior. Tnhamos um ptio espetacular, um gramado de 200 metros quadrados, flores e um jardim, que foi indiscutivelmente a origem de meu interesse da vida 
inteira em cultivar qualquer coisa que floresa. Estvamos tambm rodeados por fazendas e vinhedos com aquela beleza caracterstica dos cartes-postais e,  distncia, 
havia montanhas escarpadas com os topos cobertos de neve.
        Eu perambulava por todo o campo, procurando pssaros, gatos, cobras, sapos e outros animais que estivessem feridos. Levava-os para o nosso poro, onde instalei 
um belo laboratrio. Referia-me orgulhosamente a ele como "o meu hospital". Para os meus pacientes menos afortunados, criei um cemitrio sob um salgueiro e mantinha 
aquela rea sombreada sempre enfeitada de flores.
        Meus pais no me protegiam da vida nem da morte quando as coisas aconteciam naturalmente, o que me permitiu absorver as diferentes circunstncias, assim 
como as reaes das pessoas com relao a ambas. Quando estava no terceiro ano da escola, minha turma foi apresentada a uma nova colega chamada Suzy. O pai dela, 
um mdico jovem, tinha acabado de trazer a famlia para Meilen. No era fcil recomear a exercer a profisso de mdico numa pequena cidade, e ele custou a conseguir 
pacientes. Mas todos achavam que Suzy e sua irm mais nova eram adorveis.
        Ento, alguns meses mais tarde, Suzy parou de ir  escola. Breve se espalhou a notcia de que ela estava gravemente doente. Todos na cidade culpavam seu 
pai por no conseguir cur-la. No deve ser um bom mdico, diziam. Mas nem os melhores mdicos do mundo poderiam t-lo feito. Suzy, soube-se mais tarde, tinha contrado 
meningite.
        A cidade inteira, inclusive as crianas da escola, acompanharam o declnio gradual de seu estado: primeiro a paralisia, depois a surdez e, finalmente, ela 
perdeu a viso. As pessoas da cidade, apesar de sentirem pena da famlia, eram como a maioria das pessoas que vive em lugares pequenos: temiam que a horrvel doena 
entrasse em suas casas caso se aproximassem muito. O resultado foi todos praticamente se afastarem da nova famlia, que ficou s num momento de grande necessidade 
emocional.
        Pensar nisso me perturba at hoje, embora eu fizesse parte do grupo de colegas de Suzy que continuou a manter contato com sua famlia. Entregava bilhetes, 
desenhos e flores-do-campo  irm dela para levar para casa.
        - Diga a Suzy que estamos pensando nela - eu falava. - Diga que estamos sentindo sua falta.
        Nunca esquecerei que, quando Suzy morreu, as cortinas de seu quarto estavam fechadas. Lembro-me de ter ficado triste porque ela estava isolada do sol, dos 
pssaros, das rvores e de todos os belos sons e paisagens da natureza. No me parecia certo. Tambm no aprovei as manifestaes exageradas de tristeza e luto que 
se seguiram, pois achava que a maioria dos moradores de Meilen estava aliviada por aquela provao ter finalmente terminado. Sem nenhuma razo para permanecer ali, 
a famlia de Suzy mudou-se.
        Causou-me uma impresso muito mais positiva a morte de um dos amigos de meus pais. Ele era um fazendeiro, talvez com cerca de cinqenta anos. Anos antes, 
tinha sido ele quem correra para o hospital comigo e com minha me quando eu tivera pneumonia. Sua morte foi conseqncia de uma queda de uma macieira em que ele 
quebrou o pescoo, mas que no o matou de imediato.
        No hospital, os mdicos disseram-lhe que nada podiam fazer e, sendo assim, ele insistiu em ser levado embora para morrer em casa. Havia tempo mais do que 
suficiente para a famlia, os parentes e amigos despedirem-se dele. No dia em que fomos visit-lo, estava cercado pela famlia e pelos filhos. Seu quarto transbordava 
de flores silvestres e a cama tinha sido colocada numa posio que lhe permitia ver pela janela seus campos e rvores frutferas, literalmente os frutos de seu trabalho 
que sobreviveriam com o passar dos anos. A dignidade, o amor e a paz que vi deixaram em mim uma impresso duradoura.
        Ele morreu no dia seguinte, e voltamos naquela mesma tarde para velar seu corpo. Eu estava muito relutante em participar, sem nenhuma vontade de passar pela 
experincia de estar diante de um corpo sem vida. Vinte e quatro horas antes, aquele homem, cujos filhos iam  escola comigo, tinha pronunciado meu nome, penosamente 
mas do fundo do corao: "a pequena Betli". No entanto, o velrio proporcionou-me um momento fascinante. Ao olhar para o corpo, percebi que o homem no estava mais 
ali. A fora e a energia que haviam dado vida a ele desapareceram.
        Em minha mente, comparei a morte dele com a de Suzy. O que quer que tenha acontecido com ela desenrolou-se no escuro, por trs de cortinas fechadas que impediram 
a entrada at mesmo do calor dos raios do sol durante os momentos finais de sua vida. O fazendeiro morreu o que hoje chamo de uma boa morte - em casa, cercado de 
amor e cumulado de respeito, dignidade e afeio. Sua famlia disse tudo o que tinha a dizer e chorou sua morte sem arrependimentos ou questes mal resolvidas.
        Minhas poucas experincias de ento fizeram-me perceber que a morte  algo que nem sempre se pode controlar. Porm, com direito a algumas escolhas, isso 
era at aceitvel.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
      CAPTULO 5
      
    F, esperana e amor
    
Eu tinha sorte na escola. Meu interesse por matemtica e pelas matrias bsicas fazia com que eu fosse uma daquelas crianas estranhas que gostam de ir para a escola. 
Mas reagia de modo totalmente oposto quando se tratava do estudo semanal obrigatrio de religio. Isso era mau porque, para uma criana, eu tinha claras tendncias 
espirituais. Porm, o pastor R., o pastor protestante da cidade, ensinava as Escrituras aos domingos com grande nfase no medo e na culpa, e eu no me identificava 
com o Deus dele.                     Era um homem frio, brutal e rude. Seus cinco filhos, que realmente sabiam como ele era pouco cristo, apareciam na escola famintos 
e com marcas arroxeadas pelo corpo. Os coitados tinham uma aparncia cansada e esgotada. Dvamos disfaradamente a eles sanduches para o caf da manh que no tinham 
tomado em casa e acolchovamos seus traseiros com suteres e almofadas para que agentassem sentar nos bancos de madeira ao ar livre. Seus segredos de famlia acabaram 
chegando ao ptio do colgio: todas as manhs, seu muito reverendo pai espancava-os com o que estivesse mais  mo.
        Em vez de enfrent-lo por causa dos terrveis abusos de seu comportamento, os adultos admiravam seus sermes eloqentes e altamente dramticos; mas ns, 
as crianas, que estvamos sujeitas  sua forma ditatorial de ensino e  sua rgida disciplina,  que sabamos como ele era de verdade. Bastava suspirar durante 
sua aula ou virar ligeiramente a cabea para merecer uma pancada brusca de sua rgua de madeira num brao, na cabea, numa orelha ou onde quer que fosse.
        Passei a no gostar dele, e de religio em geral, no dia em que minha irm  Eva  foi  chamada  para  recitar um  salmo.
        Tnhamos decorado o salmo na semana anterior. Minha irm sabia-o perfeitamente. Porm, antes que terminasse, uma menina prxima a ela tossiu. O pastor presumiu 
erradamente que ela havia soprado o salmo para minha irm. Sem fazer nenhuma pergunta, ele agarrou uma trana de cada menina e bateu com suas cabeas uma de encontro 
 outra. O estalo causado pelo impacto dos ossos produziu um som que fez a turma toda estremecer.
        Era demais, e eu explodi. Atirei o livro preto de salmos que tinha na mo no rosto dele. Acertou-lhe em cheio na boca. Ele ficou estupefato e olhou-me diretamente, 
mas eu estava exaltada demais para me intimidar.
        - Voc no  nenhum exemplo de pastor afetuoso, prestativo, compreensivo, piedoso ou solidrio - berrei. - No quero fazer parte de nenhuma religio que 
voc esteja ensinando! - E disparei para fora da escola, jurando nunca mais voltar.
        No caminho para casa, senti-me perturbada e assustada. Mesmo sabendo que minha atitude tinha sido justificada, temia as conseqncias. Imaginava-me sendo 
expulsa da escola. Mas a maior incgnita era meu pai. No queria nem pensar em como ele me castigaria. Por outro lado, ele no era um dos grandes admiradores do 
pastor R. O pastor havia recentemente escolhido nossos vizinhos como a mais exemplar famlia crist da cidade e, no entanto, todas as noites ouvamos os pais gritarem, 
brigarem e baterem nos filhos. Aos domingos, tinham uma aparncia encantadora. Mas meu pai admirava-se de como o pastor podia ser to cego.
        Na volta, parei para descansar sob a sombra de uma das grandes rvores que margeavam um vinhedo. Aquela sim era a minha igreja. Os campos abertos. As rvores. 
Os pssaros. A luz do sol. No tinha dvidas sobre a santidade e respeito que a Me Natureza inspirava. Eterna e honesta em sua aparncia. Bela e a mais benvola 
na maneira de tratar os outros. Aquele era o meu refgio contra os problemas, o porto seguro que me abrigava e protegia contra adultos intrometidos. Ali estava realmente 
a mo de Deus.
        Meu pai iria compreender. Fora ele quem me ensinara a venerar o generoso esplendor da natureza levando-nos por longas caminhadas pelas montanhas, quando 
esquadrinhvamos os urzais e campinas, nadvamos em riachos claros e frescos e abramos nossos prprios caminhos atravs de florestas espessas. Levava-nos no s 
em agradveis caminhadas de primavera como em perigosas expedies atravs da neve. Transmitiu-nos seu entusiasmo pelas montanhas mais altas, por um edelweiss meio 
escondido entre as rochas ou pela viso de uma rara flor alpina. Saboreamos a beleza do pr-do-sol. Tambm aprendemos a respeitar o perigo, como na ocasio em que 
sofri uma queda quase fatal numa profunda fenda glacial - e s pude ser resgatada porque estava usando minha corda de segurana.
        Esses caminhos que nossos passos trilharam ficaram marcados para sempre em nossas almas.
        Antes de ir para casa, onde quela hora j teriam certamente chegado as notcias sobre minha briga com o pastor R., esgueirei-me para um local secreto na 
campina abaixo de nossa casa. Para mim, aquele era o lugar mais sagrado do mundo inteiro. No centro de uma extenso de terreno em estado natural e de vegetao to 
abundante e cerrada que nenhum ser humano ainda entrara ali - exceto eu - havia uma rocha enorme, talvez com quase dois metros de altura e coberta de musgo, lquen, 
salamandras e rpteis. Era o melhor lugar para eu me integrar com a natureza e onde ningum no mundo inteiro iria encontrar-me.
        Subi no topo da rocha. Com o sol filtrando-se atravs das rvores como os vitrais de uma igreja, levantei meus braos para o cu como um ndio e entoei uma 
prece inventada na hora agradecendo a Deus por tudo o que a vida oferecia. Senti-me mais prxima do Todo-Poderoso do que jamais o pastor R. seria capaz de algum 
dia fazer-me sentir.
        De volta ao mundo real, minhas relaes com o mundo espiritual foram uma questo a ser discutida. Em casa, meus pais no me fizeram uma pergunta sequer sobre 
o incidente com o pastor R. Interpretei o silncio deles como apoio  minha atitude. Trs dias mais tarde, porm, a junta escolar reuniu-se numa sesso de emergncia 
para discutir o caso. Na realidade, a reunio discutiria apenas qual a melhor forma de punio. Eles no tinham dvida de que eu estava errada.
        Felizmente, meu professor favorito, o senhor Wegmann, convenceu a junta a deixar-me contar minha prpria verso do incidente. Entrei na sala bastante nervosa. 
Quando comecei a falar, olhei diretamente para o pastor R. Ele estava sentado com a cabea baixa e as mos juntas, a imagem perfeita da devoo. Depois, disseram-me 
que fosse para casa e esperasse.
        Os dias seguintes passaram-se muito devagar at que, uma noite, o senhor Wegmann veio  nossa casa depois do jantar. Comunicou a meus pais que eu estava 
oficialmente dispensada das aulas do pastor R. Ningum ficou descontente. A punio leve dava a entender que eu no agira de modo imprprio. O senhor Wegmann perguntou-me 
o que achava. Respondi que achava justo, mas que, antes de dizer qualquer coisa definitiva, queria que mais uma condio fosse aceita. Queria que Eva tambm fosse 
dispensada das aulas do pastor R. "Concedido", disse o senhor Wegmann.
        Para mim, no havia nada mais divino ou que inspirasse a crena em algum poder maior do que a natureza, a vida ao ar livre. Os tempos que passamos num pequeno 
chal alpino em Amden foram indiscutivelmente o ponto alto de minha juventude. O melhor de todos os guias, meu pai sempre fazia alguma observao sobre cada flor 
ou rvore que encontrvamos. Esquivamos no inverno. Todos os veres, ele organizava enrgicas caminhadas de duas semanas em que aprendamos a viver de modo espartano 
e a seguir uma rgida disciplina. Tambm nos levava para explorar as charnecas, as campinas e os riachos que corriam atravs da floresta.
        Entretanto, quando minha irm Erika perdeu o entusiasmo por essas excurses, ficamos preocupados. Por volta dos doze anos, ela comeou a ficar cada vez mais 
desanimada ao sair para os passeios. Recusara-se terminantemente a participar de nossa caminhada anual de trs dias organizada pela escola, da qual participavam 
vrios adultos e um professor. Isso deveria ter sido um sinal de alerta para algo mais srio. J tendo feito longas caminhadas com nosso pai quase sem nenhum conforto 
e com pouca comida, estvamos bem treinados para esse tipo de passeio. At mesmo Eva e eu no conseguamos compreender qual era o problema de nossa irm. Meu pai, 
que no tolerava fricotes, s fez repreend-la com severidade e obrig-la a ir de qualquer maneira.
        Foi um erro. Antes da partida, ela j se queixava de dores atrozes na perna e no quadril. No primeiro dia de viagem, ficou muito doente. Um dos professores 
e um dos pais trouxeram-na para casa em Meilen, onde ela foi hospitalizada, o incio de anos de maus tratos por mdicos e hospitais. Apesar de estar com um lado 
paralisado e mancando do outro, ningum conseguia fazer um diagnstico. Tinha dores to intensas que, muitas vezes, quando Eva e eu chegvamos da escola, ouvamos 
Erika gritando no quarto. Naturalmente, isso fazia todos andarem pela casa muitas vezes nas pontas dos ps, balanando a cabea, com pena da pobre Erika.
        Como no se conseguia diagnosticar nada, muita gente pensava que o que ela tinha era histeria ou simplesmente uma forma de livrar-se dos esportes e das atividades 
fsicas. Anos mais tarde, o obstetra que nos trouxera ao mundo fez grandes esforos para chegar a um diagnstico, que afinal se descobriu ser uma cavidade no osso 
ilaco. Considerando-se o caso retrospectivamente, ela tivera poliomielite combinada com osteomielite. Naquela poca, era algo difcil de ser diagnosticado. Um dos 
hospitais ortopdicos torturava-a forando-a a subir uma escada rolante em que ela tinha de dar passos longos e dolorosos. Achavam que se ela fizesse exerccios 
prolongados deixaria de "fingir" que estava doente.
        Sentia-me uma intil diante do sofrimento de minha irm. Felizmente, assim que se fez um diagnstico e Erika comeou a receber o tratamento apropriado, pde 
voltar  escola em Zurique e viver uma vida boa, produtiva e sem dores. Mas sempre achei que um mdico competente, afetuoso e compreensivo poderia ter feito muito 
mais por ela. Numa das vezes em que Erika esteve hospitalizada, escrevi-lhe uma carta prometendo com empenho tornar-me exatamente aquele tipo de mdico.
        Era evidente que o mundo estava precisando de tratamento, e logo precisaria ainda mais. Em 1939, a mquina de guerra nazista estava comeando a desencadear 
sua fora destrutiva. O senhor Wegmann, nosso professor, que era oficial do exrcito suo, preparou-nos para um provvel incio da guerra. Em casa, meu pai recebia 
muitos homens de negcios alemes que contavam o que Hitler estava fazendo e diziam que os judeus estavam sendo recolhidos na Polnia e supostamente sendo mortos 
em campos de concentrao, embora ningum soubesse com certeza o que estava acontecendo com eles. Mas todas aquelas conversas sobre a guerra deixavam-nos amedrontados 
e apreensivos.
        Numa manh de setembro, meu pai, aquela pessoa to cuidadosa com seus gastos, entrou em casa com um rdio, um luxo em nossa pequena cidade. De repente, porm, 
tornara-se uma necessidade. Todas as noites, aps o jantar, s sete e meia, reunamo-nos em torno da grande caixa de madeira e escutvamos as notcias sobre a marcha 
da Alemanha nazista atravs da Polnia. Eu torcia pelos valentes poloneses, que arriscavam a vida para defender sua terra natal, e chorei quando ouvi descries 
das mortes de mulheres e crianas de Varsvia nas linhas de frente. Enchi-me de clera quando soube que os nazistas estavam matando os judeus. Se eu fosse um homem, 
teria partido para o combate.
        Mas eu era uma menina, no um homem. Sendo assim, prometi a Deus que, quando tivesse idade bastante, viajaria para a Polnia e ajudaria aquelas almas corajosas 
a derrotarem seus opressores. "Logo que puder", sussurrei, "logo que puder, irei para a Polnia para ajudar."
        Enquanto isso no acontecia, eu odiava os nazistas. Odiei-os mais ainda quando soldados suos confirmaram os rumores sobre os campos de concentrao para 
judeus. Meu prprio pai e meu irmo viram soldados nazistas instalados ao longo do Reno metralharem um rio humano de refugiados judeus que tentavam atravessar em 
busca de um lugar seguro. Poucos escaparam com vida para o lado suo. Alguns foram capturados e enviados para campos de concentrao. Muitos flutuaram, mortos, 
rio abaixo. As atrocidades eram grandes e numerosas demais para ficarem ocultas. Todas as pessoas que eu conhecia estavam revoltadas.
        Cada transmisso de notcias sobre a guerra soava para mim como um desafio moral. "No, nunca nos renderemos", eu gritava, ouvindo Winston Churchill. "Nunca!"
         medida que a guerra se desenrolava com toda a sua violncia, aprendamos o significado do sacrifcio. Numerosos refugiados cruzavam a todo momento as fronteiras 
suas. A comida teve de ser racionada. Nossa me ensinou-nos a guardar ovos de modo que durassem por um ou dois anos. Nossos gramados foram transformados em hortas 
e plantaes de batatas. Nosso poro ficou to cheio de comida enlatada que mais parecia um supermercado moderno.
        Sentia orgulho em saber que podia sobreviver com comida cultivada em casa, que podia fazer meu prprio po, preparar frutas e legumes em conserva e passar 
sem os confortos antigos. Era apenas uma pequena contribuio para o esforo de guerra, mas ser auto-suficiente deu-me um novo tipo de confiana, e mais tarde isto 
iria ser til.
        Diante da situao dos pases vizinhos, tnhamos muito o que agradecer. Pessoalmente, nossas vidas haviam sofrido relativamente poucas alteraes. Aos dezesseis 
anos de idade, minhas irms estavam prestes a serem crismadas, um importante acontecimento para uma criana sua. Estudavam com o pastor Zimmermann, um renomado 
pastor protestante, em Zurique. Minha famlia conhecia-o j fazia muito tempo e havia afeto e respeito mtuo entre eles. Quando a data da crisma estava prxima, 
ele revelou a meus pais que sonhara crismar as trigmeas Kbler, uma forma sutil de perguntar: "E Elisabeth?"
        Eu no tinha nenhuma inteno de ligar-me  religio, mas o pastor pediu-me para lhe dizer quais eram as minhas crticas  Igreja. Enumerei-as uma por uma, 
desde o pastor R.  minha crena de que nenhum Deus, e principalmente a idia que eu fazia de Deus, podia caber entre quatro paredes ou ser definido por leis ou 
convenes criadas pelo homem. "Por que, ento", perguntei, num tom de voz interessado, "eu faria parte de tal Igreja?"
        Em vez de tentar fazer-me mudar de opinio, o pastor Zimmermann defendeu Deus e a f argumentando que o que importava era a maneira como as pessoas viviam, 
e no sua forma de culto.
        - A cada dia, voc deve procurar fazer as escolhas mais elevadas que Deus lhe oferece - disse ele. -  o que verdadeiramente determina se uma pessoa vive 
prxima a Deus.
        Eu concordei e, assim, alguns dias depois de nossa conversa, o sonho do pastor Zimmermann transformou-se em realidade. As trigmeas Kbler ficaram de p 
 sua frente num tablado lindamente enfeitado dentro de sua igreja simples, enquanto ele recitava um versculo da Epstola de So Paulo aos Corntios: "E doravante 
permaneam na f, na esperana e no amor, as trs virtudes; mas a maior de todas  o amor." Ento, o pastor Zimmermann voltou-se para ns, levantou a mo acima de 
nossas cabeas e pronunciou uma s palavra para cada uma, como se aquela palavra nos personificasse.
        Eva era a f. Erika era a esperana. E eu era o amor.
        Numa poca em que o amor parecia escasso no mundo inteiro, aceitei aquilo como um presente, uma honra e, acima de tudo, como uma responsabilidade.
        
        
        
        
        
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO 6
       
    Meu prprio jaleco branco
    
Quando terminei a escola secundria na primavera de 1942, tornara-me uma jovem sria e madura. Minha cabea vivia cheia de pensamentos profundos. Meu futuro, no 
que dependesse de mim, era a medicina. Meu desejo de ser mdica era mais forte do que nunca. Eu sentia literalmente o chamado da carreira. O que poderia ser melhor 
do que curar os doentes, dar esperana aos desesperados e aliviar as dores dos que sofrem?
        Mas meu pai ainda era quem mandava e a noite em que parou para pensar no futuro de suas trs filhas no foi muito diferente daquela noite tumultuada na cozinha 
de nossa casa. Mandou Eva para uma escola de moas e Erika para um liceu em Zurique. Quanto a mim, meu pai mais uma vez determinou que eu seria secretria/guarda-livros 
na empresa em que trabalhava. Demonstrou no conhecer-me explicando que maravilhosa oportunidade estava me oferecendo. "As portas esto abertas para voc", disse.
        No tentei disfarar meu desapontamento e deixei claro que nunca aceitaria uma sentena de priso perptua como aquela. Eu tinha uma inteligncia criativa 
e reflexiva e uma natureza inquieta. Morreria se tivesse de ficar sentada diante de uma escrivaninha o dia inteiro.
        Meu pai zangou-se logo. No estava interessado em discutir a questo, muito menos com uma criana. O que uma criana sabia da vida?
        - Se minha proposta no serve para voc, pode ir embora e trabalhar como criada - disse, ofendido.
        Um silncio tenso tomou conta da sala de jantar. No queria brigar com meu pai, mas cada fibra de meu corpo recusava-se a aceitar o futuro que ele escolhera 
para mim. Pensei na opo que ele me dava.  claro que no queria trabalhar como criada, mas queria eu mesma tomar decises acerca de meu futuro.
        - Vou trabalhar como criada - disse, e um momento depois meu pai entrou em seu escritrio batendo a porta.
        No dia seguinte, minha me viu um anncio no jornal. A viva de um abastado professor em Romilly, uma vila s margens do lago Genebra, procurava algum para 
cuidar de sua casa, de seus trs filhos, animais de estimao e jardim. Era uma senhora de lngua francesa. Consegui o emprego e segui para l uma semana depois. 
Minhas irms ficaram to perturbadas que no quiseram ver-me sair. Na estao de trem, lutei para carregar uma velha mala de couro quase do meu prprio tamanho. 
Antes de sair de casa, minha me tinha me dado um chapu de abas largas para usar com meu conjunto de l e pedira-me para pensar melhor no que estava fazendo. Apesar 
de j estar sentindo falta de casa antecipadamente, era teimosa demais para mudar de idia. J tomara minha deciso.
        Arrependi-me dela assim que saltei do trem e cumprimentei minha nova patroa, madame Perret, e seus trs filhos. Eu falara em Schweizerdeutsch (alemo suo). 
Ela imediatamente se ofendeu.
        - Falaremos somente francs - disse. - A partir deste instante. Madame Perret era uma mulher grande, pesada e com um gnio difcil. Tinha sido governanta 
na casa do professor e casara-se com ele depois da morte de sua mulher. Ento, ele morrera. Ela havia herdado tudo o que era dele, exceto seu temperamento agradvel.
        Foi o meu azar. Eu trabalhava das seis da manh at a meia-noite todos os dias, com uma folga de meio dia duas vezes por ms, nos fins-de-semana. Comeava 
encerando o cho e limpando a prataria na parte da manh e depois fazia compras, cozinhava, servia as refeies e ficava trabalhando pela noite afora.  meia-noite, 
madame Perret geralmente queria uma xcara de ch. Finalmente, permitia que eu fosse para meu pequeno quarto. Na maioria das vezes, eu adormecia antes que minha 
cabea encostasse no travesseiro.
        Mas, se no ouvisse a enceradeira funcionando na sala de estar s seis e meia, ela socava a minha porta. "Est na hora de comear!"
        Nas minhas cartas para casa, nunca admitia que estava faminta e infeliz, em especial quando o tempo comeou a esfriar e as festas de fim de ano ficarem prximas. 
Perto do Natal, j tinha saudades desesperadas de casa. Fiquei triste, lembrando as alegres canes de Natal e toda a minha famlia cantando em torno do piano. Rememorei 
os presentes que minhas irms e eu confeccionvamos umas para as outras. Madame, entretanto, s me fez trabalhar com mais afinco ainda. Ela recebia constantemente 
e acabou proibindo-me de ver sua rvore-de-natal.
        - S para a famlia - disse desdenhosamente, num tom de voz imitado por seus filhos, que no eram muito mais moos do que eu.
        Cheguei ao fundo do poo na noite em que ela ofereceu um jantar para os antigos colegas de universidade de seu marido. De acordo com suas ordens, servi aspargos 
como entrada e corri  sala de jantar para tirar os pratos, assim que ela tocou a campainha para avisar que os convidados haviam terminado. Quando entrei na sala 
de jantar, porm, vi que ainda havia aspargos nos pratos de todos. Portanto, fiz meia-volta e sa. Madame Perret tocou novamente a campainha. A mesma cena se repetiu. 
E em seguida uma terceira vez. Teria sido cmico se eu no achasse que estava perdendo o juzo.
        Afinal, ela entrou como um furaco na cozinha. Como eu podia ser to idiota?
        - Volte l e tire aqueles pratos - disse, fumegando de raiva. - Pessoas finas s comem as pontas dos aspargos. O resto fica no prato!
        Podia ser que sim; depois de tirar os pratos, porm, devorei o que restara dos aspargos. Estavam to deliciosos quanto eu imaginava. Quando estava engolindo 
o ltimo pedao, um dos convidados de madame Perret apareceu, um professor, que me perguntou que diabos estava fazendo ali.
        Contei-lhe que estava morrendo de fome e no tinha praticamente dinheiro algum.
        - Tenho de me esforar para ficar aqui um ano inteiro porque preciso ter idade suficiente para ir trabalhar num laboratrio - disse, com lgrimas jorrando 
de meus olhos cansados. - Quero fazer um perodo de treinamento como tcnica de laboratrio para poder ir para a faculdade de medicina.
        O professor escutou-me com simpatia. Depois, entregou-me seu carto e prometeu ajudar-me a encontrar um emprego num bom laboratrio. Tambm se ofereceu para 
hospedar-me temporariamente em sua casa de Lausanne, dizendo que falaria a respeito com sua mulher assim que voltasse. Em troca, eu tinha de prometer sair daquele 
lugar horroroso.
        Antes do Natal, tive meio dia de folga. Fui a Lausanne e bati  porta do professor. Sua mulher atendeu e informou-me com tristeza que seu marido falecera 
alguns dias antes. Conversamos por longo tempo. Ela disse que ele chegara a procurar um emprego num laboratrio para mim, mas no sabia onde. Sa de l ainda mais 
deprimida.
        De volta  casa de madame Perret, trabalhei mais do que nunca. Nas vsperas do Natal, ela encheu a casa de hspedes. Eu ficava o tempo todo ocupada cozinhando, 
organizando, limpando e lavando roupa. Numa noite, supliquei-lhe que me deixasse dar uma olhada na rvore-de-natal. S por cinco minutos. Eu precisava recarregar-me 
espiritualmente.
        - No, ainda no  Natal - disse, aborrecida. E repetiu sua repreenso anterior: - Alm do mais, a rvore  apenas para a famlia. No para empregados.
        Naquele momento, decidi ir embora. Uma pessoa que se recusava a partilhar sua rvore-de-natal com algum no merecia meu trabalho nem meus cuidados.
        Depois de pedir emprestada uma mala de vime a uma moa que conheci em Vevey, planejei minha fuga. Quando a enceradeira deixou de zumbir como de costume na 
manh de Natal, madame Perret entrou em meu quarto e ordenou-me que comeasse a trabalhar. Em vez de obedecer, informei-lhe com todo o atrevimento que deixara de 
encerar chos em carter permanente. E, ento, peguei minhas coisas, joguei tudo num tren e corri para pegar o primeiro trem que sasse da cidade. Passei a noite 
em Genebra com uma amiga, que me brindou com um banho de espuma, ch, sanduches e doces e emprestou-me dinheiro para o resto da viagem para casa, em Meilen.
        Cheguei em casa um dia depois do Natal. Enfiei meu corpo magricelo pelo depsito de leite e fui direto para a cozinha. Sabia que minha famlia estaria nas 
montanhas para sua tradicional estadia do feriado, de modo que tive uma agradvel surpresa quando ouvi um rudo no andar de cima e encontrei minha irm Erika, que, 
por causa de sua perna problemtica, no os acompanhara. Ela ficou igualmente surpresa e feliz ao descobrir que o barulho que ouvira no andar de baixo fora provocado 
por mim. Passamos toda a noite sentadas na cama dela contando o que acontecera com cada uma de ns naquele intervalo de tempo.
        Contei as mesmas histrias no dia seguinte para meus pais, que ficaram zangados por eu ter passado fome e ter sido explorada. Surpreenderam-se por eu no 
ter vindo antes para casa. Minha explicao no agradou a meu pai, mas, tendo em vista o que eu havia passado, ele reprimiu sua irritao e deixou-me desfrutar de 
uma cama confortvel e de refeies nutritivas.
        Quando minhas irms voltaram para a escola, defrontei-me com o mesmo velho problema de meu futuro. Uma vez mais, meu pai ofereceu-me um emprego em sua empresa. 
Dessa vez, todavia, ele acrescentou uma outra opo, que revelava um bocado de crescimento pessoal de sua parte. Disse que se eu no quisesse trabalhar com ele, 
poderia encontrar um trabalho que me agradasse, um trabalho que me fizesse feliz. Aquela foi a melhor notcia de minha vida de jovem, e rezei para conseguir encontrar 
alguma coisa.
        Alguns dias mais tarde, minha me soube da inaugurao de um novo instituto de pesquisas bioqumicas. O laboratrio estava situado em Feldmeiler, a alguns 
quilmetros de Meilen, e parecia perfeito. Marquei uma entrevista com o proprietrio do laboratrio e arrumei-me toda para o encontro, fazendo fora para parecer 
mais velha e com aspecto profissional. O doutor Hans Braun, porm, um jovem e ambicioso cientista, nem prestou ateno a isso. Parecia freneticamente ocupado e disse 
que precisava de pessoas espertas para comearem a trabalhar imediatamente.
        - Pode comear logo? - perguntou.
        - Sim - respondi.
        Tinha sido contratada como estagiria.
        - S h uma exigncia - disse. - Traga seu prprio jaleco branco.
        Era a nica coisa que eu no tinha. Perdi a animao. Temia perder a oportunidade e acho que isso ficou claramente visvel.
        - Se no tiver, terei prazer em fornecer-lhe um - disse o doutor Braun.
        Fiquei em xtase ento, e mais feliz ainda quando cheguei para trabalhar na segunda-feira s oito da manh e vi trs maravilhosos jalecos brancos de laboratrio 
com meu nome bordado pendurados na porta de minha sala. No poderia haver criatura mais feliz em todo o planeta.
        Metade do laboratrio do doutor Braun era destinado  fabricao de cremes, cosmticos e loes, e o lado em que eu trabalhava era uma grande estufa projetada 
para pesquisas sobre o efeito de materiais cancergenos em plantas. A teoria do doutor Braun era de que os agentes causadores de cncer podiam ser testados com preciso 
em plantas e de forma bem pouco  dispendiosa, em vez de em animais. Seu entusiasmo fazia suas idias parecerem mais do que plausveis. Depois de algum tempo, notei 
que s vezes ele chegava ao laboratrio deprimido e ctico a respeito de tudo e de todos, passando o dia inteiro trancado em sua sala. Mais tarde, percebi que ele 
era manaco-depressivo. Contudo, suas oscilaes de humor nunca prejudicaram minhas tarefas, que incluam injetar substncias nutritivas em algumas plantas, carcingenos 
em outras e, em seguida, manter um rigoroso registro escrito de observaes sobre o crescimento de cada uma: se era normal, anormal, excessivo ou apenas insignificante.
        No s estava empolgada com a importncia do trabalho, que tinha a possibilidade de salvar vidas, como recebi aulas de qumica e cincias de um simptico 
laboratorista que satisfazia minha infinita sede de aprender. Depois de alguns meses, comecei a ir a Zurique duas vezes por semana para aulas de qumica, fsica 
e matemtica e tornar-me a melhor aluna de uma turma de trinta colegas homens, tirando apenas notas A. A segunda mdia de melhores notas tambm era de uma moa. 
Aps nove meses de felicidade total, porm, meu sonho converteu-se em pesadelo quando o doutor Braun, que gastara milhes para instalar o laboratrio, faliu.
        Ningum sabia de nada at chegarmos para trabalhar numa manh de agosto e encontrarmos tudo fechado. O destino do doutor Braun era to obscuro quanto o lugar 
onde poderia estar naquele momento. Talvez estivesse hospitalizado em funo de uma de suas crises ou teria ido parar na cadeia. Ningum podia saber quando o veramos 
outra vez, e a resposta foi nunca mais. Enquanto isso, os policiais que estavam do lado de fora informaram-nos que estvamos dispensados, mas generosamente |    
deram-nos tempo para pr em ordem o laboratrio e recolher dados e material importantes. Depois de alguns de ns sairmos juntos para tomar um triste ch de despedida, 
entrei pela porta de casa recm-desempregada e profundamente abatida por mais um sonho ter sido destrudo.
        Como resultado de minha m sorte, encontrei a chave para a minha futura carreira. Quando acordei na manh seguinte, bastou imaginar-me trabalhando na empresa 
de meu pai para que deixasse de ter pena de mim mesma e comeasse a achar um emprego. Meu pai deu-me trs semanas para procurar um novo emprego. Se at l eu no 
encontrasse nada, teria de ser sua guarda-livros, um destino que no podia conceber depois do prazer de trabalhar num laboratrio de pesquisas. Sem demora, peguei 
o catlogo de telefones de Zurique e escrevi com uma intensidade febril para todos os institutos de pesquisas, hospitais e clnicas que encontrei. Alm de anexar 
minhas notas, cartas de recomendao e uma fotografia, solicitava uma resposta rpida.
        Era o fim do vero, uma poca no muito apropriada para procurar emprego. Corria para a caixa do correio todos os dias. E cada dia parecia um ano. As primeiras 
respostas no foram muito favorveis. Nem as que chegaram no decorrer da segunda semana. Todas admiravam meu entusiasmo, meu amor pelo trabalho deles e minhas notas, 
mas no tinham mais vagas para estagirios. Recomendavam-me tentar novamente no ano seguinte; teriam prazer em considerar a minha oferta de trabalho. Mas a j seria 
tarde demais.
        Por quase uma semana, esperei todos os dias pela chegada do correio sem ter sorte. Perto do fim da semana, porm, o carteiro entregou a carta que eu pedira 
a Deus. O departamento de dermatologia do Hospital Canton, de Zurique, tinha acabado de perder um de seus estagirios e precisava preencher rpido a vaga. Fui para 
l sem perda de tempo. Mdicos e enfermeiras andavam apressadamente pelos corredores. Aspirei o odor caracterstico de todos os hospitais como se fosse o primeiro 
sopro de ar que eu respirasse na vida e senti-me de fato em casa.
        O laboratrio do departamento de dermatologia estava localizado no poro do hospital. Era dirigido pelo doutor Karl Zehnder, cuja sala sem janelas ficava 
entalada num canto. Dava para ver que o doutor Karl Zehnder trabalhava muito. Sua mesa estava coberta de papis e o prprio laboratrio fervilhava de movimento. 
Depois de uma boa entrevista, o doutor Zehnder contratou-me. Mal podia esperar para contar a meu pai. Tambm fiquei satisfeita em poder dizer ao doutor Zehnder que, 
quando comeasse a trabalhar na segunda-feira de manh, traria meu prprio jaleco branco.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
      CAPTULO 7
      
    Minha promessa
    
Todos os dias, quando entrava no hospital, respirava o que para mim era o mais sagrado e santo, o mais maravilhoso odor de todo o mundo e depois descia depressa 
para meu laboratrio sem janelas. Naqueles tempos estranhos e caticos da guerra, quando necessidades bsicas como alimentos e mdicos eram escassas, eu sabia que 
no ficaria para sempre presa no poro, e estava certa.
        Depois de vrias semanas de trabalho, o doutor Zehnder perguntou se eu estaria interessada em recolher amostras de sangue de pacientes vivos. Os pacientes 
de quem eu iria recolher as amostras de sangue eram prostitutas com sintomas de doenas venreas em seus estgios finais. Naquela poca, antes da penicilina, os 
doentes de DV eram tratados como os pacientes de AIDS na dcada de 1980: temidos, abandonados, desprezados e isolados. Mais tarde, o doutor Zehnder admitiu que esperava 
que eu me negasse. Em vez disso, fui direto para a lgubre enfermaria.
        Acho que  isto que diferencia aqueles que tm vocao para a profisso da cura e os que a encaram apenas como um trabalho que rende dinheiro.
        As pacientes estavam todas muito mal. Seus corpos estavam to infectados com doenas que a maioria delas nem mesmo conseguia sentar-se numa cadeira ou deitar-se 
em suas camas. Ficavam deitadas em macas de lona penduradas.  primeira vista, eram criaturas patticas e sofredoras. Mas eram seres humanos e, quando falei com 
elas, descobri que a maioria era de pessoas extremamente calorosas, simpticas e afetuosas que tinham sido rejeitadas por suas famlias e pela sociedade. No tinham 
nada de seu, o que me fez querer ajudar ainda mais.
        Depois de tirar o sangue delas, sentei em suas camas e conversamos por horas a fio sobre suas vidas, as coisas que tinham visto e pelas quais tinham passado 
e acerca da existncia de modo geral. Vi que tinham necessidades emocionais to prementes e terrveis quanto as exigncias de seus corpos. Ansiavam por amizade, 
ternura e compreenso, que eu podia oferecer, e, em troca, abriram meu corao tanto quanto abriram meus olhos.
        Em 6 de julho de 1944, as tropas aliadas desembarcaram na Normandia. O Dia D mudou a guerra e em breve sentimos os efeitos da invaso macia. Os refugiados 
inundaram a Sua. Vinham em ondas. Por dias seguidos. Centenas de pessoas de cada vez. Vinham andando, mancando, arrastando-se ou sendo carregados. Alguns vinham 
at da Frana. Havia homens idosos feridos. A maioria era de mulheres e crianas. Praticamente da noite para o dia, nosso hospital ficou superlotado dessas vtimas 
de guerra traumatizadas.
        Eram levados diretamente para a ala de dermatologia, onde os colocvamos em nossa ampla sala de banhos para desinfeco e remoo de piolhos. Sem mesmo solicitar 
a permisso de meu chefe, eu trabalhava primeiro com as crianas. Ensaboava-as com sabo lquido para tratar a sarna e esfregava-as com uma escova macia. Depois 
de vestidas com roupas limpas e lavadas, dava-lhes o que achava ser aquilo de que mais precisavam: abraos e palavras reconfortantes. "Tudo vai ficar bem", eu dizia.
        Isso ocorreu sem interrupo por trs semanas. Entreguei-me inteiramente ao trabalho que era necessrio fazer e dei pouca ateno ao meu prprio bem-estar, 
quando outros estavam em to pior situao. As refeies tornaram-se algo para ser pensado depois. Dormir? Quem tinha tempo para isso? Arrastava-me para casa depois 
de meia-noite e recomeava no dia seguinte ao amanhecer. Estava to concentrada nas crianas doentes e amedrontadas, estava to distante da rotina diria normal, 
to envolvida com responsabilidades diferentes daquelas para que fora inicialmente contratada no laboratrio, que soube com vrios dias de atraso o que teria sido 
uma grande novidade: meu chefe, o doutor Zehnder, tinha sado e sido substitudo pelo doutor Abraham Weitz.
        Eu estava ocupada demais tentando conseguir comida suficiente para os refugiados famintos. Com a colaborao de um outro estagirio do laboratrio, um brincalho 
chamado Baldwin, que gostava de uma boa traquinagem, armamos um plano para encher aqueles estmagos que roncavam. Por vrias noites seguidas, encomendamos centenas 
de refeies completas da cozinha do hospital, que colocvamos em grandes carrinhos e distribuamos para as crianas. Com o que sobrava, alimentvamos os adultos. 
Posteriormente, quando adultos e crianas estavam limpos, vestidos e alimentados, eram levados para diversas escolas da cidade e entregues aos cuidados da Cruz Vermelha.
        Sabia que mais cedo ou mais tarde o nosso desvio de preciosos estoques de comida seria descoberto e resultaria em punio disciplinar. S esperava que esta 
no fosse severa demais quando o doutor Weitz chamou-me em sua sala, mas achava que iria ser mesmo despedida. Alm da questo da comida, eu tinha esquecido completamente 
de pedir dispensa de meu trabalho no laboratrio, sem falar que esquecera tambm de dar as boas-vindas ao meu novo chefe. Contudo, em vez de acabar comigo, o doutor 
Weitz cumprimentou-me. Admitiu que tinha observado a distncia, enquanto eu trabalhava com as crianas, e nunca vira uma pessoa to envolvida e feliz com o que estava 
fazendo.
        - Voc precisa cuidar de crianas refugiadas - disse. -  o seu destino.
        O alvio e o estmulo que senti no poderiam ser maiores. O doutor Weitz continuou a falar, dizendo que havia necessidade urgente de atendimento mdico em 
seu pas natal, a Polnia, devastada pela guerra. As histrias arrepiantes que me contou, em especial sobre crianas judias em campos de concentrao, comoveram-me 
at as lgrimas. A prpria famlia dele sofrera enormemente.
        - Precisam de gente como voc l - disse. - Se puder, se acabar seu estgio, prometa-me que ir para a Polnia para ajudar-me com o trabalho que  preciso 
fazer l.
        Grata por no ter sido despedida e sentindo-me motivada, eu prometi.
        Mas o problema no acabou a. Naquela noite, o administrador-chefe do hospital chamou Baldwin e eu  sua sala. Caindo de cansao, s sentia desprezo por 
aquele burocrata gordo, mal acostumado e presunoso, sentado diante de uma grande mesa de mogno, fumando um charuto e olhando para ns dois, uns meros tcnicos de 
laboratrio, como se fssemos ladres. Exigiu que reembolsssemos o custo das centenas de refeies que tnhamos servido s crianas refugiadas ou trouxssemos a 
quantia equivalente em cartes de racionamento.
        - Se no o fizerem, estaro sujeitos a demisso imediata.
        Fiquei arrasada, pois no queria perder meu trabalho nem meu estgio, mas no tinha como conseguir aquela quantia. Quando voltei para o poro, o doutor Weitz 
percebeu que alguma coisa ia muito mal e fez-me contar o que acontecera. Sacudiu a cabea desgostoso e disse para eu no me preocupar com a burocracia. No dia seguinte, 
entrou em contato com os lderes da comunidade judaica de Zurique e, com o auxlio deles, o hospital foi rapidamente ressarcido das refeies no autorizadas com 
uma grande quantidade de cartes de racionamento. No apenas mantive meu emprego como reafirmei a promessa que fizera a meu benfeitor, a de ajudar a reconstruir 
a Polnia assim que a guerra terminasse. S no podia imaginar que isso aconteceria to cedo.
        Inmeras vezes, em anos anteriores, eu ajudara meu pai a preparar nosso chal nas montanhas, em Amden, para visitantes, mas foi diferente quando ele me pediu 
para acompanh-lo at l no princpio de janeiro de 1945. Para comear, eu precisava de um fim-de-semana de descanso. Alm disso, ele prometera que os visitantes 
seriam pessoas de quem eu realmente gostaria, e estava certo. Nossos hspedes eram do Servio Voluntrio Internacional para a Paz, o IVSP (International Voluntary 
Service for Peace). Eram vinte ao todo e, para mim, formavam um grupo na sua maioria de jovens e resolutos idealistas de todas as partes da Europa. Depois de muita 
cantoria alegre, muitas risadas e de comermos vorazmente, escutei enlevada diversos membros da organizao explicarem como o IVSP - fundado depois da Primeira Guerra 
Mundial e mais tarde um modelo para o Corpo de Voluntrios da Paz dos EUA (American Peace Corps) - se dedicava a fomentar a paz e a cooperao mundiais.
        Paz mundial? Cooperao entre os povos e as naes? Socorrer as pessoas da Europa destruda e devastada quando a guerra acabasse? Eles estavam descrevendo 
meus maiores sonhos. Suas histrias de trabalho humanitrio eram msica para a minha alma. Quando descobri que havia uma filial em Zurique, no consegui pensar em 
nada mais a no ser inscrever-me. E, quando tudo indicava que a guerra poderia terminar em breve, preenchi um formulrio de inscrio e imaginei-me deixando a ilha 
de paz que era a Sua para ajudar os sobreviventes dos pases europeus devastados pela guerra.
        E por falar em msica da alma, nunca houve sinfonia to magnfica quanto o som que encheu os ares no dia 7 de maio de 1945, o dia em que terminou a guerra 
na Europa. Eu estava no hospital. De modo espontneo, mas como se tivessem combinado o momento exato, os sinos das igrejas de toda a Sua comearam a tocar. Todos 
ao mesmo tempo, fazendo o ar ressoar com a harmonia jubilosa da vitria e, acima de tudo, da paz. Ajudada por vrios funcionrios do hospital, levei um paciente 
aps o outro, at os que estavam fracos demais para sair da cama, at o topo do edifcio para que pudessem participar das celebraes.
        Foi um momento que todos, velhos, fracos e recm-nascidos, viveram juntos. Alguns ficaram de p, outros se sentaram. Outros estavam em cadeiras de rodas 
ou deitados em macas, alguns sofrendo dores intensas. Estvamos ligados pelo amor e pela esperana, a essncia da existncia humana e, na minha opinio, foi muito 
bonito e inesquecvel. Infelizmente, era somente uma iluso.
        Quem pensasse que a vida tinha voltado ao normal precisava apenas entrar para o IVSP. Alguns dias depois das celebraes, recebi um chamado do lder de um 
contingente de cerca de cinqenta voluntrios que estava planejando cruzar as fronteiras recm-abertas da Frana e reconstruir Ecurcey, uma pequena e outrora pitoresca 
cidade do interior que fora quase totalmente destruda pelos nazistas. Queria que eu me juntasse a eles. No podia conceber sorte maior do que largar tudo e partir, 
embora houvesse tanto a fazer antes que isso fosse possvel. Havia meu trabalho,  claro. O doutor Weitz, porm, meu maior incentivador, concedeu-me na mesma hora 
uma licena para que me ausentasse do hospital. Em casa, a histria era outra. Quando levantei a questo na hora do jantar, mais como um fait accompli do que um 
pedido de permisso, meu pai explodiu dizendo que eu era maluca. E tambm ingnua quanto aos riscos que correria. Minha me, refletindo sobre o futuro mais previsvel 
de minhas irms, deve ter sem dvida desejado que eu fosse mais parecida com elas, em vez de enfrentar perigos como minas, escassez de comida e doenas. Mas nenhum 
deles entendeu a minha obsesso. Meu destino, qualquer que fosse, estava ainda muitos quilmetros adiante, em algum ponto do deserto do sofrimento humano.
        Se eu quisesse algum dia chegar l, se era para algum dia eu ser capaz de ajudar, precisava tomar aquele rumo.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
      CAPTULO 8
      
    A sensao de ter um objetivo
    
Eu parecia uma adolescente indo para um acampamento quando cruzei a fronteira e entrei em Ecurcey numa velha bicicleta que algum havia encontrado. Era a primeira 
vez que eu saa das fronteiras seguras da Sua, e fiz ali um curso intensivo sobre a tragdia que a guerra deixara para trs. Ecurcey, um pequeno povoado antigo 
e encantador antes da guerra, tinha sido completamente destrudo. As casas tinham sido arrasadas. Alguns homens moos, todos feridos, perambulavam sem rumo. O restante 
da populao era na maior parte de velhos, mulheres, um punhado de crianas e um grupo de prisioneiros nazistas presos no poro da escola.
        Nossa chegada foi um grande acontecimento. A cidade inteira veio ao nosso encontro, inclusive o prefeito.
        - Nunca senti tanta gratido por alguma coisa - disse ele.
        Eu sentia o mesmo: grata pela oportunidade de servir a pessoas que necessitavam de ajuda. Todo o grupo de membros do IVSP tinia de vitalidade. Tudo o que 
eu aprendera at ento, das habilidades bsicas de sobrevivncia que meu pai me ensinara durante nossas excurses pelas montanhas at os rudimentos de medicina que 
conseguira absorver no hospital, foi posto em prtica mais do que depressa. O trabalho era tremendamente gratificante. Cada dia vinha com a sensao de se ter um 
objetivo.                                                                                     
        Nossas condies de vida eram as piores possveis, e no entanto eu nunca fui to feliz. Dormamos em beliches quebrados ou ao relento, no cho, sob as estrelas. 
Se chovia, ficvamos molhados. Nossas ferramentas eram ps, picaretas e machados. Uma mulher mais velha do nosso grupo, com cerca de sessenta anos, contava histrias 
de trabalhos semelhantes que realizara depois da Primeira Guerra Mundial, em 1918. Fez com que nos sentssemos com sorte por ter to pouco a fazer.
        Sendo a mais jovem de duas voluntrias, fui destacada para a cozinha. Como nenhuma das construes ainda de p tinha cozinhas viveis, criamos uma ao ar 
livre usando um imenso fogo a lenha. Comida era um problema srio. Nossas prprias raes desapareceram quase de imediato por terem sido repartidas por toda a cidade, 
e no havia nada na mercearia local, que estava miraculosamente intacta, a no ser poeira nas prateleiras. Muitas vezes, voluntrios levavam o dia inteiro andando 
de um lado ao outro nos bosques e fazendas das redondezas para conseguir comida, que chegava apenas para uma refeio. Certa vez, um nico peixe seco serviu de alimento 
para cinqenta pessoas.
        Mas compensvamos nossa falta de carne, batatas e manteiga com uma animada camaradagem. A noite, contvamos histrias e cantvamos canes que, descobri 
depois, eram muito apreciadas pelos prisioneiros alemes que estavam no poro da escola. Quando chegamos a Ecurcey, notamos que os prisioneiros eram levados todas 
as manhs para os campos dos arredores e obrigados a andar por toda a rea. Ao entardecer, voltavam menos um ou dois prisioneiros. Ao investigarmos, descobrimos 
que estavam sendo usados como caa-minas. Os que no voltavam haviam morrido com a exploso das minas que eles mesmos tinham instalado. Revoltados, acabamos com 
aquela prtica, ameaando andar  frente deles e fizemos com que trabalhassem nas construes.
        Com exceo dos aldees locais, ningum detestava mais os nazistas do que eu. Se os crimes cometidos por eles naquele mesmo povoado no tivessem sido suficientes 
para provocar a minha inimizade, teria bastado lembrar o doutor Weitz no laboratrio imaginando se ainda haveria algum membro de sua famlia vivo na Polnia. Contudo, 
no decorrer das minhas primeiras semanas ali, vi aqueles soldados como seres humanos, derrotados, desmoralizados, famintos, com medo de voarem em pedaos junto com 
suas prprias minas, e meu corao se abriu.
        Em vez de nazistas, via-os simplesmente como pessoas que passavam necessidades.  noite, enfiava furtivamente pequenas barras de sabo ou papel e lpis pelas 
persianas de ferro do poro. Eles, por sua vez, extravasavam seus sentimentos em cartas comoventes que eu escondia em minha roupa e que despachei para suas famlias 
quando voltei para casa. Anos mais tarde, as famlias desses soldados, muitos dos quais voltaram vivos, enviaram-me os agradecimentos mais calorosos. De fato, o 
ms que passei em Ecurcey, apesar das provaes e de sentir meu corao partido quando tive que voltar, no poderia ter sido mais positivo. Reconstrumos muitas 
casas, sim. Mas a melhor coisa que demos quelas pessoas foi amor e esperana.
        Em troca, elas s fizeram confirmar a nossa convico de que aquele trabalho era importante. Quando sa, o prefeito despediu-se de mim, e um velho enfermo, 
que fizera amizade com todos os voluntrios e que me chamava de "a cozinheirinha", entregou-me um bilhete, que dizia: "Voc prestou um grande servio humanitrio. 
Escrevo para voc porque no tenho famlia. Quero dizer-lhe que, vivendo ou morrendo aqui, seja como for, jamais esqueceremos voc. Por favor, aceite meus profundos 
e sinceros agradecimentos e o amor de um ser humano para outro."
        Em minha busca para saber quem eu era e o que desejava fazer na vida, aquele era o tipo de mensagem que ajudava. A maldade da Alemanha nazista foi punida 
na guerra e continuou a ser levada a julgamento depois. Mas dei-me conta de que as feridas causadas pela guerra, o sofrimento e a dor residuais que eram sentidos 
virtualmente em todas as casas, como acontece hoje em dia com os problemas relacionados  violncia, aos desabrigados e  AIDS, no poderiam ser curados a menos 
que pessoas como eu, como os membros do IVSP, reconhecessem o imperativo moral de pr mos  obra e ajudar.
        Transformada por aquela experincia, achei a prosperidade de minha casa na Sua difcil de aceitar. Havia tanta fartura! Tinha dificuldade em reconciliar 
as lojas cheias de comida e os negcios prsperos com a dor e a runa do resto da Europa. Porm, eu tambm era necessria em minha casa. Por ter machucado o quadril, 
meu pai estava vendendo nossa casa e mudando-se para um apartamento mais prximo de sua empresa em Zurique. Com minhas irms estudando na Europa e meu irmo na ndia, 
empacotei nossos pertences e ocupei-me de outras coisas.
        Emocionalmente, estava muito dividida. Com tristeza, percebi que aquele era o adeus  minha juventude, queles deliciosos passeios pelos vinhedos e s danas 
em cima de minha pedra do sol particular em meio  campina. Ao mesmo tempo, eu crescera bastante e estava pronta para passar para o estgio seguinte. Em suma, voltei 
a trabalhar no laboratrio do hospital. Em junho, passei em meu exame de final de estgio e, no ms seguinte, consegui um emprego espetacular para fazer pesquisas 
no departamento de oftalmologia da Universidade de Zurique. Meu chefe, porm, o professor Marc Amsler, um mdico famoso que me deu responsabilidades excepcionais, 
inclusive a de auxili-lo em cirurgias, sabia que eu no tinha inteno de ficar ali mais de um ano. No s estava me preparando para a faculdade de medicina como 
ainda tinha o IVSP em minha cabea.
        E havia a promessa feita ao doutor Weitz. Sim, a Polnia ainda era parte de meus planos.
        - Ah, a andorinha quer voar outra vez - disse o doutor Amsler quando pedi demisso do hospital depois que o IVSP me convocou para uma nova tarefa. Ele no 
ficou zangado ou desapontado. J previa a minha partida desde o ano anterior, pois tnhamos conversado muitas vezes a respeito de meu compromisso com o IVSP. Havia, 
pude perceber, um brilho de inveja em seus olhos. Nos meus, a promessa de uma nova aventura.
        Era primavera. O IVSP prometera ajudar  populao de uma cidade poluda por minas de carvo nos limites de Mons, na Blgica, a construir uma rea de lazer 
no alto de uma montanha, acima do ar sujo e poeirento. O responsvel pelo escritrio do IVSP de Zurique explicou-me que eu teria direito a passagens de trem at 
aonde fossem os trilhos, o que era apenas parte do caminho, mas assegurei-lhes que poderia viajar de carona sozinha por todo o percurso. Depois de passar por Paris, 
onde nunca estivera, arrastei minha pesada mochila por diversos albergues para jovens at chegar  soturna cidade das minas de carvo.
        Era um lugar deprimente. O ar estava sempre carregado de uma poeira que cobria tudo com uma repugnante camada acinzentada de sujeira. Devido aos horrveis 
efeitos colaterais dessa poluio, com o aparecimento de doenas como a antracose e outras mais, a mdia da expectativa de vida ali era de pouco mais de quarenta 
anos, o que no representava grande futuro para as lindas crianas da cidade. Nossa tarefa, e o sonho da cidade, era limpar o entulho das minas de carvo do alto 
de uma das montanhas e construir uma rea de lazer no ar limpo acima daquela poluio imunda. Usando ps e picaretas, trabalhamos at nossos msculos doerem de exausto, 
mas as pessoas da cidade ofereceram-nos tantos doces e tortas que engordei mais de trs quilos nas poucas semanas que passei l.
        Fiz tambm contatos importantes. Numa noite, quando cantvamos canes folclricas depois de um farto jantar, conheci o nico americano de nosso grupo. Era 
um homem jovem ainda, um dos muitos voluntrios quacres. Ele compreendeu meu ingls ruim e disse que seu nome era David Richie. "De Nova Jersey." Mas j ouvira falar 
dele. Richie era um dos voluntrios mais famosos, verdadeiramente dedicado. Seu trabalho j o levara dos guetos da Filadlfia aos piores locais do ps-guerra europeu 
e, mais recentemente, contou,  Polnia. Acrescentou que em breve voltaria para l.
        Deus meu! Mais uma prova de que nada acontece por acaso. A Polnia.
        Aproveitando a oportunidade, contei a Richie sobre a promessa que fizera a meu antigo chefe e insisti para que me levasse tambm. Ele concordou que havia 
de fato uma grave necessidade de auxlio, mas deu a entender que chegar l seria bastante difcil. Transporte seguro e confivel era praticamente inexistente. No 
havia dinheiro para pagar boas passagens.
        Embora eu fosse menor fisicamente do que muitos outros voluntrios, parecesse ter muito menos idade do que os meus vinte anos e tivesse apenas uns quinze 
dlares no bolso, nem prestei ateno a esses obstculos. "Vou de carona!", exclamei. Impressionado, achando graa e consciente do valor do entusiasmo, Richie disse 
que tentaria fazer com que eu chegasse  Polnia.
        No prometia nada. Mas iria tentar.
        Quase no fez diferena. Na noite anterior  minha partida para uma nova misso na Sucia, queimei-me seriamente quando preparava o jantar. Uma velha panela 
de ferro partiu-se ao meio, derramando leo fervendo em minha perna. Causou queimaduras de terceiro grau e bolhas. Toda enfaixada, parti assim mesmo, levando roupa 
de baixo limpa e um cobertor de l para o caso de precisar dormir ao ar livre. Ao chegar perto de Hamburgo, porm, minha perna latejava e doa muito. Quando removi 
as ataduras, vi que estava gravemente inflamada. Temendo ficar presa na Alemanha, que era o ltimo lugar onde gostaria de estar, encontrei um mdico, que tratou 
de minha queimadura com uma pomada, o que me permitiu seguir adiante.
        Ainda assim, com grande dificuldade. Entretanto, graas a um voluntrio da Cruz Vermelha que viu meu sofrimento no trem, entrei cambaleando num hospital 
totalmente equipado da Dinamarca. Vrios dias de tratamento e uma comida deliciosa fizeram-me voltar  minha velha forma no acampamento do IVSP em Estocolmo. Ser 
cabea-dura, porm, tambm tem suas desvantagens. J saudvel e refeita, fiquei frustrada com a tarefa que me esperava: treinar um grupo de homens jovens alemes 
para a organizao de seus prprios acampamentos do IVSP. No havia desafio no trabalho. Alm disso, muitos deles causavam-me repulsa porque admitiam ter apoiado 
os nazistas de Hitler, em vez de fazer oposio moral a eles como eu argumentava que deveriam ter feito. Desconfio que eram oportunistas que queriam apenas desfrutar 
de trs boas refeies por dia na Sucia.
        Mas tambm havia ali algumas pessoas fantsticas. Um exilado poltico russo de noventa e trs anos apaixonou-se por mim. Consolou-me no decorrer de semanas 
da saudade de casa e tivemos conversas interessantes a respeito da Rssia e da Polnia. Quando meu vigsimo primeiro aniversrio chegou e passou, ele alegrou meus 
dias pegando o dirio que eu trazia comigo e escrevendo: "Seus olhos brilhantes lembram-me a luz do sol. Minha esperana  que nos encontremos novamente e tenhamos 
a oportunidade de saudar o sol juntos. Au revoir." Sempre que eu precisava de um pouco de incentivo, abria o dirio naquela pgina.
        Depois de deixar sua marca, aquele homem bondoso desapareceu. A vida era dominada por tantos acasos! Vi que bastava estarmos abertos para seus significados. 
Ser que alguma coisa tinha acontecido a ele? Ou sabia que nosso tempo tinha acabado? Assim que ele se foi, recebi um telegrama de meu amigo do IVSP, David Richie. 
Abri-o ansiosa e senti em mim a eletricidade da expectativa que toma conta de ns quando todas as nossas esperanas e sonhos de repente se confirmam. "Peterli, venha 
para Polnia assim que possvel", Richie escrevia. "Voc muito necessria." Finalmente, pensei. Nenhum presente de aniversrio poderia ser melhor.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
      
      CAPTULO 9
      
    Terra abenoada
    
Chegar a Varsvia foi difcil. Cortei feno e tirei leite das vacas de um fazendeiro para ganhar dinheiro suficiente para a viagem. Antes de sair de Estocolmo, consegui 
um visto e gastei quase todo o meu dinheiro suado numa passagem de navio. E que navio. O casco estava enferrujado e seus rangidos ininterruptos no faziam crer que 
fssemos chegar em Gdansk. Minha passagem no dava direito a luxos.  noite, enrosquei-me sobre um banco duro de madeira e sonhei com confortos tais como um cobertor 
bem quente e um travesseiro fofo, ignorando os quatro sujeitos que perambulavam pelo convs, perto de mim, na escurido. Estava cansada demais para me preocupar.
        Como constatei depois, a preocupao teria sido desnecessria. Pela manh, os quatro homens, cada um de um diferente pas oriental, apresentaram-se como 
sendo mdicos. Estavam voltando de uma conferncia mdica. Para minha sorte, sugeriram que me juntasse a eles durante o resto da viagem at Varsvia. A estao ferroviria 
estava apinhada e a plataforma externa, onde o trem realmente parava, pior ainda. Havia no s uma multido com grandes quantidades de bagagem como pessoas carregando 
galinhas e gansos, outras puxando cabras e carneiros, igual a uma catica arca de No.
        Se estivesse sozinha, nunca teria conseguido entrar no trem. Quando ele chegou, formou-se um completo pandemnio com o alarido e o tumulto das pessoas tentando 
embarcar. Um dos mdicos, um hngaro alto e desengonado, pulou para o teto com a agilidade de um macaco e puxou todos ns para cima. Agarrei-me  chamin no momento 
em que soou o apito e o trem comeou a deslizar pelos trilhos. No era uma acomodao das mais seguras, especialmente ao passar dentro de tneis, quando era preciso 
deitar de barriga para baixo, ou quando a fumaa jorrava da chamin em grossas nuvens negras que mal nos deixavam respirar. Depois que o trem ficou um pouco mais 
vazio, entretanto, conseguimos uma cabina s para ns. Quando comeamos a dividir uns com os outros nossa comida e a trocar histrias sobre as nossas vidas, a viagem 
nos pareceu decididamente luxuosa.
        Ir para Varsvia foi uma aventura, mas de fato chegar l foi inacreditvel. Para meus companheiros de viagem, era onde mudavam de trem. Eu, por outro lado, 
sabia que estava numa encruzilhada, o lugar onde alguma coisa estava destinada a acontecer. Parecendo um bando de limpadores de chamins, com os nossos rostos sujos 
de fuligem, ali nos despedimos. Depois, corri os olhos pela multido  procura de meu amigo americano quacre. No havia conseguido avisar a ningum quando chegaria. 
Como eles saberiam quando vir buscar-me? Para onde eu tinha de ir?
        Mas destino tem muito a ver com f; ambos supem uma crena fervorosa na vontade de Deus. Olhei para um lado, depois para outro. Nenhum sinal de qualquer 
pessoa conhecida. Ento, do meio da multido, vi uma grande bandeira sua elevar-se acima do mar de gente. E em seguida vi Richie, que fora para a estao seguindo 
um pressentimento, e vrios outros. Era um milagre estarem l. Ah, que abrao dei nele! Seus amigos ofereceram-me ch e sopa quentes. Nunca provei comida to gostosa 
como aquela. Um sono prolongado numa boa cama tambm teria sido muito bem recebido. Mas subimos na traseira da carroceria plana de um caminho e passamos o resto 
do dia viajando por estradas de terra esburacadas e bombardeadas at chegar ao acampamento do IVSP em Lucima, uma frtil regio agrcola.
        A viagem por aquela estrada revelou como ramos desesperadamente necessrios. Varsvia ainda estava em runas quase dois anos depois do fim da guerra. Quarteires 
inteiros tinham se transformado em montanhas de entulho. A populao da cidade, de umas trezentas mil pessoas, escondia-se em moradias subterrneas, e o nico sinal 
de vida humana que se via era  noite, quando fios de fumaa subiam das fogueiras usadas para cozinhar e aquecer. Os pequenos vilarejos dos arredores, destrudos 
pelos alemes e russos, estavam no mesmo estado deplorvel. Famlias inteiras viviam debaixo da terra, como animais de toca. No campo, as rvores tinham sido arrancadas 
e o solo estava cheio de crateras feitas por bombas.
        Ao entrar em Lucima, dei graas por estar entre os que eram fortes o bastante para ajudar os muitos moradores do vilarejo, que careciam terrivelmente de 
atendimento mdico. Era possvel algum se sentir de outro modo? No, j que no existia nenhum hospital ou instalao mdica no lugar e estvamos rodeados de pessoas 
lutando contra diversos estgios de tifo e tuberculose. Os de mais sorte eram os que somente tinham de agentar velhas feridas infectadas causadas por estilhaos 
de bombas ou granadas. As crianas morriam de doenas comuns, como o sarampo. Apesar de tantos problemas, todavia, eram pessoas maravilhosas, cheias de generosidade.
        No era preciso ser especialista em socorro a estados de calamidade para ver que a nica maneira de lidar com uma situao como aquela era simplesmente arregaar 
as mangas e comear a trabalhar. O acampamento do IVSP consistia em trs enormes barracas. Eu dormia quase todas as noites ao ar livre, sob o cobertor militar de 
l que me aquecia em minhas viagens atravs da Europa. Mais uma vez, fui designada para a cozinha. Nada me fazia mais feliz do que transformar bananas desidratadas, 
aves recebidas de presente, farinha, ovos e outros ingredientes disponveis no momento em refeies saborosas que agradassem queles voluntrios vindos de todas 
as partes do globo, unidos por um mesmo objetivo.
        Quando cheguei, vrias casas tinham sido reconstrudas e uma escola nova em folha estava sendo levantada. Fiz trabalho de pedreiro, assentei tijolos e ajudei 
a fazer o telhado. Meu polons era capenga, mas todas as manhs, enquanto lavava minha roupa no rio, recebia aulas particulares de uma moa aflitivamente magra que 
estava morrendo de leucemia. Por ter visto tanta dor e desgraa durante o pouco tempo que vivera, no considerava sua prpria situao a pior desventura do mundo. 
Longe disso. De certa forma, aceitava seu destino sem nenhuma amargura ou acusao. Para ela, era simplesmente a sua vida, ao menos em parte. Nem  preciso dizer 
que ela me ensinou mais do que apenas uma nova lngua.
        A cada dia, tnhamos que ser pau-para-toda-obra. Uma vez, ajudei a acalmar o prefeito e um grupo de pessoas importantes da cidade que se enfureceram porque 
havamos construdo sem licena oficial - ou seja, sem pagamentos para eles. Numa outra ocasio, ajudei um fazendeiro a fazer o parto de uma vaca. Nossas tarefas 
podiam ser qualquer coisa, e geralmente eram. Certa tarde, eu estava assentando tijolos no prdio da escola quando um homem caiu e cortou a perna, um talho enorme. 
Em circunstncias normais, o ferimento precisaria ser suturado. Mas no havia ningum por perto a no ser eu e uma mulher polonesa, que rapidamente pegou uni punhado 
de terra e cobriu a ferida com ela. Pulei de cima do telhado gritando:
        - No, isso vai causar uma infeco!
        Apesar de minha preocupao, os curandeiros locais eram uma espcie de xams. Praticavam uma medicina popular antiga e natural, como a homeopatia, e sabiam 
exatamente o que estavam fazendo.
        Mesmo assim, ficaram impressionados quando amarrei a perna do homem para parar o sangramento. Daquele momento em diante, passaram a referir-se a mim como 
"Pani Doutora". Tentei explicar que no era mdica, mas ningum conseguia explicar-lhes a diferena, nem eu.
        At ento, as encarregadas de todo o atendimento mdico eram duas mulheres, Hanka e Danka. Eram mulheres decididas, realmente fabulosas, ou Feldschers, como 
eram chamadas. Ambas tinham trabalhado com a Resistncia polonesa na frente de batalha russa, onde tinham recebido treinamento em medicina bsica de campanha e visto 
todos os tipos possveis de ferimentos, leses, doenas e horrores.
        Ao saberem como eu tinha feito a perna do homem parar de sangrar, perguntaram-me sobre minha formao e experincia. Assim que ouviram a palavra "hospital", 
acolheram-me como uma delas. Da em diante, traziam os doentes e feridos at a construo para que eu os examinasse. E isto significava pacientes com tudo o que 
se pode imaginar, desde simples infeces at membros para amputar. Fiz o que pude para ajudar, embora muitas vezes no pudesse fazer mais do que dar-lhes um bom 
abrao.
        Ento, um dia, recebi deles um presente incrvel: uma pequena casa rstica de toras de madeira com dois cmodos separados. Tinham limpado a casa, instalado 
ali um fogo  lenha e prateleiras e decidido que funcionaria como um posto mdico, onde ns trs poderamos tratar dos pacientes. Meu trabalho de construo acabou 
naquele instante.
        No sei se o que fiz a partir da foi praticar medicina ou rezar por milagres. Todas as manhs, de vinte e cinco a trinta pessoas enfileiravam-se do lado 
de fora do posto mdico. Alguns caminhavam por vrios dias para chegar at l. Muitas vezes, esperavam horas at serem atendidos. Se estivesse chovendo, podiam esperar 
na sala que normalmente reservvamos para guardar os gansos, galinhas, cabras e outras contribuies que as pessoas faziam ao nosso acampamento, em vez de dinheiro. 
A outra sala era usada para a cirurgia. Tnhamos poucos instrumentos, pequena quantidade de remdios e nenhum anestsico. O mais extraordinrio, porm,  que realizamos 
muitas operaes cirrgicas complicadas e corajosas. Amputamos membros, extramos estilhaos de granada, fizemos partos. Certa vez, uma mulher grvida apareceu com 
um tumor do tamanho de uma laranja grande. Ns o abrimos, drenamos o pus e fizemos o possvel para remover o carnico. Depois que a tranqilizamos sobre o estado 
de seu beb, ela levantou-se e foi andando para casa.
        A capacidade de recuperao daquela gente era infinita. Sua coragem e vontade de viver impressionavam-me fortemente. Em certas ocasies, achava que sua determinao 
era a nica responsvel por seu alto ndice de recuperao. A essncia da existncia delas, como constatei, e a de todas as criaturas vivas, era simplesmente seguir 
adiante, sobreviver. Para algum que um dia escrevera que seu objetivo era entender o significado da vida, aquela era uma lio das mais profundas sobre a vida e 
o viver.
        Meu maior teste aconteceu numa noite em que Hanka e Danka foram chamadas s pressas para emergncias em vilarejos prximos e deixaram o posto mdico por 
minha conta. Era o meu primeiro vo solo. E em pssima hora. Nosso suprimento de material hospitalar e remdios esgotara-se completamente. Se acontecesse alguma 
coisa, eu teria de improvisar. Felizmente, o dia foi calmo e a noite estava sedutoramente agradvel. Enrolei-me em meu cobertor e pensei: "Ah, nada vai me acordar 
hoje. Para variar, vou ter uma boa noite de sono."
        Mas foi como se o pensamento no me desse sorte. Por volta de meia-noite, ouvi algo que se parecia com o choramingar de uma criana pequena. Recusei-me a 
abrir os olhos. Talvez estivesse sonhando. E se no estivesse, e da? Os pacientes costumavam chegar a qualquer hora todas as noites. Se atendesse a todos, nunca 
dormiria um minuto sequer. Portanto, fingi que estava dormindo.
        E ento ouvi a mesma coisa. O choro de uma criana pequena. Um choro de desamparo e splica que no parava. E o som de uma respirao pesada, e o esforo 
agoniado por um pouco de ar.
        Com raiva de mim mesma por ter um corao to mole, abri os olhos. Como eu j temia, no estava sonhando. Iluminada pela luz suave da lua cheia, uma camponesa 
estava sentada ao meu lado. Embrulhara-se toda num cobertor. O choro certamente no vinha dela. Quando me sentei, ouvi o choro novamente e vi que ela embalava uma 
criana pequena nos braos. Observei a criana da melhor maneira que pude, enquanto meus olhos iam se habituando a ficar abertos; era um menino, eu notei - e ento 
voltei a olhar para a me. Ela desculpou-se por ter me acordado quela hora, mas disse que viera a p de seu povoado depois de ouvir falar das doutoras que faziam 
as pessoas doentes ficarem boas outra vez.
        Pus a mo na testa do menino, que tinha uns trs anos de idade. Estava queimando de febre. Reparei tambm que tinha bolhas  volta dos lbios e na lngua 
e que parecia desidratado. Sintomas certos de uma coisa: tifo. Infelizmente, eu no podia fazer quase nada. No temos remdios, expliquei, desculpando-me com um 
encolher de ombros. Nada mesmo. E acrescentei que a nica coisa que podia fazer era lev-la ao posto mdico para uma xcara de ch quente. Agradecida, ela seguiu-me 
at o posto mdico. Enquanto o filho respirava com esforo, ela olhava para mim como s uma me  capaz. Quieta. Triste. Implorando com uns olhos escuros que revelavam 
um sofrimento profundo e inexprimvel.
        - Voc tem de salv-lo - disse, com simplicidade. Balancei a cabea eximindo-me.
        - No, voc tem de salvar esta ltima criana - insistiu. Ento, sem um tremor de emoo na voz, ela explicou: - Ele  o ltimo de meus treze filhos. Os 
outros todos morreram em Maidanek, no campo de concentrao. Mas este nasceu l. No quero que ele morra agora que o pior j passou.
        Mesmo que nosso pequeno posto mdico fosse um hospital totalmente equipado, era pouco provvel que a criana pudesse ser salva. Mas eu detestaria parecer 
uma tola que nada podia fazer. Aquela mulher j passara por crueldades demais. Se ela ainda era capaz de encontrar alguma esperana a que se agarrar depois de toda 
a sua famlia ter sido assassinada nas cmaras de gs, eu tambm podia buscar foras dentro de mim mesma para agir. Pensei por alguns momentos e fiz um plano. Havia 
um hospital em Lublin, a cidade mais prxima. Apesar de no haver meio de transporte no acampamento, podamos ir a p. Se a criana sobrevivesse ao trajeto, talvez 
consegussemos fazer o hospital receb-la.
        O plano era arriscado. Mas a mulher, sabendo que era a nica opo, tomou o filho nos braos e disse:
        - Est bem, vamos embora.
        Pela noite afora, fomos conversando e nos revezando para carregar a criana, que no estava indo bem. Ao nascer do sol, alcanamos os altos portes de ferro 
do lado de fora do enorme hospital revestido de pedra. Os portes estavam trancados e um guarda disse que o hospital no estava mais recebendo novos pacientes. Ser 
que tnhamos andado todos aqueles quilmetros para nada? Olhei para o menino inerte, j semi-inconsciente. No, todo aquele esforo no seria em vo. No momento 
em que avistei algum que parecia ser um mdico, consegui que nos desse ateno. Meio a contragosto, ele examinou o menino, tomou seu pulso e concluiu que no havia 
esperana.
        - J temos pessoas em camas colocadas dentro dos banheiros - disse o mdico. - J que no pode ser salvo, no h por que lev-lo para o hospital.
        De repente, transformei-me numa mulher zangada, agressiva.
        - Eu sou sua - disse, postando-me diante dele. - Vim do meu pas a p e pegando carona para ajudar o povo polons. Estou cuidando sozinha de cinqenta 
pacientes por dia num pequeno posto mdico em Lucima. Acabei de vir andando de l at aqui para salvar essa criana. Se voc se recusar a aceit-lo nesse hospital, 
vou voltar para a Sua e contar para todo o mundo que os poloneses tm o corao mais duro que j vi, que no tm amor ou compaixo e que um mdico polons no 
teve piedade do nico filho sobrevivente de uma mulher que j perdeu outros doze num campo de concentrao.
        Funcionou. Com relutncia, o mdico pegou a criana e concordou em lev-la, mas com uma condio: a me da criana e eu tnhamos de deix-la ali por trs 
semanas.
        - Em trs semanas, ou ele ter morrido ou j poder ser levado para casa - disse o mdico. Sem a menor hesitao, a me abenoou o filho e confiou-o ao mdico. 
Fizera o que era humanamente possvel e pude constatar seu alvio quando o mdico e a criana desapareceram dentro do hospital. Como no havia mais nada para resolvermos, 
perguntei:
        - O que quer fazer agora?
        - Vou voltar e ajudar voc - respondeu.
        Ela tornou-se a melhor assistente que j tive. Fervia minhas trs preciosas seringas numa pequena tigela depois de cada uso, lavava as ataduras e pendurava-as 
ao sol para secar, varria o cho do posto mdico, ajudava a preparar as refeies e at segurava os pacientes quando eu tinha de fazer alguma inciso durante as 
cirurgias. Tradutora, enfermeira e cozinheira, no havia nada que ela no fizesse.
        Ento, numa manh, quando acordei, ela tinha ido embora. Tudo indicava que sara de mansinho durante a noite, sem deixar nenhum bilhete ou despedir-se. Fiquei 
ao mesmo tempo confusa e desapontada. Muitos dias mais tarde, porm, achei a explicao. Tinham se passado exatamente trs semanas desde que havamos levado o menino 
dela para o hospital em Lublin. Eu estivera envolvida demais com o trabalho dirio para calcular o tempo, mas ela havia contado cada dia.
        Uma semana depois, acordei depois de uma noite sob as estrelas e encontrei um leno no cho ao lado de minha cabea. Estava cheio de terra. Imaginando que 
se tratasse de uma daquelas supersties que aconteciam ali o tempo todo, coloquei-o numa das prateleiras do posto mdico e no pensei mais nele at que uma das 
mulheres do lugar insistiu para que eu desatasse os ns e visse o que havia dentro. E na realidade, junto com a terra, encontrei um bilhete para a "Pani Doutora", 
que dizia: "Da senhora W., cujo ltimo dos treze filhos voc salvou, um pouco de terra abenoada da Polnia."
        Ah, ento o menino estava vivo.
        Um grande sorriso abriu-se em meu rosto.
        Depois, li de novo a ltima linha do bilhete. Dizia: "terra abenoada da Polnia". Bastou para que eu compreendesse o que se passara. A mulher levantara-se 
no meio da noite, andara mais de trinta quilmetros at o hospital e apanhara ali seu filho vivo. De Lublin, levara-o de volta para o povoado onde vivia, pegara 
um punhado de terra do seu cho e encontrara um padre para abeno-la. Como os nazistas haviam exterminado a maioria dos padres, decerto tivera de procurar muito 
por um. Mas agora a terra era especial, abenoada por Deus. Depois de deixar seu presente comigo, voltara para casa. Quando me dei conta de tudo, aquele embrulhinho 
de terra tornou-se o presente mais valioso que jamais recebi.
        E, apesar de ento eu no ter como adivinhar, logo iria tambm salvar minha vida.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
       CAPTULO 10
       
    Borboletas
    
Falo muito a respeito de amor e compaixo, mas as maiores lies que recebi sobre o significado da vida esto relacionadas  visita que fiz a um local onde foram 
cometidas as piores atrocidades contra a humanidade.
        Antes de deixar a Polnia, participei de uma cerimnia para oficializar a abertura da escola que havamos construdo. Depois, viajei para Maidanek, uma das 
tristemente famosas usinas da morte de Hitler. Algo me impelia a ir ver um desses campos de concentrao com meus prprios olhos. Era como se ver fosse me ajudar 
a compreender.
        Conhecia a reputao de Maidanek. Tinha sido l que minha amiga polonesa perdera o marido e doze de seus treze filhos. Sim, conhecia muito bem.
        Ir de fato at l, porm, era outra histria.
        Os portes daquele lugar imenso tinham sido estraalhados, mas os vestgios de seu sinistro passado, em que mais de trezentas mil pessoas haviam morrido, 
ainda existiam e estavam expostos de modo arrepiante. Vi arame farpado, torres de guarda e as muitas fileiras de alojamentos onde homens, mulheres, crianas e famlias 
inteiras haviam passado seus ltimos dias e horas. Havia tambm diversos vages de trem. Olhei em seu interior. O que vi era horripilante. Alguns continham cabelo 
de mulher que seria despachado de volta para a Alemanha para ser transformado em roupas de inverno. Em outros havia copos, jias, anis de casamento e as bugigangas 
que as pessoas carregavam por razes sentimentais. O ltimo carro que vi estava cheio de roupas de criana, sapatos de beb e brinquedos.
        Desci os degraus do vago e estremeci. Como a vida podia ser to cruel?
        O mau cheiro das cmaras de gs e da morte, aquele cheiro inconfundvel, pairando no ar, fornecia a resposta.
        Mas por qu?
        Como era possvel?
        Era inconcebvel para mim. Perambulei pelo espao aberto do campo de concentrao sem poder acreditar. Perguntava: "Como homens e mulheres podem fazer coisas 
assim uns aos outros?" Depois, cheguei aos alojamentos. "Como  que as pessoas, especialmente mes e crianas, sobreviviam no decorrer daquelas semanas e dias antes 
da morte que tinham como certa?" Dentro, vi inmeros beliches de madeira nua com cinco camas superpostas cada um, amontoados uns contra os outros. Nas paredes, as 
pessoas tinham gravado nomes, iniciais e desenhos. Que ferramentas teriam usado? Pedras? Suas unhas? Olhei mais de perto e notei que uma figura se repetia muitas 
e muitas vezes.
        Borboletas.
        Estavam em toda parte, para onde quer que eu olhasse. Algumas eram toscas. Outras eram bem detalhadas. No conseguia imaginar borboletas em um lugar como 
Maidanek, Buchenwald ou Dachau. Entretanto, os alojamentos estavam cheios delas. Em cada um deles onde entrei. Borboletas. "Por qu?", eu me perguntava. "Por que 
borboletas?"
        Decerto tinham algum significado especial. Qual? Nos vinte e cinco anos seguintes, eu me fiz esta pergunta e detestei a mim mesma por no conseguir achar 
uma resposta.
        Sa dos alojamentos sentindo o impacto que Maidanek estava exercendo sobre mim. Todavia, no tinha conscincia de que estar ali j era uma preparao para 
o trabalho de minha vida. Naquela ocasio, queria apenas compreender como seres humanos podem agir de forma to criminosa com relao a outros seres humanos, em 
especial a crianas inocentes.
        Ento, o silncio que envolvia meus pensamentos foi interrompido. Ouvi a voz clara, calma e segura de uma jovem respondendo  minha pergunta. O nome dela 
era Golda.
        - Voc tambm seria capaz de fazer isso - disse.
        Eu queria discordar, mas estava to aturdida que nenhum som saiu de minha boca.
        - Se tivesse sido criada na Alemanha nazista - acrescentou. Tive vontade de gritar que no concordava com o que ela dizia. "Eu, no!" Eu era uma pacifista. 
Tinha sido criada por uma boa famlia num pas pacfico. Nunca conhecera a pobreza, a fome ou a discriminao. Golda leu isso tudo em meus olhos e, com convico, 
replicou:
        - Ficaria surpresa se soubesse o que  capaz de fazer. Se tivesse crescido na Alemanha nazista, poderia ter facilmente se transformado no tipo de pessoa 
que faria isso. Existe um Hitler em cada um de ns.
        Eu queria entender, no discutir, e, como era hora de almoar, convidei Golda para dividir comigo o meu sanduche. Ela era notavelmente bonita e parecia 
ter mais ou menos a mesma idade que eu. Em outra situao, poderamos muito bem ter sido amigas, colegas de colgio ou de trabalho. Enquanto comamos, Golda contou-me 
o que a fizera ter aquela opinio.
        Nascida na Alemanha, Golda tinha doze anos quando a Gestapo invadiu o escritrio de seu pai e levou-o embora. Ela nunca mais o viu. Ento, logo depois do 
incio da guerra, ela e o resto de sua famlia, inclusive seus avs, foram deportados para Maidanek. Um dia, os guardas puseram-nos na fila em que tinham visto tantos 
entrarem e dali nunca voltarem. Ela e sua famlia estavam entre os que foram despidos e forados a entrar na cmara de gs. Gritaram, imploraram, choraram, rezaram. 
Mas no tiveram chance nem esperana de dignidade ou de sobrevivncia ao serem atirados para uma morte pior do que a de animais num matadouro.
        Golda, aquela linda moa, tinha sido a ltima pessoa que eles haviam tentado empurrar para dentro antes de fechar a porta e ligar o gs. Por um milagre, 
por uma interveno divina qualquer, a porta no se fechava com ela l dentro. A cmara estava cheia demais. Para preencher a cota diria de extermnio, eles simplesmente 
a puxaram e a lanaram para fora, ao ar livre. Como j estava na lista da morte, julgaram que estivesse morta e nunca mais chamaram seu nome. Graas a um lapso incomum, 
a vida dela foi poupada.
        Teve pouco tempo para se lamentar. Quase toda a sua energia se voltou para a tarefa bsica de continuar viva. Lutou para sobreviver ao inverno polons, conseguir 
comida suficiente e evitar doenas como o tifo ou at mesmo uma simples gripe, que a impediriam de cavar valas ou trabalhar com a p removendo neve e a mandariam 
de volta para a cmara de gs. Para no desanimar, imaginava o campo sendo liberado. Deus a escolhera para sobreviver, raciocinava, e contar s geraes futuras 
as barbaridades que havia testemunhado.
        Foi apenas o que teve, disse, para ajud-la a atravessar o perodo mais frio do inverno. Quando se sentia sucumbir, Golda fechava os olhos e lembrava os 
gritos de suas amigas que tinham sido usadas como cobaias pelos mdicos do campo, ou violentadas pelos guardas, ou as duas coisas, e dizia a si mesma: "Preciso viver 
para contar ao mundo. Preciso viver para contar os horrores que essas pessoas cometeram." E Golda alimentava seu dio e sua determinao de se manter viva at que 
as foras aliadas chegassem.
        Ento, quando o campo foi liberado e os portes abertos, Golda ficou paralisada pela raiva e amargura que tomaram conta dela. Era inconcebvel passar o resto 
de sua preciosa vida destilando dio.
        - Como Hitler - dizia. - Se eu usasse a minha vida, que foi poupada, para plantar as sementes do dio, eu no seria muito diferente dele. Seria apenas mais 
uma vtima procurando espalhar cada vez mais dio. A nica maneira de encontrar a paz  deixar que o passado fique para trs.
         sua maneira, ela estava respondendo a todas as perguntas que tinham brotado em minha cabea durante a visita a Maidanek. At ento, eu no tivera plena 
conscincia do potencial humano para a selvageria. Mas bastava ver a carga de sapatos de bebs no vago de trem ou aspirar o cheiro ftido da morte que pairava no 
ar como um manto fantasmagrico para perceber toda a desumanidade de que o homem  capaz. Porm, como ento explicar Golda, algum que vivera a experincia de toda 
essa crueldade e preferia perdoar e amar?
        Ela prpria forneceu a explicao, dizendo:
        - Se eu puder mudar a vida de uma pessoa transformando seu dio e seu desejo de vingana em amor e comiserao, mereci sobreviver.
        Compreendi o que dizia e, ao deixar Maidanek, eu estava mudada para sempre. Senti como se minha vida estivesse comeando de novo.
        Ainda queria cursar a faculdade de medicina. Mas havia decidido que o objetivo de minha vida seria procurar garantir que as geraes futuras no produzissem 
um outro Hitler.
        Claro que, primeiro, tinha de voltar para casa.
        Voltar para a Sua era to perigoso quanto qualquer uma das outras coisas que eu havia feito nos meses anteriores. Em vez de voltar imediatamente, decidi 
ver antes um pouco da Rssia. Viajava sozinha. Sem dinheiro nem visto, guardei meu cobertor, as poucas roupas que tinha e meu embrulhinho de terra polonesa em minha 
mochila e enveredei pela estrada que ia para Bialystok. Ao cair da noite, tinha atravessado quilmetros de campos isolados sem ver nem sinal do temido exrcito russo 
-minha nica preocupao - e assim preparei-me para acampar numa colina coberta de relva. Nunca me sentira to sozinha antes, como um pontinho no planeta contemplando 
bilhes de estrelas no cu l em cima.
        Mas foi por pouco tempo. Antes que eu desdobrasse meu cobertor, fui abordada por uma mulher idosa metida num vestido de vrias cores e camadas e que parecia 
ter surgido do nada. Algo nos lenos e jias que usava me deu a impresso de ser inapropriado e estranho. Mas aquele era o campo russo, um lugar mstico e obscuro, 
cheio de segredos. Falando russo, que eu mal compreendia, ofereceu-se para ler cartas para mim, aparentemente querendo ganhar algum dinheiro. Indiferente s fantasias 
que ela sem dvida iria descrever, usei um pouco de polons, russo e mmica para dizer que eu realmente precisava era de companhia humana e um lugar seguro para 
passar a noite. Ser que ela poderia ajudar?
        Sorrindo, deu-me a nica resposta possvel: - O acampamento cigano.
        Foram quatro dias extraordinrios de cantoria, danas e companheirismo. Antes de prosseguir viagem, ensinei-lhes uma cano folclrica sua. Tocaram-na 
como despedida quando pendurei mais uma vez minha mochila nos ombros e desci a estrada que levava  Polnia. Meus olhos ficaram enevoados ao pensar como estranhos 
que se haviam encontrado no meio da noite, pessoas sem uma lngua comum alm da linguagem do amor e da msica em seus coraes, podiam partilhar tantas coisas to 
profundamente e se sentirem como irms em to pouco tempo. Deixei-os esperanosa, achando que o mundo teria conserto depois da guerra.
        Em Varsvia, os quacres arranjaram um lugar para mim num avio de combate norte-americano que levaria pessoas importantes para Berlim. Dali, eu planejava 
tomar um avio para Zurique. Telegrafei para minha famlia dizendo quando eu chegaria em casa. "A tempo para o jantar", escrevi, j animada com a perspectiva de 
um dos deliciosos jantares de minha me e de uma boa noite de sono na minha cama macia.
        No entanto, o perigo aumentou em Berlim. As tropas russas recusavam-se a permitir que pessoas sem as credenciais apropriadas sassem de seu lado da cidade 
- que mais tarde seria parte da Alemanha Oriental - para o setor a oeste ocupado pelos ingleses.  noite, as pessoas desapareciam das ruas, procurando escapar, ao 
menos temporariamente, do medo e tenso que eram to palpveis. Ajudada por estranhos, cheguei at um posto de controle na fronteira, onde fiquei por horas a fio, 
cansada, faminta e sentindo enjos. Quando ficou evidente que eu no conseguiria atravessar a fronteira sozinha, convenci um oficial ingls que estava dirigindo 
um caminho a esconder-me dentro de um caixote de madeira, que tinha cerca de meio metro de largura por um de comprimento, e fazer-me chegar clandestinamente a uma 
regio segura perto de Hildesheim.
        No decorrer das oito horas seguintes, fiquei curvada em posio fetal, concentrando-me no que ele me recomendara enfaticamente antes de fechar a tampa com 
pregos e martelo:
        - Por favor, no faa nenhum rudo. Nem uma tosse. Nem um suspiro mais alto, at que eu tire a tampa.
        Em cada parada, prendia a respirao, temendo que o menor movimento que fizesse, at mesmo com um dedinho, fosse o ltimo. Lembro da luz cegando-me quando 
ele finalmente removeu a tampa. Nunca vi uma luz to brilhante. A intensidade do alvio e gratido que senti quando vi o rosto do oficial ingls s se comparava 
s ondas de nusea e fraqueza que percorriam meu corpo depois que ele me ajudou a sair de meu esconderijo.
        Depois de recusar seu delicado convite para uma boa refeio na cantina dos oficiais, comecei a pedir carona para ir para casa.  noite, desenrolei meu cobertor 
num cemitrio e acordei na manh seguinte mais enjoada ainda do que antes. No tinha comida nem remdios comigo. Dentro de minha mochila, encontrei o saquinho de 
terra polonesa, a nica coisa, alm de meu cobertor, que no tinha sido roubada - e soube que de alguma forma eu iria conseguir sair daquela situao.
        Consegui erguer o corpo, que latejava de dores lancinantes, e caminhar com dificuldade pela estrada de cascalho. De alguma forma, resisti por vrias horas. 
Afinal, deixei-me cair numa campina nas cercanias de uma grande floresta. Sabia que estava muito doente, mas no havia nada a fazer a no ser rezar. Estava esfomeada 
e suando de febre; minha mente obscureceu-se. No meu delrio, vi uma colagem de minhas experincias recentes, como o posto mdico de Lucima, as borboletas de Maidanek 
e a jovem Golda.
        Ah, Golda, to preciosa e to forte.
        Em algum momento, abri os olhos e imaginei uma menina pequena passando numa bicicleta e comendo um sanduche. Meu estmago torcia-se de fome. Por um instante, 
considerei a possibilidade de roubar aquele sanduche arrancando-o da mo da menina. Se era realidade ou no, no sei. Mas, no momento em que me ocorreu aquele pensamento, 
ouvi as palavras de Golda: "Existe um Hitler em cada um de ns." Agora eu compreendia. S depende das circunstncias.
        Nesse caso, elas estavam a meu favor. Uma pobre velha encontrou-me dormindo quando catava gravetos para o fogo. No sei como, levou-me numa carroa para 
um hospital alemo perto de Hildesheim. Por dias a fio, vivi perodos alternados de conscincia e inconscincia. Num dos momentos de lucidez, ouvi uma conversa sobre 
uma epidemia de tifo que estava matando dezenas de mulheres. Achando que fazia parte daquele grupo condenado, pedi que me dessem lpis e papel para escrever para 
minha famlia caso nunca mais os visse.
        Entretanto, estava fraca demais para segurar o lpis. Pedi ajuda  minha companheira de quarto e  enfermeira, mas ambas se recusaram. As fanticas intolerantes 
pensavam que eu fosse polonesa. Era o mesmo tipo de preconceito que eu testemunharia quarenta anos mais tarde com relao aos pacientes de AIDS.
        - Vamos deixar a polonesa desgraada morrer - disseram, com repugnncia.
        O preconceito delas quase me matou. Mais tarde, naquela mesma noite, tive um espasmo cardaco e ningum queria ajudar "a garota polonesa". Meu pobre corpo, 
que definhara at assustadores trinta e quatro quilos, no tinha mais foras para lutar. Encolhida na cama, eu me extinguia rapidamente. Felizmente, o mdico de 
planto daquela noite levava seu juramento a srio. Antes que fosse tarde demais, deu-me uma injeo de estrofantina. Pela manh, sentia-me bem disposta, mais do 
que me sentira desde a partida de Lucima. A cor tinha voltado ao meu rosto. Sentei-me e tomei o caf da manh. Quando estava saindo, no final de seu planto, o mdico 
perguntou:
        - Como est minha menininha sua hoje?
        Sua! Assim que as enfermeiras e minha companheira de quarto souberam que eu era sua e no polonesa, a atitude delas com relao a mim mudou completamente. 
De uma hora para outra, no sabiam mais o que fazer para ajudar.
        Que fossem para o inferno. Vrias semanas mais tarde, depois do descanso e da alimentao mais do que merecidos, tive alta.
        Antes de ir embora, porm, contei s enfermeiras e  companheira de quarto preconceituosas a histria do embrulhinho de terra polonesa que guardava em minha 
mochila.
        - Esto compreendendo agora? - expliquei. - No h diferena alguma entre a me de uma criana polonesa e a me de uma criana alem!
        Dentro do trem, na viagem de volta para Zurique, tive tempo para refletir sobre o incrvel processo de educao pelo qual passara durante os ltimos oito 
meses. Estava voltando para casa indiscutivelmente mais sensata e experiente. Enquanto o trem seguia sacolejando, eu j me ouvia contando tudo  minha famlia: sobre 
as borboletas e a moa judia polonesa que me ensinara que h um Hitler em cada um de ns; sobre os ciganos russos, com quem aprendi que o amor e a fraternidade transcendem 
a lngua e a nacionalidade; sobre estranhos, como a mulher pobre que saiu para catar lenha e levou-me a tempo para o hospital, salvando minha vida.
        Logo eu estava de volta  mesa do jantar com minha me e meu pai, falando-lhes sobre todos os horrores que havia presenciado. E partilhando as muitas razes 
que tnhamos para sentir esperana.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO 11
       
    Jantar em casa
    
Ainda bem que existiam chefes como o professor Amsler. Era um brilhante cirurgio oftalmolgico, mas possua caractersticas que superavam em brilho e excelncia 
essa habilidade e que faziam dele um grande ser humano: compaixo e compreenso. Menos de um ano depois de eu ter comeado a trabalhar no Hospital Universitrio, 
ele me autorizara a sair para fazer trabalho voluntrio e, quando reapareci, recebeu-me de braos abertos e permitiu que eu reassumisse o meu antigo cargo. "Deve 
ser inverno, porque a pequena andorinha voou de volta para casa", disse ele quando cheguei.
        Meu velho laboratrio no poro parecia um paraso- Voltei  mesma rotina e s pesquisas. Em pouco tempo, porm, o professor Amsler percebeu que eu havia 
mudado e podia lidar com responsabilidades maiores. Transferiu-me para a ala das crianas, onde eu realizava exames em crianas que estavam perdendo a viso devido 
a oftalmias simpticas ou a malignidade. Minha abordagem era diferente da usada por seus pais e mdicos. Eu falava diretamente com as crianas, ouvia sobre seu medo 
de ficarem cegas e observava como respondiam com franqueza s minhas perguntas. Mais uma vez, eu estava adquirindo as habilidades que precisaria usar mais tarde.
        Adorava o trabalho que realizava em meu laboratrio subterrneo com aqueles pacientes com problemas de viso. 0 trabalho tomava muitas horas. Havia um monte 
de clculos e exames a fazer. Obrigava a mim e aos pacientes a passar longos perodos juntos no escuro, o que era perfeito para conversar. At os pacientes mais 
reservados, cautelosos e tmidos abriam-se para mim naquele ambiente de intimidade. Eu era apenas uma laboratorista de vinte e trs anos, mas aprendi i ouvir como 
um psiquiatra mais velho e experiente.
        Tudo o que eu fazia aumentava a minha vontade de ser mdica. Esperava passar no Matura, o difcil exame de admisso  universidade e, para preencher as lacunas 
de minha educao, fazia planos preliminares de freqentar cursos noturnos sobre literatura alem, francesa e inglesa, geometria, trigonometria e, o mais temido 
de todos, latim.
        Chegou porm o vero e as novidades do IVSP surgiram como uma brisa agradvel. Uma equipe de voluntrios estava construindo uma estrada de acesso a um hospital 
em Recco, Itlia. Precisavam demais de uma cozinheira. Nem tiveram de perguntar se estava interessada porque, alguns dias mais tarde, eu j estava trabalhando com 
uma picareta durante o dia e cantando em torno de uma fogueira  noite na Riviera italiana. Nada poderia ser melhor. Meu querido professor Amsler garantira que eu 
teria meu emprego na volta e meus pais tinham dado o seu consentimento. A essa altura, j estavam todos acostumados comigo.
        S havia uma condio. Antes da minha partida, meu pai proibira-me de viajar para alm da Cortina de Ferro. No era seguro, e ele temia que eu pudesse desaparecer.
        - Se cruzar a Cortina de Ferro, no  mais minha filha - disse, tentando desencorajar-me com a punio mais forte possvel.
        - Sim, senhor - respondi.
        Que bobagem, pensei. Por que se preocupar desse modo se eu estava indo passar o vero na Itlia?
        Mas ele tinha razo. Como o trabalho na estrada terminou mais cedo do que se esperava, o IVSP entrou em contato comigo fazendo um pedido urgente: levar duas 
crianas ao encontro de seus pais na Polnia. A me era sua, o novo padrasto era polons e no podiam sair do pas. Meu trabalho anterior ali fazia de mim a melhor 
candidata para aquela tarefa. Falava a lngua, conhecia o lugar e minha aparncia no despertaria suspeitas. Eu tinha acabado de percorrer, pedindo carona, todas 
as principais cidades italianas para ver suas incrveis obras de arte. Mais uma aventura antes que o vero terminasse seria timo para mim. E ainda havia a oportunidade 
de ver a Polnia outra vez. Era um presente dos cus.
        As crianas, um menino de oito anos e uma menina de seis, esperavam por mim em Zurique. Antes de ir busc-los, parei em casa para tomar um banho rpido e 
pegar outras roupas. Se minha me estivesse em casa, eu poderia ter evitado futuros problemas. Mas o apartamento estava vazio. Esquecendo a advertncia de meu pai, 
escrevi um bilhete com um rpido cumprimento e contando os meus planos.
        Na estao de trem, o chefe do escritrio do IVSP de Zurique acrescentou mais uma tarefa  minha misso de caridade. Perguntou se eu poderia verificar as 
condies de um orfanato em Praga, na Tchecoslovquia. Apesar dos riscos, concordei. E todas as preocupaes com o perigo dissiparam-se no decorrer da viagem sem 
peripcias para Varsvia, onde, apesar do regime comunista, entreguei meus protegidos e depois explorei a cidade durante a noite. Tive a agradvel surpresa de ver 
rostos sorridentes, flores nos mercados e muito mais comida do que encontrara ali dois anos antes.
        Praga, entretanto, mostrava uma imagem inteiramente diversa. Para passar pelas barreiras nos limites da cidade, precisei despir-me e ser submetida a uma 
revista desumana como se fosse uma criminosa. Os guardas repugnantes ainda roubaram meu guarda-chuva e outros objetos pessoais. Foi a primeira vez, em todas as minhas 
viagens, que fiquei assustada. Quanto  cidade, lembro-me de uma nuvem de negatividade e desconfiana pairando por todos os lugares onde fui. Lojas vazias, rostos 
fechados, nem uma flor  vista. Todo o esprito da cidade havia sido sufocado.
        O orfanato revelou-se um pesadelo. Meu corao apertou-se pelas crianas que viviam ali. Era revoltante. Sujo, sem comida suficiente e, pior que tudo, sem 
amor. No entanto, no havia nada que eu pudesse fazer a respeito. Policiais acompanhavam-me de perto e por fim disseram-me que no era bem-vinda ali.
        Embora furiosa, eu no era idiota. No podia lutar contra o poderoso exrcito tcheco e vencer. Mas tambm no iria sair dali derrotada. Antes de deixar o 
orfanato, esvaziei minha mochila e dei minhas roupas, sapatos, cobertores e tudo o mais que estava levando. No breve trajeto de volta para Zurique, refleti que gostaria 
de ter feito mais coisas em Praga, mas consolei-me com o lampejo de esperana que ainda persistia em Varsvia.
        "Jejdje Polsak nie ginewa", cantarolei baixinho. "A Polnia ainda no est perdida. No, a Polnia ainda no est perdida."
        Como todos os filhos que moram com a famlia, ficava cheia de animao sempre que voltava para casa depois de uma viagem, e aquela ltima tinha sido especial. 
 porta do apartamento, que deixava escapar o rico aroma das comidas deliciosas de minha me, ouvi uma discusso animada em meio ao barulho da loua do jantar. A 
voz mais alta, que eu no escutava h muito tempo, fez meu corao pular de alegria: era a do meu irmo. Ernst estava morando no Paquisto e na ndia fazia muitos 
anos. Nosso contato com ele era por carta e, portanto, muito superficial, o que tornava aquela visita mais do que especial. Agora, teramos bastante tempo para pr 
o assunto em dia e ser uma famlia completa como antes.
        Mas meu pensamento no passou de um desejo. Enquanto eu fazia uma pausa e curvava a cabea para tentar imaginar como Ernst estaria depois daquela longa separao, 
a porta abriu-se de chofre. Meu pai, que me vira ao olhar pela janela, estava parado na entrada, bloqueando a minha passagem. Estava zangado.
        - Quem  voc? - perguntou asperamente. - No conhecemos voc.
        Esperava que meu pai desse um sorriso e dissesse que estava brincando, mas ele bateu a porta e ento soube que ele devia ter descoberto onde eu estivera. 
No me lembrava do bilhete que tinha rabiscado apressadamente, mas percebi que estava me castigando por ter sido desobediente. Ouvi os seus passos na madeira do 
assoalho. Depois, o silncio. A conversa recomeou l dentro, apesar de menos viva do que "antes, e nem minha me nem minhas irms vieram em meu socorro. Conhecendo 
meu pai como conhecia, sabia que ele provavelmente proibira que elas fossem at a porta.
        Se aquele era o preo a pagar por fazer o que achava certo, em vez de fazer o que esperavam que eu fizesse, no tinha outra escolha alm de ser to ou mais 
obstinada que meu pai. Depois de alguns momentos de angstia, desci, por fim, a Klos-bachstrasse sem saber para onde ir, acabando no pequeno caf da estao do bonde, 
onde havia um banheiro e onde poderia comer alguma coisa. Pensei em dormir no meu laboratrio, s que no tinha roupa nenhuma comigo. Tinha dado tudo o que possua 
em Praga.
        Entrei no caf e pedi algo para comer. No tinha dvidas de que minha me estaria aborrecida com meu pai, mas incapaz de faz-lo mudar de opinio. Minhas 
irms certamente teriam ajudado, mas tinham suas prprias vidas. Erika estava casada, e Eva, noiva de Seppli Bucher, um campeo de esqui e poeta. Eu estava decididamente 
sozinha e numa bela enrascada. Mas no me arrependia. Bem a propsito, lembrei-me de um poema que ficava pendurado acima da cama de hspedes da casa de minha av, 
onde eu havia passado muitas noites quando criana. Numa traduo imperfeita, o poema dizia: Sempre que voc pensa que no consegue ir adiante, de onde menos espera 
surge uma luz no caminho.
        Essa luz to pequenina vem renovar suas foras e trazer-lhe energia para dar um passo a mais.
        Estava to cansada que adormeci sobre a mesa. De repente, acordei sobressaltada com algum chamando meu nome. Quando olhei para cima, vi minha amiga Cilly 
Hofmeyr. Ela acenou para mim do outro lado do caf e depois veio sentar-se  minha mesa. Cilly diplomara-se no Hospital Canton como uma promissora terapeuta da fala 
na mesma poca em que eu me qualificara como laboratorista. No nos tnhamos visto mais desde ento, mas Cilly continuava to expansiva e com a aparncia to agradvel 
quanto antes. Pouco depois, j me contava que estava querendo muito se mudar da casa de sua me.
        - Quero ser mais independente - disse.
        Acabei sabendo que Cilly passara semanas procurando um apartamento, mas encontrara apenas um lugar que podia pagar. Era um apartamento num sto, noventa 
e sete degraus escada acima, porque no havia elevador, mas a vista do lago de Zurique era de tirar o flego e, alm disso, tinha gua corrente e fcil acesso ao 
transporte pblico. O nico empecilho era o proprietrio s alugar o apartamento para um inquilino que concordasse em ficar tambm com o anexo de um nico cmodo 
que ficava do outro lado da entrada.
        Ela estava desapontada. Para mim, parecia perfeito.
        - Vamos ficar com ele - gritei, antes mesmo de ter comentado sobre o meu problema.
        No dia seguinte, assinamos o contrato de aluguel e fizemos nossa mudana. Meus mveis, com exceo de uma grande escrivaninha antiga de boa qualidade, vieram 
todos do Exrcito da Salvao, enquanto Cilly, uma musicista talentosa, deu um jeito de colocar um piano de um quarto de cauda l em cima. Depois, naquela mesma 
tarde, voltei a minha casa, entrei furtivamente e contei a minha me onde estava morando, falando-lhe sobre a vista que tinha de minha pequena janela. Peguei tambm 
algumas roupas e disse que ela e minhas irms fossem visitar-me.
        Apesar de minhas cortinas serem na realidade velhos lenis, meu novo lar era um ninho aconchegante. Cilly e eu recebamos visitas quase todas as noites. 
Seus amigos da orquestra de cmara da cidade forneciam a msica maravilhosa e minha coleo de nostlgicos amigos estrangeiros da universidade contribua com a conversa 
intelectual. Um turco que estudava arquitetura costumava levar seu prprio bule de caf de melai dourado e halva para a sobremesa. Minhas irms apareciam com freqncia. 
No era o lugar perfeito nem a casa de meus pais, mas no o trocaria por nada neste mundo.
        No outono de 1950, concentrei meus esforos em entrar para a escola de medicina. No ano seguinte, trabalhava durante o dia no laboratrio com o professor 
Amsler e passava as noites estudando para o Matura. As matrias variavam de trigonometria e Shakespeare a geografia e fsica. Normalmente, seriam necessrios trs 
anos de estudos para o exame, mas trabalhei no meu prprio ritmo acelerado e em apenas doze meses j estava preparada.
        Na data adequada, preenchi a inscrio, mas no tinha os 500 francos suos para pagar a taxa. Minha me no podia ajudar; teria de pedir a meu pai aquela 
quantia. Por um momento, minha situao pareceu no ter sada. Ento, minha irm Erika e Ernst, seu marido, emprestaram-me o dinheiro que tinham economizado para 
uma nova cozinha. Eram 500 francos.
        Fiz o Matura no incio de setembro de 1951. Foram cinco dias seguidos de exames exaustivos, incluindo provas discursivas. Para a aprovao, a mdia dos resultados 
de cada candidato tinha de estar acima de um determinado nmero. Passei tinindo em fsica, matemtica, biologia, zoologia e botnica. O latim foi uma catstrofe. 
Eu tinha ido to bem nas outras matrias que o velho professor que aplicou a prova ficou desolado quando teve de me dar uma nota abaixo da necessria para a aprovao. 
Felizmente, eu levara isso em conta ao planejar uma estratgia para a mdia de meus pontos. No tinha nenhuma dvida de que passaria.
        A notificao oficial de minha aprovao chegou pelo correio na vspera do aniversrio de meu pai. Apesar de ainda no nos falarmos, mandei-lhe um presente 
de aniversrio especial, um calendrio no qual escrevi, nas datas correspondentes, "Feliz Aniversrio" e "Passei no Matura". Deixei o presente em sua casa naquela 
tarde e fui esper-lo na sada do trabalho na manh seguinte para ver qual seria sua reao. Sabia que ficaria orgulhoso.
        Meu palpite estava certo. Embora de incio meu pai no parecesse muito satisfeito ao ver-me, sua careta transformou-se num sorriso. No era exatamente um 
pedido de desculpas, mas foi o primeiro sinal de afeto que recebi dele em mais de um ano. Foi bom. E o gelo continuou a derreter. Quando voltei do laboratrio naquela 
noite, minhas irms foram ao apartamento com um recado dele: "Papai quer que voc v jantar em casa."
        No decorrer de um jantar maravilhoso, ele fez um brinde ao meu sucesso no exame. Mas o importante  que estvamos todos juntos outra vez, comemorando muito 
mais do que apenas o resultado de minhas provas.
        
        
        
        
        
        
      CAPTULO 12
      
    Faculdade de medicina
    
Em meu trabalho sobre a morte e o morrer, C. G. Jung influenciou-me mais do que qualquer outro psiquiatra. Quando era estudante do primeiro ano de medicina, muitas 
vezes vi o lendrio psiquiatra suo dando longos passeios por Zurique. Era uma figura habitual nas caladas e  volta do lago, parecendo estar sempre mergulhado 
em profundas reflexes. Eu sentia uma misteriosa ligao com ele, uma familiaridade que me dizia que poderamos ter estabelecido um contato mgico instantaneamente.
        Infelizmente, contudo, nunca me apresentei a ele, de fato chegando at a sair do meu caminho para no dar com o grande homem. Logo que eu via Jung, atravessava 
a rua ou mudava de direo. Hoje me arrependo disso. Na poca, todavia, pensava que, se falasse com ele, acabaria sendo psiquiatra, e isto estava no fim de minha 
lista de prioridades.
        Quando entrei para a faculdade de medicina, j planejava tornar-me uma mdica do interior. Na Sua, isto  o esperado,  parte do acordo. Quando se formam, 
os novos mdicos assumem uma clnica no interior.  uma forma de estgio, uma apresentao  clnica-geral antes da escolha de uma especialidade, como cirurgia ou 
ortopedia. Se preferem, continuam o mesmo trabalho no interior, o que eu imaginava que iria fazer. Mas ainda tinha sete anos pela frente.
        Era um bom sistema. Produzia bons mdicos, cuja primeira considerao era o paciente, no o pagamento.
        Tive um bom comeo na faculdade de medicina, passando sem dificuldades pelas cincias bsicas naturais, qumica, bioqumica e fisiologia. Mas as primeiras 
aulas de anatomia quase me fizeram ser expulsa da escola. No primeiro dia, quase todas as pessoas  minha volta falavam uma lngua estrangeira. Pensando que estava 
na sala de aula errada, levantei-me para sair. O professor, rspido e rigoroso quanto  disciplina, parou a aula no meio e repreendeu-me por interromp-lo, apesar 
de eu tentar explicar o motivo.
        - Voc no est confusa, no  bem isso - disse. - As mulheres deviam mesmo era ficar em casa cozinhando e costurando, em vez de virem para c estudar medicina.
        Fiquei mortificada. Mais tarde, percebi que um tero da turma era de Israel, parte de um acordo entre os dois governos, e que a lngua estrangeira que eu 
ouvira era hebraico. Depois, tive outro desentendimento com o mesmo professor de anatomia. Ao saber que vrios estudantes primeiranistas, inclusive eu, estavam tentando 
angariar dinheiro para um estudante pobre, um dos israelenses, ele expulsou o aluno que havia organizado a campanha e disse ainda que eu "fosse para casa e virasse 
costureira".
        Eram lies duras, mas achei que aquele professor tinha esquecido uma delas, fundamental, e arrisquei minha futura carreira para dizer-lhe qual era:
        - Estvamos apenas tentando ajudar um semelhante, um ser humano em dificuldades - disse. - O senhor no jurou fazer o mesmo quando se tornou mdico?
        Meu argumento foi bem aceito. O estudante que tinha sido expulso foi readmitido e eu continuei a ajudar os outros, geralmente um dos estudantes estrangeiros. 
Fiz amizade com alguns estudantes indianos. Um deles tinha um amigo que ficara parcialmente cego depois de ter o olho mordido por um rato. Foi hospitalizado no departamento 
do professor Amsler, onde eu continuava a trabalhar cinco noites por semana. O estudante, vindo de um povoado perto do Himalaia, estava assustado e deprimido e no 
comia nada havia muitos dias.
         Por experincia prpria, sabia como  terrvel ficar doente longe de casa. Assim, dei um jeito para que lhe trouxessem comida indiana temperada com curry. 
Tambm consegui permisso para que um de seus amigos indianos ficasse com ele no quarto fora do horrio de visitas, enquanto se preparava para a cirurgia. Pequenos 
toques. Mas ele rapidamente recuperou as foras.
        Como agradecimento, recebi um convite do primeiro-ministro da ndia, Nehru, para uma recepo oficial no consulado indiano de Berna. Foi uma festa elegante 
realizada no jardim externo do consulado. Eu estava vestida com um lindo sari que ganhara de meus amigos indianos. A filha de Nehru, Indira Gandhi, futura primeira-ministra 
do pas, ofereceu-me flores e uma meno honrosa, embora sua gentileza pessoal tenha significado muito mais para mim. Durante a recepo, ela me viu pedir a seu 
pai para autografar um exemplar do famoso livro dele, A Unidade da ndia.
        - Agora, no! - vociferou. Constrangida e magoada, recuei num sobressalto e ca literalmente nos braos estendidos dela.
        - No se assuste - disse, procurando acalmar-me. - Vou faz-lo autografar o livro para voc.
        Dito e feito: dois minutos depois, ela lhe entregou o meu livro. Ele o autografou e me devolveu o livro sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Anos mais 
tarde, pediram-me para autografar livros milhares de vezes, numa delas at quando eu estava sentada num banheiro do Aeroporto Internacional John F. Kennedy, em Nova 
York. Por mais que tivesse vontade de gritar "Agora, no!", controlava-me para no criar embaraos para mim nem assustar a pessoa que comprara o meu livro, lembrando-me 
da lio que aprendera com o primeiro-ministro indiano.
        A faculdade tomava muito do meu tempo, mas no era opressiva. Talvez eu estivesse mais acostumada com cargas de trabalho pesadas do que a maioria das pessoas. 
Ou fosse mais organizada. Passava minhas noites no laboratrio de oftalmologia, que me proporcionava um salrio razovel. No que eu precisasse de muito para viver. 
Costumava levar um sanduche comigo para o jantar, mas s vezes ia com colegas de turma para a cantina dos estudantes. No me lembro de ter tido muito tempo para 
estudar, exceto nas manhs em que ia de bonde para a faculdade.
        Por sorte, tinha uma memria fotogrfica que me ajudava quando precisava lembrar trabalhos realizados em sala e seminrios. Mas a desvantagem disso era o 
tdio, em especial quando se tratava de anatomia. Durante uma aula de reviso, uma amiga e eu ficamos sentadas no alto do anfiteatro tagarelando sobre nossas vidas, 
passadas e futuras. De brincadeira, ela correu os olhos pela ampla sala e ento apontou para um bonito estudante suo.
        - E aquele - disse, rindo. - Aquele  o meu futuro marido. Ns rimos.
        - Agora  voc, escolha o seu marido - disse.
        Olhei em torno. Havia um grupo de estudantes norte-americanos do outro lado da sala, bem em frente a ns. Eram conhecidos por seu comportamento insuportvel. 
Diziam piadas sem parar e cochichavam entre si, fazendo comentrios repugnantes sobre os cadveres, na opinio dos outros estudantes. Eu os detestava. Apesar disso, 
meus olhos pousaram em um deles, um rapaz de boa aparncia, com cabelos escuros. Por alguma razo, eu nunca notara a existncia dele. Tambm no sabia seu nome.
        - Aquele - disse. - Aquele vai ser o meu. Rimos mais de nossa impulsividade.
        No fundo, porm, nenhuma das duas duvidava que poderia acabar se casando com o rapaz que escolhera. Ficaria por conta do tempo e das "coincidncias".
        No que me dizia respeito, nada podia dar certo quando se tratava de aula de anatomia. Comeara mal e deu a impresso de piorar quando passamos do curso bsico 
para o laboratrio de patologia, onde cada grupo de quatro estudantes trabalhava com um cadver. Seria capaz de jurar que o professor estava tentando descontar em 
mim nossos desentendimentos passados quando vi com quem ele me colocara: trs dos americanos, inclusive o rapaz bonito que escolhera para meu futuro marido.
        Minha primeira impresso sobre eles, baseada na maneira como lidavam com o cadver, no foi nada boa. Faziam piadas sobre o corpo do homem morto, pulavam 
corda com seus intestinos e provocavam-me falando sobre o tamanho de seus testculos. No tinha graa nenhuma. Pensei comigo que eles eram uns cowboys insensveis 
que no sabiam o que era respeito. E embora aquela no fosse a maneira mais romntica ou atraente de tratar um futuro namorado, no guardei s para mim a minha opinio. 
Aquele comportamento inconveniente e aquelas brincadeiras, disse com severidade, davam margem a expulso. E tambm no me deixavam estudar todos os vasos sangneos, 
nervos e msculos.
        Escutaram educadamente e s um deles esboou uma reao: o meu americano. No auge do meu desabafo, ele deu um sorriso de desculpas e estendeu a mo.
        - Ol - disse -, meu nome  Ross. Emanuel Ross.
        Desarmou-me de imediato. Emanuel Ross. Tinha ombros largos, era atltico e muito mais alto do que eu. E era de Nova York. Dava para notar isto em sua voz. 
Soava "Brooklyn" antes que se perguntasse de onde era. E ele acrescentou mais uma coisa:
        - Meus amigos me chamam de Manny.
        Mesmo depois de nos tornarmos colegas de laboratrio, passaram-se trs meses antes que Manny me convidasse para ir ao cinema e depois comer alguma coisa 
num caf. Eu sabia que ele tinha uma poro de amigas bonitas, mas surgiu entre ns uma amizade fcil que fazia com que nos abrssemos um com o outro. Manny, o mais 
moo de trs irmos, tivera uma infncia excepcionalmente dura. Tanto seu pai quanto sua me eram surdos-mudos. O pai morreu quando Manny tinha seis anos; a famlia 
mudou-se para o pequeno apartamento de um tio. Eram muito pobres. O nico presente que recebeu do pai, um tigre de pelcia, foi levado e depois perdido pelas enfermeiras 
do hospital quando ele operou as amgdalas aos cinco anos de idade. Mesmo depois de tanto tempo, vi que aquela perda ainda era uma lembrana dolorosa para Manny. 
Para consol-lo, contei-lhe sobre meu coelho, "Blackie".
        Fiquei sabendo tambm que Manny trabalhara para pagar seus estudos escolares, servira na Marinha e diplomara-se como pr-mdico na Universidade de Nova York. 
Para evitar a competio com o grande nmero de ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial que disputavam lugares nas superlotadas faculdades de medicina norte-americanas, 
ele escolheu estudar na Universidade de Zurique, mesmo enfrentando dificuldades ao assistir aulas em alemo e participar de debates em sala de aula em alemo-suo. 
Manny, que atribua alguns de seus sucessos ao meu auxlio como tradutora, foi o primeiro rapaz com quem sa que me fez pensar no futuro. Antes das frias de vero, 
ensinei Manny a esquiar. Quando voltamos para o nosso segundo ano de faculdade, comecei a pensar qual seria a melhor maneira de afastar suas outras admiradoras do 
sexo feminino.
        No segundo ano, comeamos a lidar com pacientes de verdade. Eu tinha faro de detetive para fazer rapidamente o diagnstico correto e um gosto pela pediatria 
que achava estar ligado ao fato de ter ficado seriamente doente na infncia. Ou s lembranas do tempo em que minha irm Erika estivera hospitalizada ali. Felizmente, 
no gastei muita energia com aquele assunto porque estava envolvida com um problema potencialmente maior: apresentar Manny  minha famlia sem que papai tivesse 
um ataque. As festas de fim de ano que se aproximavam deram-me a oportunidade esperada.
        O Natal costumava ser um dia especial dedicado apenas  famlia, mas, uma semana antes, obtive o consentimento de minha me para convidar trs colegas de 
turma norte-americanos escolhidos a dedo, entre eles Manny, para a famosa ceia de Natal feita por ela. Contei-lhe uma histria comovente, que no fundo era verdadeira, 
sobre aqueles estudantes que estavam longe de casa, solitrios e sem dinheiro para uma boa ceia de Natal, embelezando os fatos de tal maneira que minha me passou 
dias preparando todo tipo de delcias tradicionais suas para impressionar os americanos. Enquanto isso, preparvamos papai aos poucos para uma ceia de Natal em 
que no s a famlia estaria presente.
        Na grande noite, Manny encantou minha me de imediato ao trazer-lhe flores e os trs rapazes conquistaram-na para sempre tirando a mesa e lavando a loua, 
algo que os homens suos nunca faziam por sua prpria conta. Meu pai serviu um vinho e um conhaque excelentes, o que levou naturalmente a uma alegre cantoria em 
torno do piano que durou at chegarem ao fim as dezenas de velas que enchiam a sala de uma luminosidade aconchegante. Por volta de dez horas, fiz o sinal previamente 
combinado para que meus amigos fossem embora:
        - J so quase onze horas - anunciei sem a menor sutileza. Se por acaso os convidados ficavam em nossa casa alm da hora, meu pai costumava deixar isto bem 
claro abrindo a porta da frente e todas as janelas, mesmo com dez graus abaixo de zero l fora, e eu queria evitar que tal coisa acontecesse.
        Meu pai, porm, estava realmente satisfeito.
        - Esses rapazes so muito simpticos - disse, mais tarde. - E Manny  o mais simptico de todos.  o melhor rapaz que voc j trouxe aqui em casa.
        De fato, ele se entrosara bem. Contudo, ainda havia um fato importante a respeito de Manny que meu pai no sabia, e aquele momento de entusiasmo era perfeito 
para lanar aquela bomba:
        - E, imagine s, ele  judeu - disse.
        Silncio. Antes que meu pai, que eu sabia no morrer de amores pela comunidade judaica de Zurique, pudesse dizer qualquer coisa, corri para ajudar minha 
me na cozinha, preparando-me para defender meu amigo mais cedo ou mais tarde.
        Graas a Deus, no foi naquela noite. Meu pai foi direto para a cama e guardou suas opinies para a manh seguinte. Enquanto tomvamos o caf da manh, ele 
lanou sua prpria bomba:
        - Pode trazer Manny aqui sempre que quiser - disse.
        Em poucos meses, eu nem precisei mais convidar Manny. Recebido como pessoa da famlia, ele aparecia para jantar de vez em quando, at mesmo quando eu no 
estava l.
        Como se esperava, houve um casamento em 1955. No, no foi o meu, apesar de Manny e eu estarmos cada vez mais prximos e sabermos que um dia nos casaramos. 
Mas somente depois de terminarmos a faculdade. A noiva e o noivo eram minha irm Eva e Seppli, que juraram amor eterno na mesma capelinha onde vrias geraes de 
minha famlia haviam participado dos cultos religiosos. Mesmo quando j era evidente que eles estavam namorando a srio, meus pais davam a entender que Seppli talvez 
no fosse um grande partido para Eva. Um mdico? Um advogado? Sim. Um homem de negcios, com toda a certeza, sim. Mas um esquiador-poeta? Era um problema.
        No para mim. Defendia Seppli de todas as maneiras. Ele era uma pessoa luminosa, sensvel e delicada que gostava das montanhas, das flores e do sol tanto 
quanto eu. Nos fins-de-semana que ns trs passvamos em nosso chal nas montanhas de Amden, Seppli sempre tinha um largo sorriso no rosto enquanto esquiava, cantava, 
soltava a voz ao estilo dos montanheses suos e tiroleses ou tocava violo e violino. Nas poucas vezes em que Manny se juntou a ns, percebi que ele no se importava 
em dormir num colcho sem roupa de cama ou cozinhar num fogo  lenha, alm de parecer interessado quando eu lhe mostrava a fauna local ou as paisagens das florestas, 
mas ficava sempre aliviado ao voltar para a cidade.
        No ano seguinte, no houve tempo para descanso nas montanhas. Se bem que fosse o ltimo de meus sete anos de faculdade de medicina, era o mais puxado. Comecei 
o ano praticando clnica-geral em Niederweningen, uma atividade que na Sua equivale a uma residncia mdica, no lugar de um jovem e simptico mdico que estaria 
prestando servio militar por trs semanas. Tendo sado de um hospital-escola moderno, tive um choque cultural quando ele me mostrou apressadamente o consultrio 
domstico, o laboratrio, o equipamento de raios X e um arquivo, cujo sistema de catalogao era bem pessoal, contendo os nomes de pacientes de sete vilarejos daquela 
regio de fazendas.
        - Sete vilarejos? - perguntei.
        - Sim, e por isso voc vai ter de aprender a andar de motocicleta - disse.
        No chegamos a discutir quando. Algumas horas depois de ele ter ido embora, recebi meu primeiro chamado de emergncia. Era em uma das pequenas vilas dos 
arredores, a quinze minutos dali. Prendi minha maleta preta de mdico com as correias na traseira da motocicleta, dei a partida como ele me mostrara e sa pela primeira 
vez dirigindo uma motocicleta. Nem carteira de motorista eu tinha.
        At que comecei bem direitinho. Quando tinha subido cerca de um tero do caminho colina acima, porm, ouvi minha maleta escorregar da traseira. Em seguida, 
quando ela bateu no solo, um barulho enorme. Todo o meu material espalhou-se pelo cho. Assim que me virei para ver o estrago, percebi que acabara de fazer uma grande 
bobagem. A motocicleta caiu num buraco, seguiu para onde bem quis, rodopiou sem controle e jogou-me no cho num ponto mais ou menos entre a maleta e o lugar onde 
afinal parou.
        E foi essa a minha apresentao  clnica-geral, bem como a apresentao da pequena cidade a mim. Sem que eu soubesse, o vilarejo inteiro tinha assistido 
 cena de suas janelas. Todos sabiam que haveria uma nova mdica e, assim que ouviram o rudo da motocicleta subindo a colina, correram para ver como eu era. Quando 
me levantei, estava esfolada e com alguns machucados que sangravam. Uns homens apareceram e endireitaram a motocicleta. E acabei chegando  casa certa, onde cuidei 
de um homem idoso que estava tendo uma crise cardaca. Acho que ele se sentiu melhor quando viu que minha aparncia estava pior do que a dele.
        Aps trs semanas no campo, tratando desde joelhos ralados at pacientes de cncer, voltei s minhas aulas exausta, porm mais confiante. Apesar de no estar 
interessada nas duas especialidades que restavam, no tinha problemas nem com obstetrcia/ginecologia nem com cardiologia. Tinha pela frente as provas do Conselho 
do Estado, seis meses de tdio e presso que precisavam ser conquistados para que eu me tornasse mdica. E depois? Manny insistia para que fssemos para os Estados 
Unidos depois de terminar a faculdade, enquanto que eu sentia um desejo enorme de fazer trabalho voluntrio na ndia. Tnhamos claramente as nossas diferenas, mas 
confiava em meu instinto para que o lado bom prevalecesse sobre o ruim.
        Foram tempos difceis, e ento aconteceu algo que tornou tudo muito pior.
        
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 13
      
    A boa prtica da medicina
    
As provas do Conselho duravam um dia inteiro e consistiam em perguntas orais e escritas que abrangiam tudo o que tnhamos aprendido nos ltimos sete anos. Tanto 
o carter quanto o conhecimento clnico do candidato eram examinados. Passei sem dificuldades, mais preocupada com a maneira como Manny se sairia do que com as minhas 
prprias notas.
        Entretanto, existem certas coisas na vida de um mdico que no so ensinadas" na escola, e passei por um desses testes na mesma ocasio em que estava fazendo 
meus exames finais. Comeou no apartamento de Eva e Seppli. Eu tinha ido fazer um lanche com eles e distrair-me um pouco para aliviar a tenso das provas. Porm, 
enquanto conversvamos, notei que Seppli parecia plido e cansado, decididamente o oposto de seu estado normal, e mais magro do que de costume, o que me fez perguntar 
se no estava se sentindo bem.
        - Estou com um pouco de dor de estmago - respondeu. - Meu mdico disse que estou com uma lcera.
        Intuitivamente, sabia que meu cunhado, aquele homem forte e descontrado que adorava as montanhas, no tinha lcera nenhuma e, assim, infernizei meio mundo 
nas semanas seguintes, verificando diariamente o estado dele e depois entrando em contato com seu mdico, que perdeu a pacincia com meu diagnstico alternativo.
        - Vocs, estudantes de medicina, so todos iguais - escarneceu. - Pensam que sabem tudo.
        Eu achava que Seppli estava gravemente doente e no era a nica a achar. Eva temia a mesma coisa. Ela via com preocupao a sade do marido declinar a cada 
dia. Ficou muito aliviada por finalmente poder falar sobre o assunto, mesmo quando levantei a possibilidade de um cncer. Levamos Seppli para uma consulta com o 
melhor mdico que eu conhecia, um velho clnico do interior (e professor universitrio em tempo parcial) que "ouvia" de fato os pacientes e era conhecido por seus 
diagnsticos infalveis. Depois de um breve exame, ele confirmou nossas piores suspeitas e no perdeu tempo, marcando uma cirurgia para a semana seguinte.
        Havia centenas de perguntas em minhas provas do Conselho, mas nenhuma como as que estavam em minha cabea. Levei Seppli para o hospital; o cirurgio j me 
convidara para assistir  operao. Se o resultado fosse grave, chamaria Eva e diria: "Eu tinha razo." O resto estava entregue ao destino. Quanto a Seppli, que 
tinha apenas vinte e oito anos de idade e menos de um ano de casado, estava lidando com aquela infeliz reviravolta do destino com a mesma elegncia que demonstrara 
nas pistas de esqui.
        Tentei fazer o mesmo quando entramos na sala de operaes. Era duro estar assistindo quilo, mas no tirei os olhos de Seppli nem mesmo quando o mdico fez 
a primeira inciso. Com o estmago de Seppli aberto, ficou mais difcil ainda. Primeiro, vimos uma pequena lcera na parede interna do estmago. Ento, o cirurgio 
sacudiu a cabea. O estmago de Seppli estava tomado por uma espessa formao maligna. No havia o que fazer.
        - Sinto muito, mas seu palpite estava certo - disse o cirurgio. Minha irm recebeu a notcia com um silncio doloroso.
        - No foi possvel fazer nada por ele - expliquei, e ns duas demos vazo a um sentimento mtuo de impotncia e raiva, principalmente com relao ao primeiro 
mdico de Seppli, que no considerara a possibilidade de algo to srio quando ainda teria sido possvel salvar a vida dele, to jovem ainda.
        Enquanto Seppli dormia na sala de recuperao, sentei-me em sua cama e lembrei-me da linda carruagem em estilo antigo, puxada por cavalos, que o levara junto 
com Eva, fazia menos de um ano, de nossa casa  capela tradicional dos casamentos situada do outro lado da cidade. O mundo parecia estar em ordem naquela poca. 
Minhas duas irms estavam casadas, todos estavam incrivelmente felizes e eu esperava trilhar o mesmo caminho do altar no futuro. Olhando para Seppli, todavia, dei-me 
conta de que no se pode confiar no futuro. A vida  sobre o presente.
        E, de fato, ao acordar, Seppli aceitou seu estado sem fazer perguntas, escutando seu mdico dizer-lhe exatamente o que precisava saber, enquanto eu apertava 
sua mo como se minha fora pudesse ajud-lo. Era um desejo natural no momento, mas no realista. Semanas depois, Seppli foi para casa, onde minha irm cercou-o 
de cuidados, conforto e amor durante os seus ltimos meses de vida.
        Num esplndido dia de outono em 1957, os anos de trabalho duro foram finalmente recompensados.
        - Voc passou - disse o chefe da banca examinadora da universidade. - Voc agora  uma mdica.
        O prazer de minha comemorao tinha um travo de amargura. Estava deprimida por causa de Seppli e tambm decepcionada porque um projeto para trabalhar com 
cirurgia na ndia por seis meses fracassara no ltimo momento. A m notcia havia demorado tanto para chegar que eu j dera de presente todas as minhas roupas de 
inverno. Mas, se isso no tivesse acontecido, provavelmente no teria me casado com Manny.
        Ns nos amvamos, mas no ramos o casal perfeito. Para comear, ele tinha sido contra a minha viagem  ndia. Ao terminar seu ltimo semestre na faculdade, 
imaginava que nos mudaramos para os Estados Unidos. Eu fazia muito mau juzo dos Estados Unidos por causa dos detestveis estudantes de medicina que conhecera.
        Quando meus planos mudaram, porm, decidi arriscar. Escolhi Manny e um futuro nos Estados Unidos.
        Ironicamente, meu pedido de visto foi rejeitado pelos funcionrios da embaixada norte-americana. Submetidos  lavagem cerebral do macarthismo, presumiam 
que qualquer um que, como eu, tivesse viajado para a Polnia s poderia ser comunista. Mas essa questo tornou-se irrelevante quando Manny e eu nos casamos em fevereiro 
de 1958. Optamos por uma pequena cerimnia civil, em grande parte para que Seppli pudesse ser padrinho antes que fosse tarde demais. Exatamente no dia seguinte, 
ele foi para o hospital. Como acabou acontecendo, ele no iria resistir at a festa de casamento mais formal e maior que planejvamos fazer quando Manny terminasse 
a faculdade em junho.
        Enquanto isso, aceitei uma colocao provisria em Langenthal, onde um mdico do interior muito querido tinha morrido subitamente, deixando mulher e filho 
sem qualquer renda ou seguro mdico. A maior parte do dinheiro que ganhava ia para eles, pois eu tinha tudo de que precisava. Como o mdico que me precedera, eu 
mandava a conta apenas uma vez e, se algum no podia pagar, no me preocupava mais com ela. Quase todos os pacientes davam alguma coisa. Se no era dinheiro, apareciam 
com cestas transbordando de frutas e legumes, e cheguei a ganhar at um vestido feito  mo que ficou perfeito em mim. No Dia das Mes, recebi tantas flores que 
meu consultrio ficou parecendo uma sala de velrio.
        Meu dia mais triste em Langenthal foi tambm o mais ocupado. A sala de espera ficou cheia desde o momento em que abri a porta de manh. Estava costurando 
um corte na perna de uma menina pequena quando recebi um telefonema de Seppli, cuja voz quase no passava de um sussurro. Com a menina chorando sobre a mesa e a 
sutura pelo meio, era impossvel conversar. Seppli fez um pedido. Ser que poderia ir v-lo? No, expliquei pesarosa, a sala de espera estava cheia e eu ainda precisava 
fazer visitas domiciliares. J tinha planejado uma viagem para visit-lo. Dentro de dois dias. Tentando parecer confiante, disse:
        - Vejo voc, ento.
        Infelizmente, no foi o que se passou, e estou certa de que Seppli j sabia quando telefonou insistindo para que eu fosse v-lo pela ltima vez. Como a maioria 
das pessoas que esto morrendo e j aceitaram a inexorvel transio deste mundo para o outro, ele sabia como  precioso e limitado o tempo que resta para as despedidas. 
E, efetivamente, Seppli morreu na manh seguinte bem cedo.
        Depois do enterro de Seppli, houve ocasies em Langenthal, quando eu andava atravs dos campos ondulados, respirando o ar fresco que a profuso de flores 
coloridas da primavera tornava mais suave, em que tinha a sensao de que Seppli estava por perto. Falava sempre com ele, at que me senti melhor. Ainda assim, nunca 
me perdoei por no ter ido v-lo.
        Sabia que no se pode ignorar o sentimento de urgncia de um paciente que vai morrer. No campo, os cuidados mdicos eram uma experincia conjunta. Havia 
sempre um av ou av, pai ou me, tia, primo, criana ou vizinho para ajudar a cuidar de um doente. O mesmo valia para os muito enfermos ou moribundos. Todos colaboravam, 
amigos, famlia e vizinhos. Estava subentendido que todas as pessoas deviam fazer aquilo umas pelas outras. Na realidade, a maior satisfao de meu incio de carreira 
como mdica no era trabalhar na clnica ou atender a doentes em suas casas, mas visitar pacientes que precisavam de um amigo, de palavras reconfortantes ou de algumas 
horas de companhia.
        A medicina tem seus limites, um fato que no se ensina na faculdade. Outro fato que no  ensinado: um corao compassivo, sentimento que supe ternura, 
compreenso e desejo de ajudar, pode curar quase tudo. Uns poucos meses no campo convenceram-me de que ser um bom mdico nada tinha a ver com anatomia, cirurgia 
ou prescrio dos remdios certos. A melhor maneira de um mdico ajudar seu paciente era ser ele prprio uma pessoa cheia de bondade, zelo, sensibilidade e amor.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 14
        
    Elisabeth Kbler-Ross, mdica
    
Eu era uma mulher adulta, uma mdica formada, estava prestes a me casar e minha me ainda me tratava como se eu fosse uma garotinha. Fez-me ir ao cabeleireiro, levou-me 
a uma especialista em maquiagem e obrigou-me a fazer todas aquelas bobagens de garotas que eu no suportava. Disse tambm que no me queixasse por ter de ir para 
os Estados Unidos, pois Manny era um homem bonito e inteligente com quem qualquer mulher gostaria de se casar.
        - Ele provavelmente quer que voc o ajude a se preparar para os exames finais.
        Eram acessos de insegurana da parte dela. Queria que eu tivesse conscincia da minha sorte. Mas eu j sabia que tinha sorte.
        Depois que Manny passou nos exames finais do Conselho, sem minha ajuda, ns nos casamos. Foi um grande acontecimento. Meu pai foi o nico que no se divertiu 
tanto. Forado a moderar sua natural atividade por causa de um quadril que tinha quebrado meses antes, no pde exibir a graa e elegncia habituais na pista de 
dana, o que o deprimiu. No entanto, seu presente de casamento compensou tudo isso com vantagem: uma gravao de suas canes favoritas, com minha irm Eva acompanhando-o 
lindamente ao piano.
        Depois, toda a minha famlia foi  Feira Mundial de Bruxelas. Ao retornarem, todos eles e mais diversos amigos que tinham participado da festa de casamento 
foram ao nosso embarque no Libert, o enorme navio que levaria Manny e eu para os Estados Unidos. Nem a comida maravilhosa, nem o sol, nem a dana no convs podiam 
acalmar o conflito de sentimentos que eu experimentava pelo fato de deixar a Sua por um pas pelo qual no tinha o menor interesse. No entanto, deixei-me levar 
sem discutir e, pelo que escrevi no meu dirio, acho que era uma viagem que eu tinha de fazer:
        Como  que os gansos sabem quando voar em direo ao sol? Quem diz a eles qual  a estao do ano? Como  que ns, seres humanos, sabemos quando chegou a 
hora de ir embora? Como os pssaros migratrios, ns sem dvida temos tambm uma voz interior que, se soubermos ouvir, nos dir com certeza quando partir para o 
desconhecido.
        Na noite anterior  chegada nos Estados Unidos, sonhei que estava vestida de ndia e atravessava o deserto a cavalo. Em meu sonho, o sol estava to quente 
que acordei com a garganta seca. De repente, estava tambm sedenta por essa nova aventura. Contei a Manny que, em criana, gostava de desenhar escudos e smbolos 
de ndios e danava como um guerreiro em cima de uma pedra achatada, apesar de nunca ter tido contato com a cultura ndia norte-americana. Meu sonho teria acontecido 
por acaso? Pouco provvel. Estranhamente, foi o que me acalmou. Como uma voz interior, deu-me a sensao de que o desconhecido talvez fosse na verdade um regresso 
ao lar.
        Para Manny, era mesmo. Sob uma chuva pesada, ele me mostrou ao longe a Esttua da Liberdade. Milhares de pessoas esperavam no cais pelos passageiros do navio, 
entre elas a me de Manny, que era surda-muda, e a irm dele. Ouvira falar delas muitas vezes por anos a fio. Agora, tinha tambm uma poro de perguntas em minha 
cabea. Como seriam elas? Ser que receberiam bem uma estrangeira na famlia? Uma no-judia?
        A me dele era uma boneca cuja alegria ao ver o filho mdico transparecia em seus olhos com tanta clareza quanto qualquer palavra que pudesse dizer. Com 
a irm, foi diferente. Estvamos procurando nossas quinze malas, engradados e caixas quando ela nos encontrou. Manny recebeu um grande abrao daquela tpica mulher 
de Long Island, com sua maravilhosa cabeleira recm-penteada e roupas novas. Ento, ela examinou meu cabelo que pingava e minha roupa molhada como se eu tivesse 
vindo a nado atrs do navio e lanou um olhar para Manny, que dizia: "Isso foi o melhor que voc pde arranjar?"
        Passamos pela alfndega, onde minha maleta de mdico foi confiscada, e seguimos para jantar na casa da cunhada de Manny. Ela morava em Lynnbrook, Long Island. 
Durante o jantar, eu sem querer cometi um pecado ao pedir um copo de leite. A ironia era eu nunca beber leite e o fato de que teria preferido um conhaque. Mas pensava 
que todo mundo nos Estados Unidos bebia leite. Aquela no era "a terra do leite e do mel"? Ento, pedi leite. Em vez disso, levei um pontap vigoroso de meu marido 
por baixo da mesa. Aquela era uma casa kosher, explicou ele.
        - Ela vai ter de aprender a ser kosher - disse minha cunhada desdenhosamente.
        Ao entrar mais tarde na cozinha com a esperana de ficar um pouco sozinha, encontrei minha cunhada diante da geladeira beliscando um pedao de presunto. 
Meu humor melhorou na mesma hora.
        - No tenho a menor inteno de ser kosher - disse. - E suponho que voc tambm no seja inteiramente kosher.
        Minha disposio melhorou um pouco quando Manny e eu nos mudamos para nosso prprio apartamento vrias semanas mais tarde. O apartamento era pequeno, mas 
convenientemente prximo do Hospital Glen Cove Community, onde ambos daramos plantes como internos. Assim que o trabalho comeou, mesmo com os horrios estafantes 
e um salrio que no chegava para as refeies do ms inteiro, senti-me bem mais feliz. Era imensamente reconfortante para mim estar usando um jaleco branco e ter 
uma poro de pacientes para ocupar meus pensamentos e minha energia.
        Meus dias comeavam cedo, com a preparao do caf da manh de Manny, e ambos trabalhvamos at tarde da noite. Voltvamos para casa juntos, mal agentando 
nos arrastarmos at a cama. Em fins-de-semana alternados, Manny e eu tnhamos planto juntos, tomando conta do hospital de duzentos e cinqenta leitos sozinhos. 
Complementvamos os pontos fortes um do outro. Manny era um mdico com esprito de detetive, meticuloso e lgico, excelente em patologia e histologia. Eu era intuitiva 
e calma, especialista em tomar as decises rpidas necessrias do setor de emergncias.
        Raramente tnhamos tempo para outra coisa que no fosse trabalhar e, mesmo que tivssemos tempo, no teramos dinheiro para nada. Mas houve excees. Certa 
vez, o chefe de Manny deu-nos duas entradas para o Bal Bolshoi, um acontecimento especial que nos entusiasmou. Vestimos nossas roupas mais elegantes e tomamos o 
trem para Manhattan. Assim que as luzes do teatro se apagaram, porm, adormeci e s acordei depois dos aplausos finais. A maioria das minhas dificuldades tinha a 
ver com a adaptao a uma nova cultura. Lembro-me de um rapaz que fora levado para o setor de emergncia do hospital com um grave problema de ouvido. Estava preso 
a uma maca, um procedimento habitual. Porm, enquanto esperava por um otorrino, perguntou-me se poderia ir ao rest-room1.
        Sabendo que o otorrino poderia chegar a qualquer momento, eu no estava disposta a deix-lo ir a lugar algum para no desperdiar o tempo do mdico.
        Alm disso, nunca ouvira antes a expresso rest-room. Portanto, antes de sair para ver os outros pacientes, disse:
        - Voc vai descansar muito mais se ficar onde est agora. Quando voltei, uma enfermeira despachava o rapaz para que ele fosse ao banheiro. Meu rosto ficou 
rubro, quando ela explicou:
        - Doutora, a bexiga dele estava prestes a explodir.
        Um episdio ainda mais humilhante foi o que ocorreu num certo dia em que eu estava trabalhando numa sala de operaes. Durante os procedimentos de rotina 
iniciais, o cirurgio flertava descaradamente com a enfermeira, ignorando-me por completo, apesar de ser eu quem lhe estava passando os instrumentos de que precisava. 
De repente, o paciente comeou a sangrar. O cirurgio, esquecendo a enfermeira, gritou:
        - Merda!
        Outra palavra que eu ainda no conhecia. Olhei para a bandeja de instrumentos e, desnorteada, disse em tom de desculpa:
        - No sei qual desses  o merda.
        Mais tarde, Manny explicou-me por que todos tinham rido de mim. Mas tambm se divertia muito com o que chamava de meus "escorreges na casca de banana".
        Eu sabia que tais erros eram inevitveis, parte da adaptao aos Estados Unidos. Nada foi mais difcil do que no poder celebrar o Natal com minha famlia. 
Se no fosse pela bibliotecria do hospital, uma descendente de escandinavos, que nos convidou para a ceia em sua casa, talvez eu tivesse corrido de volta para a 
Sua antes do Ano Novo. Ela preparou uma rvore-de-natal de verdade, iluminada por velas de verdade, igual s rvores-de-natal da nossa casa e, como escrevi numa 
carta para meus pais, "em meio  noite mais escura, encontrei minha pequena vela acesa".
        Agradeci a Deus por aquela noite, mas no chegou a contribuir para que eu me sentisse mais adaptada ao pas do que antes. Minhas vizinhas de Long Island 
eram mulheres que tagarelavam sobre seus psicanalistas por cima das cercas dos quintais, fazendo comparaes e expondo seus problemas mais ntimos como se nenhum 
assunto fosse particular. E isso no era o auge do mau-gosto. O que eu via no setor peditrico do hospital incomodava-me ainda mais. Mes vestidas como modelos num 
desfile chegavam com brinquedos caros para mostrar como se preocupavam com seus filhos doentes. Quanto maior o brinquedo, maior o amor, certo? No era  toa que 
todas precisavam de analistas.
        Um dia, vi ali um garoto mimado ter um ataque colossal quando a me se esqueceu de levar um brinquedo para ele. Em vez de dizer: "Ol, mame, que bom voc 
ter vindo", ele vociferava: "Cad o meu brinquedo?", e fez a me sair correndo em pnico para uma loja de brinquedos. Fiquei estarrecida. O que aquelas mes e crianas 
americanas estavam pensando? Ser que no tinham nenhuma noo de valores? De que adiantavam todas aquelas coisas quando uma criana doente precisa mesmo  de um 
pai ou uma me segurando sua mo e falando aberta e honestamente sobre a vida?
        Por causa da averso que aquelas crianas e suas mes me causavam, quando chegou a hora em que os internos deveriam escolher uma especialidade, Manny decidiu-se 
por uma residncia em patologia no Hospital Montefiore, do Bronx, enquanto eu me candidatava para trabalhar com o que chamava de "a minoria depravada": pediatria. 
A competio era intensa para as mais ou menos vinte vagas de residncia no renomado Hospital de Bebs do Centro Mdico Presbiteriano de Colmbia, especialmente 
para mdicos estrangeiros. Porm, o diretor, doutor Patrick O'Neil, um mdico veterano de esprito aberto que me entrevistou, jamais ouvira algum dizer que queria 
trabalhar em pediatria por um motivo como aquele:
        - No agento aqueles garotos - disse. - Nem as mes deles. Espantado e confuso, o doutor O'Neil quase caiu da cadeira.
        Seu olhar demonstrava que queria um esclarecimento.
        - Se puder trabalhar com eles, vou entend-los melhor -expliquei. E acrescentei: - E, quem sabe, conseguir toler-los.
        Apesar de pouco ortodoxa, a entrevista foi boa. No final, o doutor O'Neil, esperando mais do que um simples sim ou no como resposta, explicou que o esquema 
de horrio, que exigia um planto de vinte e quatro horas em dias alternados, era exaustivo demais para residentes grvidas. Percebi que tipo de informao ele esperava 
e garanti ao doutor O'Neil que no tinha planos de aumentar a famlia no momento. Dois meses depois, puxei uma carta do Presbiteriano de Colmbia do meio da pilha 
de correspondncia e abracei Manny, que comearia sua residncia no vero. Eu tinha sido aceita - a primeira estrangeira que o famoso hospital aceitava para uma 
residncia peditrica.
        Nossa comemorao incluiu a compra de um Chevrolet Impala azul-turquesa novo em folha, uma extravagncia que fez Manny inchar de orgulho. Era como se ele 
visse um futuro prspero no brilho daquele carro. E tivemos mais boas notcias em seguida. Depois de vrias manhs sentindo uma nusea desagradvel, descobri que 
estava grvida. Sempre me imaginara como me e portanto fiquei felicssima. Por outro lado, a gravidez punha em risco a minha cobiada residncia. O doutor O'Neil 
no explicara claramente qual era o regulamento do hospital? Nada de residentes grvidas. Sim, ele fora bem claro.
        Por um curto espao de tempo, considerei a possibilidade de no contar nada a ningum. Estvamos em junho, e minha gravidez no seria notada nos prximos 
trs ou quatro meses. At l, eu teria o crdito de trs meses de residncia. Pensei que o doutor O'Neil talvez pudesse abrir uma exceo se visse como eu era capaz 
de trabalhar duro. Mas eu no podia mentir. O doutor O'Neil pareceu desapontado por ter que me excluir, mas o regulamento no admitia excees. O melhor que podia 
fazer era garantir uma vaga para mim no ano seguinte.
        Era timo ouvir aquilo, mas no resolvia o meu problema do momento. Eu precisava de um emprego. A residncia de Manny no Montefiore renderia cento e cinco 
dlares por ms, que no dariam para cobrir nossas despesas, muito menos com um beb. Eu no sabia o que fazer. J era to tarde, todas as vagas para residncia 
aceitveis da cidade j estariam ocupadas.
        Ento, numa noite, Manny disse que acabara de saber que havia uma vaga para residente no setor psiquitrico do Hospital Estadual de Manhattan. No fiquei 
particularmente animada. Este era um hospital para doentes mentais, um repositrio pblico das pessoas mais perturbadas e menos agradveis que havia na cidade. Era 
dirigido por um psiquiatra suo maluco que fazia todos os residentes sarem correndo. Ningum queria trabalhar para ele. E, ainda por cima, eu detestava psiquiatria. 
Era a ltima opo na minha lista de especialidades.
        Mas precisvamos pagar o aluguel e pr comida na mesa. E eu tambm precisava ter alguma coisa para fazer.
        Assim, tive uma entrevista com o doutor D. After, em que batemos papo na nossa lngua materna como' se fssemos vizinhos; eu sa com a promessa de uma bolsa 
de pesquisa e um salrio de quatrocentos dlares por ms. De uma hora para outra, estvamos ricos. Manny e eu alugamos um adorvel apartamento de quarto e sala na 
Rua 96 do lado leste de Manhattan. Nos fundos havia um pequeno jardim, que eu preparei para plantar flores e legumes, carregando para l baldes de terra trazida 
de Long Island durante um fim-de-semana inteiro. Naquela noite, no fiz caso de um pequeno sangramento. Dois dias depois, desmaiei dentro da sala de operaes. Acordei 
como paciente em Glen Cove, pois sofrer um aborto.
        Manny encheu nosso apartamento de flores, tentando consolar-me, mas meu nico consolo era minha crena num poder maior. Tudo o que acontecia tinha um motivo 
para acontecer. Nada acontecia por acaso. Nossa proprietria, minha me substituta, preparou meu jantar favorito. Ironicamente, a filha dela tivera alta do mesmo 
hospital naquele dia depois de dar  luz uma menina saudvel, ao mesmo tempo que eu saa com os braos vazios. Mais tarde, durante a noite, ouvi o choro do beb 
recm-nascido do outro lado da parede do apartamento. At ento, eu no sabia que era capaz de uma tristeza to profunda.
        Entretanto, l estava outra lio importante: s vezes, no conseguimos o que queremos, mas Deus sempre nos d aquilo de que precisamos.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 15
      
    Hospital Estadual de Manhattan
    
Algumas semanas antes de Manny e eu comearmos a trabalhar em nossos novos empregos, recebi uma carta de meu pai. As notcias eram graves, mas tinham um toque de 
ironia. Meu pai sofrer uma embolia pulmonar e, segundo ele, seu fim estava prximo. Queria que ns o visitssemos pela ltima vez. Queria tambm que eu, sua mdica 
favorita, a nica em quem confiava, o examinasse. E pensar que ele combatera tanto minha vontade de ser mdica!
        Depois do aborto e da mudana, Manny e eu estvamos exaustos. No queramos viajar para a Sua. Mas o ltimo pedido de Seppli ensinara-me a nunca ignorar 
um paciente moribundo. Quando eles querem falar conosco, no esto pensando em falar amanh. Querem falar imediatamente. Portanto, Manny vendeu seu Impala novo para 
pagar as passagens de avio e trs dias depois estvamos entrando no quarto de meu pai no hospital. Ao contrrio da cena de leito de morte que espervamos ver, encontramos 
meu pai fora da cama e parecendo bem corado. No dia seguinte, ns o levamos para casa.
        No era do feitio dele exagerar. Nem o de Manny deixar de dizer que tinha vendido seu carro  toa. Alguma coisa estava acontecendo. Mais tarde, percebi que 
meu pai, quando estava no hospital, deve ter pressentido que precisvamos resgatar nosso relacionamento antes que fosse tarde demais, e foi exatamente o que aconteceu. 
Pelo resto da semana, meu pai filosofou sobre a vida comigo como nunca fizera. Ficamos mais prximos um do outro como jamais estivramos antes, e creio que Manny 
percebeu que aquilo valia mais do que qualquer carro.
        Ao voltar para Nova York, comecei minha residncia no Hospital de Manhattan, onde a vida era algo a que no se dava muito valor. Foi no ms de julho de 1959, 
num daqueles dias de vero quentes e pegajosos. Eu tinha todos os motivos para me sentir desconfortvel quando entrei no hospital. Era um conjunto amedrontador de 
prdios de tijolos que abrigava centenas de pessoas extremamente perturbadas e mentalmente doentes. Eram os piores casos. Alguns passavam mais de vinte anos ali.
        Eu mal conseguia acreditar no que estava vendo. O hospital estava superlotado, acima de sua capacidade, de indigentes, cujos rostos contorcidos, gestos espasmdicos 
e gritos angustiados revelavam que estavam vivendo um inferno na terra. Naquela noite, em meu dirio, descrevi o que presenciara como um "pesadelo num manicmio". 
Talvez fosse pior.
        Meu setor ficava numa construo de um s andar onde viviam quarenta mulheres esquizofrnicas. Disseram-me que no havia esperana para elas. Observei que 
apenas uma coisa justificava isso: a enfermeira-chefe. Ela era amiga do diretor e por isso fazia suas prprias regras, entre estas permitir que seus gatos queridos 
passeassem  vontade pelo setor. Eles deixavam um odor ftido por toda a parte. Como as janelas eram gradeadas e fechadas, um mau cheiro terrvel tomava conta de 
tudo. De imediato, senti pena de meus colegas de trabalho, o doutor Philippe Trochu, um residente, e Grace Miller, uma assistente social negra. Ambos eram pessoas 
excelentes, de bom corao.
        Como conseguiam sobreviver ali estava acima da minha capacidade de compreenso, embora para os pacientes fosse infinitamente pior. Batiam neles com varas, 
castigavam-nos com tratamentos com choques eltricos e, de vez em quando, eram colocados em banheiras cheias de gua quente at o pescoo e deixados ali at por 
vinte e quatro horas. Muitos eram usados como cobaias humanas em experincias com LSD, psilocibina e mescalina. Quando protestavam - e todos eles o faziam - eram 
submetidos a punies ainda mais desumanas.
        Como pesquisadora, fui lanada no meio desse ninho de cobras. Minha funo oficial era registrar os efeitos dessas drogas alucingenas experimentais nos 
pacientes. Entretanto, depois de ouvir alguns deles lembrarem as vises apavorantes causadas pelas drogas, jurei a mim mesma que acabaria com aquela prtica e mudaria 
a maneira como a clnica psiquitrica era dirigida.
        Seria fcil mudar a rotina do hospital ou dos pacientes. A maioria deles vagava pelos cantos dos quartos ou na sala de recreao sem nenhuma atividade ocupacional, 
nenhuma distrao ou estmulo. De manh, formavam uma fila para tomar remdios que os deixavam em estado de estupor e que causavam horrveis efeitos colaterais. 
O mesmo procedimento era repetido mais tarde. Observei que era possvel administrar drogas como Torazine no tratamento de psicticos, mas muitas daquelas pessoas 
estavam sendo medicadas em excesso e eram vtimas de um isolamento exagerado. Em vez de remdios, precisavam de cuidados e bem-estar material.
        Com a colaborao de meus colegas de trabalho, alterei a rotina destinada a motivar os pacientes a cuidarem de si prprios. Se quisessem Coca-cola e cigarros, 
precisariam ganhar dinheiro para pagar por esses privilgios. Teriam de se levantar da cama na hora certa, se vestir, pentear o cabelo e ir para a fila sem atrasos. 
Os que no pudessem - ou no quisessem - realizar essas tarefas simples arcariam com as conseqncias. Perderiam o ganho de um dia. Depois de uma semana, todos j 
iam para a fila. Na sexta-feira  noite, eu entregava a eles o pagamento. Alguns bebiam todas as coca-colas e fumavam todos os cigarros na primeira noite. Mas conseguimos 
resultados.
        O que eu sabia a respeito de psiquiatria? Nada. Mas sabia sobre a vida e abri-me para a misria, a solido e o medo que aqueles pacientes sentiam. Se queriam 
conversar comigo, eu conversava. Se falavam sobre seus sentimentos, eu escutava e respondia. Eles percebiam isso e, de repente, no se sentiam mais to sozinhos 
e amedrontados.                
        Eu lutava mais com meu chefe do que com os pacientes. Ele no concordava que diminussemos a medicao, embora eu afinal tenha conseguido introduzir um pouco 
de trabalho simples mas produtivo na rotina diria deles. Encher caixas com tubos de rmel no era grande coisa, mas j era melhor do que ficarem sentados pelos 
cantos entregues  apatia causada pelos remdios. Mais tarde, cheguei a levar os pacientes mais bem comportados para passeios com finalidades prticas. Ensinei-os 
como usar o metr, como comprar as passagens e, em ocasies especiais, levei-os at para fazer compras na Macy's. Meus pacientes sabiam que eu me interessava por 
eles e melhoravam.
        Em casa, Manny ouvia tudo o que eu contava a respeito de meus pacientes, entre os quais havia uma mulher ainda jovem chamada Rachel. Ela era esquizofrnico-catatnica, 
classificada como incurvel. Havia anos que passava os dias inteiros de p no ptio exatamente no mesmo lugar. Ningum se lembrava de t-la ouvido dizer uma s palavra 
ou mesmo emitir qualquer som. Quando me empenhei em transferi-la para minha enfermaria, as pessoas pensaram que eu estava maluca.
        Assim que a tive sob meus cuidados, porm, tratei-a como tratava os outros. Fiz com que desempenhasse tarefas e se juntasse ao grupo quando celebrvamos 
o Natal, Chanukah ou at o seu prprio aniversrio. Depois de quase um ano de ateno, Rachel finalmente falou. Aconteceu durante uma sesso de terapia artstica, 
enquanto ela desenhava. Um mdico olhou o que ela estava fazendo e ela perguntou: "Voc gostou?"
        No se passou muito tempo e Rachel deixou o hospital para morar em sua prpria casa e comear a trabalhar como artista, fazendo serigravuras.
        Eu me alegrava com os sucessos, tanto os grandes quanto os pequenos, como o do dia em que o homem que estava sempre voltado para a parede decidiu virar-se 
e olhar para o grupo.
        Entretanto, num certo momento, vi-me diante de uma escolha muito difcil. Em maio, fui convidada a candidatar-me novamente para o programa de pediatria do 
Presbiteriano de Columbia. Ponderei se deveria seguir meu sonho ou ficar com meus pacientes. Era impossvel decidir, mas na mesma semana descobri que estava grvida 
novamente. O problema estava resolvido.
        No final de junho, porm, sofri outro aborto. O medo de outro aborto era o motivo pelo qual eu no me deixara levar pelo entusiasmo por estar grvida. No 
queria passar outra vez pela tristeza e depresso anteriores, apesar de serem coisas que no se pode evitar. Meu obstetra disse que eu era uma daquelas mulheres 
que perdem bebs. No acreditei nele, pois em meus sonhos via-me tendo filhos. Atribua os abortos ao destino.
        Assim, passei mais um ano no Hospital de Manhattan, onde meu objetivo era dar alta ao maior nmero possvel de meus pacientes. Esforava-me para conseguir 
empregos fora do hospital para os pacientes mais capazes. Eles saam de manh, voltavam  noite e aprendiam como usar seu dinheiro para comprar outras coisas bsicas, 
alm de Coca-cola e cigarros. Meus superiores notaram o sucesso de meu mtodo e perguntaram qual era a teoria que estava por trs de minha abordagem. Eu no tinha 
teoria nenhuma.
        - Fao o que acho certo depois que passo a conhecer o paciente - expliquei. - No se pode ench-los de remdios at ficarem apticos e querer que melhorem. 
 preciso trat-los como gente. E no me refiro a eles como vocs fazem - continuei. - No digo: "Ah, o esquizofrnico do quarto tal." Sei o nome deles. Conheo 
seus hbitos. E eles reagem bem a isso.
        O grande sucesso foi o resultado do programa de "dia de visita" que Grace Miller e eu criamos. As famlias das vizinhanas foram convidadas a visitar o hospital 
e adotar pacientes. Assim estvamos gerando relacionamentos pessoais para gente que no tinha a menor idia de como ter qualquer tipo de relacionamento. Alguns pacientes 
reagiram maravilhosamente. Adquiriram uma noo de responsabilidade e objetivo para suas vidas. Outros aprenderam at a fazer planos para futuras visitas.
        Mas o maior sucesso de todos foi o que aconteceu com uma mulher chamada Alice. Quando estava para receber alta, depois de vinte anos na ala de doentes mentais, 
Alice espantou todo mundo certo dia com um pedido inesperado. Queria ver seus filhos. Filhos? Ningum sabia do que ela estava falando.
        Mas Grace investigou e descobriu que Alice tinha realmente dois filhos. Ambos eram muito pequenos na poca da internao dela. Soube-se que tinham dito a 
eles que a me havia morrido.
        Minha colega assistente social encontrou as duas crianas, j adultas ento, e falou-lhes a respeito do programa de "adoo" do hospital. Disse que havia 
uma "senhora idosa e solitria" que precisava de uma famlia substituta. Em memria da me, eles aceitaram. No foram informados sobre a verdadeira identidade da 
senhora idosa. Mas nunca vou esquecer o incrvel sorriso de Alice quando se viu diante dos filhos que a tinham esquecido. Mais tarde, depois que Alice teve alta, 
os filhos tornaram-na parte de sua famlia... outra vez.
        Falando de famlia, Manny e eu continuvamos tentando aumentar a nossa. No outono de 1959, fiquei grvida de novo. O beb deveria chegar em meados de junho 
de 1960. Por nove meses, Manny tratou-me como se eu fosse quebrar. De alguma forma, eu sabia que o beb vingaria. Em vez de me preocupar com outro aborto, procurava 
imaginar um menino ou uma menina pequenos. Pensava em como iria estragar a criana de mimos. Se refletirmos bem, a vida  uma coisa difcil. Todos os dias h um 
novo desafio. Perguntava-me como algum em s conscincia poderia querer trazer outra vida ao mundo. E a pensava em toda a beleza que existe nele e ria. Por que 
no?
        Manny e eu mudamo-nos para um apartamento no Bronx. Era maior do que os nossos outros dois anteriores. Mais ou menos uma semana antes da data prevista para 
o nascimento do beb, minha me veio ficar conosco para ajudar-me e no se aborreceu nem um pouco por eu estar atrasada, pois teve mais tempo para gastar na Macy's 
e em outras lojas de departamentos.
        Trs semanas depois da data prevista para o parto, Manny e eu comeamos a sair de carro para percorrer as ruas do Brooklyn com calamento de pedra. Ns, 
na verdade, procurvamos buracos para passar por dentro. Ironicamente, estvamos num engarrafamento na via expressa de Long Island quando finalmente entrei em trabalho 
de parto. Como havamos planejado, fomos direto para o Hospital Glen Cove. Aps quinze horas de trabalho de parto, comecei a fazer algum progresso, embora a essa 
altura os mdicos tivessem decidido interferir usando frceps. Eu era contra esse tipo de procedimento, mas j estava cansada demais para me importar. S queria 
ter um beb saudvel em meus braos.
        S me lembro do meu prprio grito. E, ento, de uma criana esplndida, saudvel, aninhada em meus braos, de olhos abertos, enxergando o mundo como algo 
ainda novo. Era o beb mais lindo que eu j vira. Inspecionei tudo cuidadosamente. Um menino. Meu filho. Pesava mais de trs quilos e meio, tinha a cabea coberta 
por um emaranhado de cabelos escuros e as mais longas e maravilhosas pestanas escuras que qualquer um de ns j vira em uma criana. Manny deu a ele o nome de Kenneth. 
Nem eu nem minha me conseguamos pronunciar muito bem o "th" de seu nome, mas no fizemos caso. Estvamos encantadas com a chegada dele.
        Manny e eu tnhamos resolvido que deixaramos nossos filhos decidirem sozinhos sobre questes de religio quando estivessem mais velhos, mas ele fazia questo 
de uma circunciso. "Por causa de minha famlia", dizia ele. Quando eu soube, porm, que um rabino estava a caminho, imaginei a circunciso, depois um bar mitzvah, 
e aquilo foi demais para mim.
        O pediatra de Kenneth acalmou minha ansiedade comunicando-me um problema mdico. O beb estava tendo dificuldades para urinar; seu prepcio estava fechado. 
Precisava fazer uma circunciso imediatamente. Mesmo grogue como estava, pulei para fora da cama mais rpido do que nunca e assisti  cirurgia.
        No imaginava que pudesse ser to feliz. Cansada, sim. Mais feliz, impossvel. Muitas vezes ficava admirada pensando como minha me se arranjara com quatro 
crianas - sendo que trs tinham chegado de uma vez s. Mas, como as mes costumam fazer, ela dizia que no tinha sido nada de extraordinrio. No compreendia por 
que eu ia voltar a trabalhar. Naquela poca, poucas mulheres conseguiam criar filhos e ter uma carreira ao mesmo tempo. Acho que eu era uma dessas mulheres que nem 
consideravam a possibilidade de uma opo. Minha famlia era o que havia de mais importante no mundo para mim, mas eu tambm tinha de seguir a minha vocao.
        Depois de um ms em casa, voltei para o Hospital Estadual de Manhattan, onde terminei meu segundo ano de residncia. Consegui acabar com as punies mais 
violentas e dar alta a noventa e quatro por cento de meus esquizofrnicos "incurveis" para viverem vidas produtivas e independentes fora do hospital. Entretanto, 
ainda precisava de mais um ano de residncia para tornar-me uma psiquiatra habilitada. Essa especialidade ainda no me parecia apropriada, mas Manny e eu concordvamos 
que era tarde demais para comear alguma outra coisa do zero.
        Candidatei-me para o Montefiore, uma clnica psiquitrica sofisticada e intelectualmente mais estimulante que o hospital estadual, e fui chamada para uma 
entrevista. Que no foi muito boa. Meu entrevistador, um mdico com a personalidade de um bloco de gelo, parecia empenhado apenas em me humilhar. As perguntas dele 
revelavam minha falta de conhecimentos especficos (e de interesse) acerca de tratamento de neurticos, alcolatras, pessoas sexualmente perturbadas e outros no-psicticos; 
e a junta deixava que ele exibisse o quanto sabia. Mas ele s sabia o que estava nos livros.
        Para mim, havia uma grande diferena entre aquilo que ele aprendera nos livros e a minha experincia no Hospital Estadual de Manhattan, o que, mesmo pondo 
em risco a minha admisso no Montefiore, decidi dizer a ele.
        - O conhecimento ajuda, mas o conhecimento sozinho no resolve os problemas de ningum - disse. - Se voc no usar sua cabea, seu corao e sua alma, no 
conseguir ajudar um nico ser humano.
         possvel que aquilo no respondesse a nenhuma de suas perguntas, mas fez com que eu me sentisse muito melhor.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 16
      
    Vivendo at a morte
    
Pouco tempo depois de ter sido aceita no Hospital Montefiore, um neurologista pediu-me que examinasse um de seus pacientes. Eu era encarregada da clnica de psicofarmacologia, 
mas tambm era parte de meu trabalho dar apoio psiquitrico a outros departamentos, inclusive o de neurologia. Falei com o paciente, um homem com idade entre vinte 
e trinta anos, que supostamente sofria de paralisia psicossomtica e depresso, e verifiquei que, em vez disso, ele estava nos ltimos estgios de uma esclerose 
lateral amiotrfica, uma doena degenerativa incurvel.
        - O paciente est se preparando para morrer - informei.
        O neurologista no s discordou do meu diagnstico como o ridicularizou, afirmando que o paciente precisava apenas de uns tranqilizantes para tratar seu 
estado de esprito mrbido.
        Dias mais tarde, porm, o paciente morreu.
        Minha franqueza ia de encontro  maneira como a medicina costumava ser praticada nos hospitais. Entretanto, depois de alguns meses no cargo, percebi que 
muitos mdicos tinham o hbito de evitar fazer referncia a qualquer coisa que estivesse relacionada com a morte. Os pacientes moribundos eram to maltratados quanto 
os meus pacientes psiquitricos no hospital estadual. Eram deixados de lado e desrespeitados. Um paciente de cncer perguntava: "Estou morrendo?" E o mdico respondia: 
"Ora, no seja bobo." Eu no faria isso.
        Mas no acredito que muitos mdicos como eu tivessem passado pelo Montefiore ou por outros hospitais. Poucos tinham vivido uma experincia como a do meu 
trabalho de assistncia s cidades europias destrudas pela guerra e pouqussimos eram mes, como eu era para meu beb Kenneth. E mais, meu trabalho com pacientes 
esquizofrnicos mostrara-me que havia um poder de cura alm das drogas, alm da cincia, e era isso que eu trazia a cada dia para as enfermarias dos hospitais.
        Durante minhas consultas, sentava nas camas, segurava a mo das pessoas e conversava por horas a fio. Aprendi que no havia uma nica pessoa moribunda que 
no ansiasse por amor, por um contato fsico ou uma forma de comunicao. Pacientes que estavam morrendo no desejavam ficar a uma distncia segura de seus mdicos. 
Precisavam desesperadamente de sinceridade. Mesmo os pacientes entregues a uma depresso suicida podiam por vezes, embora nem sempre, ser convencidos de que suas 
vidas ainda tinham algum sentido. "Conte-me o que est se passando com voc", dizia eu, "talvez possa ajudar-me a socorrer outras pessoas."
        Porm, tragicamente, os piores casos - aquelas pessoas que estavam nos ltimos estgios de alguma doena, os que estavam morrendo - eram os que recebiam 
o pior tratamento. Eram colocados nos quartos mais distantes dos postos de enfermagem. Eram obrigados a ficar deitados sob luzes fortes que no podiam desligar. 
No podiam receber visitas, exceto durante os horrios prescritos. Deixava-se que morressem sozinhos, como se a morte fosse contagiosa.
        Recusava-me tambm a usar aqueles mtodos. Pareciam errados para mim. Assim, ficava com meus pacientes por quanto tempo fosse necessrio, e dizia-lhes que 
ficaria.
        Embora meu trabalho me obrigasse a circular por todo o hospital, eu gravitava em torno daqueles casos considerados mais graves: os pacientes moribundos. 
Foram os melhores professores que eu jamais tive. Observava-os lutando para aceitar o destino. Ouvia-os vociferar contra Deus. Erguia meus ombros num gesto de impotncia 
quando perguntavam: "Por que eu?" Ouvia-os fazer as pazes com Deus. Percebi que, quando havia outra pessoa que se importava, eles chegavam a um ponto de aceitao. 
Era o que eu mais tarde definiria como os diferentes estgios do processo de morrer, embora se apliquem  maneira como lidamos com qualquer tipo de perda.
        Escutando-os, conclu que todos os pacientes moribundos sabem que vo morrer. No se trata de perguntar: "Ser que contamos a ele?" ou "Ser que ele j sabe?".
        A nica pergunta a fazer : "Ser que posso escutar o que ele tem a dizer?"
        Do outro lado do mundo, meu prprio pai estava querendo que algum o escutasse. Em setembro, minha me telefonou para nos avisar que meu pai estava morrendo 
no hospital. Garantiu que dessa vez no era um falso alarme. Manny no podia deixar o trabalho, mas peguei Kenneth e parti no primeiro avio que saa no dia seguinte.
        No hospital, vi que ele estava morrendo. Tinha septicemia, uma infeco mortal que fora causada por uma operao malfeita em seu cotovelo. Meu pai estava 
ligado a mquinas que drenavam o pus de seu abdmen. Estava magro e sentia dores. Os remdios no faziam mais efeito. Tudo o que meu pai queria era ir para casa. 
Ningum o escutava. Seu mdico recusava-se a deix-lo sair, assim como o hospital.
        Mas meu pai ameaava cometer suicdio se no lhe permitissem morrer na paz e no conforto de sua prpria casa. Minha me estava to extenuada e perturbada 
que dizia que faria o mesmo. Eu conhecia a histria que ningum estava querendo mencionar. O pai de meu pai, que quebrara a espinha, morrera numa clnica de repouso 
para idosos. Seu ltimo desejo tinha sido que o levassem para casa. Mas meu pai preferira ouvir os mdicos e recusara-se a atend-lo. Agora, ele estava praticamente 
na mesma situao.
        Ningum no hospital se importava com o fato de eu ser mdica. Diziam que eu poderia lev-lo para casa se assinasse um papel eximindo-os da responsabilidade.
        - A viagem provavelmente vai mat-lo - advertiu seu mdico.
        Olhei para meu pai na cama, indefeso, sofrendo dores e querendo ir para casa. A opo cabia a mim. Naquele momento, lembrei como ele me salvara quando escorregara 
para dentro de uma fenda na geleira. Sem a corda que ele me ensinara como amarrar, eu teria encontrado a morte no abismo. Agora era eu quem iria salv-lo.
        Assinei o papel.
        Meu obstinado pai, tendo conseguido que se fizesse a sua vontade, queria comemorar. Pediu um copo de seu vinho favorito, que eu conseguira esconder em seu 
quarto uns dias antes. Ao ajud-lo a levar o copo  boca, notei que o vinho, gota a gota, saa por um dos muitos tubos que estavam ligados a seu corpo. Soube ento 
que estava na hora de deix-lo ir.
        Depois que os aparelhos e o material de um quarto de doente foram instalados, levamos meu pai para casa. Fui sentada ao lado dele na ambulncia e notei como 
ficava mais animado  medida que nos aproximvamos de casa. De vez em quando, apertava minha mo para manifestar o quanto estava grato por todo aquele esforo. Quando 
os enfermeiros da ambulncia o levavam para o quarto, vi como seu corpo antes to vigoroso estava emaciado. Mas foi dando ordens a todos que estavam  sua volta 
at ser colocado em sua prpria cama. Por fim, sussurrou: "Em casa, afinal."
        Os dois dias seguintes, passou cochilando pacificamente. Nos momentos de conscincia, ficava olhando para os quadros com suas queridas montanhas ou para 
seus trofus de esqui. Minha me e eu mantnhamos uma viglia constante  sua cabeceira. Por alguma razo que no consigo lembrar, minhas irms no puderam ir, mas 
ficaram em contato conosco todo o tempo. Contratamos uma enfermeira, mas, mesmo assim, assumi a responsabilidade de garantir que ele estivesse sempre limpo e confortvel. 
Fez-me lembrar como o trabalho de enfermeira  realmente rduo.
        Perto do fim, meu pai recusava-se a comer. Era doloroso demais. Mas pedia vinhos variados de sua adega. Bem de acordo com a sua natureza.
        Na ltima noite, velei seu sono perturbado por dores lancinantes. Num certo momento, cheguei a dar-lhe uma injeo de morfina. Na tarde seguinte, entretanto, 
algo realmente extraordinrio aconteceu. Meu pai despertou de seu sono conturbado e pediu-me para abrir a janela para que pudesse ouvir melhor os sinos da igreja. 
Por alguns momentos, ficamos ouvindo os sons familiares da Kreuzekirche. Ento, meu pai comeou a conversar com seu prprio pai, desculpando-se por deix-lo morrer 
naquela horrvel casa de repouso.
        - Talvez eu esteja pagando por isso com todo o sofrimento pelo qual estou passando agora - disse, e prometeu encontr-lo em breve.
        No meio da conversa, meu pai voltou-se para mim e pediu um copo com gua. Fiquei admirada por ele claramente saber onde estava e ser capaz de ir e vir de 
uma realidade para outra.  evidente que eu no via nem ouvia meu av. Ao que parece, meu pai resolveu vrios assuntos pendentes.  noite, notei nele um enfraquecimento 
significativo. Dormi numa cama de armar bem ao seu lado. Pela manh, assegurei-me de que estava confortvel, beijei sua testa quente, apertei sua mo e esgueirei-me 
at a cozinha para tomar uma xcara de caf. Sa do quarto por dois minutos. Quando voltei, meu pai estava morto.
        Durante a meia hora seguinte, minha me e eu ficamos sentadas a seu lado fazendo as nossas despedidas. Ele tinha sido um grande homem, mas no estava mais 
ali. Tudo o que fizera meu pai ser quem era - energia, mente e esprito - desaparecera. Sua alma levantara vo de seu corpo fsico. Eu tinha certeza de que seu prprio 
pai o guiara para o cu, onde sem dvida estaria envolvido pelo amor incondicional de Deus. Eu ainda no tinha nenhum conhecimento sobre a vida depois da morte, 
mas sabia que meu pai estava finalmente em paz.
        O que fazer em seguida? Comuniquei o fato ao departamento de sade da cidade que no s se comprometeu a remover o corpo, como tambm a fornecer sem custos 
o caixo e a limusine para o funeral. A enfermeira que eu contratara sumiu inexplicavelmente logo que soube que meu pai havia morrido, deixando os cuidados finais 
com seu corpo por minha conta. Uma amiga minha, a doutora Bridgette Willisau, ofereceu-se generosamente para ajudar. Juntas, limpamos o pus e as fezes de seu corpo 
deteriorado e depois o vestimos cuidadosamente com um bonito terno. Trabalhvamos numa espcie de silncio religioso, e refleti cheia de gratido que meu pai tivera 
a oportunidade de ver Kenneth, e que meu filho conhecera seu av, mesmo por um curto perodo de tempo.
        Quando os dois funcionrios do departamento de sade chegaram com o caixo, meu pai estava vestido e deitado na cama dentro de um quarto limpo e arrumado. 
Depois de o colocarem delicadamente no caixo, um dos homens chamou-me a um canto e, com um sussurro discreto, perguntou se eu no queria pegar algumas flores no 
jardim para pr nas mos de meu pai. Como ele sabia? Como eu poderia esquecer? Fora meu pai quem estimulara meu amor pelas flores, quem abrira meus olhos para a 
beleza da natureza. Desci correndo com Kenneth nos braos, colhi os mais belos crisntemos que pudemos encontrar e coloquei-os nas mos de meu pai.
        O enterro foi realizado trs dias depois. Na mesma capela em que suas filhas haviam se casado, meu pai foi lembrado por pessoas com quem tinha trabalhado, 
por antigos alunos e amigos do Clube de Esqui. Com exceo de meu irmo, toda a famlia estava presente  cerimnia, que foi encerrada com seus hinos favoritos. 
Nosso luto prolongou-se por algum tempo mais, porm nenhum de ns guardou qualquer mgoa. Mais tarde, na mesma noite, escrevi em meu dirio: "Meu pai viveu verdadeiramente 
at morrer."
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO 17
       
    Minha primeira aula
    
Por volta de 1962, eu estava americanizada. Quatro anos no pas haviam feito isso comigo. Mascava chicletes, comia hambrgueres, cereais aucarados no caf da manh 
e apoiara Kennedy contra Nixon. Preparei o esprito de minha me antes de uma de suas visitas com uma carta em que a prevenia: "No se espante quando me vir usando 
tambm calas compridas para sair."
        Mas ainda sentia uma inquietao que me incomodava e que no podia explicar, uma sensao interior de que, apesar do casamento e da maternidade, eu no estava 
estabelecida na vida. Ainda no. Tentei compreender isso em meu dirio, no qual escrevi: "Ainda no sei por que estou nos Estados Unidos, mas deve haver uma razo. 
Sei que h uma fronteira adiante, e que em algum momento estarei viajando para um territrio desconhecido."
        No tenho idia da razo por que eu me sentia daquela maneira, mas, naquele vero, exatamente como havia previsto, viajei para o Oeste do pas. Manny e eu 
conseguimos trabalho na Universidade do Colorado, a nica faculdade de medicina em que havia vagas em neuropatologia e psiquiatria. Viajamos para Denver no novo 
carro conversvel de Manny. Minha me viajou conosco, ajudando a cuidar de Kenneth. A paisagem era to bela, grandiosa e ampla que reacendeu minha paixo pela natureza.
        Em Denver, descobrimos que nossa casa ainda no estava totalmente pronta. No houve problema. Estacionamos o trailer U-Haul na entrada de automvel da casa 
e partimos para uma viagem de turismo. Visitamos o irmo de Manny em Los Angeles e depois, apenas porque minha me, sem prtica de ler mapas, jurou que o Mxico 
"era logo ali", chegamos at Tijuana. Na volta, sugeri que fssemos para a juno onde o Arizona, Utah, o Colorado e o Novo Mxico se encontram, a regio dos Quatro 
Cantos.
        Foi uma tima escolha, que nos permitiu contemplar as grandes mesas, os morros altos e isolados, com flancos rochosos e abruptos, e os rochedos do Vale dos 
Monumentos. Senti uma misteriosa familiaridade com tudo aquilo, em especial quando vislumbrei  distncia uma mulher ndia a cavalo. A cena era conhecida, como se 
j a tivesse visto antes. Ento, com um arrepio de excitao, lembrei-me do sonho que tivera no navio na noite anterior  chegada nos Estados Unidos. No falei a 
respeito com Manny ou com minha me, mas, naquela noite, sentei-me na cama e deixei que minha mente fizesse perguntas, no importa at aonde fossem. E, para no 
esquecer, peguei meu dirio e escrevi:
        Sei muito pouco sobre a filosofia da reencarnao. Sempre tive uma tendncia para associar reencarnao com pessoas de vanguarda falando sobre suas vidas 
passadas em salas cheias de fumaa de incenso. No foi o tipo de educao que recebi.  dentro dos laboratrios que me sinto em casa. Mas sei agora que existem mistrios 
da mente, da psique, do esprito, que no podem ser examinados em microscpios ou testados com reaes qumicas. Com o tempo, saberei mais. Com o tempo, vou compreender.
        Denver foi a volta  realidade, em que eu buscava um objetivo para a minha vida. Isto era especialmente verdadeiro no hospital. Eu era uma psiquiatra, mas 
a psiquiatria clssica decididamente no tinha nada a ver comigo. Tentei tambm trabalhar com crianas e adultos perturbados. Mas o que acabou despertando o meu 
interesse foi o tipo de psiquiatria intuitiva que praticara com os esquizofrnicos do Hospital Estadual de Manhattan, uma espcie de interao pouco tradicional 
caso a caso, em vez de medicao e sesses em grupo. Conversei sobre isso com meus colegas de universidade, mas nenhum deles me ofereceu qualquer estmulo.
        O que iria fazer comigo mesma? Pedi conselhos a trs psiquiatras ilustres, homens de grande reputao. Sugeriram que eu fizesse anlise no famoso Instituto 
de Psicanlise de Chicago, uma soluo tradicional que no seria muito prtica para minha vida naquela ocasio.
        Ento, fui assistir a uma aula do professor Sidney Margolin, respeitado chefe do novo laboratrio de psicofisiologia do departamento psiquitrico. O professor 
Margolin chamava a ateno no pdio. Era um homem mais velho, com longos cabelos grisalhos, que falava com um forte sotaque austraco. O professor era um orador 
envolvente, um grande apresentador. Bastou escut-lo por alguns minutos para ter certeza de que afinava com ele.
        No era de espantar que as aulas do professor Margolin fossem to populares. Assisti a vrias. Era como se ele se materializasse diante da platia. Os temas 
de suas aulas eram sempre uma surpresa. Um dia, segui-o at seu consultrio e me apresentei. Ele era simptico e logo o achei ainda mais fascinante pessoalmente. 
Conversamos por um longo tempo, em alemo e em ingls. Como acontecia em suas aulas, falamos de tudo um pouco. Entre outras coisas, discuti meu dilema pessoal e 
ele contou sobre seu interesse pela tribo indgena Ute.
        Ao contrrio de seus colegas, no me aconselhou a ir para Chicago, mas incentvou-me a trabalhar em seu laboratrio. Eu aceitei.
        O professor Margolin era um chefe difcil e exigente, mas participar de seu trabalho com doenas psicossomticas foi a atividade mais gratificante a que 
me dediquei em Denver. s vezes, tudo o que eu fazia era pr em ordem os estranhos aparelhos eletrnicos que o professor resgatara de outros departamentos. Mas estava 
tudo bem. Ele no era uma pessoa convencional. Por exemplo, faziam parte da equipe de seu laboratrio um eletricista, um competente faz-tudo e uma secretria dedicada. 
O laboratrio propriamente dito transbordava de mquinas: poligrafos, eletrocardigrafos, e por a afora. O professor Margolin estava interessado em medir a relao 
entre os pensamentos e as emoes dos pacientes e a patologia. Tambm utilizava a hipnose e acreditava em reencarnao.
        Minha felicidade no trabalho refletia-se na minha vida domstica. Manny tambm estava satisfeito com seu papel como importante professor-conferencista no 
departamento de neuropatologia. Em nossa casa, tudo era como eu imaginava que a vida de famlia deveria ser. Do lado de fora, fiz um jardim de pedras suo com uma 
rvore caracterstica, flores alpinas e meus primeiros edelweiss americanos. Nos fins-de-semana, levvamos Kenneth ao jardim zoolgico e fazamos caminhadas pelas 
Montanhas Rochosas. Socialmente, passvamos muitas noites deliciosas com o professor Margolin e sua mulher, escutando msica clssica e discutindo temas que iam 
de Freud a teorias de vidas passadas.
        As decepes eram poucas, mas significativas para nossa famlia. Em 1964, nosso segundo ano em Denver, fiquei grvida duas vezes. Abortei as duas vezes. 
Era cada vez mais difcil lidar com a frustrao, mais do que com a perda. Tanto Manny quanto eu queramos outra criana. Eu queria ter dois filhos. J tinha meu 
menino. Se Deus fosse bom para mim, eu tambm teria uma menina. Ia continuar tentando.
        O professor Margolin viajava com freqncia e, certo dia, chamou-me em seu consultrio para dizer que iria  Europa dentro de duas semanas. Pensei que ele 
queria apenas conversar sobre cidades e lugares, como sempre fazia quando ambos comparvamos as lembranas das muitas viagens de nossa juventude. Entretanto, no 
se tratava daquilo nesse dia. Com seu jeito caracterstico e imprevisvel, o professor escolhera-me para substitu-lo em suas aulas na faculdade de medicina. Levei 
alguns momentos para assimilar seu pedido, e de repente fui inundada por um suor nervoso.
        No era apenas uma honra, era uma impossibilidade. O professor Margolin era um orador cheio de vivacidade e animao, cujas aulas eram mais semelhantes a 
uma atuao teatral, espetculos intelectuais com um nico ator. Atraam as maiores platias da escola. Como eu poderia fazer o mesmo papel? Quando era preciso falar 
para grupos, grandes ou pequenos, eu ficava terrivelmente tmida e insegura.
        - Voc tem duas semanas para se preparar - disse, tranqilizador. - No costumo seguir um roteiro. Se quiser, examine meus arquivos. Escolha o assunto que 
preferir.
        A inevitabilidade seguiu-se ao pnico. Nas semanas seguintes, plantei-me na biblioteca e vasculhei um livro atrs do outro tentando encontrar um tema original. 
Eu no era uma grande admiradora da psiquiatria convencional. Nem aprovava todas as drogas que se dava aos pacientes para torn-los "manejveis". Descartei tambm 
tudo o que era muito especializado, como questes relacionadas s diferentes psicoses. Afinal de contas, a maioria dos alunos que assistiriam  aula estaria interessada 
em outras especialidades alm de psiquiatria.
        Porm, precisava encher duas horas, e queria um tema que tivesse relao com o que eu achava que os futuros mdicos precisavam saber a respeito de psiquiatria. 
O que interessaria a um cirurgio ortopedista? A um urologista? Minha experincia j me ensinara que a maioria dos mdicos se mostrava distante demais em seu contato 
com o paciente. Precisavam urgentemente reconhecer os sentimentos, medos e defesas mais simples e corriqueiros que as pessoas tinham quando entravam num hospital. 
Precisavam aprender a tratar os pacientes como seus semelhantes.
        Assim, qual seria, eu me perguntava, a base comum a todos? Por mais que lesse, nada me vinha  cabea.
        Um dia, contudo, o assunto ocorreu-me repentinamente. A morte. Todos os pacientes e mdicos pensavam nisso. Muitos a temiam. Mais cedo ou mais tarde, todos 
teriam de enfrent-la. Era algo que mdicos e pacientes tinham em comum, e era provavelmente o maior mistrio da medicina. E tambm o maior tabu.
        Seria o meu tema. Tentei fazer pesquisas. Mas a biblioteca no tinha material algum sobre o assunto, a no ser um difcil tratado acadmico de psicanlise 
e alguns estudos sociolgicos sobre os rituais da morte de budistas, judeus, ndios norte-americanos e outros. Pretendia utilizar uma abordagem muito diferente. 
Minha tese era uma idia simples: para os mdicos, seria muito mais confortvel lidar com a morte se eles a compreendessem melhor, se simplesmente falassem sobre 
o que  morrer.
        Bem, eu s podia contar comigo mesma. O professor Margolin sempre dividia suas aulas em duas partes: a primeira hora era terica; na segunda, ele apresentava 
evidncias empricas em apoio ao que dissera antes. Trabalhei mais do que nunca preparando-me para a primeira hora e ento me dei conta de que teria de inventar 
alguma coisa para a segunda. O qu?
        Andei vrios dias pelo hospital procurando, pensando e esperando que alguma coisa me viesse  mente. Num desses dias, durante as visitas aos pacientes, sentei-me 
para conversar com uma menina de dezesseis anos que estava morrendo de leucemia, como j tnhamos feito muitas vezes antes, sobre a situao dela. Percebi subitamente 
que Linda era muito direta, descontrada e objetiva quando falava de seu problema. O tratamento impessoal de seu mdico acabara com qualquer esperana que ela pudesse 
ter, mas Linda tambm expressava abertamente e com muita eloqncia o rancor que sentia por sua famlia, que no estava lidando de uma forma adequada com o fato 
de ela estar morrendo. A me, recentemente, fizera publicidade do drama da filha, pedindo ao pblico para enviar cartes de "Feliz Dcimo Sexto Aniversrio" para 
o que com certeza seria o ltimo aniversrio da menina.
        Naquele dia havia chegado uma sacola enorme de cartes de cumprimentos pelo aniversrio. Eram bem-intencionados mas impessoais, escritos por pessoas totalmente 
desconhecidas. Enquanto conversvamos, porm, Linda empurrou a correspondncia para o lado com seus braos finos e frgeis. E seu rosto plido corou de raiva quando 
admitiu que teria preferido receber visitas mais significativas e afetuosas de sua famlia e de seus parentes.
        - Gostaria que eles pensassem no que estou sentindo! -desabafou, enfurecida. - Quer dizer, por que eu? Por que Deus me escolheu para morrer?
        Ela me fascinava, aquela menina corajosa, e eu sabia que os estudantes de medicina precisavam ouvi-la.
        - Diga a eles todas as coisas que voc nunca pde dizer  sua me - insistia. - Diga-lhes como  ter dezesseis anos e estar morrendo. Se est furiosa, ponha 
isso para fora. Use a linguagem que quiser. Mas fale do fundo do corao.
        No dia da aula, fui para o pdio do grande anfiteatro e li minhas anotaes, que datilografara com capricho. Talvez fosse o meu sotaque, mas a reao foi 
bem diferente da que o professor Margolin recebia. Os alunos comportavam-se de modo indesculpvel. Mascavam chicletes, conversavam entre si e tinham atitudes de 
um modo geral desrespeitosas e grosseiras. Imaginava se algum deles seria capaz de dar uma aula em francs ou alemo. Tambm pensei nas faculdades de medicina suas, 
onde os professores inspiravam o maior respeito aos alunos. Ningum se atreveria a mascar chicletes ou cochichar durante uma aula. Mas eu estava a milhares de quilmetros 
de minha antiga casa.
        Estava tambm to preocupada em terminar minha aula que no percebi a turma ir ficando mais quieta e bem-comportada  medida que eu me aproximava do fim 
da primeira hora. A essa altura, eu j estava calma e esperando ansiosamente surpreender os alunos na segunda metade com um verdadeiro paciente terminal. No intervalo, 
fui buscar minha adolescente corajosa, que se vestira com esmero e arrumara o cabelo, e empurrei sua cadeira de rodas at o centro do estrado do auditrio. Eu parecia 
uma pilha de nervos uma hora antes, mas os serenos olhos castanhos e o queixo determinado de Linda indicavam que ela estava perfeitamente calma, controlada e pronta 
para o que viesse pela frente.
        Ao voltarem do intervalo, os alunos sentaram-se quietos e apreensivos em seus lugares, enquanto eu apresentava a menina e explicava que ela generosamente 
se oferecera para responder s perguntas deles e dizer como era estar com uma doena terminal. Houve o ligeiro rudo nervoso de pessoas mexendo-se nas cadeiras e 
em seguida um silncio to profundo que chegava a incomodar. Era bvio que os alunos estavam embaraados. Quando pedi voluntrios, ningum levantou a mo. Finalmente, 
escolhi um grupo de alunos, chamei-os para virem ao estrado e disse-lhes que fizessem perguntas. S conseguiram arranjar coragem para fazer perguntas sobre a contagem 
sangnea dela, o tamanho de seu fgado, sua reao  quimioterapia e outros detalhes clnicos.
        Quando ficou claro que no iriam perguntar nada a respeito dos sentimentos pessoais dela, decidi conduzir a entrevista para a direo que eu tinha planejado. 
Mas no foi preciso. Num inflamado acesso de raiva, a prpria Linda perdeu a pacincia com seus interrogadores. Fixando neles seus imperturbveis olhos castanhos, 
ela fez e respondeu s perguntas que sempre quisera ouvir de seu mdico e da equipe de especialistas que tratava dela. Como  ter dezesseis anos e apenas mais algumas 
semanas de vida? Como  no poder sonhar com a festa de formatura? Ou com um encontro com um namorado? Ou no se preocupar com crescer e escolher uma profisso? 
Ou encontrar um marido? O que ajuda a agentar cada dia? Por que as pessoas no dizem a verdade?
        Cerca de meia hora depois, Linda cansou-se e voltou para sua cama, deixando os alunos imersos num silncio aturdido, carregado de emoo, quase reverente. 
Tinham passado por uma grande mudana. Apesar do tempo da aula j se ter esgotado, ningum se levantou para ir embora. Queriam falar mas no sabiam o que dizer, 
at que eu comecei a discusso. Vrios admitiram que Linda os comovera at as lgrimas. Por fim, eu disse que as reaes deles, embora provocadas pela menina doente, 
haviam sido de fato causadas pela admisso da prpria mortalidade, da fragilidade de suas prprias vidas. Pela primeira vez, muitos deles tinham enfrentado sentimentos 
e medos relacionados  possibilidade e inevitabilidade de sua prpria morte. No podiam deixar de pensar como seria se estivessem no lugar de Linda.
        - Agora vocs esto reagindo como seres humanos, em vez de cientistas - aventurei.
        Silncio.
        - Talvez agora vocs no apenas saibam como se sente um paciente que vai morrer, como tambm sejam capazes de trat-lo com compaixo, a mesma que desejariam 
para si mesmos.
        Esgotada pela aula, fui tomar um caf em minha sala e vi-me pensando num acidente que sofrera no laboratrio em Zurique, em 1943. Ao misturar alguns produtos 
qumicos, uma garrafa cara e explodira em chamas. Meu rosto, cabea e mos foram gravemente queimados. Passei duas semanas de dores excruciantes no hospital, sem 
poder falar nem mexer as mos, com os mdicos torturando-me todos os dias ao remover as ataduras velhas e arrancar junto a minha pele fina, ao queimar minhas feridas 
com nitrato de prata e ao enfaixar-me novamente. O prognstico deles  que eu jamais recuperaria o movimento das mos.
        No entanto, um laboratorista amigo que se esgueirava para dentro de meu quarto  noite sem que meu mdico soubesse, improvisara um aparelho que utilizava 
pesos cada vez maiores para lentamente exercitar meus dedos. Uma semana antes de minha alta, o mdico levou um grupo de estudantes para me examinar.  medida que 
explicava o caso e a razo pela qual meus dedos estavam inutilizados, reprimi a vontade de rir e repentinamente ergui a mo, flexionei e curvei os dedos, deixando-os 
sem fala.
        - Como? - perguntou.
        Contei o meu segredo e acho que todos ali aprenderam alguma coisa. Sua maneira de pensar mudara para sempre.
        Algumas horas antes, uma menina de dezesseis anos fizera o mesmo com um grupo de estudantes de medicina. Ensinara-lhes o que eu tambm estava aprendendo, 
o que era relevante e valioso no final da vida e o que desperdiava demais o tempo e energia que ainda restavam. As lies deixadas pela vida to breve de Linda 
certamente tiveram reflexos muitos anos depois de sua morte.
        Havia muito o que aprender sobre a vida escutando os pacientes terminais.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 18
      
    Maternidade
    
Na meia dzia de aulas que dei, nas quais abordei outros temas alm da questo da morte, trabalhei estimulada pela sensao de ter um objetivo. Quando o professor 
Margolin voltou, essa sensao esmoreceu. Esperava ansiosa pelo momento de finalmente me inscrever para a anlise didtica no Instituto de Psicanlise de Chicago, 
embora a idia de passar horas por dia fazendo psicanlise fosse suficiente para me fazer ficar com raiva de mim mesma. Sabia como isso estava errado quando fui 
aceita ali no princpio de 1963. Mas na ocasio tinha uma desculpa perfeita para no ir: descobri que estava grvida..
        Como no caso de Kenneth, pressenti que aquela gravidez chegaria a bom termo. Ainda assim, eu no queria correr riscos. Concordei at em me submeter a uma 
pequena interveno cirrgica, que meu obstetra disse ser necessria "para manter o beb dentro do forno". Durante os nove meses, porm, minha sade nunca esteve 
to boa, fsica e emocionalmente. No encontrava dificuldades em manter o equilbrio entre o trabalho, dirigindo uma unidade de pacientes internados destinada a 
pessoas altamente perturbadas, e a casa. Kenneth, com trs anos de idade, feliz e cheio de energia, tambm estava entusiasmado com a chegada de uma irm ou um irmo.
        Em 5 de dezembro de 63, minha bolsa d'gua se rompeu. Tinha acabado de dar uma aula. Era muito cedo para o trabalho de parto, mas sentei-me diante de minha 
escrivaninha e pedi a um aluno para chamar Manny. Como trabalhava no mesmo prdio, chegou em minutos. Eu estava me sentindo muito bem, tanto quanto antes, mas assim 
mesmo ele me levou para casa e telefonou para o obstetra. Meu obstetra no se mostrou preocupado e disse-me para repousar e ir ao consultrio na segunda-feira.
        - S precisa ficar na cama, controlar sua temperatura e no fazer esforos.
        Para um homem,  fcil falar. Se eu fosse ficar no hospital na segunda-feira, precisava antes fazer alguns preparativos. Passei o fim-de-semana congelando 
refeies para Manny e Kenneth e colocando roupas numa mala. Na segunda-feira pela manh, ainda me sentia bem, mas minha parede abdominal estava dura como uma pedra 
quando entrei bamboleando no consultrio do obstetra. Meu mdico ficou alarmado e receoso com essa anormalidade. Seu diagnstico foi peritonite, uma infeco que 
envolve risco de vida e que poderia ter sido evitada se tivesse sido examinada no dia em que a minha bolsa d'gua se rompeu.
        Levaram-me s pressas para um hospital catlico nas proximidades, onde as freiras se prepararam para induzir o parto, enquanto meu mdico me informava que 
o beb provavelmente seria pequeno demais para sobreviver.
        - O beb certamente no resistir se usarmos qualquer medicao para a dor - disse.
        E a essa altura eu j estava sentindo dores intensas. Um simples toque em meu estmago causava-me dores lancinantes, em ondas sucessivas, que tomavam conta 
de mim inteiramente.
        Reparei que as freiras haviam preparado uma mesa com gua benta e toda a parafernlia necessria para um batismo. Sabia o que significava. Achavam que o 
beb iria morrer. Em vez de se preocuparem comigo e com a minha sade, queriam ter certeza de que poderiam batizar o recm-nascido antes que morresse.
        Durante quarenta e oito horas, as ondas de dor alternaram-se com as fases de inconscincia. Manny ficou ao meu lado, mas no tinha como me ajudar a fazer 
qualquer progresso. Quase parei de respirar uma vez e em vrias outras pensei que estivesse morrendo. Perto do final, o mdico tentou diminuir a dor com uma anestesia 
raquidiana. Mas nada fazia efeito. O que quer que fosse acontecer teria de acontecer naturalmente. Enfim, depois de dois dias de dores, ouvi o choro de um beb recm-nascido. 
E algum disse: " uma menina!"
        Apesar de todos acharem que o beb nasceria morto, Brbara estava bem viva e lutando para continuar assim. Pesava um pouco menos de um quilo e meio. Examinei 
seu rosto por um momento antes que uma freira sasse depressa para coloc-la numa incubadora. Mais tarde, eu chamaria a ateno para a semelhana do nascimento dela 
com o meu, "uma coisinha  toa de menos de um quilo" que no se esperava que sobrevivesse. Naquela hora, porm, esgotada pelas dores constantes, mal tive foras 
para sorrir para a menina que tanto desejara, antes de cair num sono profundo e satisfeito.
        Fui para casa trs dias depois. Para minha tristeza, no pude levar minha filha comigo. Ela estava tendo dificuldades para ganhar peso e os mdicos achavam 
que deveria permanecer no hospital at ficar mais forte. No decorrer da semana seguinte, ia l de trs em trs horas para amament-la. Os pediatras no gostaram 
quando disse que poderia cuidar melhor de meu beb em casa, mas, afinal, depois de sete dias, vesti meu jaleco branco e eu mesma tirei Barbara do hospital.
        Agora o quadro estava completo. Eu tinha uma casa, um marido e meus lindos Kenneth e Barbara. O trabalho em casa aumentou. Mas lembro-me de estar na cozinha 
numa noite e ver Kenneth embalando a irmzinha no colo. Manny lia em sua cadeira. Meu pequeno mundo parecia estar em ordem.
        Entretanto, Manny, o nico neuropatologista de Denver, comeou a ficar impaciente. Suas ambies no estavam sendo satisfeitas ali e ele ansiava por mais 
estmulo intelectual. Compreendi o que sentia e disse-lhe para procurar outra colocao. Eu iria para qualquer lugar onde ele encontrasse a melhor oportunidade para 
ns dois. Na primavera de 1965, levei as crianas para umas frias na Sua e, quando voltamos, Manny havia encontrado trabalho para ns em Albuquerque, Novo Mxico 
e Chicago. A escolha no era difcil.
        No incio do vero, mudamos para Chicago. Encontramos uma casa moderna, de dois andares, em Marynook, um bairro de classe mdia afastado do centro e onde 
havia integrao racial. Manny aceitou uma boa oferta de trabalho no Centro Mdico da Universidade do Noroeste e eu fui para o departamento psiquitrico do Hospital 
Billings, que era ligado  Universidade de Chicago, alm de tomar providncias para comear a anlise didtica no Instituto Psicanaltico.
        A expectativa da anlise no era algo que me animasse muito. Esqueci convenientemente o assunto at que o telefone tocou num dia em que eu estava esvaziando 
caixas da mudana. Ouvi uma voz masculina autoritria, bastante arrogante. J dava vontade de desistir. A pessoa informou-me que minha primeira sesso com um analista 
escolhido pelo Instituto estava programada para a segunda-feira seguinte.
        Expliquei que tnhamos acabado de nos mudar e eu ainda no tinha quem ficasse com as crianas, portanto, a ocasio no era das melhores. Mas ele no estava 
interessado em desculpas.
        Dali em diante, tudo foi de mal a pior. Em minha primeira sesso, mofei na sala de espera por quarenta e cinco minutos. Quando meu analista me mandou entrar 
no consultrio, sentei-me e esperei que me dissesse o que fazer. Nada aconteceu. O tempo passou em meio a um silncio tenso e aflitivo. O analista s fazia olhar 
para mim com um ar infeliz. Senti-me como se estivesse sendo torturada. Afinal, ele perguntou:
        - Voc pretende ficar a sentada o tempo todo sem dizer nada? Tomando aquilo como uma deixa, fiz um esforo para falar sobre minha vida passada e minhas 
dificuldades por ter sido trigmea. Depois de vrios minutos, porm, ele me interrompeu. Disse que no conseguira entender uma palavra do que eu tinha acabado de 
falar e concluiu que meu problema era bastante bvio. Eu tinha um impedimento de fala.
        - No sei como o Instituto pensou em voc para anlise didtica - disse. - Voc mal consegue falar.
        J chegava. Levantei-me, sa e bati a porta. Mais tarde,  noite, ele telefonou para a minha casa e insistiu para que eu voltasse para uma outra sesso, 
ao menos para dissipar a nossa antipatia mtua. Por alguma razo maluca, aceitei. Mas a segunda sesso durou ainda menos do que a primeira. Cheguei  concluso de 
que simplesmente no gostvamos um do outro e no fazia sentido perder tempo tentando descobrir o motivo.
        Contudo, no desisti da anlise. Depois de pedir indicaes, finalmente estabeleci uma rotina com o doutor Helmut Baum. Durou trinta e nove meses. Acabei 
percebendo que a anlise tinha um certo valor. Adquiri uma nova viso sobre certos aspectos de minha personalidade, por que motivos eu era to teimosa e independente.
        Ainda assim, no me tornei uma admiradora da psicanlise clssica, nem das novidades farmacuticas altamente divulgadas de meu departamento. Achava que se 
costumava depender demais dos remdios. Minha opinio era de que os antecedentes sociais, culturais e familiares dos pacientes no recebiam a ateno devida. Tambm 
protestava contra a importncia atribuda  publicao de ensaios cientficos e  notoriedade que isso proporcionava. No me parecia que lidar com pacientes e seus 
problemas fosse considerado to importante quanto as atividades acadmicas que estavam por trs disso.
        Com certeza, por isso minha primeira paixo foi trabalhar com os estudantes de medicina. Todos tinham uma enorme vontade de aprender e estavam sempre abertos 
a novos conhecimentos. Tinham interesse em discutir novas idias, opinies, atitudes e projetos de pesquisas. Queriam ter suas prprias experincias. Precisavam 
de algum que cuidasse deles como uma me. Em pouco tempo, meu consultrio comeou a funcionar como um m para alunos desse tipo, que espalharam a notcia de que 
havia um lugar no campus onde se podiam ventilar idias e problemas para algum que lhes dava ouvidos com pacincia e compreenso. Tenho a impresso de que ouvi 
ali todas as perguntas possveis. E ento uma delas mostrou-me por que eu no estava em Chicago por acaso.
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 19
      
    Sobre a morte e o morrer
    
Minha vida era um espetculo de equilibrismo que teria assustado Freud e Jung. Alm de enfrentar o trfego do centro de Chicago, procurar uma empregada, lutar com 
Manny para ter minha prpria conta bancria para fazer as compras de mercado, eu preparava minhas aulas e dava apoio psiquitrico a outros departamentos. s vezes, 
achava que no teria como lidar com qualquer responsabilidade a mais.
        Num dia do outono de 1965, porm, bateram  porta de meu consultrio. Quatro rapazes do Seminrio Teolgico de Chicago apresentaram-se e disseram que estavam 
fazendo pesquisas para um ensaio cuja tese era que a morte seria a suprema crise com a qual as pessoas precisavam lidar. No sei como, tinham conseguido uma transcrio 
de minha primeira aula em Denver, mas algum lhes dissera que eu tambm escrevera um ensaio sobre o assunto, que no tinham conseguido encontrar, e assim haviam 
buscado um contato direto comigo.
        Ficaram decepcionados quando lhes disse que tal ensaio no existia, mas convidei-os para sentar e conversar. No me surpreendia que alunos de seminrio estivessem 
interessados na morte e no morrer. Tinham tantos motivos para estudar o assunto quanto qualquer mdico. Tambm lidavam com pacientes moribundos. Teriam certamente 
suas prprias perguntas sobre a morte e o processo de morrer que no podiam ser respondidas pela Bblia.
        Durante nossa conversa, os estudantes admitiram que se sentiam confusos e incapazes de saber o que diriam s pessoas que lhes fizessem perguntas sobre a 
morte e o processo de morrer. Nenhum deles jamais falara com uma pessoa agonizante ou vira um cadver. Perguntaram se eu teria alguma sugesto sobre a maneira como 
poderiam adquirir essa experincia prtica. Sondaram at a possibilidade de observarem uma de minhas visitas a um paciente moribundo. Mal sabiam que estavam dando 
o primeiro impulso em meu trabalho sobre a morte e o morrer.
        Ao longo da semana seguinte, pensei em quantas vezes meu trabalho de apoio psiquitrico me colocava em contato com pacientes de oncologia, medicina interna 
e ginecologia. Alguns pacientes sofriam de doenas terminais; outros ficavam sentados sozinhos, lutando contra a ansiedade, enquanto esperavam por tratamentos com 
radiao, quimioterapia ou um simples raio-X. Mas todos estavam assustados, confusos, solitrios e queriam muito uma outra pessoa ali para terem com quem dividir 
suas preocupaes. Eu fazia isso naturalmente. Bastava uma nica pergunta e era como se estivesse abrindo a comporta de um dique.
        Assim, passei a observar as alas do hospital durante os meus plantes  procura de um paciente terminal que estivesse disposto a falar com os estudantes 
de teologia. Perguntei a vrios outros mdicos se estavam tratando de algum paciente terminal, mas eles reagiram com repulsa  idia. O mdico responsvel pela ala 
com a maior quantidade de doentes terminais no s no permitiu que eu falasse com qualquer de seus pacientes como me repreendeu e acusou-me de tentar "explor-los". 
Poucos mdicos nessa poca sequer admitiam que seus pacientes estivessem morrendo, de modo que o que eu sugeria era bastante radical. Talvez devesse ter sido mais 
delicada e poltica.
        Por fim, um mdico indicou um homem idoso em sua ala. O homem estava morrendo de enfisema. Os mdicos disseram algo como: "Tente aquele. No pode prejudic-lo." 
Entrei imediatamente no quarto do homem e aproximei-me de sua cama. Tinha tubos presos a seu corpo para ajud-lo a respirar e estava evidentemente fraco. Mas era 
perfeito. Perguntei se ele se importaria que eu voltasse no dia seguinte com quatro estudantes para fazer-lhe perguntas sobre como se sentia naquela etapa de sua 
vida. Senti que ele compreendera minha misso. Mas sugeriu que trouxesse os estudantes na mesma hora.
        - No - disse. - Vou traz-los amanh.
        Meu primeiro erro foi no escutar o que ele me dizia. Ele tentara avisar que tinha pouco tempo. Eu no escutei.
        No dia seguinte, levei os quatro seminaristas at seu quarto, mas ele estava mais fraco ainda do que na vspera, incapaz de dizer mais do que uma ou duas 
palavras. Reconheceu-me, contudo, e agradeceu a nossa presena apertando minha mo na sua. Uma lgrima desceu pelo seu rosto.
        - Obrigado por tentar - sussurrou.
        Depois de ficar sentada perto dele por alguns instantes, levei os estudantes de volta ao meu consultrio. Quase ao mesmo tempo em que entramos no consultrio, 
fui avisada de que o homem havia morrido.
        Senti-me desprezvel por ter posto minhas prioridades de tempo na frente das do paciente. O homem havia morrido sem poder partilhar com outro ser humano 
o que estava to ansioso por dizer no dia anterior. Acabei encontrando outro paciente disposto a falar com meus seminaristas. Aquela primeira lio, porm, foi dura, 
nunca mais a esqueci.
        Talvez o maior obstculo a enfrentar quando se procura compreender a morte seja o fato de que  impossvel para o inconsciente imaginar um fim para sua prpria 
vida. O inconsciente s  capaz de compreender a morte sob uma perspectiva: uma sbita e assustadora interrupo da vida por meio de uma morte trgica, um assassinato 
ou uma das muitas doenas horrveis que existem. Na mente de um mdico, a morte significa outra coisa. Significa colapso, falncia, declnio. Eu no podia deixar 
de observar como todos no hospital evitavam o assunto.
        Naquele hospital moderno, a morte era um acontecimento triste, solitrio e impessoal. Os pacientes terminais eram encaminhados para os quartos dos fundos. 
Na sala de emergncia, os pacientes ficavam em total isolamento, enquanto mdicos e parentes discutiam se deveriam ou no contar a eles o que havia de errado. Para 
mim, havia sempre uma nica pergunta que precisava ser feita: "De que modo vamos todos, ns e ele, compartilhar essa informao?" Se algum me perguntasse qual  
a situao ideal para um paciente que vai morrer, eu voltaria  minha infncia e descreveria a morte do fazendeiro que foi para casa morrer junto da famlia e dos 
amigos. A verdade  sempre a melhor opo.
        Os grandes avanos da medicina haviam convencido as pessoas de que a vida deveria ser indolor. Como a morte estava associada  dor, o assunto era evitado. 
Os adultos raramente faziam referncia a qualquer coisa que estivesse relacionada com a morte. As crianas eram despachadas para outros cmodos da casa quando o 
assunto era inevitvel na conversa. Mas fatos so fatos. A morte  parte da vida, a parte mais importante da vida. Mdicos brilhantes que sabiam como prolongar a 
vida no compreendiam que a morte era parte dessa mesma vida. Quando no se tem uma boa vida, estando a includos todos os momentos finais, no se pode ter uma 
boa morte.
        A necessidade de explorar essas questes de um ponto de vista acadmico, cientfico, era to grande quanto era inevitvel que a responsabilidade viesse cair 
em cima dos meus ombros. Como as de meu mentor, o professor Margolin, minhas aulas sobre esquizofrenia e outras doenas mentais eram populares e ao mesmo tempo consideradas 
pouco ortodoxas na faculdade de medicina. Minha experincia com os quatro estudantes de teologia era discutida pelos alunos mais ousados e questiona-dores. Pouco 
antes do Natal, uns seis estudantes de medicina e de teologia perguntaram-me se eu poderia conseguir outra entrevista com um paciente terminal.
        Disse a eles que tentaria e, seis meses depois, no primeiro semestre de 1967, eu estava coordenando um seminrio a cada sexta-feira. Nenhum nico membro 
do corpo docente do hospital comparecia, refletindo o que todos pensavam acerca dessas reunies, que por outro lado eram imensamente populares entre os estudantes 
de medicina e teologia, assim como para um nmero surpreendente de enfermeiras, padres, rabinos e assistentes sociais. Para acomodar as pessoas que ficavam de p, 
transferi os seminrios para um grande auditrio, embora a entrevista com o paciente terminal fosse realizada numa sala menor equipada com um vidro cego e um sistema 
de udio, de modo que havia pelo menos a iluso de privacidade.
        Todas as segundas-feiras, eu comeava a procurar um paciente. Nunca era fcil, j que a maioria dos mdicos via-me como uma pessoa doentia e considerava 
os seminrios uma espcie de explorao. Meus colegas mais diplomticos inventavam desculpas para justificar por que seus pacientes no eram bons candidatos. A maior 
parte simplesmente me proibia de falar com os pacientes deles em estado crtico. Numa tarde em que estava recebendo um grupo de padres e enfermeiras em meu consultrio, 
o telefone tocou e, quando atendi, ouvi um dos mdicos dizer, com a voz alta e zangada:
        - Como  que voc se atreve a falar a respeito de morte com a senhora K., quando ela nem sabe como sua doena  grave e pode ser que ainda v para casa mais 
uma vez?
        Era exatamente isso. Os mdicos que no aprovavam meu trabalho nem meus seminrios eram em geral os que tratavam de pacientes que lamentavelmente tinham 
dificuldades para lidar com suas doenas. Com os mdicos to bloqueados em questes de sua prpria alada, os pacientes nunca tinham oportunidade de discutir suas 
preocupaes.
        Meu objetivo era atravessar a camada de negao profissional que proibia os pacientes de revelarem suas preocupaes mais profundas. Lembro-me de uma das 
vezes em que procurava em vo um paciente adequado para uma entrevista. Um mdico atrs do outro dizia-me que ningum em suas alas estava morrendo. Ento, dei com 
um senhor idoso no corredor lendo um jornal com a seguinte manchete: "Velhos Soldados Nunca Morrem". Pelo aspecto dele, conclu que sua sade estava declinando e 
perguntei se no o incomodava ler assuntos como aquele. Lanou-me um olhar de desdm, como se eu fosse um dos mdicos que preferiam no lidar com a realidade. Bem, 
ele acabou sendo um grande entrevistado.
        Olhando para trs, penso que sexo era mais uma agravante na resistncia que enfrentei. Como uma mulher que sofrera quatro abortos e dera  luz duas crianas 
saudveis, eu aceitava a morte como parte do ciclo natural da vida. Eu no tinha outra opo. Era inevitvel. Era o risco que se corria ao dar  luz, assim como 
era o risco que se aceitava simplesmente pelo fato de estar viva. Entretanto, os mdicos - em sua maioria homens -, com poucas excees, todos encaravam a morte 
como uma espcie de fracasso.
        Naqueles primeiros dias do que seria conhecido como o nascimento da tanatologia, ou o estudo da morte, a melhor professora que tive foi uma faxineira negra. 
No me lembro de seu nome, mas sempre a encontrava nos corredores, de dia ou  noite, dependendo de nossos plantes. O que chamou minha ateno, no entanto, foi 
o efeito que sua presena causava em muitos dos pacientes mais graves. Cada vez que ela saa dos seus quartos, eu notava uma diferena palpvel nas atitudes deles.
        Queria saber o segredo dela. Tomada por uma curiosidade irrefrevel, eu literalmente espionava essa mulher que nunca estudara numa faculdade, mas sabia um 
grande segredo.
        Ento, certo dia, cruzamos uma com a outra no corredor. E, de repente, eu estava dando a mim mesma uma das instrues que sempre dava a meus alunos: "Pelo 
amor de Deus, quando tiver uma pergunta a fazer, faa." Enchendo-me de coragem, caminhei na direo da faxineira, numa abordagem de confronto que certamente a surpreendeu, 
e, sem nenhuma sutileza ou seduo, disse, direto:
        - O que voc est fazendo com meus pacientes terminais? Naturalmente, ela ficou na defensiva.
        - Estou apenas limpando o cho - disse, num tom de voz educado, e afastou-se.
        - No  sobre isso que estou falando - disse, tarde demais. Ao longo das duas semanas seguintes, bisbilhotamos uma a respeito da outra, desconfiadas. Era 
quase como um jogo. Finalmente, numa tarde, ela se aproximou de mim no corredor e empurrou-me para trs do posto de enfermagem. A cena era esquisita: uma professora-assistente 
de psiquiatria toda vestida de branco sendo puxada por aquela humilde faxineira negra.
        Quando ficamos inteiramente sozinhas, onde ningum nos podia ouvir, ela revelou-me a histria trgica de sua vida, abrindo-me seu corao e sua alma de uma 
maneira que estava acima de minha compreenso.
        Do sul de Chicago, ela cresceu na pobreza e na misria. Sua casa era um cortio, onde no havia gua quente nem aquecimento e as crianas estavam sempre 
desnutridas e doentes. Como a maioria das pessoas pobres, no sabia como se defender das doenas ou da fome. As crianas enchiam com aveia barata suas barrigas que 
doam e mdicos eram algo que s existia para outro tipo de pessoas. Um dia, seu menino de trs anos de idade ficou muito doente, com pneumonia. Ela o levou para 
o setor de emergncia de um hospital prximo, mas no foi atendida porque estava devendo dez dlares ali. Desesperada, andou at o Hospital Cook, onde eram obrigados 
a aceitar indigentes.
        L, infelizmente, entrou numa sala cheia de gente como ela, com grave necessidade de atendimento mdico. Disseram-lhe que esperasse. Depois de trs horas 
sentada aguardando a vez de ser atendida, viu seu filho arquejar, sufocar e morrer, enquanto ela o embalava em seus braos.
        Embora fosse impossvel no sentir aquela perda, o que mais me impressionou foi a maneira como a mulher contou sua histria. Ao mesmo tempo que estava profundamente 
triste, no demonstrava negatividade, amargura ou ressentimento, nem fazia acusaes. Ao contrrio, deixava transparecer por inteiro uma paz que me surpreendia. 
Era to estranho, e eu era to ingnua ento, que quase perguntei: "Por que est me contando tudo isso? O que isso tem a ver com meus pacientes terminais?" Ela, 
porm, olhou para mim com seus olhos escuros cheios de doura e compreenso e respondeu, como se lesse a minha mente:
        - Sabe, a morte no  uma estranha para mim.  uma velha conhecida, de muito tempo.
        E transformei-me na aluna diante da professora.
        - No tenho mais medo dela - continuou, com sua voz mansa, calma e objetiva. - s vezes, quando entro no quarto desses doentes, vejo que esto simplesmente 
petrificados de medo e no tm ningum com quem falar. Ento, chego perto deles. E muitas vezes at seguro suas mos e digo a eles que no se preocupem, que no 
 to horrvel assim.
        E no disse mais nada.
        Pouco tempo depois, promovi-a de faxineira a minha principal assistente. Ela me proporcionou o apoio de que eu precisava quando ningum o estava dando. Isso 
tambm se tornou uma lio que tentei passar adiante. No precisamos de gurus especiais ou conselheiros para crescer. H mestres sob todas as formas e disfarces. 
Crianas, os doentes terminais, uma faxineira. Nenhuma teoria ou cincia do mundo ajuda tanto uma pessoa quanto um outro ser humano que no tem medo de abrir o corao 
para seu semelhante.
        Ainda bem que havia um pequeno nmero de mdicos compreensivos que me autorizou o acesso a seus pacientes terminais. Aquelas visitas iniciais sempre seguiam 
a mesma rotina simples. Vestindo meu jaleco branco, com meu nome e ttulo, "Apoio Psiquitrico", eu pedia permisso para fazer perguntas a eles diante de meus alunos 
a respeito de sua doena, sua hospitalizao e quaisquer outros assuntos que desejassem comentar. Nunca usava as palavras "morte" e "morrer" at que eles as pronunciassem. 
Nada alm do nome, idade e diagnstico deles me interessava. Geralmente, os pacientes concordavam em poucos minutos em participar. Na verdade, no me lembro de nenhum 
deles jamais se ter recusado.
        O auditrio ficava lotado meia hora antes da hora marcada para a aula. Alguns minutos antes, eu levava pessoalmente o paciente numa maca ou cadeira de rodas 
para a sala de entrevistas. Antes de comearmos, eu me recolhia por um instante para pedir que o paciente no fosse prejudicado e que minhas perguntas permitissem 
que ele partilhasse conosco o que tinha necessidade de partilhar. Era como a prece dos Alcolatras Annimos:
        
Que Deus me conceda
a serenidade de aceitar as coisas que no posso mudar, a coragem para mudar as coisas que posso mudar e a sabedoria para distinguir a diferena.

        Quando os pacientes comeavam a falar - e para alguns apenas sussurrar j era um desafio e uma sobrecarga enormes -, era difcil faz-los interromper o fluxo 
de sentimentos que tinham sido obrigados a reprimir. No perdiam tempo com conversa fiada. A maioria dizia que no descobrira qual era a sua doena atravs de seus 
mdicos, mas ao perceber uma mudana no comportamento de sua famlia e de seus amigos. De uma hora para outra, havia um distanciamento e uma insinceridade enormes, 
quando o que mais precisavam era de saber a verdade. A maioria achava que as enfermeiras mostravam mais empatia e disposio para ajudar do que os mdicos.
        - Esta  a sua oportunidade de dizer a eles por qu - eu falava.
        Eu sempre disse que os pacientes moribundos eram meus melhores mestres, mas era preciso coragem para escut-los. Os pacientes no se intimidavam quando se 
tratava de expressar sua insatisfao com os cuidados mdicos recebidos - no os cuidados fsicos, mas a falta de compaixo, empatia e compreenso. Mdicos experientes 
passavam por momentos difceis ao serem retratados como insensveis, assustados ou inconvenientes. Lembro de uma mulher que praticamente gritou:
        - Tudo o que o meu mdico quer  discutir o tamanho de meu fgado. A essa altura, o que me interessa saber qual  o tamanho do meu fgado? Tenho cinco filhos 
em casa que precisam de algum para cuidar deles.  isso que est me matando. E ningum fala comigo sobre esse assunto!
        Ao final dessas entrevistas, os pacientes sentiam alvio. Muitos dos que j tinham perdido as esperanas e se sentiam inteis deleitavam-se com seu novo 
papel de professores. Embora estivessem morrendo, percebiam que suas vidas ainda podiam ter um objetivo, que tinham uma razo para viver at o ltimo suspiro. Ainda 
estavam crescendo, e o mesmo acontecia com os que se encontravam na platia.
        Depois de cada entrevista, eu levava o paciente novamente para seu quarto e voltava para a sala de aula para os debates, sempre intensos e carregados de 
emoo. Alm de analisar as respostas do paciente, examinvamos nossas prprias reaes. As pessoas geralmente admitiam coisas com uma franqueza surpreendente. "Nem 
me lembro direito quando vi uma pessoa morta", disse uma mdica, que sentia medo da morte a tal ponto que evitava a questo completamente. "No sei o que dizer", 
revelou um padre, referindo-se ao que considerava as limitaes da Bblia para responder s perguntas que os pacientes faziam. "E ento no digo nada."
        No decorrer desses debates, mdicos, padres e assistentes sociais defrontavam-se com sua hostilidade e suas defesas. Seus medos eram analisados e superados. 
Escutando os pacientes terminais, todos ns aprendamos o que deveramos ter feito de outra maneira no passado e o que podamos fazer melhor no futuro.
        Cada vez que entrava com um paciente e depois o levava embora, a vida dele lembrava-me "uma das milhes de luzes no vasto firmamento que cintilam por um 
breve instante e em seguida desaparecem na noite infinita". As lies que cada uma daquelas pessoas nos ensinava traziam todas, no fundo, a mesma mensagem:
        Viva de tal modo que, ao olhar para trs, no se arrependa de ter desperdiado sua vida.
        Viva de tal modo que no se arrependa do que fez ou no deseje ter agido de outra forma.
        Viva uma vida digna e plena.
        Viva.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 20
      
    De corpo e alma
    
Na minha busca constante por pacientes que pudesse apresentar nos seminrios das sextas-feiras, desenvolvi o hbito de esquadrinhar os corredores do hospital  noite 
antes de ir para casa. Poucos colegas se dispunham a me ajudar. Em casa, Manny s conseguia escutar at certo ponto o falatrio sobre minhas frustraes, antes de 
perder a pacincia. Ele tinha seu prprio trabalho. Sentia-me muitas vezes a criatura mais solitria de todo o hospital, to solitria que uma noite entrei na sala 
do capelo.
        No podia imaginar ento o favor que estava fazendo a mim mesma. O capelo do hospital, o reverendo Renford Gaines, estava sentado diante de sua escrivaninha. 
Era um homem negro, alto e bonito, com mais de trinta anos. Seus movimentos, assim como suas palavras, eram lentos e ponderados. Eu conhecia bem o reverendo Gaines 
de nossos seminrios. Ele costumava freqent-los e era um de meus alunos mais interessados. Como era previsvel, ele achava que as discusses e reflexes que ocorriam 
ali ajudavam-no a aconselhar os pacientes moribundos e suas famlias.
        Naquela noite, o reverendo e eu estvamos na mesma sintonia. Ambos conclumos que falar sobre a morte e o morrer nos havia ensinado que as questes que realmente 
preocupavam a maioria dos pacientes referiam-se  vida, e no  morte. Os pacientes queriam franqueza, privacidade e paz. Isto evidenciava que a maneira como uma 
pessoa morria dependia da maneira como vivera. E abrangia ao mesmo tempo o aspecto prtico e o filosfico, o psicolgico e o espiritual - em outras palavras, os 
dois mundos que ns dois ocupvamos.
        No decorrer das semanas seguintes, o reverendo e eu passamos horas a fio trancados conversando, o que geralmente me impedia de chegar em casa num horrio 
razovel para providenciar o jantar. Mas animamos e ensinamos um ao outro. Para algum como eu, treinada para pensar e agir de acordo com a razo e a cincia, o 
mundo do esprito que o reverendo Gaines revelava era um alimento intelectual que eu devorava com sofreguido. Habitualmente, evitava as questes relacionadas  
espiritualidade em meus seminrios e nas conversas com os pacientes, porque eu era uma psiquiatra. Porm, o interesse do reverendo Gaines por meu trabalho oferecia-me 
uma oportunidade nica. Com a experincia dele, eu poderia ampliar o alcance de meu trabalho incluindo nele a religio.
        Durante uma de nossas conversas, pedi a meu novo amigo para se associar a mim no meu trabalho. Felizmente, ele aceitou. Da em diante, o reverendo Gaines 
passou a acompanhar-me quando eu visitava pacientes terminais e assessorava-me durante os seminrios. Em matria de estilo, um completava perfeitamente o outro. 
Eu indagava o que estava se passando dentro da cabea do paciente. O reverendo Gaines indagava o que estava acontecendo com sua alma. Nosso ritmo era o de um bom 
jogo de pingue-pongue. Os seminrios adquiriram ainda mais sentido.
        Outras pessoas pensavam o mesmo. Entre estas, as mais importantes eram os prprios pacientes. Somente um em duzentos recusava-se a falar dos problemas causados 
por sua doena. Talvez vocs estejam se perguntando por que eles se mostravam to dispostos a falar. Considerem, entretanto, o caso da primeira paciente que o reverendo 
Gaines e eu apresentamos juntos. A senhora G., uma mulher de meia-idade, sofrera de cncer durante meses e, enquanto estivera hospitalizada, fizera questo de que 
todos, dos membros da famlia s enfermeiras, sofressem junto com ela. Aps vrias semanas de aconselhamento, porm, o reverendo Gaines acalmou o rancor que ela 
sentia e fez com que restabelecesse de tal modo as boas relaes com as pessoas, que ela comeara a conversar, realmente conversar com os outros e estava gostando 
do contato com as pessoas que amava E essas pessoas estavam tambm gostando dela.
        Na ocasio em que foi entrevistada em nosso seminrio, a senhora G. era nada mais do que uma casquinha frgil, mas estava inteiramente transformada.
        - Nunca vivi tanto em toda minha vida de adulta - confessou. O mais inesperado voto de confiana veio no incio de 1969.
        Depois de mais de trs anos realizando meus seminrios, recebi uma delegao do Seminrio Luterano de Chicago, que ficava prximo. Preparei-me para uma discusso 
acalorada. Em vez disso, eles me convidaram para fazer parte de seu corpo docente. Tentei encontrar argumentos para no me envolver em controvrsias, apresentando 
todo tipo de desculpas para convenc-los de que no era a pessoa certa, inclusive mencionando o fato de eu no gostar de religio. Mas eles insistiram.
        - No estamos pedindo que nos ensine teologia - explicaram. - Isso ns sabemos fazer muito bem. Mas acreditamos que voc possa nos mostrar o significado 
de um verdadeiro sacerdcio em termos prticos.
        Era difcil discutir com eles, pois eu concordava que era uma boa idia ter um professor que falasse uma linguagem no-teolgica ao ensinar como atender 
a pacientes terminais. Com exceo do reverendo Gaines e dos estudantes de teologia, minha experincia com sacerdotes tinha sido desastrosa. Ao longo dos anos, os 
pacientes que haviam pedido para falar com capeles de hospital decepcionaram-se. "Tudo o que querem fazer  ler o que est em seus livrinhos pretos", era o que 
eu ouvia sempre. De fato, as verdadeiras questes eram evitadas com alguma citao conveniente da Bblia e a sada rpida do capelo, inseguro sobre o que fazer.
        O que causava mais mal do que bem. Posso ilustrar isso com uma histria a respeito de uma menina de doze anos chamada Liz. Encontrei-a muitos anos depois 
de ter estado no seminrio, mas o que aconteceu com ela ainda assim  relevante. Morrendo de cncer, ela foi levada para casa, onde ajudei sua me, seu pai e trs 
irmos e irms a superarem as dificuldades diversas que cada um deles enfrentava diante da lenta deteriorao dela. No final, porm, aquela criana, que definhara 
a ponto de se ter transformado num esqueleto com uma barriga enorme, dilatada por um tumor, sabia sobre a realidade de sua situao mas recusava-se assim mesmo a 
morrer.
        - Por que voc no quer morrer? - perguntei a ela.
        - Porque no posso ir para o cu - disse, chorosa. - Os padres e as freiras disseram que ningum vai para o cu se no amar a Deus mais do que a qualquer 
pessoa no mundo. - E fungou. Ento, Liz chegou-se mais para perto de mim. - Doutora Ross, gosto da mame e do papai mais do que de qualquer pessoa no mundo inteiro.
         beira das lgrimas, falei simbolicamente a respeito daquela tarefa to difcil que Deus dera a ela. Era como na escola, quando os professores davam os 
problemas mais difceis apenas para os melhores alunos. Ela compreendeu e disse:
        - Acho que Deus no poderia dar uma tarefa mais difcil do que esta para nenhuma outra criana.
        Alguns dias mais tarde, Liz afinal se deixou ir. Mas aquele foi um dos casos que me fez gostar menos de religio.
        Ainda assim, os luteranos convenceram-me a aceitar o cargo de professora. Minha primeira aula, apenas duas semanas depois da reunio com eles, foi dada para 
um auditrio lotado. Ningum fez perguntas sobre o que eu achava de religio, principalmente quando comecei questionando seu conceito de pecado.
        - Para que serve mais, alm de promover sentimentos de culpa e de medo? S o que faz de construtivo  dar clientes aos psiquiatras! - acrescentei com uma 
risada, para que soubessem que tambm estava fazendo o papel de advogado do diabo.
        Nas aulas seguintes, tentei estimul-los a examinar seu compromisso com a vida religiosa. Se achassem que era difcil discutir por que razo o mundo precisava 
de grupos religiosos diferentes, muitas vezes conflitantes, quando todos tentavam ensinar os mesmos princpios bsicos de sabedoria, o futuro para eles iria ser 
bem complicado.
        Tornei-me to popular que o seminrio me pediu para selecionar provveis alunos e indicar os que no iriam at o fim. Era algo interessante. Cerca de um 
tero dos alunos com que falei acabou deixando o seminrio, muitos deles tornando-se assistentes sociais ou dedicando-se a atividades relacionadas a essa rea. De 
modo geral, a experincia de ensinar e entrevistar alunos foi fascinante. Mas parei depois de um semestre. As exigncias que esse trabalho impunha ao meu tempo j 
sobrecarregado eram excessivas, mesmo para uma viciada em trabalho como eu.
        Eu j tinha um trabalho muito interessante relacionado a aulas. Nunca me surpreendia com o muito que os pacientes terminais podiam ensinar-me em meus seminrios, 
nem com o que os alunos ensinavam uns aos outros. Muitas vezes, achei que no merecia colher os louros por nada daquilo. Na verdade, meu maior pesadelo era um dia 
ter de ficar dez minutos sozinha diante do auditrio sem um paciente. S de pensar, j entrava em pnico. O que eu diria?
        E, um dia, aconteceu. Dez minutos antes do incio de um seminrio, o paciente que iria entrevistar morreu inesperadamente. Com cerca de oitenta pessoas sentadas 
no auditrio, alguns tendo sado de longe para chegar at o hospital, eu no queria cancelar o seminrio. Por outro lado, no havia como encontrar um paciente para 
substituir o que morrera. Paralisada no corredor, de onde ouvia o burburinho dos alunos dentro do auditrio, no tinha noo do que fazer sem a nica pessoa que 
eu sempre apresentava como o verdadeiro professor.
        Quando me vi diante da platia, porm, deixei-me levar pela inspirao e a aula acabou sendo fantstica. Como a maior parte das pessoas presentes trabalhava 
em hospital ou estava ligada de alguma forma ao hospital e  escola de medicina, perguntei-lhes qual era o maior problema de seu trabalho de todos os dias. Em vez 
de falar com um paciente, iramos discutir qual era o maior desafio que costumavam enfrentar.
        - Digam o que cria maiores dificuldades para vocs - disse.
        De incio, a sala ficou mergulhada em completo silncio, mas, depois de alguns instantes de constrangimento, vrias mos se ergueram. Para minha surpresa, 
as duas primeiras pessoas chamadas a falar disseram que um mdico em especial, na verdade um chefe de departamento que trabalhava quase que exclusivamente com pacientes 
com cncer em estado avanado, era o problema. Ele era brilhante, explicaram, mas, quando algum sequer insinuava que um de seus pacientes poderia no reagir a um 
tratamento, o mdico replicava com aspereza. Outras pessoas na platia que conheciam a pessoa sacudiram a cabea, concordando.
        Apesar de no dizer nada, identifiquei imediatamente o mdico, com quem j entrara em choque inmeras vezes. No tolerava suas maneiras bruscas, sua arrogncia 
nem sua insinceridade. Em duas ocasies, como chefe do servio de apoio psiquitrico, fora chamada para atender seus pacientes terminais. Ele havia dito a um deles 
que no tinha cncer nenhum e a outro que logo se sentiria melhor, que era s uma questo de tempo. Os raios-X de ambos revelavam a existncia de grandes e inoperveis 
metstases.
        Aquele mdico era, sem dvida, um dos que precisavam de um psiquiatra. Tinha um srio problema com a morte e o morrer, embora eu no pudesse dizer isso para 
nenhum dos dois pacientes. No iria ajud-los se criticasse outra pessoa, especialmente algum em quem confiavam.
        No seminrio, porm, era diferente. Fizemos de conta que o doutor M. era o paciente e falamos dos problemas que tnhamos com ele. Depois, discutimos o que 
esses problemas nos diziam sobre ns mesmos. Quase todo o auditrio admitiu ter prevenes contra colegas, outros mdicos ou enfermeiras que revelavam algum distrbio 
de comportamento. Julgavam-nos de modo diferente do que costumavam julgar um paciente normal. Concordei e usei meus prprios sentimentos com relao ao doutor M. 
como exemplo.
        - No se pode ajudar uma outra pessoa sem gostar um pouquinho dela - disse. E em seguida fiz uma pergunta: - H algum aqui que goste dele?
        Em meio a muitas caretas e olhares hostis, uma moa ergueu a mo lentamente, cheia de hesitao.
        - Voc est passando bem? - perguntei, meio brincando, meio espantada.
        Seguiu-se uma risada geral. E a enfermeira levantou-se, muito digna em sua calma e clareza.
        - Vocs no conhecem esse homem - afirmou. - No conhecem a pessoa que ele .
        Agora, todos estavam quietos. Sua voz delicada cortou o silncio com uma descrio detalhada do doutor M. comeando suas visitas aos pacientes tarde da noite, 
horas depois de todos os outros mdicos j terem ido para casa.
        - Ele comea no quarto mais distante do posto de enfermagem e vem seguindo at o local onde costumo ficar sentada - explicou. - Entra no primeiro quarto 
de cabea alta, parecendo confiante e sob controle. No entanto, cada vez que sai de um dos quartos, suas costas esto um pouco mais curvas. Sua postura vai ficando 
cada vez mais parecida com a de um velho.
        A enfermeira reencenava o drama noturno, fazendo todos imaginarem a cena.
        - Quando sai do quarto do ltimo paciente, d a impresso de estar arrasado. D para ver que ele est completamente destitudo de qualquer alegria, esperana 
ou satisfao por seu trabalho.
        Se assistir a esse drama noite aps noite j era suficiente para afet-la, imagine-se o estado daquele mdico! No havia uma nica pessoa com os olhos secos 
no auditrio quando a enfermeira confessou o desejo antigo que tinha de um dia pousar sua mo no mdico, como um amigo faria, e dizer-lhe que compreendia como seu 
trabalho era duro e desesperanado. Mas o sistema de castas do hospital no lhe permitia um comportamento to humano.
        - Sou apenas uma enfermeira - disse.
        No entanto, aquele tipo de compaixo e compreenso amiga era precisamente a ajuda de que o mdico precisava. E, como aquela jovem enfermeira era a nica 
na sala que se preocupava com ele, ela teria de manifestar tais sentimentos. Disse-lhe que precisava esforar-se para tomar uma atitude.
        - No pense muito - disse. - Faa o que seu corao mandar. - E acrescentei: - Se o fizer, vai estar ajudando tambm uma poro de pessoas.
        Tirei uma semana de frias e, ao voltar, estava pondo o trabalho em dia em meu consultrio quando a porta se escancarou e uma moa entrou correndo. Era a 
enfermeira do seminrio.
        - Consegui! - contou-me. - Eu consegui!
        Na sexta-feira anterior, ela observara o doutor M. enquanto ele fazia sua ronda e acabava, como ela o definira, um homem arrasado. O drama repetiu-se no 
sbado, mas com uma complicao. Dois dos pacientes dele haviam morrido naquele dia. No domingo, ela viu quando ele saiu do ltimo quarto, curvado e deprimido. Obrigando-se 
a agir, aproximou-se dele, implorando a si mesma a coragem de estender a mo. Porm, antes que pudesse faz-lo, exclamou:
        - Meu Deus, deve ser to difcil!
        Inopinadamente, o doutor M. agarrou-lhe o brao e levou-a para seu consultrio. Por trs da porta fechada, ela foi testemunha do desabafo de todo o pesar, 
mgoa e angstia que ele reprimia. Ele falou de todos os sacrifcios que precisara fazer para cursar a faculdade de medicina; como seus amigos tinham empregos e 
dinheiro quando ele comeou seu perodo de residncia; e como sonhava curar seus pacientes, enquanto os outros, com a mesma idade que ele, estavam constituindo famlia 
e construindo casas de campo. Sua vida tinha sido aprender uma especialidade, no viver. Agora, finalmente, ele era chefe de seu departamento. Ocupava uma posio 
que podia realmente fazer diferena para a vida de seus pacientes.
        - Mas eles todos morrem - soluava. - Um depois do outro. Todos morrem sob os meus cuidados.
        Quando ouviram essa histria no seminrio seguinte - A Morte e o Morrer -, todos se deram conta do poder extraordinrio que uma pessoa tem de curar outras 
apenas tomando coragem para agir sob o impulso do corao. Em um ano, o doutor M. comeou suas consultas psiquitricas comigo. Cerca de trs anos depois, estava 
em terapia de tempo integral. Sua vida melhorou de forma impressionante. Em vez de transformar-se num depressivo consumado, o doutor M. redescobriu as maravilhosas 
qualidades que possua, o afeto e compreenso que o haviam motivado a tornar-se mdico.
        Se ele soubesse a quantas pessoas a histria dele tem ajudado ao longo de todos esses anos...
        
       
       
       
       CAPTULO 21
       
    Minha me
    
Tudo parecia perfeito, um modelo de completa satisfao. Em 1969, mudamo-nos para uma linda casa projetada pela firma de Frank Lloyd Wright, em Flossmoor, um bairro 
de classe alta afastado do centro. Meu novo jardim espalhava-se por uma extenso to ampla que Manny e as crianas me deram um minitrator de presente de aniversrio. 
Manny adorava seu novo escritrio e instalou ali um grande sistema de som estreo, de modo que eu pudesse escutar msica country enquanto andava para l e para c 
dentro do que era a cozinha dos meus sonhos. As crianas estavam matriculadas numa das melhores escolas pblicas da cidade.
        Mas eu tinha a impresso de que estava tudo perfeito demais para estar certo. Era como um sonho do qual poderia acordar a qualquer momento. E, de fato, acordei 
um dia de manh sabendo qual era a causa de minha inquietao. L estvamos ns, na terra da fartura, sem que nos faltasse nada, a no ser pelo fato de que eu no 
havia passado para meus filhos o que tinha sido a coisa mais importante de minha infncia. Queria que eles soubessem o que era acordar bem cedo e percorrer a p 
as colinas e montanhas, apreciar as flores, os diferentes tipos de relva, os grilos e as borboletas. Queria que, durante o dia, eles colhessem flores-do-campo e 
catassem pedras coloridas e,  noite, deixassem as estrelas encherem suas cabeas de sonhos.
        No parei para pensar no que deveria fazer. No seria eu. Agindo rpido, tirei Kenneth e Barbara da escola na semana seguinte e voei para a Sua, para casa. 
Minha me foi ao nosso encontro em Zermatt, um encantador vilarejo alpino onde no entravam automveis e a vida era quase igual  de cem anos antes. Era isso mesmo 
o que eu queria. O tempo estava deslumbrante. Levei as crianas para fazer caminhadas. Subiram montanhas, caminharam ao longo de riachos e correram atrs de animais. 
Colheram flores e levaram pedras para casa. Ficaram com os rostos corados. Foi uma experincia inesquecvel.
        Entretanto, como se viu depois, no por causa de nada disso. Na nossa ltima noite l, minha me e eu pusemos as crianas na cama. Ela ainda se demorou um 
pouco com elas para mais beijos e abraos de boa-noite enquanto eu saa para a varanda. Estava me balanando numa cadeira rstica de madeira quando as portas de 
correr do quarto se abriram e ela veio para perto de mim desfrutar do ar fresco da noite.
        Ns duas ficamos admirando a lua, encantadas. Parecia estar flutuando acima do Matterhorn. Minha me estava sentada a meu lado. Ficamos em silncio a maior 
parte do tempo, entregues aos nossos pensamentos. A semana tinha sido melhor do que eu imaginara. Sentira-me mais feliz do que nunca. Pensei em todos os habitantes 
das cidades do mundo inteiro, que nunca se esforavam para ver um cu to maravilhoso. Toleravam suas vidas vendo televiso e bebendo lcool. Minha me parecia igualmente 
satisfeita, com o momento e com sua vida.
        No sei por quanto tempo ficamos sentadas em silncio, aproveitando a companhia uma da outra, at minha me por fim quebrar o encantamento. Poderia ter dito 
um milho de coisas naquele instante, exceto o que de fato disse:
        - Elisabeth, no vivemos para sempre.
        Existem razes para as pessoas fazerem certas coisas em determinados momentos. Eu no tinha idia por que minha me, naquela hora e naquele lugar, resolvera 
dizer tal coisa. Talvez fosse por causa da imensido do cu. Talvez porque ela se sentisse  vontade e prxima de mim depois de nossa semana juntas.
        E talvez, como hoje acredito, tivesse uma premonio, uma percepo do futuro. Seja como for, ela prosseguiu:
        - Voc  a nica mdica da famlia e, se houver uma emergncia, conto com voc.
        Que emergncia? Apesar dos seus setenta e sete anos, ela tinha feito todas as caminhadas sem uma queixa, sem problemas. Sua sade estava perfeita.
        Eu no sabia o que dizer. Queria gritar alguma coisa para ela. Mas ela no me deu oportunidade. Continuou com aquele assunto mrbido, dizendo:
        - Se algum dia eu me transformar num vegetal, quero que voc acabe com a minha vida.
        Eu a escutava cada vez mais contrariada e disse qualquer coisa como: "Pare de falar assim", mas minha me reiterou seu pedido. Sabe-se l por que razo, 
estava estragando a noite e talvez at as frias todas.
        - No diga bobagens - reclamei. - Nada disso vai acontecer. Minha me parecia no se importar com o que eu estava achando, e de fato no podia garantir que 
ela no acabaria como um vegetal. A conversa estava ficando muito enervante. Finalmente, aprumei o corpo e disse  minha me que era contra o suicdio e que nunca, 
nunca mesmo, ajudaria quem quer que fosse a comet-lo, muito menos minha me, a pessoa querida que me dera  luz e cuidara de mim para que eu vivesse.
        - Se acontecer alguma coisa, vou fazer com voc o que fao com todos os meus pacientes - disse. - Vou ajud-la a viver at a hora da sua morte.
        De algum modo, conseguimos encontrar uma maneira de acabar aquela conversa perturbadora. No havia mais o que dizer. Levantei-me da cadeira e abracei minha 
me. As lgrimas desciam pelos rostos das duas. J era tarde, hora de dormir. No dia seguinte, iramos para Zurique. Eu queria s pensar nos bons tempos, no no 
futuro.
        De manh, aquele clima estava desfeito. Minha me voltou ao seu natural e saboreamos a viagem de trem para Zurique. Manny encontrou-nos l e fomos para um 
hotel de luxo, que era mais o estilo dele. No me importei, pois meu "tanque" estava cheio do ar fresco dos Alpes e de flores-do-campo. Uma semana depois, voamos 
de volta para Chicago. Sentia-me totalmente rejuvenescida, a no ser pela conversa com minha me, que no conseguia tirar da cabea. Tentei no dar ateno ao assunto, 
mas era uma nuvem escura em minha mente.
        Ento, trs dias mais tarde, Eva telefonou para minha casa e disse que o carteiro tinha encontrado nossa me cada no cho do banheiro. Ela havia tido um 
derrame agudo.
        Segui no primeiro avio para a Sua e fui direto para o quarto de minha me no hospital. Sem poder se mexer nem falar, ela olhava para mim e havia milhares 
de palavras em seu olhar profundo, dolorido, triste e assustado. O significado daquele olhar era uma splica, que eu compreendi. J sabia, porm - como soubera antes 
-, que nunca poderia atender ao pedido dela. Nunca poderia ser o instrumento de sua morte.
        Os dias que se seguiram foram difceis. Fiquei sentada muito tempo, esperei e monologuei com minha me. Apesar de seu corpo ser incapaz de reagir, ela me 
respondia com os olhos. Uma piscadela era um sim. Duas eram um no. s vezes, conseguia apertar minha mo com sua mo esquerda. No final da semana, sofreu mais alguns 
derrames menos intensos. Perdeu o controle da bexiga. Com isso, passou a ser considerada um vegetal. "Est confortvel?" Uma piscadela. "Quer ficar aqui?" Duas piscadelas. 
"Amo voc."
        Ela apertava a minha mo.
        Era exatamente a situao que ela temia durante nossas frias da semana anterior. Ela chegara a prevenir-me: "Se algum dia eu me transformar num vegetal, 
quero que voc acabe com a minha vida." O pedido que me fizera na varanda ecoava em minha cabea. Ser que ela sabia que isso estava para acontecer? Ser que teve 
uma premonio? Existiria esse tipo de conscincia interior?
        Fiz a mim mesma a pergunta: "Como posso ajud-la a tornar esse tempo que resta de sua vida mais suportvel e agradvel?"
        Tantas perguntas. To poucas respostas.
        Se havia um Deus, eu refletia em silncio, agora era a hora em que Ele deveria entrar na vida dela, em agradecimento por seu amor desinteressado pela famlia, 
educando os filhos para serem pessoas respeitveis, produtivas, de valor.  noite, eu tinha longas conversas com Ele. Numa tarde, cheguei a entrar numa igreja e 
falar diretamente para o crucifixo:
        - Deus, onde est Voc? - perguntava com amargura. - Ser que est me ouvindo? Voc existe mesmo? Minha me era uma mulher ntegra, dedicada, trabalhadora. 
Quais so os seus planos para ela, agora que realmente precisa de Voc? - Mas no havia resposta. Nenhum sinal. Nada alm do silncio.
        Vendo minha me definhar em seu casulo de desamparo e angstia, eu quase gritava implorando por alguma interferncia divina. Quando estava sozinha, exigia 
que Deus fizesse alguma coisa, e rpido. Se Deus estava ouvindo, porm, no parecia estar com pressa. Xingava-o com palavras horrveis em suo e em ingls. Nem 
assim Ele se abalava.
        Apesar de nossas prolongadas discusses sobre o assunto com mdicos do hospital e mdicos particulares, restaram-nos apenas duas opes. Minha me poderia 
continuar naquele mesmo hospital, onde todas as alternativas de tratamento seriam tentadas, apesar de haver pouqussimas possibilidades de uma recuperao mnima. 
Ou poderamos remov-la para uma clnica de repouso menos dispendiosa, onde ela receberia os cuidados necessrios, mas no seriam utilizados recursos artificiais 
para prolongar sua vida. Ou seja, nada de respiradores ou outras mquinas.
        Minhas irms e eu tivemos uma longa e tensa conversa. Ns trs sabamos o que nossa me teria escolhido. Manny, que a considerava a sua segunda me, deu 
sua opinio de especialista pelo telefone. Felizmente, Eva j havia encontrado uma excelente clnica de repouso dirigida por religiosas protestantes em Riehen, perto 
de Basilia, onde ela e seu segundo marido haviam construdo uma casa nova. Nessa poca, ainda no existiam as instituies especializadas em cuidados a pessoas 
moribundas nos moldes das de hoje, mas as freiras dedicavam a vida a cuidar desses pacientes especiais. Reunindo todas as recomendaes possveis, conseguimos que 
nossa me fosse aceita ali.
        Com o tempo de minha licena do hospital se esgotando, decidi acompanhar minha me na ambulncia de Zurique at Riehen. Para dar coragem a ns duas, levei 
comigo uma garrafa de conhaque. Tambm fiz uma lista, bastante curta, dos bens que minha me mais prezava, alm de uma lista de parentes e pessoas que tinham algum 
significado em sua vida, especialmente os que a tinham ajudado nos anos subseqentes  morte de meu pai. Essa lista era mais longa.
        Durante o percurso, distribumos as coisas dela para as pessoas apropriadas. Passamos muito tempo tentando resolver quem ganharia o qu, como a gola e o 
chapu de mink que havamos mandado para ela de Nova York. Sempre que conseguamos escolher a pessoa certa para alguma coisa, comemorvamos com um gole da bebida. 
O enfermeiro da ambulncia no parecia muito seguro a respeito daquilo, mas eu lhe disse:
        - No se preocupe, sou mdica.
        No fizemos apenas algo que daria paz de esprito a minha me; quando chegamos  clnica de repouso, estvamos realmente nos divertindo. O quarto dava para 
um jardim. Ela gostou do lugar. Durante o dia, poderia ouvir pssaros cantando nas rvores.  noite, teria uma viso do cu. Antes de me despedir, enfiei um leno 
perfumado em sua mo semi-boa. Ela tinha esse costume. Vi que estava tranqila e satisfeita, num lugar onde a qualidade de sua vida era a principal considerao.
        Por alguma razo, Deus quis mant-la viva assim durante mais quatro anos. Seu estado desafiava todas as probabilidades de sobrevivncia. Minhas irms cuidavam 
para que ela estivesse sempre confortvel e nunca se sentisse solitria. Eu a visitava com freqncia. Meus pensamentos sempre se voltavam para aquela noite proftica 
em Zermatt. Ouvia a voz dela insistindo para que eu acabasse com sua vida se ela se tornasse um vegetal. Era evidente que tivera uma premonio, porque se transformara 
na imagem perfeita daquilo que temia. Era trgico.
        De qualquer modo, eu sabia que no era o fim. Minha me continuou a sentir amor e a dar amor.  sua maneira, estava crescendo e aprendendo as lies que 
tinha de aprender, quaisquer que fossem. Seria bom se todos tivessem conhecimento disso, que a vida termina quando acabamos de aprender tudo o que temos para aprender. 
Portanto, a hiptese de acabar com a vida dela, como me havia pedido, tornava-se mais impensvel ainda do que antes.
        Gostaria de saber por que minha me teve esse fim. Perguntava-me sem cessar qual seria a lio que Deus estava querendo ensinar quela mulher to amorosa.
        Cheguei at mesmo a refletir se no seria ela quem estava ensinando alguma coisa a ns todos.
        Enquanto sobrevivesse sem ajuda artificial, contudo, nada mais havia a fazer a no ser dar-lhe o nosso amor.
        
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO 22
       
    A finalidade da vida
    
Era inevitvel ter de procurar pacientes fora do hospital. Meu trabalho com doentes terminais incomodava muitos dos meus colegas. Poucas pessoas l dentro mostravam-se 
dispostas a falar sobre a morte. Era difcil at mesmo encontrar quem admitisse que as pessoas estavam morrendo. A morte no era um assunto sobre o qual os mdicos 
normalmente falassem. Portanto, quando minha procura semanal por pacientes terminais se tornou quase impossvel, comecei a fazer visitas s casas de pacientes com 
cncer que moravam em bairros da vizinhana, como Homewood e Flossmoor.
        Propunha-lhes um acordo de benefcio mtuo. Em troca de terapia gratuita em casa, os pacientes seriam entrevistados em meus seminrios. Essa abordagem provocou 
ainda mais controvrsias no hospital, onde meu trabalho j era considerado uma explorao. Ento, a situao piorou ainda mais. Quando os pacientes e suas famlias 
comearam a declarar publicamente o quanto apreciavam meu trabalho, os outros mdicos descobriram mais uma razo para no gostar de mim. Eu no podia vencer.
        Mas comportei-me como uma vencedora. Alm de ser me e mdica, prestava servios voluntrios em diversas organizaes. Uma vez por ms, selecionava candidatos 
para o Corpo da Paz (American Peace Corps), onde acho que no conseguiam ter uma opinio definida a meu respeito, pois eu tinha uma tendncia para aprovar os que 
gostavam de correr riscos, em vez dos mais moderados e prudentes, que meus companheiros preferiam. Tambm passava metade de um dia a cada semana no Instituto Lighthouse 
para Cegos, de Chicago, trabalhando com pais e crianas. Mas tenho a impresso de que recebia mais do que dava a eles.
        As pessoas que encontrava naquele lugar, tanto os adultos quanto as crianas, estavam todas lutando contra o triste quinho que a sorte lhes destinara. Observava 
como lidavam com sua limitao. Suas vidas eram como uma montanha-russa em que se alternavam bruscamente desnimo e coragem, depresso e conquistas. Perguntava constantemente 
a mim mesma o que eu, que enxergava, podia fazer para ajudar aquela gente. O que mais fazia era escut-los, mas era tambm uma espcie de cheerleader, incentivando-os 
a "ver" que ainda era possvel viverem uma vida plena, produtiva e feliz. Que a vida era um desafio, no uma tragdia.
        s vezes, era pedir demais. Mais do que eu gostaria, vi bebs que tinham nascido cegos ou com hidrocefalia serem postos de lado e considerados vegetais, 
sendo em seguida colocados em clnicas onde ficariam para sempre. Um enorme desperdcio de vidas. Tambm das vidas de seus pais, que no tinham encontrado auxlio 
ou apoio. Notei que muitos pais de filhos nascidos cegos tinham a mesma seqncia de reaes que meus pacientes terminais. A realidade era muitas vezes difcil de 
aceitar. Mas qual era a outra opo?
        Lembro-me de uma me que passou os nove meses de uma gravidez sem problemas, e tudo indicava que teria uma criana saudvel. Na sala de parto, contudo, alguma 
coisa aconteceu e sua filha nasceu cega. A me reagiu como se tivesse havido uma morte na famlia, o que era uma reao normal. E, depois que recebeu ajuda para 
superar o trauma inicial, comeou a ter esperanas que a filha, chamada Heidi, um dia terminasse um curso universitrio e aprendesse uma profisso. Era uma atitude 
saudvel e maravilhosa.
        Lamentavelmente, envolveu-se com certos profissionais que lhe disseram que seu sonho no era realista. Aconselharam-na a internar a criana numa clnica 
especializada. A famlia ficou desolada. Antes de tomarem qualquer providncia, porm, procuraram ajuda no Lighthouse, que foi onde a encontrei.
        Evidentemente, eu no podia fazer nenhum milagre que devolvesse a viso da filha, mas podia ouvir os problemas da me. Quando me perguntou o que eu pensava, 
disse a ela, que queria tanto um milagre, que nenhuma criana vem ao mundo to defeituosa quanto pensamos, pois Deus sempre lhes concede algum talento especial.
        - Deixe de lado as suas expectativas - disse. - Tudo o que tem a fazer  apegar-se  sua filha, am-la como um presente de Deus.
        - E depois? - perguntou.
        - Na hora certa, Deus vai permitir que esse talento se manifeste - respondi.
        No tenho idia de onde me vieram essas palavras, mas acreditava no que estava dizendo. E a me da criana saiu com novas esperanas.
        Muitas anos mais tarde, eu estava lendo um jornal quando encontrei um artigo sobre Heidi, a menina cega do Lighthouse. J crescida, Heidi era uma pianista 
promissora e ia apresentar-se em pblico pela primeira vez. O crtico desmanchava-se em elogios ao seu talento. Mais que depressa, procurei entrar em contato com 
a me, que me contou, cheia de orgulho, como lutara para criar a filha. Ento, repentinamente, Heidi revelara talento para a msica, um talento que tinha desabrochado 
como uma flor, e a me atribuiu grande importncia s minhas palavras de estmulo.
        - Teria sido to fcil rejeit-la - disse. - Como aquelas pessoas me disseram que fizesse.
        Naturalmente, eu partilhava esses momentos gratificantes com minha famlia, esperando que as crianas aprendessem a dar valor ao que tinham. No h nada 
garantido na vida, a no ser a certeza de que todos temos de enfrentar dificuldades.  assim que aprendemos. Alguns enfrentam dificuldades desde o momento em que 
nascem. De todas as pessoas, essas so as mais especiais, as que exigem maior solicitude, maior compaixo e as que nos lembram que o amor  a nica finalidade da 
vida.
        Acreditem ou no, algumas pessoas realmente achavam que eu sabia do que estava falando. Uma delas era Clement Alexander, diretor da editora Macmillan, de 
Nova York. De alguma forma, um pequeno ensaio que escrevera baseado em meus seminrios sobre a morte e o morrer tinha ido parar na mesa dele, o que o fez voar at 
Chicago para perguntar se eu queria escrever um livro sobre meu trabalho com pacientes terminais. Fiquei atnita, mais ainda quando ele me deu um contrato para assinar 
em que me oferecia sete mil dlares por um texto de cinqenta mil palavras.
        Bem, concordei, com a condio de ter trs meses para escrever o livro. Isso no era problema para a Macmillan. Fiquei sozinha, ento, tentando imaginar 
como conseguiria cuidar de duas crianas, um marido, um emprego em horrio integral e vrias outras coisas, e ainda por cima escrever um livro. Reparei que, no contrato, 
meu livro j tinha um ttulo, Sobre a Morte e o Morrer. Gostei. Telefonei para Manny e contei-lhe a novidade. Depois, comecei a pensar em mim mesma como escritora 
e mal podia acreditar.
        E por que no? Eu tinha inmeras anamnsias e observaes amontoadas em minha cabea. Levei trs semanas sentada em minha escrivaninha at tarde da noite, 
para formar uma idia a respeito do livro. Ento, vi nitidamente como todos os meus pacientes terminais - na verdade, todas as pessoas que sofrem uma perda - passavam 
por estgios semelhantes. O primeiro era o choque e a negao, depois vinham a raiva e o rancor e finalmente a mgoa e a dor. Mais tarde, negociavam com Deus. Depois, 
ficavam deprimidos, perguntando: "Por que eu?" E, por fim, retraam-se por algum tempo, afastando-se dos outros enquanto buscavam alcanar um estado de paz e aceitao 
(no de resignao, que ocorre quando no tm com quem partilhar as lgrimas e a raiva).
        Na realidade, eu tinha observado com maior clareza a evoluo desses estgios nos pais que havia encontrado no Light-house. Eles associavam o nascimento 
de um filho cego a uma perda: a perda da criana normal e saudvel que esperavam. Passavam pelo choque e pela raiva, pela negao e pela depresso e, com um pouco 
de terapia, finalmente conseguiam aceitar o que no podia ser mudado.
        Pessoas que haviam perdido, ou estavam em vias de perder, algum parente prximo passavam pelos mesmos cinco estgios, comeando com negao e choque. "No 
 possvel que minha mulher esteja morrendo. Ela acabou de ter um beb. Como  que pode me deixar aqui sozinho?" Ou exclamavam: "No, no pode ser, no  possvel 
que eu esteja morrendo!" A negao  uma defesa, uma forma normal e saudvel de lidar com ms notcias repentinas e inesperadas. Permite que a pessoa considere a 
possibilidade do fim de sua vida e em seguida volte ao dia a dia de sempre.
        Quando a negao deixa de ser vivel,  substituda pela raiva. Em vez de continuar a perguntar "Por que eu?", o paciente pergunta "Por que no ele?". Esse 
estgio  especialmente difcil para as famlias, os mdicos, as enfermeiras, os amigos, etc. A raiva do paciente espalha-se como tiro de chumbo grosso. Os fragmentos 
voam em todas as direes. Acertam todo mundo. Ele sente raiva de Deus, de sua famlia, de qualquer pessoa que esteja saudvel. Tambm pode estar querendo dizer 
a todos em altos brados: "Estou vivo, no se esqueam disso." Sua raiva no deve ser considerada como algo pessoal, dirigida especialmente a algum.
        Quando lhes  permitido dar vazo  sua raiva sem culpa ou vergonha, costumam passar pelo estgio da negociao. "Por favor, deixe que minha mulher viva 
pelo menos para ver essa criana ir para o jardim-de-infncia." E ento acrescentam uma prece mais curta: "Ao menos at que ela acabe a faculdade. A ter idade 
bastante para enfrentar a morte da me." E assim por diante. Notei logo que as promessas que as pessoas faziam a Deus nunca eram mantidas. Negociavam literalmente, 
elevando a parada a cada vez.
        Entretanto, o tempo que passam negociando  vantajoso para quem os est tratando. O paciente, apesar de sentir raiva, no est mais to tomado pela hostilidade 
que no seja capaz de ouvir. No est deprimido a ponto de no poder se comunicar. Pode estar atirando a esmo, mas os tiros no esto acertando nada. Eu aconselhava 
que essa era a melhor ocasio para ajudar os pacientes a resolverem qualquer pendncia que tivessem.
        Para ir aos seus quartos. Enfrentar velhas disputas. Pr lenha na fogueira. Deix-los externar sua raiva, deix-la sair, e os velhos dios com certeza se 
transformariam em amor e compreenso.
        Em um determinado momento, os pacientes passam por uma profunda depresso diante das enormes mudanas que esto ocorrendo.  natural. Quem no sentiria o 
mesmo? Nesse ponto, ou sua doena no pode mais ser negada ou graves limitaes fsicas se impem. Com o tempo, podem surgir tambm problemas financeiros.  comum 
a aparncia fsica sofrer mudanas drsticas e debilitantes. Uma mulher de repente passa a achar que a perda de um seio torna-a menos mulher. Quando preocupaes 
como esta so encaradas aberta e diretamente, os pacientes costumam reagir muito bem.
        A forma mais difcil de depresso  a que ocorre quando o paciente se d conta de que vai perder tudo e todas as pessoas que ama.  uma espcie de depresso 
silenciosa. Nesse estado, no h nenhum lado positivo a explorar. Nem existem palavras de consolo que possam ser ditas para proporcionar alvio a algum entregue 
a um estado de esprito que desistiu do passado e est tentando sondar um futuro insondvel. A melhor ajuda nessa situao  aceitar o pesar do paciente, dizer uma 
prece, apenas fazer um gesto de carinho ou sentar-se junto a ele na cama.
        Quando os pacientes tm a oportunidade de expressar sua raiva, chorar, se lamentar, resolver suas questes pendentes, verbalizar seus medos e passar por 
todos os estgios iniciais, chegam ento ao estgio da aceitao. No estaro felizes, mas no sentiro mais depresso ou raiva.  um perodo de resignao silenciosa 
e meditativa, de serena expectativa. A luta anterior desaparece e  substituda por muito sono. Em Sobre a Morte e o Morrer, contei que um paciente chamava de "o 
descanso final antes da longa viagem".
        Dois meses depois, terminei o livro. Percebi que havia escrito exatamente o tipo de livro que tinha procurado na biblioteca ao fazer a pesquisa para minha 
primeira aula. Pus a verso final na caixa do correio. No sabia se Sobre a Morte e o Morrer seria ou no um livro importante, mas estava inteiramente convencida 
de que as informaes que continha, essas sim, eram muito importantes. Esperava que as pessoas no interpretassem erradamente a mensagem do livro. Meus pacientes 
terminais nunca se curavam do ponto de vista fsico, mas todos melhoravam emocional e espiritualmente. Na verdade, sentiam-se muito melhor do que a maioria das pessoas 
saudveis.
        Mais tarde, algum iria me perguntar o que tinha aprendido com todos aqueles pacientes terminais a respeito da morte. Primeiro, pensei em dar uma explicao 
precisa do ponto de vista clnico, mas isso no seria coerente comigo. Meus pacientes terminais ensinaram-me muito mais do  que simplesmente o que  estar morrendo. 
Partilharam comigo lies sobre o que poderiam ter feito, o que deveriam ter feito e o que no tinham feito at j ser tarde para fazer, quando j estavam doentes 
ou fracos demais, quando j eram vivos ou vivas. Refletiram sobre suas vidas e seu passado e ensinaram-me todas as coisas que tm verdadeiro significado, no para 
a morte, mas sim para a vida.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 23
      
    Fama
    
O dia no trabalho foi ruim. Um de meus residentes, meio hesitante, perguntou se eu teria tempo para dar-lhe uma opinio sobre um problema. Pensando que fosse alguma 
coisa ligada a relacionamentos pessoais, disse que sim. O que ele contou, porm, foi que lhe tinham oferecido um lugar em meu prprio departamento com um salrio 
inicial de quinze mil dlares. Queria saber se aquilo era aceitvel.
        Como eu era sua chefe, tentei esconder meu espanto e descrena. Meu prprio salrio era trs mil dlares menor. No era a primeira vez que verificava um 
preconceito contra as mulheres, mas aquele no me desagradou menos.
        Ento, o reverendo Gaines disse-me que queria sair do hospital e estava procurando uma outra colocao. Cansado da poltica do hospital, queria sua prpria 
parquia, um lugar onde pudesse tentar mudanas mais significativas na comunidade. Fiquei deprimida ao pensar que no teria mais o apoio dirio de meu nico aliado 
verdadeiro no hospital.
        Fui para casa com vontade de ficar na cozinha e desaparecer do mundo. Mas at isso era impossvel. Recebi um telefonema de um jornalista da revista Life. 
Queria saber se podia escrever uma matria baseada em um de meus seminrios sobre a morte e o morrer na universidade. Respirei fundo, uma boa coisa quando no se 
sabe o que dizer. Apesar de ingnua a respeito de publicidade, estava cansada de no ter nenhum apoio. Respondi que sim, julgando que poderia mudar a qualidade de 
vida de inmeras pessoas se meu trabalho ficasse mais conhecido.
        Tendo acertado com o jornalista uma data para a entrevista, comecei a procurar um paciente para o seminrio. Foi mais difcil do que de costume, pois o reverendo 
estava fora da cidade.
        Seu superior, quando ouviu falar de um artigo para a revista Life, ofereceu-se logo para substitu-lo, mas no seria de grande ajuda para encontrar um paciente 
terminal para a entrevista.
        Ento, num dia melanclico, ao passar pelo corredor I-3, a ala ocupada pela maioria dos pacientes de cncer, olhei casualmente por uma porta entreaberta. 
Naquele momento, meus pensamentos estavam em outro lugar. Nem estava pensando em procurar um paciente. Mas chamou-me a ateno a moa excepcionalmente bonita que 
estava naquele quarto. Decerto eu no era a primeira pessoa a olhar para ela e parar.
        No entanto, o olhar dela tambm encontrou o meu e atraiu-me para dentro do quarto. Seu nome era Eva. Tinha vinte e um anos. Era uma beleza de moa, de cabelos 
escuros, to bonita que poderia at ter se tornado atriz, se no estivesse morrendo de leucemia. Mas ainda era um verdadeiro foguete, expansiva, engraada, sonhadora 
e calorosa. E alm disso estava noiva.
        - Olhe s - disse, mostrando-me a aliana, e pensei que ela poderia ter tido uma vida inteira pela frente.
        Contudo, preferia falar de sua vida do momento. Queria que seu corpo fosse doado para uma faculdade de medicina, no queria um enterro. Estava zangada com 
o noivo porque este no aceitava sua doena.
        - Ele est desperdiando o nosso tempo - dizia. - Afinal de contas, no tenho muito sobrando,
        O que notei com grande satisfao  que Eva queria viver o mximo possvel, viver ainda novas experincias, inclusive a de participar de um de meus seminrios. 
Ouvira falar deles e perguntou se poderia participar. Era a primeira vez que um paciente terminal se adiantava ao meu pedido.
        - O fato de ter leucemia no me torna aceitvel?
        Sem dvida, mas primeiro queria preveni-la sobre a revista Life.
        - timo! - exclamou. - Quero ir com certeza.
        Comentei que talvez ela quisesse falar antes com seus pais sobre o assunto.                                                    ,
        - No  preciso - disse. - J tenho vinte e um anos. Posso tomar minhas prprias decises.
        E podia mesmo. No final da semana, levei-a numa cadeira de rodas para a minha sala de aula. E l estvamos ns, duas mulheres preocupadas com nossos penteados 
diante das cmaras. Assim que foi apresentada aos alunos, vi que meu palpite estava certo. Ela era um extraordinrio tema de debate.
        Antes de mais nada, Eva tinha mais ou menos a mesma idade da maioria dos alunos, o que provava que a morte no leva apenas os velhos. Tinha tambm uma aparncia 
atraente. Vestida com uma blusa branca e calas compridas de tweed, poderia muito bem estar indo para um coquetel. Mas estava morrendo, e sua franqueza com relao 
quela realidade era o que tinha de mais impressionante.
        - Sei que tenho uma chance em um milho - admitiu -, mas hoje s quero falar sobre essa nica chance.
        Assim, em vez de falar sobre sua doena, Eva falou sobre o que aconteceria se ela vivesse. Falou sobre estudos, casamento e filhos, sua famlia e Deus.
        - Quando era pequena, acreditava em Deus - disse. - Agora, no tenho muita certeza se acredito.
        Eva contou que queria ter um cachorrinho e ir mais uma vez para casa. Exps suas emoes mais cruas sem hesitar. Nenhuma de ns sequer pensou no jornalista 
e no fotgrafo, que estavam documentando tudo o que dizamos ou fazamos do nosso lado do vidro cego, mas sabamos que o resultado seria bom.
        O artigo saiu na revista no dia 21 de novembro de 1969. Meu telefone comeou a tocar antes mesmo que eu visse a revista. Mas minha preocupao era a reao 
de Eva. Naquela noite, entregaram vrios exemplares da revista em minha casa. Na manh seguinte bem cedo, corri ao hospital para mostr-la a Eva antes que chegasse 
 banca do hospital e ela se transformasse instantaneamente numa celebridade. Felizmente, Eva gostou do artigo, mas, como qualquer moa normal, saudvel e bonita, 
ela balanou a cabea, insatisfeita, quando olhou para as fotografias.
        - Nossa, no fiquei nada bem nelas - disse.
        No hospital, a reportagem no agradou tanto. O primeiro mdico que encontrei no corredor deu um sorriso escarninho e perguntou, num tom de voz maldoso:
        - Procurando por outro paciente para fazer mais publicidade? Um dos administradores criticou-me dizendo que eu estava
        fazendo o hospital ficar conhecido como um lugar onde se morria.
        - Nossa reputao tem de ser a de fazer as pessoas melhorarem - disse.
        Para a maioria, o artigo da Life provava que eu explorava meus pacientes. Eles no compreendiam coisa alguma. Uma semana depois, o hospital tomou medidas 
para prejudicar a realizao de meus seminrios, determinando que os mdicos no cooperassem comigo. Foi terrvel. Na sexta-feira seguinte, o auditrio estava quase 
vazio.
        Apesar de humilhada, sabia que no podia desfazer tudo o que fora desencadeado pela imprensa. L estava eu, em uma das maiores e mais respeitadas revistas 
do pas. A correspondncia que chegava para mim formava pilhas na sala de correspondncia do hospital. A mesa telefnica foi inundada por chamados de pessoas querendo 
saber como entrar em contato comigo. Dei mais entrevistas e cheguei a aceitar convites para falar em outras universidades e faculdades.
        O lanamento de meu livro, Sobre a Morte e o Morrer, chamou ainda mais ateno. Foi um lder de vendas internacional e praticamente todas as instituies 
do pas ligadas  medicina e enfermagem reconheceram-no como um livro importante. At as pessoas leigas falavam sobre os cinco estgios. Mal sabia que o livro teria 
tanto sucesso e seria meu passaporte para o mundo da fama. Ironicamente, o nico lugar em que no teve aceitao imediata foi na unidade psiquitrica de meu prprio 
hospital, uma clara indicao de que meu futuro seria em outro lugar.
        Enquanto isso, meu interesse nunca se desviou de meus pacientes, que eram os verdadeiros professores. Isso se aplicava de modo especial a Eva, a moa do 
artigo na revista Life. Fiquei bastante preocupada quando enfiei a cabea pela porta de seu quarto na vspera de Ano Novo e no a encontrei. Dei um suspiro de alvio 
quando algum disse que ela tinha ido para casa e ganhara o cachorrinho que desejava. Mas, depois disso, tinha sido levada para o Centro de Tratamento Intensivo. 
Fui depressa para l e encontrei seus pais na sala de espera.
        Estavam com aquela expresso triste e desamparada que vi tantas vezes nas famlias de pacientes moribundos sentadas nas salas de espera, proibidas de estar 
com seus entes queridos por causa das regras idiotas que controlam horrios de visita. De acordo com as regras do CTI, os pais de Eva s tinham permisso para v-la 
durante cinco minutos em determinados horrios. Fiquei revoltada. Aquele dia poderia ser o ltimo em que teriam a oportunidade de estar perto da filha, dando apoio 
e amor uns aos outros. E se ela morresse enquanto estavam sentados do lado de fora de seu quarto?
        Sendo mdica, estava autorizada a entrar no quarto de Eva e, quando o fiz, encontrei-a deitada nua sobre a cama. A lmpada do teto, fora de seu alcance, 
estava permanentemente acesa e lanava uma luz forte sobre ela, da qual no tinha como escapar. Eu sabia que era a ltima vez que a veria viva. Eva tambm sabia. 
J incapaz de falar, ela apertou minha mo como uma forma de dizer ol e apontou sua outra mo para cima. Queria que a luz fosse desligada.
        O conforto e a dignidade dela eram tudo o que importava para mim. Apaguei a luz e pedi  enfermeira que cobrisse Eva com um lenol. Inacreditavelmente, a 
enfermeira hesitou. Como se estivesse perdendo tempo. Perguntou: "Para qu?" Para que cobrir essa garota? Fiquei furiosa e eu mesma o fiz.
        Infelizmente, Eva morreu no dia seguinte, 1 de janeiro de 1970. Eu no tinha direitos sobre a vida dela, mas a maneira fria e solitria como morreu no hospital 
era algo que no podia tolerar. Todo o meu trabalho visava mudar aquele tipo de situao. No queria que ningum morresse como Eva, sozinha, com sua famlia esperando 
do lado de fora. Sonhava com o dia em que as necessidades das pessoas viriam em primeiro lugar.
        
      
      
      CAPTULO 24
      
    A senhora Schwartz
    
Tudo mudou com os novos e miraculosos avanos da medicina. Os mdicos prolongavam vidas com transplantes de corao e de rins e com poderosas drogas. Aparelhos modernos 
ajudavam a diagnosticar mais cedo as doenas. Pacientes que seriam considerados incurveis um ano antes recebiam uma segunda oportunidade de vida. Era emocionante. 
Ainda assim, existiam problemas. As pessoas iludiam-se pensando que a medicina podia curar tudo. Surgiram questes ticas, morais, legais e financeiras que no haviam 
sido previstas. E vi mdicos tomando decises em conjunto com companhias de seguros, e no com outros mdicos.
        - E vai piorar - disse para o reverendo Gaines.
        No era necessrio ser um gnio para fazer tal previso. J havia sinais evidentes de tempestade no ar. O hospital tinha sido bombardeado por vrios processos, 
algo que estava acontecendo com mais freqncia do que eu jamais vira. Mas a medicina estava mudando. A tica aparentemente estava passando por uma reformulao.
        - Gostaria que nada tivesse mudado - disse o reverendo Gaines. Minha soluo era diferente:
        - O verdadeiro problema  que no temos uma definio correta da morte - disse.
        Desde o tempo das cavernas, ningum ainda definira a morte com preciso. Eu ficava imaginando o que teria acontecido com meus queridos pacientes, gente como 
Eva, que tinha tanto para dar num dia e no seguinte desaparecia. Em pouco tempo, o reverendo Gaines e eu estvamos perguntando a grupos de estudantes de medicina 
e teologia, mdicos, rabinos e padres, para aonde ia a vida.
        - Se no fica aqui, ento para aonde vai?
        Eu estava tentando definir a morte.
        Estava aberta a todas as possibilidades, at s bobagens que meus filhos sugeriam na mesa do jantar. Nunca escondi deles o meu trabalho, o que foi bom para 
todos ns. Olhando para Kenneth e Barbara, refletia que o nascimento e a morte so experincias semelhantes: cada uma delas  o comeo de uma nova viagem. Mais tarde, 
conclu que a morte era a mais agradvel das duas, muito mais pacfica. Nosso mundo estava cheio de nazistas, AIDS, cncer e coisas assim.
        Observei como os pacientes, mesmo os mais revoltados, relaxavam alguns momentos antes da morte. Outros, quando se aproximavam da morte, pareciam ter experincias 
extremamente vividas com entes queridos j falecidos e falavam com pessoas que eu no podia ver. Em praticamente todos os casos a morte era precedida de uma serenidade 
especial.
        E depois? Essa era a pergunta que eu queria responder.
        S podia fazer julgamentos baseados em minhas observaes. E, assim que os pacientes morriam, eu no sentia nada. Eles tinham ido embora. Num dia, podia 
falar com a pessoa, toc-la e, na manh seguinte, ela no estava mais ali. O corpo estava, mas era como tocar um pedao de madeira. Algo estava faltando. Algo fsico. 
A prpria vida.
        Mas eu continuava a indagar que forma a vida assumia ao ir embora? E para aonde ia, se  que ia para algum lugar. O que se passava com as pessoas no momento 
em que morriam?
        Em um certo ponto, meus pensamentos voltaram-se para minha viagem a Maidanek, vinte e cinco anos antes. Eu havia andado pelos alojamentos onde homens, mulheres 
e crianas tinham passado suas ltimas noites antes de morrerem nas cmaras de gs. Lembrava-me de ter ficado fascinada ao ver borboletas desenhadas nas paredes 
e da minha perplexidade: por que borboletas?
        Agora, num lampejo de compreenso, eu sabia. Aqueles prisioneiros eram como meus pacientes terminais, que sabiam o que iria acontecer com eles. Sabiam que 
logo se tornariam borboletas. Ao morrer, estariam fora daquele lugar infernal. No seriam mais torturados. No seriam mais separados de suas famlias. No seriam 
mais mandados para as cmaras de gs. Nada do que estava relacionado com aquela vida horripilante teria qualquer importncia. Logo deixariam seus corpos da mesma 
maneira que uma borboleta deixa seu casulo. Percebi que aquela era a mensagem que queriam legar s geraes futuras. E tambm me forneceram a imagem que usaria para 
o resto de minha carreira para explicar o processo da morte e do morrer. Contudo, ainda queria saber mais. Um dia, voltei-me para meu parceiro pastor e disse:
        - Vocs esto sempre dizendo: "Pea, e ser atendido." Muito bem, agora estou pedindo. Ajude-me a pesquisar sobre a morte.
        Ele no tinha uma resposta pronta, mas ns dois acreditvamos que a pergunta certa geralmente tem uma boa resposta.
        Uma semana mais tarde, uma enfermeira falou-me sobre uma mulher que, segundo ela, poderia ser uma boa candidata para as entrevistas. A senhora Schwartz j 
entrara e sara do CTI mais de dez vezes. Todas as vezes, pensava-se que iria morrer. E todas as vezes aquela mulher incrivelmente resistente e determinada tinha 
sobrevivido. As enfermeiras viam-na com um misto de espanto e respeito.
        - Acho que tambm  meio estranha - disse a enfermeira. -Ela me assusta.
        No havia nada de assustador na senhora Schwartz quando a entrevistei para um seminrio sobre a morte e o morrer. Explicou que o marido era esquizofrnico 
e atacava o filho mais moo, ento com dezessete anos, cada vez que tinha um surto psictico. Ela receava pela vida do filho caso morresse antes que o menino alcanasse 
a maioridade. Se ela morresse, o marido seria o nico tutor legal do filho, e no se sabia o que poderia acontecer quando o pai se descontrolasse.
        -  por isso que ainda no posso morrer - explicou. Reconheci que suas preocupaes tinham fundamento e apresentei-a a um advogado da Sociedade de Ajuda 
Legal, que ajudou a transferir a custdia do menino para um parente mais saudvel e confivel. Aliviada, a senhora Schwartz deixou o hospital mais uma vez, agradecida 
por poder viver em paz o tempo que ainda lhe restava. No esperava encontr-la outra vez.
        No se passara ainda um ano, entretanto, quando ela bateu  porta de meu escritrio pedindo-me para ir novamente ao meu seminrio. Eu disse que no. Minha 
poltica era no repetir casos. Era preciso que os alunos falassem com pessoas totalmente desconhecidas sobre os assuntos menos discutidos.
        - Mas  exatamente por isso que tenho de falar com eles - disse. Depois de uma longa pausa, acrescentou: - E com voc tambm.
        Uma semana mais tarde, com alguma relutncia, apresentei a senhora Schwartz a um novo grupo de alunos. De incio, ela contou a mesma histria que eu j tinha 
ouvido antes. Felizmente, a maioria dos alunos ainda no a conhecia. Intimamente desapontada por ter permitido que ela voltasse, interrompi o que dizia e perguntei:
        - O que era to urgente para faz-la voltar ao meu seminrio? Era a deixa de que ela precisava.
        Mudando de rumo, a senhora Schwartz relatou o que viria a ser a primeira experincia de quase morte que qualquer um de ns j ouvira, embora na ocasio no 
fosse chamada assim.
        O fato ocorreu em Indiana. Sofrendo de uma hemorragia interna, a senhora Schwartz foi levada s pressas para um hospital e colocada num quarto particular, 
onde seu estado foi considerado crtico, grave demais para que fosse removida para Chicago. Sentindo que dessa vez estava perto da morte, ela ponderou se chamaria 
ou no uma enfermeira. Perguntou a si mesma quantas vezes mais queria passar por aquela provao que era ficar entre a vida e morte. Agora que havia quem tomasse 
conta do filho, talvez estivesse pronta para morrer. No conseguia decidir. Parte dela queria deixar-se ir. Mas a outra parte queria sobreviver at que o filho fosse 
maior de idade.
        Quando refletia sobre o que fazer, uma enfermeira entrou no quarto, olhou para ela e saiu porta afora sem dizer nada. Segundo a senhora Schwartz, precisamente 
nesse momento ela flutuou para fora de seu corpo fsico e elevou-se para o teto. Ento, uma equipe de ressuscitao entrou correndo no quarto e comeou a trabalhar 
freneticamente para salv-la.
        Todo o tempo, a senhora Schwartz observou a cena do alto. Viu tudo nos menores detalhes. Ouviu o que cada pessoa disse. Chegou at a saber o que estavam 
pensando. Surpreendentemente, no sentia dor, medo ou ansiedade por estar fora de seu corpo. Apenas uma curiosidade e um espanto enormes pelo lato de ningum a escutar. 
Pediu vrias vezes que parassem com todo aquele estardalhao porque ela estava muito bem.
        - Mas eles no me escutavam - disse.
        Por fim, desceu e cutucou um dos mdicos, mas, para sua surpresa, seu brao passou atravs do brao dele. Nesse momento, to frustrada quanto os mdicos, 
a senhora Schwartz desistiu de se comunicar com eles,
        - Ento, perdi a conscincia - explicou.
        Nos quarenta e cinco minutos que aquilo durou, a ltima coisa que a senhora Schwartz pde observar foi que a cobriram com um lenol e a declararam morta, 
enquanto um residente nervoso e decepcionado contava piadas. Trs horas e meia mais tarde, porm, uma enfermeira entrou no quarto para remover o corpo e encontrou 
a senhora Schwartz viva.
        Sua histria assombrosa fascinou a todos no auditrio. As pessoas viravam-se para discutir com quem estava ao lado se acreditariam ou no no que tinham acabado 
de ouvir. Afinal, quase todos na sala eram pessoas ligadas  cincia. Perguntavam-se se ela seria louca. A senhora Schwartz tinha a mesma dvida. Quando lhe perguntei 
por que ela se dispusera a nos relatar essa experincia, ela respondeu com outra pergunta:
        - Ser que ainda por cima agora sou tambm psictica? No, certamente que no. A essa altura, j conhecia bastante
        a senhora Schwartz para saber que ela estava em seu juzo perfeito e dizia a verdade. No entanto, a senhora Schwartz no tinha tanta certeza e queria uma 
confirmao disso. Antes de sair, perguntou mais uma vez:
        - Acha que eu sou psictica?
        Seu tom de voz era aflito, e eu estava com pressa de completar a sesso. De modo que respondi com um atestado mdico:
        - Eu, doutora Elisabeth Kbler-Ross, confirmo que voc no est nem nunca foi psictica.
        Depois disso, a senhora Schwartz finalmente deitou a cabea de volta em seu travesseiro e relaxou. Naquele momento, eu soube com toda certeza que ela no 
estava louca. Aquela mulher tinha os miolos no lugar.
        No debate que se seguiu, os alunos queriam saber por que eu fingira acreditar na senhora Schwartz, em vez de admitir que aquilo tudo tinha sido uma alucinao. 
Para minha surpresa, acho que no havia uma nica pessoa na sala acreditando que a experincia da senhora Schwartz tivesse sido verdadeira, que, na hora da morte, 
as pessoas mantm a conscincia, que podem observar coisas, pensar, no sentir dor, e que tudo isso nada tem a ver com psicopatologia.
        - Ento, como voc define isso? - perguntou um dos alunos. Eu no tinha uma resposta fcil para dar, o que irritou meus alunos. Disse a eles, porm, que 
ainda existiam muitas coisas que no conhecamos ou podamos explicar, o que nem por isso negava a sua existncia.
        - Se eu soprasse um apito para ces aqui neste instante, nenhum de ns o ouviria - disse. - Mas um co ouviria. Isso quer dizer que o som no existe? No 
seria possvel que a senhora Schwartz estivesse sintonizada numa freqncia diferente da nossa? De que modo ela poderia repetir a piada que um dos mdicos contou? 
Explique isso. S porque no vimos o que ela viu, isto torna a viso dela menos real?
        No futuro, seria preciso ter respostas mais complexas. Naquele momento, minha preocupao era explicar que a senhora Schwartz tivera um motivo para aparecer 
no seminrio. Depois de verificar que nenhum aluno era capaz de adivinhar qual era esse motivo, contei-lhes que ela viera motivada por uma preocupao materna. Alm 
disso, a senhora Schwartz sabia que o seminrio era gravado e tinha oitenta testemunhas.
        - Se o incidente tivesse sido classificado como psictico, as providncias legais para a custdia do filho dela teriam sido anuladas - disse. - O marido 
teria readquirido o controle sobre o menino e ela no teria mais paz de esprito. Uma pessoa louca agiria assim? De jeito nenhum.
        A partir da, a histria da senhora Schwartz no me saiu da cabea durante semanas, pois sabia que o que acontecera com ela no podia ser uma experincia 
excepcional. Se uma pessoa que tinha morrido era capaz de se lembrar de algo to extraordinrio como uma equipe de mdicos tentando faz-la reviver depois de seus 
sinais vitais terem parado, outras provavelmente tambm seriam. De uma hora para outra, o reverendo Gaines e eu nos transformamos em detetives. Nossa inteno era 
entrevistar vinte pessoas que tivessem sido reanimadas depois de seus sinais vitais indicarem que haviam morrido. Se meu palpite estivesse certo, logo estaramos 
comeando a desvendar uma nova faceta da condio humana, uma percepo inteiramente nova da vida.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 25
      
    Entre a vida e a morte
        
        
        
Como investigadores, o reverendo Gaines e eu mantnhamos distncia um do outro. No, no era por causa de algum desentendimento. Havamos combinado no comparar 
nossas anotaes at cada um de ns ter vinte casos para comentar. Vasculhvamos sozinhos os corredores. Utilizvamos recursos externos. Pedamos informaes e seguamos 
pistas  procura de pacientes que preenchessem os requisitos esperados. Nunca tivemos de pedir a um paciente para fazer nada mais alm de contar o que acontecera 
ou o que sentira. Estavam to ansiosos para encontrar algum interessado em ouvi-los que as histrias jorravam aos borbotes.
        E quando afinal o reverendo Gaines e eu comparamos nossas anotaes, ficamos estupefatos, alm de incrivelmente entusiasmados, com o material que tnhamos 
coletado. "Sim, vi meu pai com a maior clareza", confessou-me um paciente. Outra pessoa agradeceu ao reverendo Gaines por ter perguntado: "Estou to contente por 
poder falar com algum sobre isso. Todos a quem contei o que se passou me trataram como se eu estivesse louco, e foi tudo to bonito e cheio de paz!" E seguamos 
em frente. "Eu estava enxergando outra vez", disse uma mulher que havia ficado cega em conseqncia de um acidente. Ao ser trazida de volta, todavia, perdera a viso 
novamente.
        Tudo isso foi muito antes de se comear a escrever sobre experincias de quase morte ou de vida depois da morte, de modo que sabamos que nossas descobertas 
seriam encaradas com ceticismo, com descrena pura e simples ou ridicularizadas. Um dos casos, porm, bastou para convencer-me. Uma menina de doze anos contou-me 
que escondera da me sua experincia de quase morte. Explicou que tinha sido uma experincia to agradvel que ela, naquela hora, no queria voltar. "No quero dizer 
 mame que existe uma casa melhor do que a nossa."
        Acabou contando tudo ao pai, com todos os detalhes, inclusive como tinha sido abraada com grande carinho pelo irmo. O pai ficou impressionado. At aquele 
momento, quando ento ficou sabendo do fato pelo pai, nunca lhe tinham dito que tivera realmente um irmo. Ele havia morrido alguns meses antes do nascimento dela.
        Enquanto pensvamos o que fazer com nossas descobertas, nossas vidas continuavam a seguir direes diferentes. Ambos estvamos procurando outra colocao 
fora da atmosfera sufocante do hospital. O reverendo Gaines saiu primeiro. No incio de 1970, tornou-se o pastor de uma igreja em Urbana. Passou tambm a adotar 
o nome africano de Mwalimu Imara. Todo o tempo, eu contara ser a primeira a ir embora, mas, at poder sair, tinha de continuar coordenando os seminrios.
        E no podia realiz-los to bem sem meu insubstituvel parceiro. Seu antigo superior, o pastor N., tomou o seu lugar. Havia contudo uma tal falta de qumica 
entre ns que, certa vez, um aluno pensou que o pastor N. fosse o mdico e eu a conselheira espiritual. Foi desanimador.
        Eu estava me preparando para desistir e, afinal, numa sexta-feira, decidi que aquele seria o ltimo seminrio sobre a morte e o morrer de minha carreira. 
Sempre fui dada a extremos. Quando terminamos, aproximei-me do pastor N. pensando na melhor maneira de dizer a ele que no iria mais fazer os seminrios. Estvamos 
diante da porta do elevador analisando o seminrio que acabara pouco antes e discutindo outros assuntos diferentes. Quando ele apertou o boto para chamar o elevador, 
resolvi que tinha de aproveitar a ocasio para falar antes que ele entrasse e as portas se fechassem. Foi tarde demais. As portas do elevador se abriram.        
        Mal comecei a falar, uma mulher apareceu de repente atrs do pastor e diante do elevador aberto. Meu queixo caiu. A mulher flutuava no ar, quase transparente, 
e sorria para mim como se nos conhecssemos.
        - Meu Deus, o que  isso? - perguntei, com voz esquisita.
        O pastor N. no tinha noo do que estava se passando. Pelo modo como me olhou, pensava que eu estava perdendo o juzo.
        - Acho que conheo essa mulher - eu disse. - Ela est olhando para mim.
        - O qu? - perguntou ele, olhando e no vendo nada.
        - Ela est esperando que o senhor entre no elevador para poder sair - respondi.
        O pastor N., que provavelmente j estava planejando como escapar daquela situao, pulou para dentro do elevador como se fosse uma rede de segurana. Quando 
ele se foi, a mulher, a apario, aquela viso, aproximou-se de mim.
        - Doutora Ross, eu tinha de voltar - disse. - Importa-se se formos para seu consultrio? S preciso de alguns minutos.
        A distncia dali at meu consultrio era pequena. Mas foi o percurso mais estranho e arrepiante que jamais fiz. Ser que eu estava tendo um surto psictico? 
Estava realmente um pouco estressada, mas no a ponto de ver fantasmas. Especialmente fantasmas que paravam diante da porta de meu consultrio, abriam a porta e 
deixavam-me entrar primeiro como se eu fosse a visitante. Assim que ela fechou a porta, porm, a reconheci.
        - Senhora Schwartz!
        O que eu estava dizendo? A senhora Schwartz morrera dez meses antes. E fora enterrada. No entanto, l estava ela em meu consultrio, de p a meu lado. Sua 
aparncia era a mesma de sempre, agradvel mas preocupada. Eu, decididamente, no me sentia da mesma maneira, portanto, sentei-me antes que desmaiasse.
        - Doutora Ross, tive de voltar por duas razes - disse, claramente. - Primeiro, para agradecer tudo o que a senhora e o reverendo Gaines fizeram por mim.
        Toquei com a ponta dos dedos minha caneta, meus papis e minha xcara de caf para ter certeza de que eram reais. Eram to reais quanto o som da voz dela.
        - A segunda razo por que voltei, entretanto, foi para dizer-lhe que no desista de seu trabalho sobre a morte e o morrer... ainda no.
        A senhora Schwartz veio para o lado de minha escrivaninha e lanou-me um sorriso radiante. Tive um momento para pensar. Aquilo estava realmente acontecendo? 
Como ela sabia que eu estava planejando parar?
        - Est me ouvindo? Seu trabalho apenas comeou - disse. - Vamos ajud-la.
        Embora fosse difcil at para mim acreditar no que estava acontecendo, no pude deixar de dizer:
        - Sim, estou ouvindo.
        Subitamente, percebi que a senhora Schwartz j sabia o que eu estava pensando e tudo o que ia dizer. Decidi ter uma prova de que ela estava mesmo ali dando-lhe 
uma caneta e uma folha de papel e pedindo-lhe para redigir um bilhete para o reverendo Gaines. Ela rabiscou um rpido agradecimento.
        - Agora est satisfeita? - perguntou.
        Para ser franca, eu no sabia bem o que estava sentindo. Um instante depois, a senhora Schwartz desapareceu. Procurei-a por toda parte, no encontrei, voltei 
correndo para meu consultrio e examinei o bilhete dela, apalpando a folha de papel, analisando a caligrafia e assim por diante. Ento me contive. Por que duvidar? 
Por que continuar questionando?
        Como aprendi desde ento, se no estivermos prontos para experincias msticas, nunca acreditaremos nelas. Se estivermos abertos, porm, essas experincias 
viro a ns, acreditaremos nelas e, ainda por cima, mesmo que o nosso destino dependa disso naquele instante, saberemos que so absolutamente reais.
        De uma hora para outra, a ltima coisa no mundo que queria fazer era abandonar meu trabalho. Alguns meses mais tarde, iria mesmo deixar o hospital, mas naquela 
noite fui para casa revigorada e animada quanto ao futuro. Sabia que a senhora Schwartz tinha impedido que eu cometesse um terrvel engano. O bilhete dela foi enviado 
para Mwalimu. Segundo me consta, ele ainda o guarda. Durante muito tempo, mais do que qualquer outra pessoa, ele foi o nico a quem contei sobre meu encontro com 
a senhora Schwartz. Manny teria me criticado, como todos os outros mdicos. Mas Mwalimu era diferente.
        Estvamos voando mais alto, num plano diferente. At ento, tnhamos tentado definir a morte. Agora, nosso objetivo era o que est adiante - a vida depois 
da morte. Apesar de Mwalimu estar ocupado com sua nova igreja, fizemos um acordo. Resolvemos que continuaramos a entrevistar pacientes e reunir informaes sobre 
a vida depois da morte. Eu tinha muito trabalho a fazer. Afinal, tinha prometido  senhora Schwartz.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
      CAPTULO 26
    
    Jeffy
    
Em meados de 1970, Manny sofreu um ataque cardaco brando. Quando estava no hospital, julguei que no haveria problemas se levasse nossos filhos Kenneth e Barbara 
para visit-lo. Afinal de contas, Manny trabalhava l como mdico consultor e o prprio hospital vangloriava-se de dar seminrios baseados em meu livro  sua equipe. 
Havia motivos para esperar alguns progressos na maneira como os pacientes e suas famlias eram tratados. Entretanto, na primeira vez em que levei as crianas para 
ver seu pai, fomos barrados na entrada do setor de cardiologia por um guarda, que disse:
        - No  permitida a entrada de crianas.
        Rejeio? Eu j sabia como lidar com isso, no era problema. A caminho do hospital, havia reparado numa construo no estacionamento. Sa com as crianas 
e levei-as at os fundos, acendi uma lanterna e atravessei com elas um ptio que dava num ponto exatamente embaixo da janela de Manny. Dali, mostramos cartazes com 
mensagens e acenamos. Mas ao menos as crianas viram que o pai estava bem.
        Medidas to extremas deveriam ser desnecessrias. As crianas passam pelos mesmos estgios de perda que os adultos. Quando no recebem a ateno devida, 
o processo  interrompido e elas desenvolvem problemas graves que podem ser facilmente evitados. No Hospital de Chicago, observei certa vez um menino que subia e 
descia num dos elevadores. Primeiro, pensei que estivesse perdido, at perceber que estava se escondendo. Finalmente, notou que eu o observava e reagiu atirando 
uma poro de pedaos de papel no cho. Quando saiu, catei os pedaos de papel, juntei-os e vi o que ele tinha escrito ali: "Obrigado por matar meu pai." Teriam 
bastado algumas visitas para prepar-lo para aquela perda.
        Mas quem era eu para falar? Um ms antes de finalmente deixar o hospital, um de meus pacientes terminais perguntou por que eu nunca trabalhava com crianas 
que estivessem morrendo.
        -  mesmo, no  que voc tem razo! - exclamei.
        Embora dedicasse todo o meu tempo livre  funo de me de Kenneth e Barbara, que estavam crescendo e se tornando timas crianas, evitava trabalhar com 
crianas em estado terminal. Era uma ironia, considerando-se que eu pensara em ser pediatra.
        A razo de minha averso deixou de ser um mistrio quando refleti melhor sobre o assunto. Cada vez que eu tinha algum contato com uma criana que sofresse 
de uma doena terminal, via Kenneth ou Barbara em seu lugar, e a idia de perder um dos dois era inconcebvel para mim. Contudo, superei aquele obstculo com um 
emprego no Hospital de Crianas La Rabida. L, eu tinha de trabalhar com crianas muito doentes, portadoras de doenas crnicas ou terminais. Foi a melhor coisa 
que jamais fiz. Logo me arrependi de no ter trabalhado com elas desde o incio.
        Eram ainda melhores professores que os adultos. Ao contrrio dos pacientes mais velhos, as crianas no haviam acumulado "assuntos pendentes". No tinham 
uma vida inteira de relacionamentos pessoais mal resolvidos nem um currculo de enganos e erros. Muito menos se sentiam obrigadas a fingir que estava tudo bem. Sabiam 
instintivamente quo doentes estavam, ou que estavam de fato morrendo, e no escondiam seus sentimentos a respeito.
        Tom, um menino que tinha uma doena crnica, era um bom exemplo do tipo de criana com a qual eu trabalhava. No se conformava em estar sempre no hospital 
com problemas nos rins. Ningum se dera ao trabalho de ouvir o que ele pensava. Como resultado, estava cheio de raiva contida. No se comunicava. As enfermeiras 
no conseguiam cuidar dele. Em vez de sentar em sua cama, levei-o para fora, at o lago prximo. De p na margem, ele ficou atirando pedrinhas no lago. Da a pouco, 
estava vociferando contra seus rins e todos os outros problemas que o impediam de levar a vida normal de um menino.
        Em vinte minutos, porm, era outra criana. O nico truque que eu usara tinha sido dar a ele o conforto de poder expressar seus sentimentos reprimidos.
        Procurava ser uma boa ouvinte. Lembro-me de uma menina de doze anos que estava hospitalizada porque tinha lpus. Pertencia a uma famlia muito religiosa 
e seu maior sonho era passar o Natal em casa. Compreendi o que aquilo significava, e no apenas porque o Natal era uma data especial para mim. O mdico dela, entretanto, 
recusou-se a deix-la sair do hospital, alegando que o menor resfriado poderia ser fatal.
        - E se fizermos um grande esforo para que ela no pegue um resfriado? - pedi.
        Como o mdico no mudou de idia, a terapeuta musical da menina e eu a embrulhamos num saco de dormir, samos com ela clandestinamente por uma janela e fomos 
para sua casa, onde ela cantou cnticos de Natal a noite inteira. Apesar de ter voltado para o hospital na manh seguinte, nunca vi criana mais feliz. Muitas semanas 
mais tarde, depois de sua morte, seu mdico, que fora to rigoroso, admitiu que estava contente por ela ter realizado seu maior desejo.
        Em outra ocasio, ajudei a equipe do hospital a superar o sentimento de culpa generalizado devido  morte repentina de uma adolescente. Ela estava to doente 
que era obrigada a manter repouso absoluto em sua cama, o que no impediu que se apaixonasse loucamente por um dos terapeutas ocupacionais. Tinha um temperamento 
maravilhoso. Quando o pessoal do hospital deu uma festa na enfermaria para comemorar o Dia das Bruxas, ela compareceu, numa deferncia especial, de cadeira de rodas. 
Foi uma daquelas festas barulhentas, com msica alta e, num impulso de espontaneidade, ela se levantou da cadeira para danar com o rapaz de quem gostava. Deu alguns 
passos e, subitamente, caiu morta.
        Nem  preciso dizer que a festa acabou e todos foram dominados por um tremendo sentimento de culpa. Quando conversei com a equipe do hospital numa sesso 
de grupo, perguntei-lhes o que teria sido mais importante para aquela garota: viver mais alguns poucos meses como invlida ou danar com seu amor numa grande festa?
        - Se ela se arrependeu de alguma coisa, certamente foi de no ter danado mais tempo.
        No  assim com a vida de um modo geral? Ela ao menos conseguiu danar um pouco.
        Aceitar o fato de que as crianas tambm morrem nunca  fcil, mas aprendi que as crianas, muito mais que os adultos, nos dizem exatamente do que precisam 
para ficar em paz. A maior dificuldade  saber ouvi-las. O melhor exemplo que sempre encontro  a histria de Jeffy, um menino de nove anos que lutou contra a leucemia 
durante a maior parte de sua vida. Contei essa histria inmeras vezes pelos anos afora, mas tem sido to benfica e, como um amigo querido, Jeffy  de tal forma 
parte da minha vida que vou repetir minhas lembranas sobre ele, narradas em meu livro A Importncia Vital da Morte.
        Jeffy entrava e saa do hospital. Era um menino muito doente quando o vi pela ltima vez no hospital. Seu sistema nervoso central estava comprometido. Mal 
se sustentava nas pernas. Parecia um homenzinho bbado. Sua pele era muito plida, quase sem cor. Tinha perdido o cabelo muitas e muitas vezes em conseqncia da 
quimioterapia. No conseguia nem mais olhar para agulhas de injeo, tudo era muito doloroso para ele.
        Eu sabia que aquela criana tinha, no mximo, mais algumas semanas de vida. Naquele dia, estava de planto um mdico jovem, novo no hospital. Quando entrei, 
ouvi-o dizer aos pais de Jeffy:
        - Vamos tentar novamente a quimioterapia. Quis saber dos pais e do mdico se j tinham perguntado a Jeffy se ele estava disposto a passar por uma outra srie 
daquele tratamento. Os pais amavam incondicionalmente o filho, e assim permitiram que eu fizesse essa pergunta a Jeffy na presena deles. Jeffy deu-me uma resposta 
maravilhosa, naquela maneira de falar tpica das crianas:
        - No entendo vocs, adultos. Por que fazem as crianas ficarem to doentes para poderem depois ficar boas?
        Falamos sobre aquilo. Era a forma de Jeffy manifestar seus naturais quinze segundos de raiva. Aquela criana tinha autoconfiana, disciplina interior e amor-prprio 
suficientes para ter a coragem de dizer: "No, obrigado", que foi o que Jeffy fez com relao  quimioterapia. Os pais ouviram, respeitaram e acataram a resposta 
dele.
        Quis me despedir de Jeffy, mas ele disse:
        - No, quero ter certeza de que vo me levar para casa hoje. Quando uma criana nos diz: "Leve-me para casa hoje", significa que h uma grande urgncia e 
no devemos adiar a ida. Sendo assim, perguntei aos pais se estavam dispostos a lev-lo para casa. Os pais tinham coragem e amor pelo filho e, portanto, concordaram. 
Mais uma vez, tentei me despedir. Mas Jeffy, como todas as crianas que ainda so incrivelmente francas e simples, disse-me:
        - Quero que voc venha para casa comigo.
        Olhei para meu relgio, o que, numa linguagem simblica e no-verbal, quer dizer: "Sabe, no tenho tempo de ir para casa com todas as crianas de quem cuido." 
Sem que eu dissesse uma palavra, Jeffy compreendeu na hora e falou:
        - No se preocupe, s vai levar uns dez minutos.
        Fui para casa com ele, sabendo que nos dez minutos seguintes Jeffy iria resolver sua questo pendente. Fomos juntos no carro, os pais, Jeffy e eu. Subimos 
a entrada de automvel da casa e a garagem foi aberta. Jeffy disse ao pai, do modo mais natural:
        - Por favor, desa a minha bicicleta da parede.
        Jeffy tinha uma bicicleta nova em folha que estava pendurada em dois ganchos dentro da garagem. Por muito tempo, o sonho da vida dele tinha sido poder, ao 
menos uma vez, dar uma volta de bicicleta no quarteiro. Assim, o pai comprara para ele uma bicicleta linda. Por causa da doena, no entanto, ele nunca pudera us-la. 
Fazia trs anos que estava pendurada naqueles ganchos. Agora, Jeffy pedia ao pai que a tirasse de l. Com os olhos molhados, pediu que prendesse as rodinhas laterais 
na bicicleta. No sei se vocs tm idia de quanta humildade um menino de nove anos precisa ter para pedir ao pai que coloque aquelas rodinhas em sua bicicleta, 
pois s as crianas pequenas costumam us-las.
        E o pai, com lgrimas nos olhos, colocou as rodinhas na bicicleta do filho. Jeffy parecia uma pessoa embriagada, mal conseguia ficar de p. Quando o pai 
acabou de prender as rodinhas, Jeffy lanou-me um olhar e disse:
        - E voc, doutora Ross, est aqui para segurar minha me. Jeffy sabia que a me tinha um problema, uma pequena questo no resolvida. Ela ainda no aprendera 
a ter o tipo de amor que  capaz de dizer "no" s prprias necessidades. A maior necessidade dela naquela hora era pegar seu filho doente no colo, como uma criana 
de dois anos de idade, sent-lo na bicicleta e segur-lo ali, enquanto ele fazia a volta no quarteiro. O que teria fraudado a maior vitria da vida dele.
        Portanto, eu segurei sua me e seu pai me segurou. Ns trs nos seguramos e aprendemos pela maneira mais dura como s vezes  difcil e doloroso permitir 
que uma criana vulnervel, no estgio terminal de uma doena, busque uma vitria e corra o risco de cair, machucar-se, sangrar. E Jeffy saiu na bicicleta.
        Depois de uma eternidade, ele voltou. E era a pessoa mais orgulhosa que j se viu. Tinha um sorriso exultante que ia de uma orelha a outra. Parecia ter ganho 
uma medalha olmpica de ouro. Desceu da bicicleta muito digno e, com autoridade, pediu ao pai para tirar as rodinhas da bicicleta e lev-la para seu quarto. Ento, 
sem sentimentalismos, de uma maneira muito bonita e direta, Jeffy voltou-se para mim e disse:
        - E agora, doutora Ross, voc pode ir para casa.
        Duas semanas mais tarde, a me de Jeffy telefonou-me e disse:
        - Tenho de contar-lhe o fim da histria.
        Depois que eu sa, Jeffy disse:
        - Quando meu irmo chegar da escola - o irmo menor Dougy estava no primeiro ano -, peam a ele para subir. Mas sem adultos junto, por favor.
        Quando Dougy chegou, mandaram-no ir ao quarto do irmo, como tinha sido pedido. Algum tempo depois, Dougy desceu mas recusou-se a contar aos pais o que ele 
e Jeffy tinham falado. Havia prometido manter segredo at seu aniversrio, da a duas semanas. Jeffy morreu uma semana antes. Dougy teve seu aniversrio e contou 
o que at ento tinha sido um segredo entre eles.
        Em seu quarto, Jeffy dissera a Dougy que queria ter o prazer de dar pessoalmente a ele sua muito querida bicicleta. Mas no podia esperar mais duas semanas 
at o aniversrio de Dougy porque at l ele estaria morto. Por isso, queria dar a bicicleta a Dougy naquele momento.
        Mas com uma condio: que nunca usasse aquelas rodinhas horrorosas.
        Na poca em que estava comeando meu trabalho com pacientes terminais, os mdicos acusavam-me de explorar pessoas que eles alegavam estar alm de qualquer 
esperana. Esses mdicos foram aqueles que no escutaram quando argumentei que  possvel ajudar, e mesmo curar, pacientes terminais at o fim. Foram necessrios 
dez anos de trabalho duro, mas a histria de Jeffy e as milhares de outras que surgiram por causa do trabalho que realizei e inspirei eram histrias que eles no 
tinham outra alternativa a no ser ouvir.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 27
      
    A vida alm da morte
    
At 1973, ajudei crianas doentes em La Rabida a fazer a transio entre a vida e a morte. Ao mesmo tempo, assumi a responsabilidade da diretoria do Centro de Assistncia 
Familiar, uma clnica de doenas mentais. Pensava que o pior que poderiam dizer a meu respeito  que eu tentava fazer coisas demais. Mas subestimei a capacidade 
das pessoas. Certo dia, o diretor da clnica viu-me tratando uma mulher pobre e, mais tarde, repreendeu-me por atender pacientes que no podiam pagar. Era o mesmo 
que me dizer para deixar de respirar.
        Eu no iria parar de agir daquela maneira. Quando algum me contratava, levava de quebra os meus princpios. Durante uns dois dias, discutimos a questo. 
Enquanto eu argumentava que os mdicos tm a responsabilidade de tratar pacientes necessitados sem levar em conta se eles podem pagar ou no, ele dizia que tinha 
um negcio a dirigir. Afinal, tentou chegar a um acordo, sugerindo que eu cuidasse de meus casos de caridade durante a hora do meu almoo. Como garantia de que poderia 
controlar a maneira como administrava meu tempo, determinou que eu utilizasse o carto de um relgio de ponto.
        No, obrigada. Demiti-me e, aos quarenta e seis anos, passei a ter tempo para trabalhar em projetos novos e interessantes, como meu primeiro workshop sobre 
Vida, Morte e Transio, que consistiria em um curso intensivo de uma semana de palestras para grupos, entrevistas com pacientes terminais, sesses de perguntas 
e respostas e exerccios individuais, montado para ajudar as pessoas a superarem a raiva e as tristezas de suas vidas - o que eu chamava de questes pendentes. Essas 
questes pendentes poderiam ser a morte de um pai ou me que nunca tinha sido chorada, um abuso sexual nunca admitido ou qualquer outro trauma. Manifestadas num 
ambiente seguro, elas entrariam em processo de cura para tornar as pessoas capazes de viverem a vida digna e verdadeira que permitia que se tivesse uma boa morte.
        Logo recebi propostas para realizar esses cursos por todo o mundo. Recebia em minha casa cerca de mil cartas por semana. O telefone parecia tocar o mesmo 
nmero de vezes. Minha famlia ressentia-se das presses crescentes que a minha popularidade exercia sobre ns, mas mesmo assim me apoiava. Minhas pesquisas sobre 
a vida depois da morte tomaram um impulso irrefrevel. Por volta do incio da dcada de 1970, Mwalimu e eu j tnhamos entrevistado aproximadamente vinte mil pessoas 
que se encaixavam no perfil esperado, com idades que iam de dois a noventa e nove anos de idade e culturas das mais diversas, como esquims, ndios americanos, protestantes 
e muulmanos. Em todos os casos, as experincias eram to semelhantes que os relatos tinham de ser verdadeiros.

        At ento, eu no acreditava absolutamente em vida depois da morte, mas os dados convenceram-me de que aqueles casos no eram coincidncias ou alucinaes. 
Uma mulher, declarada morta depois de um acidente de carro, disse que tinha voltado  vida depois de ver o marido. Mais tarde, os mdicos contaram a ela que ele 
havia morrido em outro acidente de carro do outro lado da cidade. Num outro relato, um homem de cerca de trinta anos contou que cometera suicdio depois de perder 
a mulher e os filhos num acidente. Depois de morto, porm, viu sua famlia e, ao constatar que estavam todos bem, voltou a viver.
        As pessoas no s nos relatavam que a experincia da morte era isenta de dor como diziam tambm que no queriam voltar. Depois de encontrar seus entes queridos, 
ou guias, viajavam para um lugar onde havia tanto bem-estar e amor que no queriam retornar. Precisavam ser persuadidas. "No est na hora" era o que praticamente 
todas ouviam. Lembro-me de ter visto um menino de cinco anos fazer um desenho para explicar  me como tinha sido agradvel sua experincia com a morte. Primeiro, 
desenhou um castelo com cores vivas e disse: "Aqui  onde Deus mora." Depois, acrescentou uma estrela brilhante: "Quando vi a estrela, ela disse para mim: seja bem-vindo 
 sua casa."
        Essas notveis descobertas levaram a uma ainda mais extraordinria concluso cientfica: a de que a morte no existe - no de acordo com a definio tradicional. 
Tinha a impresso de que uma nova definio teria de ir alm da morte do corpo fsico. Teria de considerar a prova que tnhamos, a de que o homem tinha alma e esprito, 
tinha uma razo mais elevada para a vida, para a poesia, algo mais do que a mera existncia e a sobrevivncia, algo que continuava.
        Os pacientes terminais passavam pelos cinco estgios e, "depois de ter feito tudo o que temos a fazer na Terra, podamos deixar nosso corpo, que aprisiona 
nossa alma como um casulo aprisiona a futura borboleta", e ento a pessoa passaria pela maior experincia de sua vida. No era importante a causa da morte ter sido 
um acidente de carro ou um cncer (embora algum que morra num acidente de avio ou outro acontecimento repentino e inesperado possa no saber de imediato que est 
morto), na morte no havia dor, medo, ansiedade ou tristeza. S o calor e a quietude da transformao em borboleta.
        De acordo com as entrevistas que compilei, a morte ocorria em diversas fases distintas.
        
        FASE UM - Na primeira fase, as pessoas flutuavam para fora de seus corpos. Quer morressem numa sala de operao, num acidente de carro ou ao cometer suicdio, 
todos contavam que haviam presenciado tudo o que se passara no lugar de onde tinham sado. Flutuavam para fora do corpo como borboletas deixando o casulo. Assumiam 
uma forma etrea. Sabiam o que estava acontecendo, ouviam as pessoas falando entre si, sabiam quantos mdicos estavam ali cuidando delas ou viam os esforos que 
estavam sendo feitos para retir-las de veculos destroados. Um dos homens sabia o nmero da placa do carro que batera no seu e fugira. Outros repetiam as palavras 
que seus parentes haviam dito  sua cabeceira no momento da morte.
        Nessa primeira fase, tambm experimentavam a sensao de integridade. Por exemplo, um cego recuperaria a viso. Um paraltico poderia movimentar-se alegremente 
sem nenhum esforo. Uma mulher contou que gostou tanto de danar no alto de seu quarto de hospital que ficou tremendamente deprimida quando teve de voltar. Na realidade, 
a nica queixa das pessoas com quem falei foi no terem continuado mortas.
        
        FASE DOIS - Nesse ponto, as pessoas j haviam deixado seus corpos para trs e diziam que se encontravam em um estado de vida depois da morte que s pode 
ser definido como esprito e energia. Sentiam-se reconfortadas ao descobrir que nenhum ser humano jamais morre sozinho. No importa onde ou como tivessem morrido, 
eram capazes de ir a qualquer lugar com a rapidez do pensamento. Algumas contaram que, assim que pensaram como sua morte afetaria os membros de sua famlia, viram-se 
perto deles, mesmo dos que estavam do outro lado do mundo. Outras, que tinham morrido em ambulncias, lembravam-se de subitamente estarem com os amigos no trabalho.
        Conclu que esta fase era a mais consoladora para as pessoas que choravam a morte de um ente querido, em especial no caso de uma morte trgica e repentina. 
Uma coisa  algum definhar durante longo tempo por causa de um cncer. Todos - o paciente e a famlia - tm tempo de se preparar para a morte que vir. Uma morte 
em um acidente de avio cria uma situao mais difcil. Os que morrem ficam to confusos quanto suas famlias e, nessa fase, tm tempo para entender o que aconteceu. 
Por exemplo, estou segura de que as pessoas que morreram no acidente com o vo 800 da TWA estavam com suas famlias no servio fnebre que foi depois realizado na 
praia.
        Todos os que entrevistei tambm lembravam-se dessa fase como sendo aquela em que se encontravam com seus anjos da guarda, guias ou, como as crianas muitas 
vezes diziam, seus amigos ou companheiros de brincadeiras. Descreviam seus anjos como guias, reconfortando-os com carinho e levando-os  presena de pais, avs, 
parentes ou amigos mortos anteriormente. Essa fase era lembrada como uma ocasio alegre, de reunio, troca de afeto, tempo recuperado e abraos.
        
        FASE TRS - Guiados por seu anjo da guarda, meus pacientes passavam ento para a terceira fase, entrando no que costumava ser descrito como um tnel, ou 
um porto intermedirio, embora as pessoas mencionassem uma grande variedade de outras imagens: uma ponte, um desfiladeiro em uma montanha, um 1.000.000bonito riacho 
- basicamente o que era mais confortador para cada um. Criavam essas imagens com energia psquica e, no final, viam uma luz brilhante.
        Aproximavam-se levados por seu guia e sentiam a luz irradiando calor, energia, espiritualidade e amor intensos. Mais do que tudo, amor. Amor incondicional. 
As pessoas diziam que sua fora era irresistvel. Sentiam entusiasmo, paz, tranqilidade e a expectativa de afinal estarem indo para casa. A luz, diziam elas, era 
a fonte primordial de energia do universo. Algumas diziam que era Deus. Outras diziam que era Cristo ou Buda. Mas todas estavam de acordo em uma coisa: sentiam-se 
envolvidas por um amor irresistvel. Era o amor mais puro e incondicional. Depois de ouvir milhares de pessoas descreverem a mesma jornada, compreendi por que nenhuma 
delas queria voltar a seu corpo fsico.
        As que voltaram, contudo, afirmaram que tudo aquilo teve profundo efeito em suas vidas. Tinha sido como uma experincia religiosa. Algumas tinham recebido 
grandes conhecimentos. Algumas tinham voltado com dons profticos. Outras passaram a ter um novo discernimento, uma nova capacidade de avaliao. Mas todas vivenciaram 
a mesma epifania de pensamento: ver a luz ensinara-lhes que s h uma explicao para o significado da vida - o amor.
        
        FASE QUATRO - Nessa fase, as pessoas declaravam que haviam estado na presena da Fonte Superior. Algumas a chamavam de Deus. Outras diziam simplesmente saber 
que estavam rodeadas por todo o conhecimento que existe, passado, presente e futuro, e que esse conhecimento era benevolente e isento. As que chegavam at esse ponto 
no precisavam mais de sua forma etrea. Transformavam-se em energia espiritual, a forma que os seres humanos assumem entre as vidas e quando cumprem seu destino. 
Vivenciavam uma sensao de unidade, de existncia plena.
        Nesse estgio, as pessoas passavam por uma reviso de suas vidas, um processo no qual se viam diante da totalidade de suas vidas. Repassavam cada ao, palavra 
e pensamento. As razes de cada uma de suas decises, pensamentos e aes tornava-se compreensvel. Viam como suas aes tinham afetado outras pessoas, at as pessoas 
desconhecidas. Viam o que suas vidas poderiam ter sido, o potencial que tinham. Era mostrado a elas de que modo as vidas de todas as pessoas esto entrelaadas, 
que cada pensamento e ao tem o efeito de uma ondulao, e que esta atinge todas as outras formas de vida do planeta.
        Interpretei como sendo o cu ou o inferno. Ou talvez os dois.
        O maior dom de Deus para o homem  o livre-arbtrio. Mas isto requer responsabilidade - a responsabilidade de fazer escolhas certas, as melhores, as escolhas 
mais ponderadas e impregnadas de respeito, capazes de trazer benefcios para o mundo, de melhorar a humanidade. Nessa fase, as pessoas diziam que lhes tinham perguntado: 
"Que servios voc prestou?" Era a pergunta mais difcil de responder. Exigia que as pessoas verificassem se tinham ou no feito as melhores opes na vida. Descobriam 
se tinham ou no aprendido as lies que deveriam ter aprendido, sendo que a lio fundamental era o amor incondicional.
        A concluso bsica a que cheguei, e que se tem mantido inalterada desde ento,  que todas as pessoas, sejam ricas ou pobres, norte-americanas ou russas, 
tm necessidades, carncias e preocupaes semelhantes. Na realidade, nunca encontrei uma pessoa cuja maior necessidade no fosse seno o amor.
        Amor incondicional, verdadeiro.
        Pode-se encontr-lo num casamento ou num simples gesto de bondade a algum que precisa de ajuda. Mas o amor  inconfundvel.  sentido no corao.  a fibra 
comum da vida, a chama que nos aquece a alma, ativa nosso esprito e fornece paixo s nossas existncias.  o nosso vnculo com Deus e com cada uma das outras pessoas.
        Todas as pessoas passam por dificuldades na vida. Algumas so grandes e outras no parecem to importantes. Mas so lies que temos de aprender. Fazemos 
isso atravs das escolhas, das opes. Para ter uma boa vida, e conseqentemente uma boa morte, digo s pessoas para fazerem suas escolhas tendo em vista o objetivo 
do amor incondicional e perguntando a si mesmas: "Que servios estou prestando?"
        A capacidade de fazer escolhas  a liberdade que Deus nos deu, a liberdade para crescer e amar.
        A vida  uma responsabilidade. Tive de decidir se tratava ou no de uma mulher que ia morrer e no podia pagar um tratamento psiquitrico. Fiz minha escolha 
baseada naquilo que meu corao achava ser o certo a fazer, ainda que me tivesse custado o emprego. Para mim, estava timo. Ainda teria outras escolhas a fazer. 
A vida  cheia delas.
        Em princpio, o que quero dizer  que cada pessoa escolhe se vai sair do torno triturada ou com um polimento brilhante.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 28
    
    A prova
    
Em 1974, durante seis meses, fiquei acordada at tarde da noite batalhando para escrever meu terceiro livro, Morte, o Estgio Final do Crescimento. S o ttulo j 
dava a impresso de que eu tinha todas as respostas sobre a morte. Entretanto, no dia em que terminei o livro, 12 de setembro, minha me morreu na clnica de repouso 
onde passara os ltimos quatro anos e vi-me perguntando a Deus por que transformara num vegetal essa mulher, que, por oitenta e um anos, dera apenas amor, abrigo 
e afeio a todos, e a mantivera nesse estado por tanto tempo. At no enterro dela, blasfemei contra Sua crueldade.
        Ento, por incrvel que parea, de repente mudei de idia e passei a agradecer a Ele por Sua generosidade. Parece loucura, no ? Tambm me pareceu - mas 
ocorreu-me que a lio final de minha me tinha sido aprender a receber afeio e cuidados dos outros, algo que nunca soubera fazer muito bem. Da em diante, agradeci 
a Deus por ensinar isso a ela em apenas quatro anos. Poderia ter levado muito mais tempo.
        Embora a vida se desenrole cronologicamente, as lies vm quando precisamos delas. Na Semana Santa anterior, eu tinha ido ao Hava para coordenar um workshop. 
As pessoas consideravam-me uma especialista em assuntos sobre a vida. E o que aconteceu? Acabei aprendendo uma lio imensamente importante sobre mim mesma. Foi 
um timo workshop, mas uma temporada desagradvel porque o homem que o organizou era um grande po-duro. Reservou um lugar horrvel para ns, reclamou que comamos 
demais e cobrou at pelo papel e pelo lpis-cera que usamos.
        Na volta para casa, parei na Califrnia. Alguns amigos foram buscar-me no aeroporto e perguntaram como tinha sido o workshop. Estava to perturbada que nem 
respondi. De modo que, tentando fazer uma brincadeira, disseram:
        - Conte ento sobre seus coelhinhos da Pscoa.
        Por algum motivo, ao ouvir aquilo, comecei a chorar descontroladamente. Extravasei toda a raiva e frustrao que havia reprimido na semana anterior. No 
costumava ter aquele tipo de comportamento.
        Mais tarde,  noite, no aconchego e segurana de meu quarto, analisei o que poderia ter causado aquela exploso. A referncia aos coelhinhos da Pscoa tinha 
desencadeado a lembrana da ocasio em que meu pai mandara que eu levasse "Blackie" para o aougueiro. De repente, toda a dor, raiva e injustia que reprimira durante 
quase quarenta anos vieram  tona. Chorei as lgrimas que deveria ter chorado ento. Tambm percebi que tinha alergia a homens avarentos. Todas as vezes que encontrava 
um, ficava tensa, vivendo subconscientemente a morte de meu coelhinho favorito. Afinal, aquele sovina do Hava fizera-me explodir.
        Como era de se esperar, senti-me muito melhor depois de exteriorizar aqueles sentimentos.
         impossvel viver uma vida de qualidade superior se no nos livramos de nossa negatividade, de nossas questes pendentes... de nossos coelhinhos pretos.
        Se  que ainda havia outro coelhinho preto dentro de mim, era a minha necessidade - como "uma coisinha insignificante de menos de um quilo" - de ter de provar 
constantemente a mim mesma que merecia estar viva. Aos quarenta e nove anos, no conseguia diminuir meu ritmo. Manny tambm estava ocupado construindo sua carreira. 
No havia muito tempo para um relacionamento saudvel. O antdoto perfeito, pensava, seria comprar uma fazenda, algum lugar afastado onde eu pudesse recarregar minhas 
baterias, relaxar com Manny e dar s crianas a oportunidade de viver experincias com a natureza que fossem semelhantes s que eu tivera em minha infncia. Tinha 
em mente grandes extenses de terra, rvores, flores e animais. Manny no partilhava de todo o meu entusiasmo, mas ao menos reconhecia que as viagens de carro que 
fazamos para procurar fazendas eram oportunidades para ficarmos juntos.
        Em nossa ltima viagem no vero de 1975, encontramos o local perfeito na Virgnia. Os campos pareciam gravuras de um livro, inclusive com morros sagrados 
indgenas. Fiquei encantada. Manny tambm parecia estar gostando, a julgar pela maneira como tirava fotografias do lugar com uma mquina fotogrfica cara que um 
amigo lhe havia emprestado. Falamos sobre o assunto no carro, enquanto Manny me levava para um hotel em Afton, onde eu iria coordenar um workshop no dia seguinte. 
Depois de me deixar l, Manny e as crianas seguiriam no carro de volta para Chicago.
        No entanto, ao entrar na cidade, passamos por uma pequena casa de aspecto esquisito. Uma mulher que estava na varanda correu na direo" de nosso carro acenando 
freneticamente com os braos. Pensando que ela precisava de ajuda, Manny parou o carro. Acontece que a mulher, uma total desconhecida, sabia onde eu dormiria naquela 
noite e estava esperando que passasse por sua casa a caminho do hotel. Pediu que a acompanhasse at sua casa.
        - Tenho uma coisa muito importante para lhe mostrar - disse. Por mais estranho que parea, isso no era nem um pouco fora do comum - no para mim. Naquela 
poca, eu j estava acostumada a encontrar pessoas que no mediam esforos para conversar comigo ou dizerem que precisavam urgentemente me fazer alguma pergunta. 
Como sempre procurava atender a todos, disse-lhe que tinha dois minutos para mostrar o que queria. Ela concordou e entramos na casa. Levou-me para uma pequena e 
acolhedora sala de estar e apontou para uma fotografia que estava sobre a mesa.
        - C est - disse. - Olhe.
         primeira vista, a imagem era simplesmente a de uma flor bonita, mas olhei de perto e vi que sobre a flor havia uma pequena criatura com rosto, corpo e 
asas.
        Voltei-me para a mulher. Ela sacudiu a cabea.
        -  uma fada, no ? - perguntei, sentindo meu corao bater mais forte.
        - O que acha? - replicou.
        s vezes, no vale a pena pensar tanto com a cabea, e sim com o instinto, e aquela foi uma dessas ocasies. quela altura de minha vida, estava aberta a 
tudo e a todos. Havia dias em que eu tinha a impresso de que uma cortina estava sendo levantada para me dar acesso a um mundo que ningum jamais vira antes. L 
estava uma prova. Era um daqueles momentos crticos. Normalmente, eu teria pedido uma xcara de caf e feito a mulher falar at cansar. Porm, minha famlia estava 
esperando no carro. No tinha tempo para perguntas. De qualquer forma, aceitei a fotografia.
        - Quer uma resposta sincera ou uma resposta bem-educada? - perguntei.
        - No tem importncia - respondeu. - J deu sua resposta. Antes que eu sequer tivesse tempo de me dirigir para a sada, ela me entregou uma mquina fotogrfica 
Polaroid, fez sinal para que a seguisse por uma porta de fundos que dava para um jardim bem cuidado e pediu que eu fotografasse qualquer planta ou flor que desejasse. 
Para satisfaz-la e poder sair dali, tirei uma fotografia e puxei o filme da mquina. Segundos depois, uma outra fada apareceu focalizada sobre a flor. Por um lado, 
eu estava surpresa. Por outro, tentava imaginar qual seria o truque. E um outro lado meu agradeceu apressado e foi ao encontro de Manny e as crianas, embora eu 
tenha inventado uma histria qualquer quando eles me perguntaram o que a mulher queria. Infelizmente, havia um nmero cada vez maior de coisas que no podia contar 
 minha famlia.
        Antes de me deixar no hotel, Manny entregou-me a mquina fotogrfica emprestada, pois achava que seria mais seguro eu levar aquele objeto to caro de volta 
para casa no avio do que ele correr o risco de um roubo no hotel  beira da estrada, onde planejavam passar a noite. Fez uma preleo sobre a importncia de cuidar 
muito bem de uma mquina to dispendiosa como aquela, uma arenga que eu j ouvira tantas vezes que nem me dei ao trabalho de prestar muita ateno.
        - Prometo no tocar nela - disse, pendurando-a no ombro e mais tarde rindo do paradoxo de no poder toc-la e ao mesmo tempo estar com a mquina junto ao 
corpo.
        Quando fiquei sozinha, comecei a pensar nas fadas. Ouvira falar delas pela primeira vez nas histrias que lia em criana e, alm disso, eu tambm conversava 
com minhas plantas e flores, mas nada disso me fazia acreditar que existissem fadas de verdade. Ainda assim, no conseguia parar de pensar naquela estranha mulher 
que fotografava fadas. Era uma prova convincente e intrigante. E alm disso havia o fato de eu ter sido capaz de fazer o mesmo com a mquina Polaroid dela. Se fosse 
um truque, era muito bom. Mas eu no achava que pudesse ser.
        Desde a visita da senhora Schwartz, havia aprendido a no desprezar as coisas s porque no podia explic-las. Acreditava que todos temos um anjo da guarda 
ou um guia que toma conta de ns. Nos campos de batalha da Polnia, nos alojamentos de Maidanek ou nos corredores dos hospitais, muitas vezes tinha sentido que estava 
sendo guiada por algo mais forte do que eu.
        E agora, fadas?
        Quando estamos preparados para experincias msticas, elas acontecem conosco. Se estivermos abertos a essas experincias, teremos nossos encontros espirituais.
        Ningum poderia estar mais aberto do que eu quando voltei para meu quarto de hotel. Peguei a mquina fotogrfica do amigo de Manny - o fruto proibido, em 
que prometera no tocar -, fui at um campo coberto de relva prximo a um bosque, encontrei uma clareira diante de uma pequena elevao e sentei-me. A paisagem lembrava-me 
o meu esconderijo secreto da infncia atrs de nossa casa, em Meilen. Restavam ainda trs fotos por bater no rolo de filme da mquina.
        Trs fotos: na primeira tentativa, enquadrei a colina  minha frente, com o bosque ao fundo. Antes de tirar a segunda foto, lancei um desafio em voz alta: 
"Se tiver mesmo um guia e se ele estiver me ouvindo, que aparea na fotografia que vou tirar agora." E bati a fotografia. A ltima fotografia no foi aproveitada.
        De volta ao hotel, guardei novamente a mquina e logo esqueci a minha experincia. Um ms depois, minha memria foi reavivada. Naquele dia, apressei-me para 
pegar um vo de Nova York para Chicago, carregando uma enorme sacola de gulodices para meu marido: vrios cachorros-quentes kosher, quilos de salame kosher e uma 
torta de queijo tpica de Nova York. Quando o avio aterrissou, todo o seu interior cheirava a delicatessen. Corri para casa para fazer uma surpresa a Manny, que 
s esperava que eu chegasse tarde da noite. Enquanto preparava o jantar, ele telefonou procurando por uma das crianas. Em vez de parecer contente quando atendi 
o telefone, ele disse, com aspereza:
        - Muito bem, mais uma vez voc fez o que no devia.
        - Fiz o que no devia? - perguntei. No tinha a menor idia do que ele estava falando.
        - A mquina fotogrfica - disparou.
        No sabia que mquina era aquela. Aborrecido, ele explicou que se tratava da mquina fotogrfica que o amigo lhe emprestara e que ele havia confiado a mim 
na Virgnia.
        - Voc deve ter usado a mquina - disse. - Mandei revelar as fotografias e uma delas no final ficou superposta. Deve ter estragado a droga da mquina.
        E a me lembrei de minha experincia. Sem fazer caso das crticas de Manny, insisti para que viesse depressa para casa. Assim que ele entrou pela porta, 
pedi para ver as fotografias como se fosse uma criana impaciente.
        Se no as tivesse visto com meus prprios olhos, nunca teria acreditado no que encontrei. A primeira mostrava a campina e o bosque. Na segunda havia exatamente 
a mesma coisa, mas, sobreposta em primeiro plano, estava a figura de um ndio alto, musculoso, com um ar estico e os braos cruzados sobre o peito. Quando tirei 
a fotografia, ele estava olhando diretamente para a cmera. Tinha uma expresso muito sria no rosto. Nada de brincadeiras.
        Fiquei esttica, mas com turbilhes dentro de mim. As fotografias tornaram-se um tesouro que iria guardar pela vida inteira. Eram uma prova incontestvel. 
Lamentavelmente, foram destrudas juntamente com todas as outras fotografias, dirios, agendas e livros no incndio de minha casa em 1994. Naquele momento, porm, 
eu s fazia olhar para elas e maravilhar-me.
        - Ento  verdade - disse, baixinho.
        Manny, pronto para repreender-me mais uma vez, perguntou o que eu estava murmurando.
        - Nada, no  nada.
        Era uma pena no me sentir  vontade para dividir tanto entusiasmo com meu marido, mas ele no admitiria perder seu tempo com aquilo. Tinha dificuldades 
em aceitar meus estudos sobre a vida depois da morte. E fadas, ento? Bem, os tempos em que havamos dado apoio um ao outro na faculdade de medicina e durante as 
longas horas de nossos perodos de residncia pertenciam ao passado. Agora que Manny tinha cinqenta anos e problemas de corao, estava mais interessado em sossegar 
e possuir muitas coisas. De vrias maneiras, eu estava apenas comeando.
        Isso seria um problema mais tarde.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 29
      
    Um canal para o outro lado
    
Eu fora atendida. Agora, precisava de ajuda. Tinha encontrado a prova de que a vida continuava depois da morte. Havia tambm fotografias de fadas e guias. Partes 
de um mundo novo e ainda no mapeado me tinham sido reveladas. Sentia-me como um explorador que chega ao final de uma longa viagem. Tinha terra  vista. Ainda assim, 
no podia chegar l sozinha. Desejava muito ter algum a quem recorrer, dizia s pessoas de meu crculo cada vez mais amplo de relaes, algum que conhecesse mais 
o assunto.
         claro que os intermedirios dos comedores de tofu entraram em contato comigo fazendo toda espcie de propostas a respeito de falar com os mortos ou viajar 
para planos mais elevados de conscincia. Mas eles no eram o meu tipo. Ento, no incio de 1971, fui procurada por um casal de San Diego, Jay e Martha B., que prometeram 
apresentar-me a entidades espirituais.
        - Voc vai poder falar com elas - os B. prometeram. - Poder falar com elas e elas com voc.
        Conseguiram despertar minha ateno. Conversamos algumas vezes pelo telefone e acabei marcando uma palestra em San Diego naquela primavera, aproveitando 
para visit-los.
        No aeroporto, ns trs nos abraamos como se fssemos velhos amigos. Jay B., um antigo trabalhador da indstria de avies, e sua mulher Martha tinham mais 
ou menos a mesma idade que eu e pareciam-se com qualquer casal comum de meia-idade: ele estava ficando careca e ela era gordinha. Levaram-me para sua casa em Escondido, 
onde j havia alguma coisa em funcionamento. Desde a fundao, no ano anterior, do que chamaram de Igreja da Divindade, tinham formado um ncleo de seguidores de 
cerca de cem pessoas. A maior atrao era a capacidade de B. de receber espritos como mdium. O mdium entra em um estado mental profundo, ou transe, para convocar 
a sabedoria de um esprito mais elevado ou a de uma pessoa falecida. As sesses eram realizadas numa pequena construo, ou "sala escura", nos fundos da casa deles.
        - Ns chamamos a isso o "fenmeno da materializao" -disse, muito animado. - Mal posso esperar para partilhar com voc todas as lies que aprendemos at 
agora.
        Quem poderia me culpar por estar to entusiasmada? No primeiro dia, reuni-me a um grupo de vinte e cinco pessoas de todas as idades e tipos na sala escura, 
uma construo acachapada e sem janelas. Todos estavam sentados em cadeiras de armar. B. colocou-me na fila da frente, o lugar de honra. Ento, as luzes se apagaram 
e o grupo comeou a cantar, num murmrio ritmado e sem palavras que cresceu em volume at se transformar numa alta cantilena de todo o grupo, que deu a B. a energia 
necessria para receber as entidades.
        Apesar de minha expectativa, ainda me reservava o direito de estar ctica, mas, quando a cantilena chegou a um determinado ponto de quase histeria, B. desapareceu 
por trs de um biombo. De repente, uma figura incrivelmente alta apareceu  minha direita. Era uma figura um tanto sombria. Comparada com a senhora Schwartz, porm, 
tinha mais densidade e uma presena mais imponente. Tinha cerca de dois metros de altura e falava com uma voz profunda:
        - No final desta noite, voc vai estar surpresa, porm mais confusa - disse.
        Eu j estava. Sentada na beirada da cadeira, cedi a seu fascnio cativante. Era inacreditvel, e ainda assim eu me perguntava se estaria vivendo o momento 
mais importante de minha vida. Ele cantou, cumprimentou o grupo e ento concentrou-se em mim at fazer com que me sentisse muito pequena diante dele. Tudo o que 
fazia e dizia era ponderado e significativo. Chamou-me de Isabel, o que eu compreenderia minutos mais tarde, e disse que tivesse pacincia, porque minha alma gmea 
estava tentando chegar.
        Eu queria perguntar que alma gmea, mas no consegui falar. Ento, ele desapareceu e, aps um longo momento na escurido, um outro personagem inteiramente 
diferente se materializou. Apresentou-se como Salem. Como o primeiro esprito, no se parecia em nada com o ndio que eu tinha fotografado. Salem era alto e esguio, 
estava vestido com uma tnica longa e ondulante e tinha um turbante na cabea. Uma figura bem esquisita. Quando ele se moveu diante de mim, pensei: "Se esse sujeito 
tocar em mim, caio dura aqui." No mesmo instante em que tive esse pensamento, Salem desapareceu. E o primeiro esprito voltou e explicou que o meu nervosismo fizera 
Salem ir embora.
        Passaram-se cinco minutos, o suficiente para que eu me acalmasse. Ento, Salem, minha pretensa alma gmea, reapareceu bem  minha frente. Apesar de ter sido 
antes afugentado por meus pensamentos, decidiu testar-me colocando os dedos de seus ps nas pontas de minhas sandlias. Quando viu que no me assustava, aproximou-se 
mais. Eu notava que ele estava tendo o cuidado de no me assustar, e realmente no me assustava. Assim que eu quis que ele andasse mais depressa e chegasse aonde 
pretendia, ele apresentou-se oficialmente, saudou-me como sua "amada irm, Isabel" e, com toda a delicadeza, fez-me levantar da cadeira e segui-lo at um quarto 
muito escuro ao fundo, onde ficamos a ss. Salem agia de modo estranho e mstico, mas ao mesmo tempo tranqilizador e ntimo. Prevenindo-me que faramos juntos uma 
viagem especial, Salem explicou que, em outra vida, eu tinha sido uma professora sbia e respeitada chamada Isabel.
        No consegui captar nada naquela noite. Depois de uma hora, estava sobrecarregada e quase contente com o fim da sesso, para que pudesse deixar toda a experincia 
assentar. Havia muito o que digerir, muito mais do que previra. Em minha palestra, realizada no dia seguinte, comecei com o que havia preparado anteriormente e em 
seguida contei o que acontecera na noite anterior. Em vez de ser criticada e considerada maluca - a reao que eu esperava -, fui aplaudida de p.
        Mais tarde,  noite, a ltima antes da minha volta para Chicago, B. levou-me novamente at a sala escura - sozinha. Havia um lado meu que queria ver tudo 
outra vez para verificar se aquilo era genuno. Dessa vez, B. demorou um pouco mais para receber o esprito, mas Salem acabou aparecendo. Enquanto nos cumprimentvamos, 
pensava em como seria bom se minha me e meu pai pudessem ver aonde a menorzinha de suas filhas tinha chegado na vida. Inesperadamente, Salem comeou a cantar: "Always... 
I'll be loving you..." Ningum, a no ser Manny, sabia que aquela cano era uma das favoritas da famlia Kbler.
        - Ele tem conhecimento disso - disse Salem, referindo-se a meu pai. - Ele sabe muito bem.
        No dia seguinte, j em Chicago, contei tudo a Manny e s crianas. Ficaram boquiabertos. Manny ouviu sem fazer crticas; Kenneth parecia interessado; Barbara, 
ento com treze anos, era quem se mostrava mais abertamente ctica, talvez at um pouco assustada. As reaes deles, quaisquer que fossem, eram compreensveis. Era 
um assunto novo para eles e no escondi nada. Mas esperava que Manny, e quem sabe Kenneth e Barbara tambm, abandonasse os preconceitos e pudesse um dia at mesmo 
encontrar Salem pessoalmente.
        Nos meses seguintes, voltei muitas vezes a Escondido e encontrei outros espritos. Um guia em especial, chamado Mario, era um verdadeiro gnio que discorria 
com facilidade sobre qualquer assunto que eu mencionasse, fosse geologia, histria, fsica ou cristais. Mas meu vnculo era com Salem.
        - A lua-de-mel acabou - disse, certa noite. Evidentemente, tratava-se de comear a ter conversas mais srias, mais filosficas, porque da em diante Salem 
e eu passamos a debater sobretudo idias como emoes naturais e aprendidas, educao de crianas e maneiras saudveis de externar tristeza, raiva e dio. Mais tarde, 
incorporei essas teorias a meus workshops.
        Mas incorpor-las  minha vida domstica foi outra questo. Aquela deveria ter sido uma poca de comemoraes. L estava eu, no ponto crtico de uma pesquisa 
que poderia mudar e melhorar um nmero incalculvel de vidas. Quanto mais me aprofundava, porm, mais difcil se tornava para minha famlia aceit-la. O cientista 
em Manny tinha dificuldades em aceitar qualquer coisa relacionada  vida depois da morte. Na realidade, tivemos muitos desentendimentos, pois Manny achava que os 
B. estavam se aproveitando de mim. Kenneth j tinha idade bastante para concordar que sua me pudesse "fazer as coisas dela", mas Barbara ressentia-se por eu passar 
muito tempo trabalhando.
        Creio que estava excessivamente envolvida com o que fazia para perceber a tenso que meu trabalho causava em minha famlia, e s percebi quando era tarde 
demais. Tinha esperanas de um dia conseguir conciliar aqueles dois mundos. Seria um sonho possvel se pudesse encontrar a fazenda, uma idia que ainda me interessava.
        O sonho, contudo, desfez-se. Manny no compreendia o processo medinico, por mais que eu o explicasse com toda a clareza. Sua mente lgica no permitia que 
compreendesse. Era assunto para grandes discusses entre ns.
        - Como  que voc pode acreditar nessa besteira toda? - dizia. - B. est se aproveitando de voc.
        As coisas pareciam ter voltado ao normal quando instalamos uma piscina interna. Dei vrios mergulhos relaxantes tarde da noite, depois de voltar de minhas 
aulas. E no havia prazer maior do que nadar vendo a neve se acumular do lado de fora das janelas. Em algumas poucas ocasies, a famlia inteira divertiu-se ali 
em meio a brincadeiras e risadas na gua. Entretanto, aqueles sons felizes duraram pouco. Em 1976, no Dia dos Pais, depois que as crianas e eu levamos Manny para 
jantar num restaurante italiano elegante, estvamos no estacionamento quando Manny explicou por que o jantar tinha sido to tenso. Ele queria o divrcio.
        - Estou indo embora - disse. - Aluguei um apartamento em Chicago.
        De incio, pensei que Manny estivesse brincando. Ento, ele saiu com o carro sem nem ao menos abraar as crianas. No sei por qu, no nos via como uma 
famlia de divorciados, como mais um nmero daquelas estatsticas. Procurei convencer Kenneth e Barbara de que seu pai voltaria para casa. Dizia a mim mesma que 
Manny sentiria falta da comida que eu preparava, precisaria que lavassem sua roupa ou iria querer receber seus amigos do hospital no jardim, que agora estava todo 
florido. Numa noite, porm, quando abri a porta dos fundos para Barbara e um amigo, um homem pulou do meio dos arbustos e entregou-me uma cpia dos papis do divrcio 
que, na vspera, Manny dera entrada no tribunal.
        Numa das vezes em que eu no estava em casa, Manny voltou. Encontrei os restos de uma festa que ele dera em torno da piscina. Ficou bvio o que ele pensava 
a meu respeito. Mas eu no queria lutar. Barbara precisava de uma vida domstica estvel, com algum que pudesse estar com ela todas as noites, e esse algum no 
era eu. Disse a Manny que podia ficar com a casa, coloquei algumas coisas indispensveis em caixas, apenas roupas, livros e roupa de cama, e despachei-as para Escondido. 
No me ocorria outro lugar para ir at saber o que faria de minha vida.
        Como necessitava de apoio, voei at San Diego para passar um dia e consultei-me com Salem. Ele me deu a solidariedade de que eu desesperadamente precisava, 
assim como o tipo de orientao que esperava receber.
        - O que acha de ter seu prprio centro de tratamento no alto de uma montanha aqui perto? - perguntou. Naturalmente, eu aprovei. - Ento,  assim que vai 
ser.
        Houve mais uma viagem de volta  minha casa de Frank Lloyd Wright, em Flossmoor, quando fiz minhas despedidas, trabalhei uma vez mais em minha cozinha e, 
chorosa, aconcheguei Barbara em sua cama na hora de dormir. Depois, mudei-me para meu novo endereo, um trailer, em Escondido. Era duro estar comeando tudo de novo 
aos cinqenta anos, mesmo para algum como eu, que tinha respostas para as grandes indagaes da vida. O trailer era. pequeno demais, no tinha lugar para meus livros 
e nem mesmo para uma cadeira confortvel.
        Poucos amigos apareceram para ajudar. Sentia-me sozinha, isolada e abandonada.
        Pouco a pouco, o bom tempo provou ser meu salvador, atraindo-me para o ar livre salutar. Plantei uma horta e dei longas caminhadas, imersa em contemplao, 
pelos bosques de eucaliptos. A amizade dos B. amenizava minha solido e fazia-me olhar para adiante. Depois de um ou dois meses, comecei a reagir. Comprei uma casinha 
encantadora com uma varanda voltada para uma linda campina, lugar de sobra para meus livros e prxima  encosta de uma colina que cobri de flores-do-campo.
        Assim que a vontade de trabalhar voltou, fiz planos para comear meu prprio centro de tratamento.  medida que a fase de falar sobre o assunto ficava para 
trs, procurei entender a estranha reviravolta de acontecimentos que causara o fim de meu casamento e minha mudana para o campo, onde estava prestes a iniciar o 
maior empreendimento de minha vida. Era impossvel. Lembrei a mim mesma que nada acontece por acaso. Agora que me sentia melhor, podia ajudar os outros novamente.
        Graas  orientao de Salem, encontrei o local perfeito para construir o centro: cerca de dezesseis hectares acima do lago Wohlfert, e com uma linda vista. 
Quando estava visitando a propriedade, uma borboleta pousou em meu brao, um sinal de que no era preciso procurar mais.
        - Este  o lugar onde temos de construir o centro - disse.
        No era to fcil, o que descobri quando solicitei um emprstimo. Como Manny era quem sempre tomava conta de todo o nosso dinheiro, eu no tinha nome na 
praa para obter crdito. Mesmo possuindo uma boa renda proveniente de minhas palestras, ningum queria me dar um emprstimo. A loucura daquela situao quase me 
levou a simpatizar com as feministas.
        Mas minha determinao em conseguir meu objetivo e minha falta de tino para negcios acabaram vencendo. Em troca da casa de Flossmoor, todos os mveis e 
parte das despesas com as crianas, Manny concordou em comprar a propriedade para o centro de tratamento e arrend-la para mim. Logo, uma vez por ms, eu estava 
coordenando workshops de uma semana de durao que ajudavam estudantes de medicina e de enfermagem, pessoas com doenas fatais e suas famlias a lidarem com a vida, 
a morte e a transio de uma para outra de modo mais saudvel e mais aberto.
        Os workshops, que de incio se limitavam a receber quarenta pessoas de cada vez, tinham uma longa lista de espera. Querendo curar as pessoas em todas as 
dimenses de suas vidas, pedi aos B., meus confidentes e incentivadores mais prximos, que utilizassem seus talentos no projeto. Apesar de no terem nenhuma participao 
financeira no centro de tratamento, eu os tratava como scios. Martha era a encarregada das aulas de psicodrama, desenvolvendo exerccios que ajudavam as pessoas 
a superar crises de raiva e medo. Ela era realmente competente. Mas as sesses de seu marido continuavam a ser os acontecimentos mais impressionantes e de forte 
impacto. Ele era um mdium poderoso, com um carisma natural. O ncleo principal dos seguidores de sua igreja dedicava-lhe uma confiana inabalvel. No entanto, com 
a participao cada vez maior de pessoas de fora, B., de vez em quando, precisava defender-se dos que achavam que sua atividade era um embuste. Enfrentava esses 
desafios com uma advertncia severa: se algum acendesse as luzes enquanto estava em transe, arriscava-se a fazer mal aos espritos - e possivelmente a ele tambm. 
Mesmo assim, certa vez, quando B. estava recebendo uma entidade chamada Willie, uma mulher acendeu as luzes. O que se viu foi inesquecvel: B. nu em plo.
        B. continuou em seu transe, enquanto o resto das pessoas na sala entrou em pnico, achando que Willie iria ser afetado, mas B. explicou mais tarde que aquele 
era seu mtodo para fazer o esprito materializar-se atravs dele. No havia motivo para preocupaes.
        Eu sentia uma ponta de ceticismo com relao a um guia chamado Pedro. No sei por qu, talvez por um sexto sentido em que eu aprendera a confiar, algo me 
dizia que ele poderia ser uma fraude. Investiguei na ocasio seguinte em que o esprito apareceu, fazendo-lhe perguntas que s um gnio poderia responder, perguntas 
que eu sabia estarem muito acima dos conhecimentos de B. No s Pedro as respondeu sem hesitar como, ao tentar subir num cavalo de madeira usado nas aulas de psicodrama, 
brincou que o cavalo era alto demais para ele, desapareceu e voltou um instante depois quinze centmetros mais alto. Olhou para mim e disse:
        - Est vendo, eu sei que voc no acredita.
        Depois disso, no tive mais problemas de credibilidade quanto a Pedro. Ele se saa melhor ainda quando no estvamos em workshops, quando apenas o grupo 
antigo estava presente. Nessas sesses, ele se tornava mais ntimo de cada pessoa, oferecendo conselhos sobre questes de suas vidas.
        - Foi difcil para voc, Isabel, mas no tinha opo.
        Por mais solcito que fosse, porm, eu percebia um toque de negatividade no que dizia. Preveniu-nos a respeito de mudanas que iriam desunir o grupo e ameaar 
a credibilidade de B.
        - Cada um de vocs far sua prpria escolha - explicou.
        Mais tarde, vi que ele se referia a boatos sobre acontecimentos estranhos na sala escura, algumas vezes relacionados a abusos sexuais, mas eu no tinha conhecimento 
dessas histrias naquela poca. Viajava tanto que muitas vezes estava fora do alcance dos falatrios.
        Quanto ao futuro, no me preocupava, pois sabia que viria de qualquer maneira, quer eu gostasse ou no, mas de vez em quando tinha a impresso de que Pedro 
me preparava mais para uma mudana do que fazia com os outros.
        - O livre-arbtrio foi o maior dom que o homem recebeu quando chegou ao planeta Terra - dizia. - Todas as opes que fazemos a cada momento, quando falamos, 
agimos ou pensamos, so terrivelmente importantes. Cada opo afeta todas as formas de vida do planeta.
        Mesmo quando no compreendia por que alguma coisa estava sendo dita naquelas sesses, aprendi a aceit-las. Os guias s forneciam o conhecimento. Cabia a 
mim, assim como a todas as outras pessoas, decidir como utilizar esse conhecimento. At ento, tinha sido bom para mim.
        - Obrigado, Isabel - disse Pedro, com um dos joelhos no cho,  minha frente. - Obrigado por aceitar seu destino. Pensava comigo mesma qual seria esse destino.
        
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO 30
       
    A morte no existe
    
Sabendo que vivia to ocupada e que minhas palestras eram marcadas com um ano ou dois de antecedncia, uma amiga perguntou-me certa vez como eu administrava minha 
vida, como tomava minhas decises. Minha resposta surpreendeu-a:
        - Fao o que acho certo, no o que se espera que eu faa.   Isso explicava por que eu ainda falava com meu marido.
         - Foi voc quem se divorciou de mim, no eu de voc - dizia a ele.
        Essa minha maneira de ser foi tambm a razo por que decidi fazer uma parada no programada em Santa Barbara, quando estava a caminho de uma palestra em 
Seattle. De repente, senti vontade de ver uma velha amiga.
        Coisas assim eram de se esperar em uma mulher que dizia s pessoas para viverem cada dia de suas vidas como se fosse o ltimo. Minha amiga ficou encantada 
quando telefonei. Na verdade, eu tinha planejado apenas uma visita  tarde para tomar um ch. Mas, quando encontrei a irm de minha amiga no aeroporto, ela disse 
que tinha havido uma mudana no que fora combinado.
        - No querem que eu diga nada a respeito - desculpou-se. O mistrio logo se esclareceu. Minha amiga e seu marido, um
        arquiteto conhecido, moravam numa linda casa em estilo espanhol. Assim que entrei, abraaram-me e demonstraram alvio por eu ter conseguido chegar. Havia 
alguma possibilidade de que no conseguisse? Antes que tivesse tempo de perguntar qual era o problema, levaram-me para a sala e fizeram-me sentar numa cadeira. O 
marido de minha amiga sentou-se diante de mim e balanou o corpo para frente e para trs at entrar em transe. Lancei um olhar indagador para minha amiga.
        - Ele  mdium - disse.
        Ao ouvir isso, tive certeza de que a confuso logo se esclareceria e voltei minha ateno para o marido dela. Seus olhos estavam fechados, tinha uma expresso 
muito sria no rosto e, quando o esprito tomou conta dele, parecia que tinha envelhecido cem anos.
        - Deu certo trazer voc at aqui - disse, com uma voz agora estranha, de uma pessoa mais velha, e carregada de urgncia. -  fundamental que voc no protele 
mais. Seu trabalho sobre a morte e o morrer est terminado. Agora, est na hora de iniciar sua segunda tarefa.
        Escutar pacientes ou mdiuns nunca fora problema para mim, mas compreender o que diziam s vezes levava algum tempo.
        - O que est querendo dizer, qual  a minha segunda tarefa? - perguntei.
        - Est na hora de voc dizer ao mundo que a morte no existe - afirmou.
        Apesar de saber que a funo dos guias  unicamente nos ajudar a cumprir nosso destino e as promessas que fizemos a Deus, eu protestei. Precisava de mais 
explicaes. Precisava saber por que tinham me escolhido. Afinal de contas, era conhecida em todo o mundo como a Mulher da Morte e do Morrer. De que jeito voltaria 
atrs e diria a todos que a morte no existe?
        - Por que eu? - perguntei. - Por que no escolheram um pastor ou algum assim?
        O esprito mostrou sinais de impacincia. Observou que tinha sido eu mesma quem escolhera o trabalho que realizaria nesta vida na Terra.
        - Estou apenas dizendo a voc que est na hora - disse. E em seguida enumerou uma lista enorme de razes pelas quais eu era a pessoa destinada a realizar 
aquela tarefa:
        - Teria de ser uma pessoa ligada  medicina e  cincia, no  teologia ou  religio, pois estas no fizeram o que deveriam apesar de terem tido oportunidades 
mais do que suficientes nos ltimos dois mil anos. Teria de ser uma mulher e no um homem. E algum que no tivesse medo. E algum que tivesse acesso a muita gente 
e fosse capaz de transmitir a sensao de estar falando pessoalmente com cada um.
        -  tudo. Est na hora - concluiu. - Voc tem muito o que assimilar.
        Isso era indiscutvel. Depois de uma xcara de ch, minha amiga, seu marido e eu, esgotados fsica e emocionalmente, fomos para nossos quartos. Ao ficar 
s, vi que tinha sido chamada ali por aquela razo especfica. Nada acontece por acaso. E Pedro j no me agradecera por aceitar meu destino? Deitada na cama, imaginava 
o que Salem teria a dizer sobre aquela tarefa.
        Assim que o pensamento me ocorreu, senti que havia algum mais em minha cama. Abri os olhos.
        - Salem! - exclamei.
        Estava escuro, mas vi que se materializara da cintura para cima.
        - A energia nesta casa estava to forte que consegui aparecer por uns minutos - explicou.
        Fiquei admirada por t-lo chamado sem a ajuda de B., o que fez com que me sentisse menos dependente. Evidentemente, B. no detinha mais o controle total 
desses momentos especiais.
        - Parabns por sua segunda tarefa, Isabel - Salem acrescentou com sua voz profunda e familiar. - Desejo-lhe sorte.
        Antes de ir embora, Salem massageou minhas costas e fez-me cair num sono profundo. De volta em minha casa, reuni todos os conhecimentos e experincia referentes 
 vida depois da morte que adquirira ao longo dos anos. No muito tempo depois, dei pela primeira vez minha nova palestra, "A Morte e a Vida Depois da Morte". Fiquei 
to nervosa quanto na primeira vez em que substitu o professor Margolin. No entanto, a reao foi esmagadoramente positiva, o que provava que eu estava no caminho 
certo. Durante uma palestra, depois de entrevistar um homem que estava morrendo, respondia s perguntas quando uma mulher de trinta e poucos anos chamou minha ateno.
        - Sua pergunta vai ser a ltima - disse. Ela correu para o microfone.
        - Diga-me, por favor, na sua opinio, como  a experincia de uma criana na hora de sua morte? - perguntou.
        Era uma oportunidade perfeita para resumir a palestra. Respondi que as crianas, da mesma forma que os adultos, deixam seu corpo fsico como uma borboleta 
emerge do casulo, e em seguida passam por todos os estgios da vida alm da morte que descrevi anteriormente.
        Como um raio, a mulher disparou em direo ao palco, onde contou como seu filho pequeno, Peter, acometido de um resfriado forte, tivera uma reao alrgica 
a uma injeo aplicada por seu pediatra e morrera no consultrio. Enquanto ela e o pediatra esperavam que o marido dela chegasse durante "o que pareceu uma eternidade", 
Peter milagrosamente abriu seus olhos castanhos e disse:
        - Mame, eu estava morto, perto de Jesus e Nossa Senhora. Tinha tanto amor l. Eu no queria voltar. Mas Nossa Senhora disse que no era a minha hora.
        E como Peter no quisesse atender, a Virgem Maria tomou a mo dele e afirmou:
        - Voc tem de voltar. Tem de salvar sua me do fogo.
        Naquele instante, Peter voltou a seu corpo e abriu os olhos.
        A me, que estava contando a histria pela primeira vez desde que acontecera treze anos antes, confessou que vivia num estado de grande tristeza e depresso 
por saber que estava destinada ao "fogo", ou, segundo a sua interpretao, ao inferno. No sabia por qu. Afinal de contas, era uma boa me, boa esposa e boa crist.
        - No acho que seja justo - exclamava. - Isso tem acabado com a minha vida.
        No era justo, mas eu sabia que podia eliminar rapidamente a depresso dela explicando que a Virgem Maria, como outros seres espirituais, costumava falar 
por smbolos.
        - Esse  o problema das religies - disse. - As coisas so escritas de modo que possam ser interpretadas ou, em muitos casos, mal interpretadas.
        Disse a ela que iria provar meu ponto de vista fazendo-lhe algumas perguntas que ela deveria responder sem parar para pensar:
        - O que teria acontecido com voc se a Virgem Maria no tivesse mandado Peter de volta?
        Ela ps a mo na cabea com uma expresso horrorizada e respondeu:
        - Ah, meu Deus, no quero nem pensar, acho que teria passado por um verdadeiro inferno!
        - Voc quer dizer que teria queimado de verdade no fogo do inferno? - perguntei ento.
        - No,  s uma maneira de falar - explicou.
        - Est vendo? Entendeu o que Nossa Senhora queria dizer quando afirmou que Peter precisava salv-la do fogo?
        No s ela entendeu como, nos meses seguintes,  medida que aumentava a popularidade de minhas palestras, eu constatava que as pessoas estavam mais do que 
prontas para aceitar a vida depois da morte. Por que no? A mensagem era positiva. Inmeras pessoas haviam passado por experincias semelhantes, deixando seu corpo 
e viajando em direo a uma luz intensa. Sentiam alvio ao ver finalmente essas histrias confirmadas. Era uma declarao de vida.
        Mas a tenso provocada pelas mudanas dos seis meses anteriores - meu divrcio, a compra de uma casa nova, o incio do centro de tratamento e praticamente 
a volta ao mundo dando palestras - estava cobrando seu preo. Sem um intervalo para descanso, era desgaste demais. Finalmente, depois de uma srie de palestras pela 
Austrlia, reservei algum tempo para mim mesma. Tinha uma necessidade desesperada disso. Com mais dois casais, aluguei um chal num local isolado nas montanhas. 
No havia telefone ou correio e as cobras venenosas no deixavam muita gente se aproximar. Era excelente.
        Uma semana depois, as tarefas dirias da vida no campo, como cortar lenha para o fogo e a lareira, j tinham comeado a fazer com que eu me sentisse novamente 
uma pessoa razovel e descansada, e ainda tinha a boa perspectiva de uma outra semana pela frente, depois que meus amigos se fossem. Ento, ficaria inteiramente 
sozinha, o que seria perfeito. Entretanto, na noite anterior  partida dos dois casais, eles resolveram ficar comigo. Fui para a cama deprimida.
        No escuro, emocionalmente exausta e deprimida, tive mpetos de implorar por socorro. Tantas pessoas procuravam-me para solucionar seus problemas e eu no 
tinha a quem recorrer para receber afeto e apoio. Nunca chamara meus espritos a no ser em Escondido, mas eles tinham prometido vir a mim se precisasse deles.
        - Pedro, preciso de voc - disse baixinho.
        Apesar da distncia entre a Austrlia e San Diego, em menos de um instante meu esprito favorito apareceu em meu quarto no chal. Ele era capaz de ler meus 
pensamentos, mas mesmo assim perguntei se podia chorar em seu grande ombro.
        - No, no pode ser - disse com firmeza, mas acrescentou em seguida: - Mas posso fazer outra coisa por voc.
        Lentamente, estendeu o brao, colocou minha cabea na palma de sua mo e disse:
        - Quando eu for embora, voc vai compreender. Enquanto estvamos ali sozinhos, tive a sensao de estar sendo carregada na palma de sua mo. Foi a sensao 
de paz e amor mais linda e gratificante que jamais experimentei. Todas as minhas preocupaes desapareceram.
        Sem nenhum comentrio ou palavra de despedida, Pedro foi embora mansamente. Eu no tinha a menor noo das horas, se a noite tinha apenas comeado ou se 
a aurora estava prxima. No importava. Na penumbra, meus olhos deram com uma pequena estatueta de madeira colocada na estante. Representava uma criana confortavelmente 
aninhada na palma de uma mo. Fui ento envolvida pela mesma sensao de proteo, afeto, paz e amor que sentira quando Pedro tocara minha cabea com sua mo e adormeci 
sobre um enorme travesseiro, deitada no assoalho.
        Quando meus amigos acordaram na manh seguinte, espantaram-se por eu no ter ido para a cama e parecer to descansada. No consegui contar a eles nada do 
que tinha acontecido na noite anterior, pois ainda estava sob o efeito daquilo tudo. Mas Pedro tinha razo. Eu compreendi. Milhes de pessoas no mundo tinham companheiros, 
amantes, parceiros e assim por diante. Mas quantas teriam sentido a emoo e o conforto de serem carregadas na mo dele?
        No, no me queixaria mais ou ficaria triste por no ter um ombro em que chorar. No fundo de meu corao, sabia que nunca estava sozinha. Tinha recebido 
aquilo de que precisava. Muitas outras vezes, como naquela noite, ansiara por uma companhia, por um pouco de amor, um abrao ou um ombro no qual me apoiar - e nunca 
encontrara.
        Mas recebi outras ddivas, que poucas pessoas jamais receberam e que no trocaria por nada. Isso eu sabia.
        A julgar pelo que me acontecera recentemente, no tinha mais dvidas de que grande parte da vida consiste em descobrir aquilo que j conhecemos. Em especial, 
quando se trata de poderes e experincias espirituais. Um exemplo disso foi a lio que aprendi com Adele Tinning, uma senhora idosa de San Diego. Os espritos falavam 
por meio da pesada mesa de carvalho que ficava na cozinha dela, e a mesa se erguia e se movia no ponto onde ela colocava as mos, transmitindo mensagens numa espcie 
de cdigo Morse.
        Certa vez, por ocasio de uma visita de. minhas irms, levei-as  casa de Adele. Quando estvamos sentadas em torno da mesa, to pesada que ns trs juntas 
no conseguiramos tir-la do lugar, Adele fechou os olhos e deu uma risadinha. Ento, a mesa comeou a oscilar sob suas mos.
        - Sua me est aqui - disse, abrindo seus vivos olhos castanhos. - Est desejando feliz aniversrio a vocs.
        Minhas irms ficaram impressionadas. Nenhuma de ns dissera que aquele era o dia de nosso aniversrio.
        Pouco tempo depois, fui coordenar um workshop em Santa Barbara. Na ltima noite do que tinha sido um intenso perodo de cinco dias, s voltei para meu chal 
s cinco da manh. Quando me deitei, com os olhos quase se fechando, uma enfermeira irrompeu no quarto e chamou-me para ver o nascer do sol com ela.
        - Nascer do sol? - exclamei. - Fique  vontade, pode ver o nascer do sol daqui, quero mais  dormir.
        Segundos mais tarde, dormia profundamente. Entretanto, em vez de "cair" no sono, senti como se estivesse me erguendo para fora de meu corpo, cada vez mais 
alto, sem controle mas sem medo. Quando estava voando, percebi que vrios seres pegavam-me e levavam-me para algum lugar onde me consertaram. Era como se tivesse 
vrios mecnicos de automvel trabalhando em mim. E como se cada um tivesse uma especialidade: freios, transmisso e tudo o mais. Num instante, substituram todas 
as partes avariadas e colocaram-me de volta na cama.
        De manh, aps umas poucas horas de sono, acordei sentindo uma serenidade e um bem-estar indizveis. A enfermeira ainda estava em meu quarto, e contei-lhe 
o que tinha acontecido.
        - Voc com certeza teve uma experincia extracorprea - disse.
        Lancei-lhe um olhar perplexo. Afinal de contas, eu no praticava meditao ou comia tofu. Nem era californiana. Nem tinha um guru ou Baba. O que quero dizer 
com isso? Quero dizer que no tinha a menor idia do que se tratava quando ela se referiu a "uma experincia extracorprea". Mas se era algo parecido com o que se 
passara comigo, estava pronta para fazer outro vo a qualquer hora.
        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 31
      
    Minha conscincia csmica
    
Depois de minha experincia extracorprea, fiz um passeio at a biblioteca e encontrei um livro sobre o assunto. O nome do autor era Robert Monroe, o famoso pesquisador, 
e logo dei um jeito de fazer outro passeio, dessa vez at a fazenda de Monroe, na Virgnia, onde ele tinha construdo seu prprio laboratrio de pesquisas. Durante 
anos, as nicas experincias com a mente de que se ouvia falar eram feitas com drogas, com o que eu no concordava. Portanto, pode-se imaginar meu entusiasmo quando 
vi a estrutura que Monroe havia montado: um laboratrio moderno cheio de equipamentos eletrnicos e monitores, o tipo de coisa que me deu imediatamente uma impresso 
de credibilidade.
        Eu estava ali para ter uma outra experincia extracorprea. Para tal, entrei numa cabina  prova de som, deitei-me num colcho d'gua e coloquei uma venda 
sobre os olhos, impedindo a passagem de qualquer claridade. Ento, um assistente ajustou um par de fones em meus ouvidos. Para induzir a experincia, Monroe criou 
um mtodo para estimular o crebro atravs de recursos iatrognicos - ou pulsaes sonoras artificiais. Essas pulsaes faziam o crebro entrar primeiro num estado 
meditativo e ento ir alm - que era o que eu buscava.
        A primeira tentativa, porm, foi um tanto decepcionante. O chefe do laboratrio ligou a mquina. Ouvi o som repetido e constante em meus ouvidos. As pulsaes 
rtmicas comearam lentas e logo se aceleraram, at se tornarem um nico som agudo, de rapidez indistinguvel, que muito depressa me levou a um estado semelhante 
ao do sono. Aparentemente, estava rpido demais, como disse o chefe do laboratrio, que me trouxe de volta depois de alguns minutos e perguntou se eu estava bem.
        - Por que parou? - perguntei, confusa. - Senti que estava comeando.
        No mesmo dia, mais tarde, apesar do desconforto causado por uma obstruo intestinal que j me vinha incomodando havia algumas semanas, deitei-me novamente 
no colcho d'gua para uma segunda tentativa. Sabendo que os cientistas so cautelosos por natureza, dessa vez tive o cuidado de exercer uma influncia maior. Estipulei 
que os botes deveriam estar na posio de velocidade mxima.
        - Ningum nunca viajou to depressa - advertiu o chefe do laboratrio.
        - Bem,  assim que eu quero - disse.
        De fato, na segunda vez tive a experincia que desejava.  difcil descrever, mas o som repetitivo esvaziou instantaneamente a minha mente de todos os pensamentos 
e levou-me para o interior, como uma massa desaparecendo num buraco negro. Ouvi ento um incrvel barulho, semelhante ao som de um vento forte soprando. Subitamente, 
foi como se tivesse sido arrastada por um furaco. Nesse ponto, fui arrancada de meu corpo e lanada pelos ares.
        Para aonde? Para que lugar eu fui? Esta  a pergunta que todos fazem. Ainda que meu corpo estivesse imvel, meu crebro levou-me para outra dimenso da existncia, 
como se estivesse indo para um outro universo. A parte fsica de meu ser no era mais relevante. Como o esprito que deixa o corpo depois da morte, semelhante  
borboleta deixando seu casulo, minha conscincia era definida pela energia psquica, no por meu corpo fsico. Eu simplesmente estava l fora.
        Posteriormente, os cientistas que estavam na sala pediram-me para descrever a experincia. Ao mesmo tempo que gostaria de ter fornecido detalhes que sabia 
serem extraordinrios, no fui de grande ajuda. Alm de dizer a eles que minha obstruo intestinal repentinamente desaparecera, assim como um deslocamento sseo 
em meu pescoo, e que me sentia bem, sem atordoamento, cansao ou qualquer outra coisa do gnero, acrescentei apenas que no sabia aonde estivera.
        Naquela tarde, sentindo-me estranha e perguntando-me se no teria ido longe demais, voltei para a casa de hspedes da fazenda de Monroe, um chal isolado 
chamado Casa da Coruja. Assim que entrei, percebi que havia ali uma energia desconhecida que me convenceu de que no estava sozinha. Como a casa era afastada e no 
tinha telefone, pensei em voltar para passar a noite na casa principal ou ir para um hotel na estrada. Entretanto, acreditando que no existem coincidncias, percebi 
que meus anfitries tinham me deixado sozinha e distante por algum motivo. Portanto, fiquei ali mesmo.
        Apesar de meus esforos para ficar acordada, deitei-me e ca em sono profundo - e foi quando os pesadelos comearam. Era como passar por mil mortes. Torturavam-me 
fisicamente. Mal podia respirar, curvava-me acometida por dores e sofrimentos to avassaladores que nem ao menos tinha foras para gritar ou pedir socorro, se bem 
que ningum teria ouvido se o tivesse feito. Aquilo durou horas, e notei que, cada vez que uma morte se consumava, era seguida de outra, sem uma pausa para que eu 
respirasse, me recuperasse, gritasse ou me preparasse para a seguinte. Mil vezes.
        A finalidade era clara. Eu estava revivendo as mortes de todos os pacientes que tinha atendido at ento, vivenciando novamente sua angstia, aflio, medo, 
sofrimento, tristeza, perda, sangue, lgrimas. .. Se um tivesse morrido de cncer, eu sentia sua dor lancinante. Se fosse um derrame, eu sofria tambm seus efeitos.
        O processo foi suspenso temporariamente por trs vezes. Na primeira, pedi um ombro masculino em que pudesse me apoiar. (Sempre gostara de adormecer com a 
cabea no ombro de Manny.) Mas assim que expressei meu pedido, ouvi uma voz grave, masculina, responder:
        - No ser concedido!
        A negao, pronunciada num tom firme, determinado e frio, no me deixou tempo para fazer outra pergunta. Queria perguntar: "Por que no?" Afinal, tantos 
pacientes moribundos haviam deitado a cabea em meu ombro. Mas no havia tempo, energia ou espao para isso.
        E a agonia e o sofrimento, apossando-se de mim como dores de parto ininterruptas, voltaram to intensas que tudo o que queria era desmaiar. No tive essa 
sorte, porm. No sei dizer quanto tempo se passou at a segunda suspenso.
        - Posso ter uma mo para segurar? - pedi. De propsito, no especifiquei se a mo seria a de um homem ou de uma mulher. Como podia ser exigente naquela hora? 
S queria segurar a mo de algum. Mas a mesma voz firme, destituda de qualquer emoo, recusou meu pedido outra vez, dizendo:
        - No ser concedido!
        No sabia que haveria uma terceira trgua, mas, quando veio, tentei ser astuciosa, respirei fundo, e resolvi pedir para ver a ponta de um dedo. O que eu 
tinha em mente? Mesmo no podendo segurar a ponta de um dedo, v-la  pelo menos a prova da presena de outro ser humano. Antes de expressar o ltimo pedido, porm, 
disse a mim mesma: "No, de jeito nenhum! Se no posso ter nem ao menos uma mo para segurar, tambm no quero a ponta de um dedo. Prefiro agentar tudo sem ajuda, 
por minha prpria conta."
        Cheia de raiva e ressentimento, reunindo em minha vontade cada pedacinho de rebeldia, pensei comigo: "Se eles so to mesquinhos que no me do nem uma mo 
para segurar, ento estou melhor sozinha. Ao menos, tenho meu amor-prprio e minha autoconsiderao sem depender de ningum."
        Essa foi a lio. Tive de vivenciar todo o horror de mil mortes para reafirmar a alegria que veio depois.
        De repente, passar por aquela provao, como pela prpria vida, tornou-se uma questo de F.
        F em Deus - que ele nunca enviaria nada para algum que estivesse alm das foras ou da capacidade da pessoa.
        F em mim mesma - que podia lidar com qualquer coisa que Deus me enviasse, e que, por mais dolorosa e angustiante que fosse, seria capaz de lev-la a cabo.
        Tinha a sensao aterradora de que algum estava esperando que eu dissesse alguma coisa, dissesse a palavra "sim". Ento, soube que era tudo o que estava 
sendo pedido naquele momento: que eu dissesse sim.
        Meus pensamentos dispararam.
        Dizer sim a qu? A mais agonia? Mais dor? Mais sofrimento sem a ajuda de outras pessoas?
        O que quer que fosse, nada poderia ser pior do que o que eu j havia suportado, e ainda estava ali, no estava? Outras mil mortes? Mais outras mil?
        Pouco importava. Mais cedo ou mais tarde, haveria um fim. Alm disso, quela altura, a dor era to intensa que eu j no a sentia mais. Estava alm da dor.
        - Sim! - gritei. - SIM!
        O quarto ficou sereno e toda a dor, agonia e falta de ar cessaram. Quase completamente acordada, vi que estava escuro l fora. Respirei fundo, pela primeira 
vez de modo satisfatrio depois de muito tempo, e olhei mais uma vez para a noite escura. Respirei novamente e relaxei, deitada de costas, e ento comecei a notar 
algumas coisas curiosas. Primeiro, uma parte do meu abdome que estava claramente delineada comeou a vibrar numa rapidez crescente, mas o movimento no estava relacionado 
aos msculos, o que me fez dizer: "No pode ser."
        Mas podia e, quanto mais observava meu corpo deitado ali, mais espantada ficava. Qualquer parte do meu corpo para a qual eu olhasse comeava a vibrar com 
uma rapidez fantstica. As vibraes fragmentavam tudo at a estrutura mais bsica, de modo que, quando eu olhava para qualquer coisa, meus olhos deleitavam-se com 
a dana de bilhes de molculas.
        Naquele momento, percebi que havia deixado meu corpo fsico e me transformado em energia. E, diante de mim, vi muitas flores de ltus incrivelmente belas. 
Essas flores abriram-se bem devagar e tornaram-se mais luminosas, mais coloridas e perfeitas, transformando-se pouco a pouco em uma nica, enorme e deslumbrante 
flor de ltus. Por trs da flor, vi uma luz - de um fulgor indizvel e totalmente etrea, a mesma luz que todos os meus pacientes contavam ter visto.
        Sabia que teria de atravessar a flor gigantesca e integrar-me  luz. Esta tinha uma fora magntica que me atraa cada vez mais para perto e me dava a sensao 
de que aquela luz maravilhosa seria o fim de uma longa e difcil viagem. Sem nenhuma pressa, graas  minha curiosidade, entreguei-me  paz,  beleza e serenidade 
do mundo em vibrao. Surpreendentemente, ainda tinha conscincia de estar na Casa da Coruja, longe do contato com outras pessoas e, onde quer que meus olhos pousassem, 
tudo vibrava - paredes, teto, janelas... as rvores l fora.
        Minha viso, que alcanava quilmetros e quilmetros, permitia que eu visse todas as coisas, desde uma folha at uma porta de madeira, sob o aspecto de sua 
estrutura molecular natural, de suas vibraes. Observei, com grande admirao e respeito, que tudo tinha uma vida prpria, uma natureza divina. Durante todo o tempo, 
continuei a avanar lentamente atravs da flor de ltus em direo  luz. Por fim, fundi-me com a luz, fui uma com o amor, com o calor. Um milho de orgasmos incessantes 
no podem reproduzir a sensao de amor, calor e boas-vindas que experimentei. Ento, ouvi duas vozes.
        A primeira era a minha prpria, dizendo:
        - Sou aceita por Ele.
        A segunda, que vinha de algum outro lugar e era um mistrio para mim, dizia:
        - Shanti Nilaya.
        Antes de adormecer, naquela noite, sabia que acordaria antes do nascer do sol, colocaria minhas sandlias e uma tnica que vinha carregando em minha mala 
durante semanas, mas nunca tinha vestido. Essa tnica tecida  mo, que havia comprado no Fisherman's Wharf, de So Francisco, lembrava-me alguma outra j usada 
por mim, talvez em outra vida, de modo que, quando a comprei, tive a impresso de que a recuperava.
        Na manh seguinte, tudo foi como eu previra. Ao percorrer o caminho que levava  casa de Monroe, continuei a ver cada folha, cada borboleta e cada pedra 
vibrando em sua estrutura molecular. Foi a maior sensao de xtase que uma pessoa poderia experimentar. Estava to cheia de admirao reverente por tudo o que me 
cercava, to cheia de amor por tudo o que havia na vida, que, como Jesus, que andou sobre as guas, senti como se passasse por cima das pedras e pedregulhos do caminho 
num intenso estado de beatitude, e disse-lhes:
        - No posso pisar em vocs. No posso machuc-los.
        Gradualmente, ao longo de vrios dias, esse estado de graa foi diminuindo. Foi muito difcil voltar s tarefas domsticas rotineiras e dirigir um carro, 
coisas que me pareceram ento demasiado banais. Logo iria saber o significado de Shanti Nilaya e tambm que tinha passado por toda aquela experincia para adquirir 
Conscincia Csmica, uma percepo da vida em todas as coisas vivas. Nesse ponto, a experincia foi bem-sucedida. E quanto ao resto? Haveria outra separao dolorosa 
a enfrentar sem praticamente nenhuma ajuda de outras pessoas at encontrar minhas prprias respostas e um novo comeo?
        Meses depois, quando viajei para Sonoma, na Califrnia, para um workshop, comecei a ter algumas respostas. Porm, quase tomei uma deciso que me teria custado 
esse esclarecimento. Um mdico encarregou-se de cuidar dos pacientes terminais do workshop em troca de uma palestra minha numa conferncia sobre psicologia transpessoal 
organizada por ele em Berkeley.  ltima hora, cancelou sua ida ao workshop. Naturalmente, depois de coordenar sozinha o extenuante workshop, presumi que meu compromisso 
com ele no mais existia.
        Na sexta-feira, quando o ltimo participante do workshop foi embora, um amigo contou-me que centenas de pessoas estavam inscritas na minha palestra. A caminho 
de Berkeley, ele reafirmou que eu era esperada com grande entusiasmo, tentando encorajar-me. Exausta por causa de meu workshop, no participei muito de sua animao 
e, com franqueza, no tinha idia sobre o que dizer para o grupo de pessoas altamente sofisticado e evoludo que assistiria  conferncia. Entretanto, quando me 
vi no auditrio, soube que tinha de falar sobre o que vivenciara na fazenda de Monroe. Algum ali iria explicar-me tudo.
        Comecei dizendo que falaria sobre minha prpria evoluo espiritual, mas adverti que precisaria da ajuda deles para entender melhor todos os aspectos, pois 
grande parte estava alm de minha compreenso intelectual. Num tom de brincadeira, frisei que no era "um deles" - que no praticava meditao, no era californiana 
nem vegetariana.
        - Fumo, tomo caf e ch e, em resumo, sou uma pessoa normal - disse, provocando uma risada geral. - Nunca tive um guru ou conversei com um Baba - continuei. 
- No entanto, j tive quase todo tipo de experincia mstica que algum pode desejar.
        O que queria provar? Queria deixar claro que, se eu podia ter essas experincias, qualquer pessoa tambm poderia, sem precisar ir para o Himalaia ou passar 
anos meditando.
        Enquanto descrevia minha primeira experincia extracorprea, a sala ficou em profundo silncio. Duas horas depois, encerrei a palestra com um relato completo 
da experincia de morrer mil mortes e depois renascer na fazenda de Monroe. Fui demoradamente aplaudida de p. Ento, um monge vestido numa tnica alaranjada aproximou-se 
do palco com grande respeito e ofereceu-se para esclarecer algumas coisas que eu havia mencionado. Primeiro, disse que eu podia achar que no sabia meditar, mas 
que existiam muitas formas de meditao.
        - Quando voc est ao lado de doentes e crianas moribundos, concentrando-se neles durante horas, est praticando uma das formas mais elevadas de meditao 
- disse.
        Houve mais aplausos, confirmando suas palavras, mas o monge no fez caso deles e continuou a falar, pois estava empenhado em transmitir mais uma informao.
        - Shanti Nilaya - disse claramente, pronunciando bem devagar cada uma das lindas slabas. -  snscrito e significa "a morada final da paz".  para aonde 
vamos ao fim de nossa jornada terrena, quando voltamos para Deus.
        - Sim - disse para mim mesma, repetindo as palavras que ouvira na escurido do quarto meses antes. - Shanti Nilaya.
        
      
      
      CAPTULO 32
      
    A morada final
    
Estava de volta em minha casa, de p na varanda. Os B. tinham vindo tomar um ch. Uma brisa suave massageava nossos sentidos. Inebriada com o destino, voltei-me 
para meus vizinhos e, num tom de voz um tanto solene, anunciei que o centro de tratamento se chamaria Shanti Nilaya.
        - Significa "a morada final da paz" - expliquei.
        O nome parecia vir bem a propsito. Durante o ano e meio seguinte at grande parte de 1978, Shanti Nilaya prosperou. Voltados para "a promoo da cura psicolgica, 
fsica e espiritual de crianas e adultos atravs da prtica do amor incondicional", os workshops sobre Vida, Morte e Transio, com durao de cinco dias inteiros, 
tiveram quatro vezes mais inscries do que antes. Havia um nmero crescente de pessoas vidas por crescimento pessoal. Meu boletim informativo corria o mundo inteiro 
e eu seguia um programa de viagens que me levou do Alasca  ustria.
        Mesmo prosperando, o objetivo de Shanti Nilaya manteve-se limitado: crescimento pessoal. Nos workshops, as pessoas livravam-se de suas questes pendentes, 
de toda a raiva e rancor que tinham acumulado e aprendiam a viver de modo que estivessem preparadas para morrer em qualquer idade. Em outras palavras, tornavam-se 
pessoas inteiras, completas. Os workshops eram compostos normalmente de doentes terminais, pessoas com problemas emocionais e pessoas adultas comuns, com idades 
que variavam de vinte a cento e quatro; em breve, promovi workshops para adolescentes e crianas. Quanto mais cedo uma pessoa se tornasse inteira, mais oportunidades 
teria de crescer fsica, emocional e psicologicamente saudvel. No seria tudo isso um bom prenncio para o futuro?
        Todos os que entravam em contato comigo, seja em Shanti Nilaya ou durante as viagens, ouviam a mesma coisa:
        - No h razo para temer a morte. Na verdade, pode vir a ser a mais incrvel experincia de sua vida. S depende da maneira como voc vive a sua vida agora. 
E a nica coisa que importa neste momento  o amor.
        O trabalho mais proveitoso que realizei foi conseqncia do contato com um menino de nove anos de idade que encontrei quando estava dando palestras no Sul. 
Durante aquelas longas palestras, como minha energia passava por altos e baixos, recuperava-me dirigindo-me a pessoas da platia. Avistei os pais de Dougy na primeira 
fila. Apesar de nunca t-los encontrado antes, minha intuio fez com que perguntasse quele casal de aparncia agradvel onde estava seu filho.
        - No sei por que sinto a necessidade de dizer isto - falei -, mas por que no o trouxeram?
        Surpresos com a minha pergunta, explicaram que o filho estava fazendo tratamento de quimioterapia no hospital. Aps o intervalo seguinte, o pai voltou com 
Dougy, que mostrava os sinais do cncer - magro, plido, sem cabelos -, mas em todos os outros aspectos parecia-se com qualquer garoto norte-americano. Dougy ficou 
desenhando figuras num papel com lpis coloridos, enquanto eu continuava a falar. Mais tarde, deu-me o desenho de presente. Ningum nunca me deu outro melhor.
        Como a maioria das crianas que esto morrendo, Dougy era muito amadurecido. Devido ao seu sofrimento fsico, havia desenvolvido uma aguda percepo de sua 
capacidade espiritual e intuitiva. Acontece com todas as crianas nessa situao, e  por isso que insisto que os pais partilhem com eles toda a sua raiva, dor e 
angstia de maneira franca e aberta. Eles sabem de tudo. E bastou olhar o desenho de Dougy para comprovar.
        - Vamos contar a eles? - perguntei, fazendo um gesto em direo a seus pais.
        - Vamos, acho que eles podem saber - respondeu. Tinham dito recentemente aos pais de Dougy que seu filho tinha apenas trs meses de vida. O maior problema 
deles era aceitar aquela notcia. De acordo com o desenho dele, porm, eu podia contestar aquele diagnstico. At onde podia ver, o que ele havia desenhado dizia 
que Dougy viveria muito mais tempo, talvez trs anos. A me, no cabendo em si de alegria, abraou-me. Mas o mrito no era meu.
        - Sou apenas uma intermediria lendo esse desenho - disse. -  seu filho quem sabe essas coisas.
        O que mais me agradava ao lidar com crianas era a sua franqueza. Deixavam de lado todas as mistificaes. Dougy era um exemplo perfeito disso. Um dia, recebi 
uma carta dele. Dizia:
        
         Querida doutora Ross,
         
         Tenho s mais uma pergunta a fazer. O que  a vida e o que  a morte e por que crianas pequenas tm de morrer?
         
         Com carinho, Dougy
        
        Com pils, criei um livrinho colorido baseado em todos os meus anos de trabalho com pacientes terminais. Numa linguagem simples, comparei a vida a um jogo, 
parecido com as sementes que so espalhadas por uma ventania, cobertas pela terra e aquecidas pelo sol, cujos raios seriam o amor de Deus brilhando sobre ns. Todos 
tinham uma lio a aprender, uma finalidade em sua vida, e queria dizer a Dougy, que morreria trs anos mais tarde e estava tentando entender o motivo, que ele no 
era exceo.
        Algumas flores desabrocham apenas por alguns dias. Todos as admiram e amam por serem um sinal de primavera e de esperana. Depois, essas flores morrem. Mas 
j fizeram o que tinham a fazer...
        Aquela carta tem ajudado milhares de pessoas. Mas o mrito  todo de Dougy.                                                   '
        Gostaria de ter tido a mesma capacidade de percepo para os problemas que estavam se formando em casa. No incio da primavera de 1978, enquanto eu estava 
viajando, alguns dos amigos que participavam com freqncia das sesses de B. com nossos guias-mestres descobriram um livro chamado O Potencial Magnfico, escrito 
vinte anos antes por um homem daquela mesma regio chamado Lerner Hinshaw. O livro continha tudo o que B. e muitos guias que ele recebia, se bem que no todos, nos 
haviam ensinado durante os ltimos dois anos. Logo que soube, senti-me desorientada e trada, como os outros tinham se sentido.
        Quando interrogado, B., negando ter cometido qualquer falta, argumentou que os guias proibiam que ele divulgasse a fonte de seus conhecimentos. No adiantava 
enfrent-lo. Cada um de ns deveria agir como juiz e jri. Mais da metade das pessoas, decepcionadas e no confiando mais nele, abandonou o grupo. Quanto a mim, 
no sabia o que fazer, e pensava sem parar no aviso de Pedro meses antes: "Cada um de vocs far sua prpria escolha", dissera ele. "O livre-arbtrio foi o maior 
dom que o homem recebeu quando chegou ao planeta Terra."
        Assim como eu, os que ficaram no queriam deixar de lado os ensinamentos incrivelmente significativos dos guias, mas, quando surgiram as suspeitas, comeamos 
a notar certas irregularidades nas sesses. Pessoas novas desapareciam na sala dos fundos durante longos perodos de tempo. Ouvamos risadinhas e barulhos estranhos. 
Perguntava a mim mesma que tipo de instrues estariam sendo dadas. Ento, um dia, uma amiga chegou em minha casa agitada e chorando, fugindo de B. Quando se acalmou, 
contou que B. tinha dito que estava na hora de tratar da sexualidade dela. O que a fez descontrolar-se e sair correndo.
        No tinha escolha a no ser pedir explicaes a B. e  sua mulher, o que fiz no dia seguinte em minha casa. Como nas ocasies anteriores, ele no demonstrou 
nenhuma culpa ou remorso. Era bvio que acreditava ter agido certo. A mulher, apesar de perturbada, j estava acostumada quele tipo de comportamento dele. Na realidade, 
acabei sabendo, ao investigar mais tarde, que ele tinha um histrico de pssima conduta e, da em diante, evitamos que qualquer pessoa ficasse sozinha com ele numa 
sala sem fiscalizao.
        Entretanto, as dificuldades continuaram. A diviso de San Diego do Departamento de Questes do Consumidor recebeu queixas e, em dezembro, o gabinete do promotor 
pblico comeou a investigar alegaes de m conduta sexual. Apesar de ter entrevistado vrias pessoas, a investigao da promotoria no conseguiu produzir nenhuma 
acusao. Como me disse um dos investigadores:
        - Tudo aconteceu no escuro. Vocs no tm provas.
        Era um grande dilema, pois tnhamos ouvido vrias vezes que uma entidade materializada morreria se algum acendesse uma luz em sua presena. Nenhum de ns 
queria arriscar. Mas eu estava em srio conflito. Se era uma fraude, como era possvel que aquelas entidades tivessem conhecimentos para responder a todas as minhas 
perguntas, que estavam alm da educao limitada de B.? No tnhamos visto com nossos prprios olhos como uma entidade se materializava diante de ns? Pedro no 
crescera quinze centmetros para poder subir no cavalo de madeira?
        Auxiliada por alguns amigos de confiana, comecei minha prpria investigao. Mas B. era muito astuto. Certa vez, segundos antes de eu acender uma lanterna, 
ele se desculpou e deu a sesso por encerrada. Uma outra vez, algemamos os braos do mdium por trs de suas costas para tolher seus movimentos e evitar alguma inconvenincia 
com os participantes. Ainda assim, as entidades apareciam e desapareciam e, quando a sesso terminou, o mdium ainda estava com as algemas, s que nos ps. Todos 
os nossos esforos deram nisso.
        A despeito da nuvem negra que pairava sobre ns, as sesses noturnas habituais com B. continuaram na sala escura. Infelizmente, houve uma sensvel diminuio 
de seus outrora poderosos dons de cura, o que s fazia tornar a atmosfera mais tensa. Eu tinha muitas dvidas. Nosso grupo, antes to unido, amigo e carinhoso, estava 
cheio de desconfianas e paranias. Ser que eu deveria ir embora? Ou ficar? Tinha de encontrar a verdade.
        Nesse meio tempo, B. ordenou-me ministra da paz de sua igreja. Tudo o que B. fazia agora estava impregnado de suspeitas, mas mesmo assim a noite foi um acontecimento 
emocionante e inesquecvel. Todas as entidades apareceram para a celebrao, inclusive K., a mais importante de todas. Sempre sabamos quando ele chegava: um estranho 
silncio precedia sua entrada e, quando se postava diante de ns, com sua longa tnica em estilo egpcio, ningum conseguia se mexer. Eu no conseguia mover um dedo, 
nem uma plpebra.
        K., em geral, dizia poucas palavras, mas dessa vez falou de minha vida como um exemplo de trabalho pelo amor e pela paz.
        - Como voc sempre desejou secretamente ser uma verdadeira ministra da paz, nesta noite seu desejo ser realizado -disse. Deixou que Pedro realizasse o ritual 
propriamente dito, enquanto Salem tocava flauta.
        Poucos meses mais tarde, quando eu estava conversando com dois amigos fora de casa, K. apareceu inesperadamente, erguendo-se a dois metros do cho diante 
de uma construo alta. Era impossvel no reconhecer sua linda tnica egpcia e sua voz alta e clara.
        - Isabel, em meio ao vale de lgrimas, sempre d graas pelo que voc tem - disse. E, antes de desaparecer, acrescentou: - Faa do tempo um amigo.
        Aquilo me abalou. Mais lgrimas? J no sofrera o suficiente perdendo minha famlia? Meus filhos? Minha casa? E depois minha confiana em B.?
        - Faa do tempo um amigo.
        O que ele queria dizer? Que, com o tempo, as coisas iriam melhorar? Que eu s precisava ter pacincia de esperar?
        Meu programa de trabalho mostrava que pacincia no era uma de minhas virtudes. Como queria ficar de olho em B. o tempo todo, comecei a lev-lo com a mulher 
para meus workshops. Tudo correu sempre muito bem. Mas um dia, quando voltvamos de Santa Barbara para casa, sua mulher e eu ficamos esperando junto ao carro e B. 
sumiu durante mais de uma hora.  Quando voltou, no se desculpou. No entanto, sabendo que eu estava exausta por causa do workshop, B. ps seu casaco no banco de 
trs e disse-me que dormisse, enquanto ele dirigia at San Diego.
        A meio caminho de Los Angeles, ca num sono profundo. Abri os olhos na entrada de automvel de minha casa e fui direto para a cama, onde continuei a dormir.
        Aproximadamente s trs da madrugada, acordei com a sensao de estar deitada sobre uma grande bola de borracha, em vez de um travesseiro. Virei a cabea 
de um lado para outro diversas vezes, mas a sensao esquisita no cessava. Apesar de tonta e confusa, tateei o caminho at o banheiro, acendi a luz e olhei-me no 
espelho. Quase tive um ataque cardaco. Meu rosto estava completamente desfigurado. Um dos lados estava inchado como um grande balo, o olho fechado. O outro mal 
se abria, apenas o suficiente para enxergar. Minha aparncia era grotesca.
        - Que diabos aconteceu? - perguntei em voz alta.
        Tinha a vaga lembrana de estar deitada sobre o casaco dentro do carro e sentir algo morder minha face. Na realidade, tinha sentido trs mordidas. Mas estava 
entorpecida e sonolenta demais para reagir. Agora, examinando meu rosto de perto, via trs pequenas mas ntidas marcas de mordidas no meu rosto, e parecia que as 
coisas iam de mal a pior. Meu rosto continuava a inchar enquanto eu olhava. Como morava distante de qualquer hospital, no tinha condies de dirigir, e B., em quem 
no confiava, era meu vizinho mais prximo, eu estava diante de um srio problema.
        - Voc foi mordida por uma aranha venenosa - disse a mim mesma com toda a calma. - No tem muito tempo.
        Meu raciocnio disparou. No havia tempo para telefonar para minha famlia, espalhada pelo pas afora. O tempo estava se esgotando. Lembrei as centenas de 
vezes em que pensara que minha vida podia acabar. Em momentos de grande tenso e tristeza, chegara a considerar, ainda que por um segundo, a possibilidade de suicdio. 
Naquelas ocasies, teria adorado morrer mil vezes. Porm, no podia fazer aquilo com minha famlia. A culpa e o remorso teriam sido excessivos. No, nunca poderia 
fazer aquilo.
        E tambm nunca perdi um paciente pelo suicdio. Muitos queriam acabar com a prpria vida, mas eu lhes perguntava o que especificamente tornava sua vida insuportvel. 
Se era dor, eu aumentava a medicao. Se eram problemas de famlia, tentava resolv-los. Se estavam deprimidos, tentava ajud-los a sair da depresso.
        O objetivo  ajudar as pessoas a viver at que morram de morte natural. Nunca teria ajudado um paciente a tirar sua prpria vida. No acredito em auxlio 
ao suicdio. Se um paciente mentalmente capaz recusa-se a tomar sua medicao ou submeter-se  dilise, existe um ponto em que se tem de aceitar o direito da pessoa 
de fazer o que quer. Alguns pacientes solucionam suas questes pendentes, pem seus negcios em ordem, atingem um estgio de paz e aceitao e, em vez de deixar 
que o processo de morrer se prolongue, assumem o controle do tempo. Mas eu nunca os auxiliaria.
        Aprendi a no julgar. Em geral, se um paciente aceitou a morte e o morrer, est preparado para esperar por aquilo que vem naturalmente. Que ser ento uma 
experincia muito bonita e transcendental.
        Ao cometer suicdio, a pessoa pode estar tambm cometendo uma trapaa consigo mesma, pois deixa de aprender uma lio que deveria obrigatoriamente aprender. 
E, ao invs de ser promovida para o prximo nvel, ter que voltar a aprender aquela mesma lio desde o comeo. Por exemplo, se uma moa se mata porque no consegue 
mais viver depois de brigar com o namorado, ter de voltar e aprender a lidar com o sentimento de perda.  possvel que tenha uma vida cheia de perdas at aprender 
a aceit-las.
        Quanto a mim,  medida que meu rosto continuava a inchar, o que me mantinha viva era pensar que de fato tinha uma possibilidade de escolha. Que estranho 
pensamento, a opo pelo suicdio ser o que me mantinha viva! No duvido, porm, que tenha sido o que aconteceu. Se no fizesse nada para deter o rpido agravamento 
de minha situao, estaria morta em poucos minutos. Mas tinha uma escolha, a livre escolha que Deus concede a todos ns e, sozinha, naquele instante, tinha de decidir 
se iria morrer ou continuar a viver.
        Fui para a sala de estar, onde uma imagem de Jesus estava pendurada na parede. De p diante dela, fiz o solene juramento de viver. No instante em que disse 
aquilo, a sala encheu-se de uma luz incrivelmente radiosa. Como fizera anteriormente ao me ver diante da mesma luz, avancei em sua direo. Ao ser envolvida por 
seu calor, soube que, por mais miraculoso que parecesse, eu iria viver. Uma semana mais tarde, as marcas de mordidas foram examinadas por um mdico respeitado, que 
disse:
        - Parecem mordidas da aranha viva-negra. Mas, se fossem, voc no estaria viva.
        Ele nunca acreditaria se eu contasse qual o tratamento que me salvara, portanto no me dei ao trabalho de explicar.
        - Voc teve sorte - disse.
        Tive sorte, sim. Mas tambm sabia que meus verdadeiros problemas, longe de estarem terminados, mal tinham comeado.
        
         
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 33
    
    AIDS
    
No existe problema que no seja na realidade uma ddiva. Foi difcil acreditar nisso quando fui avisada de que Manny, provavelmente precisando de dinheiro, vendera 
a casa de Flossmoor sem me dar a opo de compr-la, como fora previamente combinado, e, alm disso, numa manobra dissimulada e dolorosa, vendera tambm a propriedade 
em Escondido que abrigava Shanti Nilaya. Uma carta registrada notificou-me de que teria de esvaziar as casas e entregar as chaves aos novos proprietrios. Fiquei 
arrasada, alm de qualquer expresso.
        De que outro modo poderia me sentir? Depois de perder minha casa e ver meu sonho arrancado de mim, chorei por noites a fio. No faziam grande diferena as 
palavras de advertncia do esprito: "Em meio ao vale de lgrimas, sempre d graas pelo que voc tem." "Faa do tempo um amigo."
        Uma semana mais tarde, entretanto, San Diego foi devastada por uma tempestade torrencial que durou sete dias. A chuvarada resultou em enormes enchentes, 
deslizamentos de terra e prejuzos em propriedades, entre elas meu antigo centro de tratamento no alto da montanha. O telhado da casa principal caiu, a piscina rachou 
e encheu-se de lama e a ngreme estrada de acesso desapareceu completamente. Se ainda estivssemos l, no s teramos ficado completamente isolados como os consertos 
teriam custado uma fortuna. Por incrvel que parea, meu despejo tinha sido uma bno.
        Partilhei com minha filha os bons sentimentos quando veio para a Pscoa. Barbara era uma moa muito intuitiva e nunca confiara em B. e sua mulher. Sempre 
achei que os culpava por minha mudana para a Califrnia. Agora, porm, ela estava na Universidade de Wisconsin, e tnhamos um excelente relacionamento outra vez.
        Eu dava graas a Deus por aquilo. Depois de se instalar em minha casa, ver a enorme varanda aberta, a piscina de hidro massagem, os pssaros e a grande quantidade 
de flores, fomos de carro at os pomares de macieiras na montanha, um lindo passeio que ficou feio na volta, quando os freios de meu carro falharam enquanto descamos 
a estrada enladeirada. Foi um milagre termos sobrevivido. Dissemos o mesmo uns dias mais tarde. Barbara e eu fomos levar em casa uma amiga viva que morava em Long 
Beach, voltamos depressa para preparar nossa ceia de Pscoa e encontramos minha casa envolta em chamas.
        Como saam enormes labaredas do telhado, ns nos pusemos imediatamente em ao. Agarrei a mangueira do jardim, enquanto Barbara corria at os vizinhos para 
chamar os bombeiros. Tentou trs casas diferentes e ningum respondeu. Finalmente, a contragosto, tocou a campainha na casa dos B. Eles abriram a porta e prometeram 
chamar os bombeiros. Mas foi tudo o que fizeram. Nenhum dos pretensos amigos apareceu para oferecer ajuda, que teria sido decisiva, pois Barbara e eu, com nossas 
mangueiras de jardim, j tnhamos apagado o fogo quando chegou o primeiro carro de bombeiros.
        Os bombeiros abriram caminho atravs de uma parede e entramos na casa. Parecia um pesadelo. Os mveis estavam destrudos. Todas as instalaes eltricas, 
telefones e outros aparelhos de plstico tinham derretido. Meus painis, tapetes indianos, quadros e loua estavam todos pretos. O cheiro era insuportvel. Disseram-nos 
para no ficar muito tempo l dentro porque as exalaes podiam fazer mal a nossos pulmes. O lado curioso foi o peru que eu pretendia servir no jantar de Pscoa 
estar com um cheiro delicioso.
        Sem saber o que fazer em seguida, sentei-me no carro e fumei um cigarro. Um dos bombeiros, todos eles realmente muito simpticos, aproximou-se e perguntou 
se poderia recomendar um terapeuta especializado em ajudar pessoas que perdiam tudo em incndios.
        - No, obrigada - disse. - Estou acostumada com perdas e eu mesma sou uma especialista.
        No dia seguinte, os bombeiros voltaram para verificar como estvamos, algo que realmente apreciei muito. Entretanto, nem B. nem sua mulher apareceram.
        - Eles so mesmo seus amigos? - Barbara perguntou. Algum no gostava de mim. Era o que parecia, depois que um investigador de incndios criminosos e um 
detetive particular concluram que o fogo comeara simultaneamente no fogo da cozinha e na pilha de lenha colocada fora da casa.
        - H no mnimo a suspeita de um incndio criminoso - disse o investigador.
        O que eu podia fazer? A faxina de primavera teve de comear cedo. Depois da Pscoa, a companhia de seguros mandou um grande caminho para retirar o material 
queimado, inclusive a prataria de minha av, que eu estava guardando para Barbara. Agora era apenas uma grande massa derretida.
        Alguns de meus amigos do Shanti Nilaya ajudaram-me a limpar, lavar e esfregar tudo que ainda poderia ser aproveitado. A nica coisa que no foi tocada pelo 
fogo, nem sequer escurecida, foi um velho cachimbo cerimonial, um objeto sagrado indgena. Dentro de muito pouco tempo, com o dinheiro que recebi da companhia de 
seguros, tinha um exrcito de operrios reconstruindo a casa. No era mais a mesma casa, porm, e quando ficasse pronta iria coloc-la  venda.
        Minha f estava mesmo sendo testada. Perdera meu centro de tratamento no alto da montanha e minha confiana em B. A sucesso de acidentes bizarros ameaando 
minha vida - as mordidas de aranha, o defeito nos freios do carro e o incndio - era inquietante demais. Achava que minha vida estava em perigo. Ser que valeria 
a pena? Afinal de contas, com cinqenta e cinco anos de idade, quanto ainda teria para dar antes de desistir? Sentia que precisava afastar-me de B. e de sua energia 
nociva. O que tinha a fazer era comprar aquela fazenda com que sonhava havia anos, diminuir o ritmo e cuidar de Elisabeth para variar. Talvez fosse uma boa idia. 
Mas no era o momento. Porque, em meio a minha crise pessoal de confiana, fui obrigada a voltar  ativa mais uma vez.
        O motivo chamava-se AIDS, e mudou todo o resto de minha vida.
        J fazia alguns meses que vinha ouvindo falar de um cncer gay. Ningum sabia muita coisa a respeito, exceto que o nmero de homens antes saudveis, ativos 
e vibrantes que estavam morrendo crescia com uma rapidez alarmante e que todos esses homens eram homossexuais. Em conseqncia disso, a populao em geral no estava 
muito preocupada.
        Ento, recebi um telefonema de um homem perguntando se eu aceitaria um paciente de AIDS em meu prximo workshop. Como nunca tinha recusado um paciente terminal, 
fiz sua inscrio de imediato. Mas um dia e meio depois de encontrar Bob, cujo rosto emaciado e membros esqulidos estavam cobertos de grandes e feias erupes cutneas 
arroxeadas - uma doena de pele fatal conhecida como sarcoma de Kaposi -, peguei-me rezando para me ver livre dele. Minha cabea fervilhava de perguntas. O que ele 
tem? Ser que  contagioso? Se o ajudar, ser que vou acabar como ele? Nunca fiquei to envergonhada em minha vida.
        Ento escutei meu corao, que me estimulou a ver Bob como um ser humano que estava sofrendo - um homem em quem havia beleza, honestidade, solicitude e amor. 
Da em diante, considerei um privilgio poder ajud-lo, como faria com qualquer outra pessoa. Tratava-o da maneira como gostaria de ser tratada se estivesse em seu 
lugar.
        Mas minha reao inicial assustou-me. Se eu, Elisabeth Kbler-Ross, que tinha trabalhado com todo tipo de paciente terminal e seguia  risca a cartilha sobre 
a maneira de trat-los - e at escrevera a cartilha -, sentira repulsa pelo estado daquele rapaz, no podia sequer imaginar os conflitos que a sociedade iria enfrentar 
para lidar com aquela pandemia chamada AIDS.
        A nica reao humana aceitvel era a compaixo. Bob, com vinte e sete anos, no sabia o que o estava matando. Como outros homens jovens homossexuais que 
tinham a doena, sabia que estava morrendo. Sua sade frgil e em processo de deteriorao mantinha-o preso em casa. Sua famlia abandonara-o j havia muito tempo. 
Seus amigos pararam de visit-lo. Estava deprimido, o que era compreensvel. Um dia, durante o workshop, contou, chorando, que tinha telefonado para a me e se desculpado 
por ser gay, como se isso fosse algo que pudesse controlar.
        Bob foi meu teste. Foi o primeiro de milhares de pacientes aidticos a quem ajudei a encontrar paz em uma trgica concluso da vida, mas ele na verdade deu 
muito mais em troca. No ltimo dia do workshop, os participantes, inclusive um rgido pastor fundamentalista, cantaram para Bob uma cano cheia de afeto e carregaram-no 
ao redor da sala num abrao coletivo que unia todo o grupo. A sua coragem fez com que todos ns, naquele workshop, compreendssemos melhor o significado da sinceridade 
e da compaixo, que depois espalhamos pelo mundo afora.
        Iramos precisar disso. No incio, como as pessoas que estavam pegando AIDS eram predominantemente homossexuais, a populao em geral achava que eles mereciam 
morrer. Na minha opinio, isso era uma negao catastrfica de nossa prpria humanidade. Com era possvel que cristos verdadeiros ignorassem os que sofriam de AIDS? 
Como era possvel a maioria das pessoas no se importar? Pensei em Jesus cuidando de leprosos e prostitutas. Lembrei minha prpria luta pelos direitos dos doentes 
terminais. Pouco a pouco, soube-se de homens heterossexuais, mulheres e bebs que haviam contrado a doena. Com a AIDS, todos ns, gostssemos ou no, tnhamos 
de enfrentar uma epidemia que exigia a nossa compaixo, nossa compreenso e nosso amor.
        Numa poca em que nosso planeta estava ameaado por lixo nuclear, despejos txicos e uma guerra que podia vir a ser maior do que qualquer outra na histria, 
a AIDS desafiava-nos coletivamente como seres humanos, em todo o mundo. Se no pudssemos encontrar o sentimento de humanidade em nossos coraes para tratar a AIDS, 
estaramos condenados. Posteriormente, eu escreveria: "A AIDS representa uma ameaa peculiar para a humanidade, mas, ao contrrio das guerras,  uma batalha que 
vem de dentro... Ser que vamos optar pelo dio e pela discriminao, ou teremos a coragem de escolher o amor e a dedicao?"
        Conversando com os primeiros pacientes aidticos, tive suspeitas de que a epidemia tivesse sido criada pelo homem. Nas entrevistas, muitos deles mencionaram 
injees que teriam tomado supostamente como tratamento de hepatite. Nunca tive tempo de investigar, mas, se fosse verdade, significava que teramos uma luta ainda 
mais dura contra a maldade.
        Logo estava coordenando meu primeiro workshop exclusivamente para pacientes aidticos. Foi realizado em So Francisco e, como faria muitas vezes mais no 
futuro, ouvi um rapaz depois do outro contar a mesma histria pungente de uma vida de dissimulao, rejeio, isolamento, discriminao, solido e todos os comportamentos 
humanos negativos. No tinha lgrimas suficientes em mim para chorar tudo o que era preciso.
        Por outro lado, os pacientes aidticos eram professores incrveis. Nenhum deles sintetizou melhor esse potencial para o esclarecimento e o crescimento do 
que um rapaz originrio do Sul que participou do primeiro workshop dedicado a pacientes aidticos. Depois de entrar e sair de hospitais durante um ano, parecia mais 
um descarnado prisioneiro de campo de concentrao nazista. Vendo-se o seu estado, era difcil cham-lo de sobrevivente.
        Antes de morrer, sentiu-se impelido a fazer as pazes com seus pais, que no encontrava h anos. Esperou at que suas foras retornassem, vestiu um terno 
emprestado, que caa em seu corpo magro como a roupa de um espantalho, e tomou um avio para casa. Estava to preocupado com a possibilidade de sua aparncia causar 
repulsa neles que pensou em voltar. Mas seus pais o avistaram. Levantando-se da varanda onde os dois, nervosos, o esperavam, sua me correu para ele, ignorou as 
manchas vermelhas espalhadas pelo seu rosto e abraou-o sem hesitao. Seu pai fez o mesmo. E reconciliaram-se, em lgrimas, com muito amor, antes que fosse tarde 
demais.
        - Pois  - disse o rapaz no ltimo dia do workshop -, precisei ter essa doena horrvel para saber realmente o que significa amor incondicional.
        Aconteceu o mesmo com todos ns. Da em diante, recebi pacientes aidticos em meus workshops sobre Vida, Morte e Transio pelo pas inteiro e depois por 
todo o mundo. Para ter certeza de que ningum desistiria de participar por falta de dinheiro, j que os remdios e hospitalizaes consumiam as economias de muitos, 
comecei a tricotar cachecis, que foram depois leiloados e a renda obtida foi utilizada para criar um fundo que oferecia bolsas de estudos para pacientes aidticos. 
Sabia que a AIDS era a batalha mais importante que eu, e talvez o mundo todo, j enfrentara desde a Polnia do ps-guerra. Mas aquela outra guerra j tinha acabado, 
e ns tnhamos vencido. Com a AIDS, a luta estava apenas comeando. Enquanto os pesquisadores disputavam recursos e corriam para descobrir causas e tratamentos, 
eu sabia que a vitria final sobre essa doena no dependia s da cincia.
        Estvamos no comeo, mas eu podia prever qual seria o fim. Dependia de ns sermos ou no capazes de aprender a lio que a AIDS proporcionava. Em meu dirio, 
escrevi:
        H em cada um de ns um potencial para a bondade que  maior do que imaginamos; para dar sem buscar recompensa; para escutar sem julgar; para amar sem impor 
condies.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 34
      
    Healing Waters
    
Eu ainda estava morando l, mas,  luz da manh, quando olhava para minha casa, tinha a impresso de que estava prestes a sair dali a qualquer minuto. O cheiro desagradvel 
de queimado pairava no ar. E as paredes, sem meus tapetes indianos e quadros, estava vazia. O fogo tinha devorado toda a vida daquele lugar, inclusive a minha. No 
conseguia entender como uma pessoa com tanto poder de cura como B. podia transformar-se numa figura to sombria. At ir embora, eu no queria nenhum contato com 
ele.
        Porm, enquanto estivesse to prxima, isso era impossvel. Numa manh, logo depois de eu ter voltado de um workshop, B. apareceu. Sua mulher tinha escrito 
um livro, muito apropriadamente chamado de A Sala Escura, e ele queria que eu escrevesse um prefcio que pudesse ser usado para divulgao.
        - Pode prepar-lo at amanh de manh? - perguntou.
        Por mais que gostasse de meus guias, no podia, em s conscincia, envolver meu nome em algo cujas finalidades tinham sido claramente deturpadas nos seis 
meses anteriores. Em nossa ltima conversa - ou, melhor dizendo, em nosso ltimo confronto -, B. alegara que no podia ser responsabilizado por suas aes, nem mesmo 
pelas mais imprprias.
        - Quando estou em transe, no tenho conscincia do que est acontecendo - disse.
        Tinha certeza de que ele estava mentindo, mas, quando pensava em de fato me afastar, ficava dividida. Sabia que Shanti Nilaya no sobreviveria sem minhas 
palestras e contribuies. Depois de muito ponderar, convoquei uma reunio secreta com os membros mais ativos de Shanti Nilaya, as cinco mulheres e dois homens que 
eram realmente empregados assalariados do centro. Falei sobre tudo o que estava em minha cabea, inclusive sobre meu receio de que minha vida estivesse em perigo, 
as suspeitas a respeito de B. que no podia provar e quais entidades eram verdadeiras e quais eram falsas.
        - Naturalmente,  tudo uma questo de confiana - disse. - de enlouquecer.
        Silncio. Disse a eles que iria despedir B. e sua mulher depois da sesso daquela noite e continuar Shanti Nilaya sem os dois. J fiquei aliviada por ter 
tomado aquela deciso e contado a eles. Entretanto, trs das mulheres, o ncleo de colaboradoras em que eu mais confiava, confessaram que tinham sido "treinadas" 
por B. para atuar como entidades femininas, alegando que ele controlava suas aes, colocando-as em transe. No admira que eu nunca conseguisse provar que Salem 
ou Pedro fossem uma fraude - eles eram verdadeiros. Quanto s entidades femininas, era bvio que no existiam e isso explicava por que nunca tinham contato comigo.
        Jurei enfrentar B. na manh seguinte quando ele viesse buscar o prefcio que eu supostamente estava escrevendo. Mal sabia ele que eu estava na realidade 
trabalhando numa edio do final. As trs mulheres concordaram em ficar atrs de mim para comprovar minha acusao. Como ningum sabia de que maneira B. reagiria, 
pedi aos dois homens para se esconderem atrs dos arbustos e escutarem o que seria dito - s por precauo. Dormi pouco naquela noite, sabendo que nunca mais veria 
Salem ou Pedro, nem ouviria a linda voz de Willie cantando. Mas tinha de fazer o que era correto.
        Acordei antes do raiar do dia, nervosa com o que iria acontecer. Na hora combinada, B. chegou. Apoiada pela presena das trs mulheres, recebi-o na varanda. 
O rosto dele no demonstrou nenhuma emoo quando disse que nem ele nem sua mulher estavam mais em minha folha de pagamento; que estavam de fato despedidos.
        - Se quiser saber por qu,  s olhar para essas pessoas que esto aqui comigo e vai descobrir - disse.
        Uma expresso de dio passou por seu rosto - sua nica resposta. No disse uma nica palavra. Levou o manuscrito de volta e, pouco tempo depois, vendeu a 
casa e mudou-se para o Norte da Califrnia.
        Eu estava livre, mas pagara um alto preo. Atravs da atividade medinica de B., muitas pessoas tinham aprendido um bocado. Quando, porm, ele comeou a 
usar erradamente seus dons, a dor, angstia e aflio ficaram intolerveis. Muito mais tarde, quando consegui comunicar-me novamente com Salem, Pedro e outras entidades, 
eles admitiram que tinham conscincia de minhas dvidas e da minha constante indagao: se vinham de Deus ou do demnio. Passar por aquela terrvel experincia, 
todavia, foi a nica maneira de aprender uma lio definitiva sobre a confiana, sobre saber discernir e distinguir.
        Tudo foi perdoado mas no foi esquecido. Somente sete anos mais tarde, eu seria capaz de escutar as muitas horas de gravao em fita que havia feito dos 
ensinamentos de minhas entidades. E s ento perceberia os avisos explcitos de decepes e de uma grave desunio, mas estes eram enigmticos, o que explicava por 
que motivo no tinha conseguido agir de imediato. Resistira enquanto tinha sido humanamente possvel. Estou convencida de que no teria sobrevivido se tivesse ficado 
com B. mais tempo. Continuaria a ter insnias pelo resto de minha vida e a fazer um milho de perguntas, mesmo sabendo que s teria as respostas finais quando fizesse 
a transio a que chamamos de morte. Estaria esperando por isso.
        Por enquanto, meu futuro era incerto. Minha casa estava  venda, mas s me mudaria quando tivesse um lugar para aonde ir. O grupo que permaneceu em Shanti 
Nilaya, pequeno mas dedicado, trabalhou com empenho extraordinrio para que nossa organizao ajudasse pessoas de todo o mundo a criarem projetos semelhantes para 
pacientes terminais, casas de repouso, centros de treinamento para profissionais de sade e grupos de apoio a famlias de doentes. Meus workshops de cinco dias de 
durao, devido  nova situao de urgncia causada pela AIDS, tinham uma procura maior do que a anterior.
        Se quisesse, poderia ficar simplesmente viajando para l e para c sem ter uma casa, de um workshop para outro, dos aeroportos para os hotis e vice-versa, 
mas no era o meu feitio, especialmente naquele momento de minha vida. Sabendo que precisava diminuir meu ritmo, estava pensando no que faria, quando Raymond Moody, 
o autor de Vida Depois da Vida, que eu havia encontrado algumas vezes, sugeriu que desse uma olhada em sua fazenda em Shenandoah. Foi difcil resistir depois que 
ele descreveu o lugar como "a Sua da Virgnia". Assim, em meados de 1983, depois de completar um ms de viagens com uma palestra em Washington, D.C., aluguei um 
carro para fazer o percurso de quatro horas e meia at o condado de Highland, na Virgnia.
        O motorista pensou que eu fosse doida.
        - Mesmo que eu adore essa fazenda, quero que voc faa o papel de meu marido e vete a minha deciso - disse. - No quero fazer uma coisa de que possa me 
arrepender mais tarde.
        Mas, ao chegar em Head Waters, uma cidadezinha a dezenove quilmetros da fazenda, o motorista, que ouvira durante horas minhas exclamaes de entusiasmo 
diante da beleza empolgante da regio, resolveu que no cumpriria o trato.
        - Minha senhora, no adianta, a senhora vai comprar aquelas terras de qualquer jeito - explicou. - D para notar que tm tudo a ver com a senhora.
        Era o que parecia enquanto percorria as colinas e os campos de um lado para o outro, examinando os cento e vinte hectares de pastagens e florestas. Mas era 
s um projeto. A casa de fazenda e o celeiro precisavam de consertos. A terra cultivvel tinha sido abandonada. Seria necessrio construir uma casa. Mesmo assim, 
meu sonho de possuir uma fazenda estava sendo totalmente reavivado. Em minha imaginao, via com toda a clareza a fazenda j reformada. Haveria um centro de tratamento, 
um prdio para aulas, alguns chals feitos de troncos de madeira para moradias, todos os tipos de animais... e privacidade. O que me agradava muito era o fato de 
Highland ser a regio menos populosa a leste do Mississpi.
        Quem me ensinou como se compra uma fazenda foi o fazendeiro idoso que morava no fim da estrada. Em termos. Porque assim que me sentei diante do chefe do 
Departamento Agrcola de Staunton, na manh do dia seguinte, no pude deixar de contar a ele todas as idias que tinha para minha nova fazenda, como um acampamento 
para crianas de grandes centros urbanos, um zoolgico infantil e por a afora.
        - Minha senhora, s preciso saber quantas cabeas de gado a senhora tem, quantas ovelhas, quantos cavalos e o total de hectares - disse.
        No dia 1 de julho de 1983, na semana seguinte, a fazenda era minha. Dei vida  fazenda de imediato, dizendo aos meus vizinhos que podiam deixar seu gado 
pastar em minhas terras, e iniciei ento intensas obras de recuperao e reformas. De San Diego, controlava o andamentos das obras passo a passo. Em meu boletim 
informativo de outubro, escrevi o seguinte: "J pintamos a casa de fazenda, reconstrumos o depsito de razes, ampliamos o galinheiro... e tambm fizemos um jardim 
lindo e uma horta. O resultado  que a despensa j est abastecida e o depsito de razes est cheio - prontos para alimentar os famintos participantes dos workshops..."
        Na primavera de 1984 j havia outros sinais de renovao. Escolhi um local bem prximo de vrios enormes carvalhos antigos, onde planejava construir um chal 
de toras de madeira que seria a minha casa. E ento nasceram os primeiros carneirinhos, um par de gmeos e mais trs outros - todos pretos, o que tornou a fazenda 
verdadeiramente minha.
        Os trs prdios redondos onde realizaria os workshops estavam sendo construdos quando me dei conta de que precisava de um escritrio para todas as necessidades 
administrativas. Antes de alugar um na cidade, Salem apareceu numa noite e aconselhou-me a fazer uma lista de tudo o que seria necessrio. Em minha fantasia, imaginei 
um aconchegante chal de madeira com uma lareira, um rio cheio de trutas passando na frente, rodeado por um terreno bem grande e, j que era uma fantasia, acrescentei 
uma pista de pouso  lista. O aeroporto ficava to distante... assim, por que no?
        No dia seguinte, a senhora que tomava conta do correio, sabendo que eu queria um escritrio, falou-me a respeito de um chal encantador a cinco minutos de 
sua casa, que tinham acabado de pr  venda. Disse que ficava ao lado do rio e tinha uma lareira de pedra. Parecia perfeito.
        - S h um problema - disse, j com ar desapontado. E no quis dizer mais nada. Insistiu para que eu fosse v-lo primeiro. No concordei e finalmente consegui 
convenc-la a me contar qual era o grande defeito.
        - Tem uma pista de pouso e decolagem nos fundos - disse. Fiquei no s boquiaberta como comprei logo a propriedade. Naquele vero, exatamente um ano depois 
de comprar a fazenda, disse adeus a Escondido e mudei-me para Head Waters, na Virgnia, em 1 de julho de 1984. Meu filho Kenneth foi dirigindo meu velho Mustang 
pelo pas afora. Catorze dos quinze membros da equipe de Shanti Nilaya acompanharam-me para ajudar a continuar nosso trabalho to importante. A maior parte deles 
acabaria voltando um ano depois, por no conseguir ou no querer adotar um estilo de vida mais rural. Minha inteno era pr as coisas logo em marcha, acabando primeiro 
o centro de tratamento, mas meus guias avisaram-me para fazer primeiro a minha casa.
        No entendi por qu, at um pequeno exrcito de voluntrios, atendendo a um pedido de ajuda publicado no boletim informativo, chegar munido de ferramentas, 
entusiasmo e exigncias especiais. Das quarenta pessoas que chegaram, por exemplo, pelo menos trinta e cinco tinham dietas especiais. Um no comia laticnios, o 
outro era macrobitico, a outra no comia acar, alguns no comiam frango, outros s comiam peixe. Benditas entidades amigas. Se no fosse pela privacidade de minha 
casa  noite, teria perdido as estribeiras. Levei cinco anos para aprender a servir apenas dois tipos de refeies: com carne e vegetariana.
        Pouco a pouco, a fazenda foi recuperada. Comprei tratores e mquinas de enfardar. Os campos foram arados, semeados e adubados. Furamos poos.  claro, a 
nica coisa que parecia fluir era o dinheiro. S consegui equilibrar o oramento oito anos depois, e mesmo assim vendendo carneiros, gado e madeira. Mas viver perto 
da terra compensava largamente a despesa. Na noite anterior ao Dia de Ao de Graas, eu estava de martelo e pregos na mo trabalhando com meu mestre-de-obras quando 
tive a forte sensao de que algo muito incomum iria acontecer, alguma coisa boa. No o deixei ir para casa e mantive-o acordado a noite inteira com caf e chocolates 
suos - ele pensou que eu fosse maluca. Mesmo assim, prometi que valeria a pena e, realmente, tarde da noite, quando estvamos sentados conversando, a sala encheu-se 
de uma luz clida. O mestre-de-obras olhou para mim, como se dissesse: "O que est havendo?"
        - Espere - disse.
        Gradativamente, uma imagem apareceu contra a parede mais distante. Vimos na mesma hora de quem se tratava. Jesus. Abenoou-nos e desapareceu. Voltou novamente, 
sumiu e ento retornou mais uma vez e pediu-me para chamar o lugar de Fazenda Healing Waters.
        -  um novo comeo, Isabel. Minha testemunha estava incrdula.
        - A vida  cheia de surpresas - disse.
        Quando amanheceu, samos para o ar fresco da manh e vimos que uma neve suave cara, cobrindo os campos, colinas e construes.
        Parecia um novo comeo.
        A mudana para Healing Waters estimulou-me com a sensao de ter novamente uma misso, apesar de no saber qual seria alm de me estabelecer ali. Era o bastante 
para comear. Uma das vizinhas, Pauline, um anjo tolhido pela diabetes, a artrite e o lpus, telefonava assim que eu acendia as luzes depois de chegar de viagem. 
No sentia que tivesse chegado at ouvir a voz dela dizer, calorosa:
        - Ol, Elisabeth, seja bem-vinda. Posso ir at a levar uma coisinha para voc?
        Minutos depois, ela batia na porta trazendo um pudim caseiro ou uma torta de ma. Havia dois irmos que moravam  beira da estrada que aceitavam qualquer 
trabalho que eu lhes desse.
        Havia uma grande sinceridade em meio  vida dura das pessoas daquela regio pobre do pas, pessoas com quem me identificava, que eram inegavelmente mais 
autnticas do que os impostores que encontrara no Sul da Califrnia, e minha prpria vida adaptou-se tambm aos mesmos dias compridos, msculos doloridos e recompensas 
adquiridas com esforo. E poderia ter continuado assim se no fosse pela maldita eficincia do correio dos Estados Unidos. Eficincia? Exatamente. Talvez eu seja 
a primeira pessoa a reclamar disso.
        Quando cheguei, a pequena agncia de apenas uma sala do correio de Head Waters s abria uma vez por semana. Avisei  meiga senhora que tomava conta dela 
que talvez fosse preciso abri-la mais vezes, j que eu costumava receber quinze mil cartas por ms.
        - Bem, minha querida, vamos ver como  que fica - disse. Um ms depois, ela passou a abrir a agncia cinco dias por semana e nunca deixou de fazer uma entrega 
sequer.
        Naquela primavera, recebi uma carta que afetou minha vida mais do que qualquer outra:
        
         Prezada doutora Ross,
                                                                             
         Tenho um filho de trs anos de idade que est com AIDS. No posso mais cuidar dele. Ele come muito pouco e bebe muito pouco. Quanto cobraria para cuidar 
dele?
        
        Outras cartas semelhantes vieram em seguida. Nenhuma histria ilustrava melhor a trgica frustrao que os pacientes aidticos enfrentavam do que a de Dawn 
Place. Ela era uma me portadora de AIDS que, nos ltimos e penosos meses de sua vida, procurara desesperadamente um lugar onde aceitassem cuidar de sua filha, tambm 
aidtica, depois que ela morresse. Mais de setenta organizaes deram-lhe as costas, e ela morreu sem saber quem cuidaria de sua filha. Recebi outra carta pattica 
de uma me em Indiana perguntando se podia tomar conta de seu beb aidtico. "Ningum quer nem tocar nele."
        Era difcil de acreditar, mas minha revolta aumentou mais ainda quando soube de um beb em Boston que tinha sido deixado dentro de uma caixa de sapatos para 
morrer. Era uma menina, que foi levada para um hospital e colocada num bero to aconchegante quanto a jaula de um animal no zoolgico. As assistentes sociais do 
hospital faziam-lhe pequenos afagos diariamente. Mas era s. A criana nunca se ligou a ningum. Nunca foi abraada, acarinhada ou sentou-se no colo de qualquer 
pessoa. Com dois anos, no sabia engatinhar, que dir andar, e no falava. Uma crueldade.
        Empenhei-me febrilmente at encontrar um casal maravilhoso que concordou em adotar essa criana. Quando chegaram ao hospital, porm, no lhes permitiram 
v-la. Os administradores deram uma desculpa qualquer alegando que a criana estava doente. Claro que estava, o beb tinha AIDS! Acabamos seqestrando a menina, 
negociamos um acordo com o hospital depois de ameaar divulgar o fato para imprensa e, felizmente, hoje a menina  quase uma adolescente.
        Da em diante, passei a ter pesadelos com bebs aidticos morrendo sem que ningum lhes desse carinho ou amor. Os pesadelos s pararam quando ouvi os clarins 
da voz do meu corao aconselhando-me a criar uma clnica para bebs aidticos em minha fazenda. No era o que tinha sonhado para a fazenda, mas j tinha aprendido 
a no discutir com o destino. Dentro de pouco tempo, j imaginava uma espcie de paraso de arca de No, um lugar onde minhas crianas aidticas pudessem correr 
livremente entre cavalos, vacas, carneiros, paves e lhamas.
        Mas tudo acabou sendo muito diferente. Em 2 de junho de 1985, falando para a turma de formandos da Faculdade Mary Baldwin, em Staunton, mencionei casualmente 
meu plano de adotar vinte bebs aidticos e cri-los em dois hectares da fazenda que transformaria em clnica. Os estudantes aplaudiram, mas meu comentrio, transmitido 
pela televiso local e publicado nos jornais, desencadeou um protesto irado entre os residentes da regio, que, em seu medo e ignorncia, passaram a encarar-me como 
o Anticristo que iria trazer aquela doena mortal para dentro de suas casas.
        No incio, estava ocupada demais para ter conscincia da tempestade que se formava  minha volta. Tinha visitado anteriormente uma maravilhosa casa de repouso 
em So Francisco, onde os pacientes aidticos recebiam apoio, compaixo e carinho. A visita fez-me pensar em como seria a vida dos aidticos nas prises, onde havia 
tantos casos de abuso sexual e promiscuidade e certamente nenhum tipo de sistema de apoio. Telefonei para funcionrios do governo em Washington, D.C., alertando-os 
a respeito dessa epidemia, que estava se espalhando como rastilho de plvora, e insistindo para que se preparassem com as medidas adequadas. Eles ridicularizaram 
minhas preocupaes.
        - No temos um nico caso de AIDS nas prises - disseram-me.
        -  possvel que ainda no saibam de nenhum - argumentei -, mas tenho certeza de que h uma poro.
        - No, no, a senhora tem razo - replicaram. - Tivemos quatro casos. Foram libertados. Os outros todos tiveram permisso oficial para deixar a priso.
        Continuei a dar telefonemas, at falar com algum que mexeu os pauzinhos e me conseguiu uma autorizao para entrar na priso de Vacaville, Califrnia. Disseram-me 
que eles no tinham a menor idia de como lidar com a AIDS e, se eu estava interessada em examinar o problema, que fosse at l. Em menos de vinte e quatro horas, 
seguia de avio para o Oeste.
        O que vi dentro da priso confirmou meus piores temores. Havia de fato oito prisioneiros morrendo de AIDS. Sofriam sem receber cuidados decentes e viviam 
em circunstncias absolutamente deplorveis, cada um isolado numa cela. S dois deles conseguiam andar e circular pela priso; os outros estavam fracos demais para 
sair da cama. Disseram-me que no tinham "patinhos" ou urinis e portanto eram obrigados a urinar em suas canecas e esvazi-las pela janela.
        Se isso j eram ruim, o resto era ainda pior. Um homem cujo corpo estava coberto pelas leses avermelhadas do sarcoma de Kaposi implorou para que fosse submetido 
ao tratamento com radiao. A boca de outro estava to tomada por uma infeco causada por fungos que ele mal conseguia engolir, e vi que quase vomitou quando o 
guarda trouxe seu almoo - tacos, com uma crosta dura e molho apimentado.
        - Acho que esto mesmo querendo ser sdicos - disse, horrorizada.
        O mdico da priso era um mdico do interior aposentado. Minhas perguntas fizeram-no admitir que seus conhecimentos a respeito da AIDS eram menores que o 
da maioria, mas ele no se desculpou por isso.
        Tornei pblica a situao lamentvel que encontrei naquela priso atravs de entrevistas e em meu livro AIDS: o Desafio Final. Como projeto, foi um dos mais 
bem-sucedidos que empreendi. Em dezembro de 1986, dois dos meus melhores companheiros de trabalho, Bob Alexander e Nancy Jaicks, comearam a fazer visitas semanais 
de apoio aos prisioneiros aidticos de Vacaville. O trabalho feito pelos dois inspirou ao Departamento de Justia dos EUA uma investigao sobre as condies de 
vida dos presos aidticos em todas as prises. "J se comeou a agir", escreveu-me Bob, cheio de otimismo, em agosto de 1987.
        Era tudo de que precisvamos. Dez anos mais tarde, voltei a Vacaville. O local onde antes eu constatara uma situao terrivelmente desumana estava completamente 
transformado num hospital para prisioneiros aidticos em que havia esclarecimento e compaixo. Tinham treinado outros presos para cuidar dos doentes. Havia tambm 
alimentao adequada, ateno mdica, msica suave, fisioterapia e psicoterapia, e padres, pastores e rabinos  disposio, que podiam ser chamados a qualquer hora. 
Nunca fiquei to emocionada em toda a minha vida.
        Por uma boa razo. At mesmo no sinistro ambiente de uma priso os sofrimentos causados pela AIDS tinham proporcionado a manifestao de atos de compaixo 
e solidariedade.
        Era uma lio importante para os que duvidavam do poder que tem o amor para criar a diferena.
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
        
       CAPTULO 35
       
    Servios prestados
    
Enquanto estava viajando, como fizera durante quatro semanas atravs da Europa, pouco tinha visto alm de hotis, salas de conferncia e aeroportos. Por isso, nada 
podia ser mais espetacularmente lindo do que chegar em casa. Na primeira manh, eu me inebriava com toda a exuberncia e vida de um mundo que estava acabando de 
acordar - umas oitenta ovelhas, gado, lhamas, galinhas, perus, jumentos e patos. Os campos tinham produzido legumes em abundncia. No podia conceber um lar melhor 
do que a minha fazenda para crianas aidticas, que no tinham quem cuidasse delas.
        S havia um grande problema: as pessoas  minha volta no concordavam. Atendia a telefonemas esquisitos. Uma caixa de correio lotada de cartas me esperava 
ao chegar. "Leve os seus bebs aidticos para outro lugar qualquer", dizia uma carta annima, refletindo a opinio popular. "No nos contamine."
        As pessoas da regio diziam-se boas crists, mas no conseguiam convencer-me. Desde o momento em que anunciara minha inteno de criar uma clnica para bebs 
aidticos, o povo do condado de Highland protestara. No eram muito bem-informados sobre a AIDS e o medo alastrou-se rapidamente. Enquanto estava viajando, um operrio 
de construo que eu despedira tinha ido de porta em porta espalhando mentiras sobre a AIDS e pedindo s pessoas para assinarem um abaixo-assinado contra mim.
        - Vote no se voc no quer que essa mulher traga a AIDS para o nosso condado - era o que dizia s pessoas.
        Ele tinha feito um bom trabalho. Em 9 de outubro de 1985, data da reunio de eleitores do condado para discutir a questo, as pessoas estavam to indignadas 
que ameaavam usar de violncia. Na noite da reunio, mais da metade da populao de dois mil e novecentos moradores encheu a pequena igreja metodista de Monterey, 
a sede do condado. Antes de anunciar meus planos de adotar bebs aidticos, era cumprimentada calorosamente e respeitada como a celebridade do lugar. Quando entrei 
na igreja, contudo, as pessoas que costumavam acenar para mim na cidade comearam a vaiar e assobiar. Soube ento que a minha chance de convencer qualquer um deles 
a passar para o meu lado era nula.
        Mesmo assim, fiquei de p diante daquela multido tensa e falei sobre o tipo de beb que pretendia adotar, crianas entre seis meses e dois anos de idade, 
crianas "que esto morrendo de AIDS e no tm brinquedos, nem amor, nem sol, nem abraos, nem beijos, nem um ambiente de carinho. Esto literalmente condenadas 
a passar o resto de suas vidas dentro daqueles hospitais caros". Era o apelo mais sincero e carregado de emoo que podia fazer. E no entanto foi recebido com um 
pesado silncio.
        Mas estava preparada para mostrar mais. Primeiro, o muito srio diretor do Departamento de Sade de Staunton fez uma apresentao factual da AIDS, inclusive 
discorrendo sobre as formas especficas de transmisso, o que deveria ter acalmado os temores de qualquer indivduo normal. Depois, uma mulher contou como um de 
seus gmeos prematuros contrara AIDS atravs de uma transfuso de sangue e, ainda que as duas crianas usassem o mesmo bero, as mesmas mamadeiras e brinquedos, 
s o menino infectado morreu. "Seu irmo continuou soro-negativo", disse, com voz trmula. Finalmente, um patologista da Virgnia narrou suas experincias como mdico 
e como pai que havia perdido o nico filho contaminado pela AIDS.
        Inacreditavelmente, cada uma dessas pessoas foi vaiada, o que me deixou revoltada e fervendo de raiva diante de tanta ignorncia e dio. Sabia que a nica 
maneira de obter uma reao positiva daquela turba seria anunciar minha partida imediata da regio. Em vez disso, como no estava disposta a admitir a derrota, pedi 
que fizessem perguntas.
        
        Pergunta: - Voc pensa que  Jesus?
        Resposta: - No, no sou Jesus. Mas estou tentando fazer o que tem sido ensinado h dois mil anos, que  amar o prximo e ajud-lo.
        Pergunta: - Por que no faz o centro de tratamento num lugar onde seja mais til de imediato?
        Resposta: - Porque moro aqui e  aqui que eu trabalho.
        Pergunta: - Por que voc no ficou onde estava antes?
        
        Era quase meia-noite quando a reunio acabou. Para que serviu? Para nada. O resultado? Muita raiva e frustrao. Eles me detestavam. Meus assistentes, os 
oradores convidados e eu fomos escoltados na sada da igreja por vrios policiais, que nos seguiram at minha fazenda. Comentei com um amigo que no tinha idia 
de que a polcia fosse to amigvel.
        - Sua boba, eles no so amigveis - disse, balanando a cabea, incrdulo. - S querem ter certeza de que no tero um linchamento hoje.
        Depois disso tudo, passei a ser um alvo fcil e aberto para todos. Quando ia fazer compras na cidade, era chamada de "amiga dos negros". Recebia telefonemas 
ameaadores diariamente. "Voc vai morrer igual s crianas aidticas que tanto ama." A Ku Klux Klan queimava cruzes em meu gramado. Outros disparavam tiros atravs 
de minhas janelas. Tudo isso eu agentava; o que me aborrecia mais eram os pneus furados todas as vezes que saa de minha propriedade. Morando no meio do mato, aquilo 
era um problema. Era bvio que algum estava sabotando meu caminho.
        Por fim, numa noite, escondi-me na casa de fazenda e fiquei vigiando o porto de entrada onde os pneus de meu caminho eram furados. Por volta de duas horas 
da madrugada, vi seis camionetas abertas atravessarem lentamente o porto e deixarem cair cacos de vidro e pregos no cho. Percebendo que tinha de ser mais esperta 
do que eles, no dia seguinte cavei um buraco no final do caminho de entrada de automveis e instalei um mata-burros, uma grade de metal que faria com que os cacos 
e pregos pontiagudos cassem no buraco - o que acabou com os pneus furados. Mas no ajudou em nada para melhorar minha popularidade - ou a falta dela - em Head Waters.
        Certo dia, quando estava trabalhando do lado de fora, um caminho diminuiu a marcha ao passar e o motorista gritou alguma coisa horrvel para mim. Quando 
se afastou correndo, vi um adesivo colado em seu caminho que dizia: "Jesus  o Caminho." No era aquele, certamente, e, em meio  minha frustrao, no pude deixar 
de gritar em voz alta:
        - Onde esto os verdadeiros cristos por aqui?
        Um ano mais tarde, desisti de lutar. A oposio era forte demais. No era s a opinio pblica que me era contrria; o condado recusava-se a aprovar as licenas 
de zoneamento indispensveis. A no ser que vendesse a fazenda, o que no faria, tinham-se esgotado minhas opes, recursos e energia. Uma das coisas que mais me 
partiu o corao foi entrar no quarto que havia preparado para a chegada das crianas, enchendo-o de animais de pelcia, bonecas, colchas artesanais e roupas de 
l tricotadas  mo. Parecia uma loja para bebs. Aparentemente, tudo o que podia fazer era sentar em uma das camas e chorar.
        Mas logo me ocorreu outro plano. Se eu mesma no podia adotar bebs aidticos, poderia encontrar outras pessoas que o fizessem, criando muito menos controvrsia. 
Organizei meus considerveis recursos, que incluam os vinte e cinco mil assinantes em todo o mundo de meu boletim de Shanti Nilaya, e pedi-lhes que espalhassem 
a mensagem. Em breve, meu escritrio parecia uma daquelas agncias de adoo que procuram combinar famlias com crianas. Uma famlia de Massachusetts adotou sete 
crianas. Acabei encontrando trezentas e cinqenta pessoas bondosas e solidrias pelo pas afora que adotaram bebs contaminados pela AIDS.
        Alm disso, conheci pessoas que no podiam adotar crianas, mas queriam ajudar de alguma forma. Uma senhora idosa descobriu um novo objetivo para sua vida 
consertando bonecas velhas, que conseguia em mercados de objetos usados e mandava para mim para serem dadas como presentes de Natal. Um advogado da Flrida ofereceu 
consultoria legal gratuita. Uma famlia sua enviou dez mil francos. Uma mulher contou-me, cheia de orgulho, que uma vez por semana preparava as refeies de um 
paciente aidtico que ela encontrara em um dos meus workshops. E outra ainda escreveu que havia superado seus medos e abraado um rapaz que estava morrendo de AIDS. 
Segundo ela, era difcil dizer qual dos dois lucrara mais.
        Foi uma poca marcada pela violncia e o dio, e a AIDS era vista como uma das maiores maldies de nosso tempo. Mas eu tambm via um benefcio enorme em 
tudo aquilo. Sim, um benefcio. Todos os pacientes que me falaram de suas experincias de quase morte lembravam-se de entrar na luz e serem perguntados: "Quanto 
amor voc deu e recebeu?" "Que servios voc prestou?" Em outras palavras, como se saram ao aprender a mais difcil de todas as lies da vida: o amor incondicional.
        A epidemia de AIDS fazia a mesma pergunta. Gerou incontveis histrias de pessoas que aprenderam a ajudar e amar outras pessoas. O nmeros de clnicas especializadas 
multiplicou-se enormemente. Soube de um menino pequeno e sua me que levavam comida para dois vizinhos homossexuais doentes que no podiam mais sair de casa. A colcha 
de retalhos comemorativa do Names Project2  um dos maiores monumentos  humanidade que este pas e o mundo jamais produziram. Quando foi a ltima vez que se ouviram 
tantas histrias como essas? Ou se viram tantos exemplos assim?
        Em um de meus workshops, um enfermeiro contou-me uma histria a respeito de um rapaz homossexual que estava morrendo na enfermaria em que ele trabalhava. 
O rapaz passava o dia inteiro no escuro, esperando, consciente de que seu tempo estava se esgotando, e sempre desejando que seu pai, que o expulsara de casa, viesse 
v-lo antes que fosse tarde demais.
        Ento, uma noite, o enfermeiro viu um senhor andando sem rumo pelos corredores, nervoso, parecendo desamparado. O enfermeiro conhecia as pessoas que iam 
visitar os parentes e nunca tinha visto aquele homem antes. Sua intuio disse-lhe que aquele era o pai do rapaz. Portanto, quando o homem se aproximou da porta 
do quarto, o enfermeiro disse:
        - Seu filho est a nesse quarto.
        - Meu filho, no - replicou o homem.
        Com seu jeito bondoso e compreensivo, o enfermeiro deu um leve empurro na porta, abrindo apenas uma fresta, e disse:
        - L est seu filho.
        O homem no pde deixar de lanar um rpido olhar para o rapaz esqueltico deitado no escuro. Depois de enfiar a cabea pela abertura da porta, ele a retirou 
e disse:
        - No, no  possvel, aquele no  meu filho.
        Mas o rapaz, com a voz enfraquecida, conseguiu dizer:
        - Sou eu, sim, papai. Estou aqui.
        O enfermeiro abriu a porta e o pai entrou lentamente no quarto. Ficou parado por um momento, depois se sentou na cama e abraou o filho.
        O enfermeiro no se lembra de ter visto o abrao acabar.
        Naquela noite, o rapaz morreu. Mas morreu em paz, e s quando seu pai j tinha aprendido a maior de todas as lies.
        Eu no tinha dvida de que um dia a medicina descobriria a cura para essa doena horrvel. Mas esperava que, antes, a AIDS curasse o que nos contaminava 
como seres humanos.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 36
      
    A mdica do interior
    
Meu trabalho era ajudar as pessoas a encontrarem uma maneira mais tranqila de viver e, no entanto, parecia que a minha prpria vida nunca iria ter serenidade. Pagara 
um preo mais alto do que eu pensara pela intensa luta para adotar os bebs aidticos. Em seguida, veio um inverno rigoroso; depois, chuvas e enchentes que causaram 
prejuzos  propriedade. Ento, uma estiagem arruinou o que teria sido uma boa colheita, quando mais precisvamos de uma. Como se no bastasse, eu ainda mantinha 
minha agenda lotada de palestras, workshops, atividades para angariar fundos, consultas a domiclio e visitas a doentes em hospitais.
        No fiz caso das advertncias dos amigos, que diziam que eu acabaria tendo srios problemas de sade se partisse para um exaustivo programa de palestras 
e workshops atravs da Europa. Cumpri o programa, mas, em compensao, tirei dois dias de folga no final para visitar minha irm Eva na Sua. Quando cheguei em 
sua casa, estava completamente esgotada. Minha aparncia era horrvel, precisava de descanso, e ela insistiu para que cancelasse minha viagem a Montreal e ficasse 
mais tempo.
        Apesar disso ser impossvel, estava determinada a tirar o melhor proveito de minha curta visita, desfrutando da reunio de famlia que Eva tinha organizado 
num bom restaurante. Como esses encontros familiares eram ocasies raras, aquele foi simptico e divertido, uma verdadeira festa.
        - Isso  o que todas as famlias deveriam fazer - disse. - Deveriam celebrar enquanto todo mundo est vivo.
        - Tambm acho - disse Eva.
        - Talvez as geraes futuras passem a comemorar as formaturas e acabem com esse estardalhao ridculo e essa tristeza toda por causa da morte - continuei. 
- No mnimo, as pessoas deveriam chorar mesmo  quando algum nasce e tem de comear de novo todo esse absurdo que  a vida.
        Vinte e quatro horas mais tarde, enquanto nos preparvamos para dormir, disse a minha irm que no se incomodasse comigo na manh seguinte - que eu tomaria 
um pouco de caf, fumaria um cigarro e iria para o aeroporto. De manh, meu despertador tocou e, quando desci, verifiquei que Eva nem tomara conhecimento de meu 
pedido e ainda por cima colocara sua melhor toalha branca na mesa com um arranjo de flores frescas no centro. Sentei-me para tomar caf e, quando j ia reclamar 
com ela por ter tido tanto trabalho comigo, o que todos mais temiam aconteceu.
        Toda a tenso, as viagens, o caf, os cigarros e o chocolate - tudo junto, de repente, me apanhou. Fui tomada pela estranha sensao de estar afundando. 
Meu corpo ficou fraco. Tudo comeou a girar  minha volta. Perdi a conscincia da presena de minha irm e no conseguia me mexer. Entretanto, sabia exatamente o 
que estava acontecendo.
        Eu estava morrendo.
        Soube na mesma hora. Depois de ajudar tanta gente a passar por seus ltimos momentos, minha prpria morte tinha afinal consentido em chegar. Os comentrios 
que fizera no restaurante na noite anterior agora pareciam profticos. Pelo menos, eu estava indo embora com uma comemorao. Pensei tambm na fazenda, nos campos, 
que estavam cheios de legumes que seria preciso enlatar, nas vacas, porcos, carneiros e nas novas crias que tinham nascido. Olhei ento para Eva, sentada bem  minha 
frente. Ela me ajudara tanto com meu trabalho na Europa e com a fazenda! Queria dar-lhe algo antes de morrer.
        Aparentemente, no havia como, pois no sabia de que estava morrendo. Se, por exemplo, fosse uma coronria, era provvel que eu morresse num instante. Ento, 
tive uma idia.
        - Eva, estou morrendo - disse. - E quero dar a voc um presente de despedida. Vou partilhar com voc o que  realmente a sensao de estar morrendo do ponto 
de vista do paciente.  o melhor presente que posso dar, porque ningum jamais fala enquanto est passando por isso.
        Nem esperei - ou mesmo reparei, para dizer a verdade - a reao dela e precipitei-me num relato detalhado de tudo o que estava acontecendo comigo.
        - Est comeando nos meus dedos dos ps - disse. -  como se estivessem na gua quente. Dormentes. Confortveis.
        Para mim, minha voz soava rpida como a de um locutor de corridas de cavalos.
        - Est subindo pelo meu corpo, pelas minhas pernas. Agora est passando da cintura. No estou com medo.  exatamente como pensei que fosse.  um prazer. 
 realmente uma sensao agradvel.
        Apressei-me para mant-la a par do que estava sentindo.
        - Estou fora de meu corpo - continuei. - Sem mgoas. Diga adeus por mim a Kenneth e Barbara. S amor.
        quela altura, s me restavam um ou dois segundos. Era como se estivesse numa rampa de esqui, preparando-me para saltar no vazio.  frente estava a luz brilhante. 
Estendi os braos num ngulo que me faria voar direto para o centro da luz. Lembro que me agachei numa posio de corrida para ganhar impulso e controle de movimentos. 
Estava totalmente consciente de que o momento glorioso tinha chegado e saboreava cada segundo revelador.
        -  a minha formatura - disse  minha irm. E olhei para a luz diretamente  minha frente; senti que me puxava para mais perto e abri os braos.
        - L vou eu! - gritei.
        Quando acordei, estava de bruos, estirada sobre a mesa da cozinha de Eva. A elegante toalha de mesa branca de minha irm estava coberta de caf derramado. 
Seu lindo arranjo de flores, espalhado por toda a parte. E, o que  pior, Eva estava transtornada. Desatinada, segurava-me e tentava imaginar o que fazer. Desculpou-se 
por no ter chamado uma ambulncia.
        - No seja boba - disse. - No precisava chamar coisa nenhuma.  bvio que no fui embora. Estou presa aqui outra vez. Eva insistia em fazer alguma coisa, 
e ento obriguei-a a me levar ao aeroporto, embora ela no achasse conveniente.
        - Dane-se a convenincia - escarneci.
        No caminho, porm, perguntei o que tinha achado do presente que lhe dera, meu relato sobre como era morrer. Recebi de volta um olhar esquisito. Devia estar 
pensando que talvez eu j estivesse no ar. S me ouvira dizer "Estou morrendo" e depois "L vou eu". Entre uma frase e outra, um vazio completo, exceto pelo som 
da loua se quebrando e voando longe quando ca sobre a mesa.
        Trs dias depois, diagnostiquei o problema como tendo sido uma ligeira fibrilao de meu corao ou tambm alguma outra coisa, mas nada grave. Dei alta a 
mim mesma e considerei-me tima. Mas no estava tima. A estiagem que assolou o vero de 1988 foi das mais duras. Em meio a ondas de calor que atingiam recordes 
de temperatura, supervisionei o final da construo das casas redondas do centro, dei um pulo  Europa e celebrei meu aniversrio de sessenta e dois anos promovendo 
uma festa para as famlias que tinham adotado bebs aidticos. L pelo final de abril, estava me arrastando de cansao mais ainda do que costumava.
        No dei ateno ao cansao. Ento, no dia 6 de agosto, estava dirigindo o caminho na companhia de Ann, uma mdica amiga que viera da Austrlia para visitar-me, 
e de minha antiga colaboradora, Charlotte, uma enfermeira, e descamos um morro ngreme acima da fazenda quando, de repente, senti uma contrao na cabea, uma pontada 
dolorosa que se espalhou como uma espcie de choque eltrico pelo meu lado direito. Segurei a cabea com a mo esquerda e apertei com fora. Gradativa-mente, meu 
lado direito ficou mais fraco e depois entorpecido. Voltei-me para Ann e disse, com toda a calma:
        - Acabei de ter um derrame.
        Nenhuma de ns sabia o que pensar naquele instante. Estvamos assustadas? Entramos em pnico? No. Seria impossvel encontrar trs mulheres mais capazes 
e de maior sangue-frio.
        De alguma forma, dei um jeito de voltar com o caminho at a casa de fazenda e puxei o freio.
        - Como  que voc est, Elisabeth? - perguntaram. Sinceramente, eu no sabia. Aquela altura, j no conseguia mais falar com clareza. Minha lngua no funcionava 
direito, minha boca estava mole como se parte dela estivesse gasta, e meu brao direito no obedecia mais.
        - Temos de lev-la para o hospital - disse Ann.
        - Besteira - consegui dizer. - O que eles podem fazer no caso de um derrame? No podem fazer nada, s ficar olhando.
        Entretanto, consciente de que precisava de ao menos um exame geral bsico, deixei que me levassem para o Centro Mdico da Universidade de Virgnia. Em vez 
de fazer o jantar naquela noite, fiquei sentada no setor de emergncia. Era a nica ali doida por uma xcara de caf e um cigarro. O mximo que me deram foi um mdico 
que se recusou a internar-me no hospital, a menos que eu parasse de fumar.
        - No! - retruquei.
        Ele cruzou os braos, um verdadeiro manda-chuva querendo impor sua opinio. Eu no sabia que ele era o chefe da unidade de acidentes vasculares cerebrais. 
E nem me importava.
        - A vida  minha - disse.
        Nesse meio tempo, um mdico jovem, divertindo-se com a disputa, comentou que a mulher de um figuro da universidade, recentemente internada naquele setor, 
tinha usado de sua influncia para conseguir um quarto particular onde pudesse fumar.
        - Pergunte se ela se importa com uma companheira de quarto - disse.
        Ela ficou encantada por ter companhia. No minuto em que fecharam a porta, eu e minha companheira de quarto, uma mulher de setenta e um anos de idade, inteligente 
e muito divertida, acendemos nossos cigarros. Parecamos duas adolescentes levadas. Sempre que eu ouvia passos, fazia um sinal e apagvamos os cigarros.
        Admito que no era uma paciente fcil, mas mesmo assim o tratamento foi ruim. Ningum fazia um pronturio que prestasse. Ningum fazia um exame completo. 
As enfermeiras acordavam-me de hora em hora, a noite toda, acendendo a luz de uma lanterna direto nos meus olhos:
        - Est dormindo? - perguntavam.
        - No estou mais - resmungava.
        Em minha ltima noite no hospital, perguntei  enfermeira se ela poderia me acordar com msica.
        - No podemos fazer isso - disse a enfermeira.
        - E que tal assobiar ou cantar? - sugeri.
        - Tambm no podemos fazer isso - respondeu. Era s o que eu ouvia: "No podemos fazer isso."
        Acabei ficando farta de tudo aquilo. Trs dias depois de entrar no hospital, s oito da manh, fui cambaleando at a central de enfermagem - com minha companheira 
de quarto colada em mim - e autorizei minha prpria sada do hospital.
        - A senhora no pode fazer isso - disseram-me.
        - Quer apostar? - disse.
        - Mas a senhora no pode.
        - Sou mdica - disse.
        - No,  uma paciente.
        - Os pacientes tambm tm direitos - repliquei. - Eu assino os papis.
        Recuperei-me melhor e mais depressa do que se estivesse no hospital. Dormia bem e comia uma boa comida. Estabeleci meu prprio programa de reabilitao. 
Todos os dias, vestia-me e subia um grande morro que havia atrs de minha fazenda. Era uma rea ainda em estado natural, com ursos e cobras movendo-se furtivos por 
trs de rvores e pedras. Comecei subindo o caminho de quatro, engatinhando lenta e penosamente. No fim da primeira semana, j estava de p, apoiada numa bengala, 
mas recuperando minhas foras. Em cada caminhada, cantava a plenos pulmes, um excelente exerccio, e, graas  desafinao de meus gorjeios, tambm um mtodo de 
proteo infalvel contra animais selvagens.
        Quatro semanas depois - apesar do pessimismo de meu mdico - j podia andar e falar outra vez. Por sorte, tinha sido um "pequeno" derrame, e voltei a cuidar 
do jardim, da fazenda, a escrever, cozinhar e viajar, tudo o que fazia antes. A mensagem para diminuir o ritmo era clara. E quanto a abrandar o tom? Pouco provvel, 
como ficou evidente durante a palestra que dei em outubro para os mdicos do hospital de onde sara por conta prpria dois meses antes.
        - Vocs me curaram - exclamei, caoando. - Em dois dias, vocs curaram para sempre a minha vontade de ser hospitalizada, a no ser em caso de emergncia 
extrema!
        No vero de 1989, a melhor colheita que j tivera encheu-me de satisfao. Fazia cinco anos que tinha a fazenda, trabalhara nela durante quatro anos e estava 
saboreando os frutos e os legumes de meu trabalho duro. Era verdade o que dizia a Bblia: voc colhe o que planta. O outono j estava comeando, a estao das cores 
primrias, e eu ainda no tinha acabado de fazer e enlatar conservas, para, em seguida, ir  estufa comear a preparar as mudas para o ano seguinte. Vivendo perto 
da terra, reconhecia mais do que nunca a nossa dependncia da Me Natureza, e vi-me dedicando maior ateno s profecias dos ndios Hopi e ao Livro das Revelaes.
        Preocupava-me com o futuro do mundo. A julgar pelo que mostravam os jornais e a CNN, parecia assustador. Acreditava nas advertncias de certas pessoas de 
que em breve o planeta seria abalado por acontecimentos catastrficos. Meus dirios estavam cheios de reflexes e idias destinadas a evitar tanta dor e sofrimento. 
"Se olharmos TODAS as coisas vivas como uma ddiva de Deus, criadas para nosso prazer e gozo, para amar e respeitar, estimar e resguardar para nossas prximas geraes, 
e cuidarmos de ns mesmos com a mesma solicitude, o futuro no ser TEMVEL, mas precioso."
        Infelizmente, todos esses dirios seriam destrudos. Contudo, algumas outras anotaes ainda me vm  mente:
        
          Nosso hoje depende de nosso ontem e nosso amanh depende de nosso hoje.
          Voc j deu amor a si mesmo hoje?
         Voc j admirou e agradeceu s flores, apreciou os pssaros, contemplou as montanhas e sentiu a admirao reverente que inspiram?
        
        Havia certos dias em que sentia minha idade, em que meu corpo doa e lembrava-me que pessoa impaciente eu era. Mas quando refletia sobre as grandes questes 
da vida em meus workshops, sentia-me to jovem, cheia de vitalidade e de esperana como quando ainda era uma mdica do interior fazendo minha primeira visita  casa 
de um doente, h mais de quarenta anos. O melhor remdio de todos  o mais simples. "Vamos todos aprender a amar e perdoar a ns mesmos, a ter compaixo e compreenso", 
foi o que passei a dizer sempre no final dos workshops. Era um resumo de todo o meu conhecimento e experincia. "E ento seremos capazes de dar aos outros esses 
bens. Curando as pessoas, podemos curar a Me Terra."
        
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO 37
       
    Formatura
        
        
Aps sete anos de trabalho, luta e lgrimas, estava feliz por ter uma boa razo para comemorar. Numa tarde luminosa de julho de 1990, supervisionei as grandiosas 
festividades oficiais de inaugurao do Centro Elisabeth Kbler-Ross - um acontecimento que tinha de fato comeado vinte anos antes, quando senti o primeiro impulso 
de possuir uma fazenda. Embora as instalaes j fossem regularmente usadas para os workshops, todo o trabalho de construo tinha afinal terminado.
        Quando entrava no centro e olhava para os prdios, os chals e minha bandeira da Sua ondulando l fora, parte de mim mal acreditava no que via. O sonho 
tinha resistido ao meu divrcio, tomara impulso quando eu criara Shanti Nilaya, em San Diego, e sobrevivera milagrosamente  minha crise de confiana depois do contato 
com B. e  minha batalha com a populao local, que teria preferido que aquela senhora pretensamente amiga dos aidticos tomasse o primeiro nibus para fora da cidade.
        Depois da bno, dada com palavras comoventes por meu velho amigo Mwalimu Imara, tivemos msica country e gospel e comida caseira suficiente para alimentar 
os quinhentos amigos que tinham vindo do Alasca e da Nova Zelndia. Havia tambm muito assunto para pr em dia com membros da famlia e antigos pacientes. Foi um 
grande dia, que renovou minha f no destino. Infelizmente, nem todos cuja vida tocara a minha podiam comemorar em pessoa, mas, apenas dois meses antes, tinha recebido 
algo inesquecvel que me lembrava todos eles e a razo por que podia considerar-me verdadeiramente abenoada. Dizia o seguinte:
        
         Querida Elisabeth:
         
         Hoje  o Dia das Mes e estou mais cheia de esperana neste dia do que nos ltimos quatro anos! Cheguei ontem do workshop Vida, Morte e Transio, na Virgnia, 
e tive de escrever para contar-lhe como este me afetou.
         H trs anos e meio, minha filha de seis anos, Katie, morreu de um tumor no crebro. Logo depois, minha irm enviou-me um exemplar do Livro de Dougy, e 
as palavras que voc partilhou conosco naquele livrinho tocaram-me profundamente. A mensagem da lagarta e da borboleta continuam a trazer-me esperana, e foi muito 
importante ouvir de voc pessoalmente a mesma mensagem na ltima quinta-feira. Obrigada por estar l e dar tanto de si a todos ns.
         Nem sei como falar de todas as ddivas que recebi durante essa semana, mas fao questo de partilhar algumas das que esto relacionadas  vida e morte de 
minha filha. Graas a voc, hoje compreendo melhor a vida e a morte de minha filha. Ns duas sempre tivemos um vnculo especial, mas isso ficou mais evidente durante 
o perodo de sua doena e morte.
         Ela me ensinou muita coisa enquanto estava morrendo e continua a ser minha professora.
         Katie morreu em 1986 depois de uma batalha de nove meses contra um tumor cerebral maligno. Depois de nove meses, perdeu a capacidade de andar e falar, mas 
no de se comunicar. As pessoas ficavam muito confusas quando a viam num estado de semicoma e eu lhes dizia que conversvamos o tempo todo. E continuei mesmo a falar 
com ela e ela comigo. Insistimos para que os mdicos a deixassem morrer em casa, e at a levamos para a praia com minha famlia duas semanas antes de sua morte. 
Foi uma temporada muito importante para todos ns, inclusive para vrios sobrinhos e sobrinhas pequenos, que aprenderam muito sobre a vida e a morte durante aquela 
semana. Sei que se lembraro durante muito tempo de como ajudaram a cuidar dela.
         Uma semana depois de voltarmos para casa, ela morreu. O dia comeou como todos os outros, eu lhe dando seus remdios e alimentao, seu banho, e conversando 
com ela. Naquela manh, quando a irm de dez anos estava indo para a escola, Katie emitiu alguns sons (o que no fazia havia meses), e comentei que ela estava dizendo 
"At logo" para Jenny, antes que a irm sasse. Notei que ela parecia muito cansada e prometi que no a mudaria mais de lugar naquele dia. Conversei com ela e disse-lhe 
para no ter medo, que eu estava ali com ela e que ela ficaria bem. Disse-lhe que no precisava resistir por minha causa e que, quando morresse, estaria segura e 
cercada por pessoas que a amavam, como seu av, que tinha morrido dois anos antes. Disse que sentiramos muita falta dela, mas que ficaramos bem. Depois, fiquei 
sentada junto dela na sala de estar.  tarde, Jenny voltou para casa, disse ol para Katie e foi para a outra sala fazer seu dever de casa. Alguma coisa me disse 
para ir ver Katie, e comecei a limpar seu tubo de alimentao, que estava vazando. Quando ergui os olhos para ela, seus lbios ficaram brancos. Respirou duas vezes 
e parou. Falei com ela, e ela piscou os olhos duas vezes e se foi. Eu sabia que no havia nada a fazer seno abra-la, e foi o que fiz. Sentia-me muito triste, 
mas estava em paz. No cogitei em tentar uma ressuscitao cardiopulmonar, que sabia como fazer. Graas a voc, compreendo por qu. Sei que a vida dela acabou quando 
tinha de acabar, que ela aprendeu tudo o que veio aprender e ensinou tudo o que veio ensinar. Passo agora grande parte de meu tempo tentando entender tudo o que 
ela ensinou enquanto viveu e morreu.
         Imediatamente depois da morte dela e desde ento, comecei a sentir uma onda de energia e tive vontade de escrever. Escrevi por vrios dias e ainda me espanto 
com a energia que persiste e com as mensagens que consigo obter. Assim que Katie morreu, a mensagem que tomou conta de mim foi a de que havia uma misso em minha 
vida, que estender a mo e dar aos outros  para que serve a vida. "Katie viver para sempre, assim como todos ns. A essncia daquilo que  mais valioso precisa 
ser partilhada com os outros. Amar, partilhar, tornar mais ricas as vidas de outras pessoas, tocar e ser tocado - existe outra coisa que se compare a esses momentos?"
         E assim, desde a morte de Katie, minha vida tomou um outro rumo: comecei um curso de aconselhamento psiquitrico que terminei em dezembro, estou trabalhando 
com pessoas aidticas... e compreendendo cada vez mais meus laos espirituais com Katie e com Deus.
         Gostaria tambm de contar para voc um sonho que tive muitos meses depois da morte de Katie. O sonho parecia muito real e, quando acordei, sabia que era 
significativo. Depois de suas palavras da ltima quinta-feira, passou a fazer mais sentido para mim:
         Aproximei-me de um riacho que me separava de um outro lugar. Sabia que tinha de ir para l. Vi uma pinguela estreita que cruzava o riacho. Meu marido estava 
comigo e seguiu atrs de mim por algum tempo, at que tive de carreg-lo para atravessar a ponte. Quando chegamos do outro lado, entramos em uma casa pequena. Dentro 
estavam muitas crianas usando crachs com seus nomes e fotografias. Encontramos Katie entre elas e vimos que aquelas eram crianas que tinham morrido, e que poderamos 
ficar um pouco com ela. Fomos ao encontro de Katie e perguntei se podia abra-la. Ela disse: "Pode, e podemos brincar um pouco, mas no posso ir embora com vocs." 
Como j contei, eu sabia disso. Ficamos juntos, brincamos com ela e depois tivemos de ir.
         Acordei com a ntida sensao de que estivera com Katie naquela noite. Agora sei que realmente estive.
         Com carinho, M.P.
        
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       
       CAPTULO 38
       
    O sinal de Manny
    
No havia outra maneira de encarar aquela situao: eu estava cercada de assassinos, pessoas que haviam cometido os piores crimes contra a humanidade de que jamais 
ouvira falar. Tambm no havia como escapar. Estvamos todos atrs das grades de uma priso de segurana mxima em Edimburgo, na Esccia. E eu estava pedindo a eles 
uma confisso - mas no do crime horrvel que haviam cometido, seja l qual fosse. No, eu queria algo muito mais perturbador, muito mais doloroso. Queria que revelassem 
a dor interior que os fizera matar.
        Era decerto uma forma original de abordagem para promover a regenerao, mas eu acreditava que nem mesmo uma condenao  priso perptua ajudaria a regenerar 
um criminoso, a menos que fosse exteriorizado o trauma que havia motivado um crime to grave. Era a mesma teoria que estava por trs de meus workshops. Em 1991, 
propus a vrias prises, inclusive norte-americanas, realizar workshops atrs das grades, mas s a priso escocesa concordou com minhas condies inslitas: que 
a metade dos participantes fosse de prisioneiros e a outra metade de funcionrios da priso.
        Ser que daria certo? Tendo em vista a experincia, no havia dvidas. Durante uma semana inteira, ficamos todos morando na priso, comendo a mesma comida, 
dormindo nas mesmas camas duras, tomando banho nos mesmos compartimentos frios (menos eu, que preferia cheirar mal at morrer do que congelar) e ficando trancados 
juntos  noite. No final do primeiro dia, depois de quase todos os homens falarem sobre os crimes pelos quais estavam encarcerados, as lgrimas desciam nos rostos 
dos prisioneiros, at mesmo dos mais insensveis. Ao longo do resto da semana, muitos revelaram histrias de infncias marcadas por abusos sexuais ou emocionais.
        Mas os prisioneiros no eram os nicos a contar suas histrias. Depois que a diretora da priso, uma mulher franzina, revelou um problema ntimo de sua juventude 
diante de prisioneiros e guardas, uma proximidade emocional uniu o grupo. A despeito das diferenas entre eles, de repente se instalou um ambiente de verdadeira 
compaixo, empatia e afeto. Por volta do final da semana, reconheceram algo que eu j havia descoberto fazia muito tempo: que todas as pessoas, como irmos e irms 
verdadeiros, esto ligadas pela dor e existem unicamente para suportar as adversidades com pacincia e para crescer.
        Os presos conquistaram uma paz que lhes permitiria viver uma vida plena mesmo atrs das grades, e eu fui premiada com a melhor refeio sua que j tinha 
experimentado fora de meu pas, alm de uma comovente cano de despedida de um tocador de gaita de foles escocesa, talvez a nica oportunidade que os prisioneiros 
teriam de ouvir aquele tipo d e msica dentro da priso. Embora tais workshops fossem incrivelmente produtivos, costumavam ser raros. Minha esperana era que inspirassem 
programas semelhantes nas prises superlotadas dos Estados Unidos, onde no se d ateno nenhuma  recuperao.
        Certas pessoas ridicularizavam esses objetivos chamando-os de pouco realistas e, no entanto, sabe-se de vrios exemplos de objetivos aparentemente ainda 
mais inatingveis, exceto pelo fato de estarem associados a pessoas que se empenharam em fazer mudanas. No havia exemplo melhor do que o da frica do Sul, onde 
o velho sistema repressivo do apartheid estava sendo substitudo por uma democracia multirracial.
        Durante anos a fio, eu havia recusado convites para realizar workshops na frica do Sul, a menos que tivesse a garantia de um grupo de participantes composto 
de brancos e negros. Afinal, em 1992, dois anos depois de Nelson Mandela, o lder do Congresso Nacional Africano, sair da priso, prometeram-me uma mistura racial 
sob o mesmo teto e, sendo assim, concordei em ir. Ainda que no estivesse rigorosamente seguindo os passos de Albert Schweitzer, em quem me inspirara na escolha 
da carreira da medicina cinqenta e cinco anos antes, assim mesmo estava realizando o sonho de uma vida inteira.
        Aquele workshop, que foi um enorme sucesso ao forjar um entendimento da humanidade baseado antes em suas similaridades do que em suas diferenas, assinalou 
uma conquista de grande significao: aos sessenta e seis anos, realizara workshops em todos os continentes do mundo. Depois, participei de uma passeata de cunho 
poltico em apoio  transio pacfica para um governo multirracial. Entretanto, no fazia diferena estar em Johannesburgo ou Chicago, porque o destino de todos 
 seguir o mesmo caminho: crescer, amar e servir. Estar ali apenas reforava a minha impresso de j ter chegado.
        E ento houve um acontecimento triste, o de uma partida. Naquele outono, Manny, que sobrevivera a uma operao para implantao de trs pontes de safena, 
estava muito enfraquecido quando seu corao comeou a falhar. Temendo no resistir ao    frio intenso de Chicago, uma vez que seu estado era, no mnimo,     problemtico, 
ele passou o inverno em Scottsdale, no Arizona,     onde o clima era mais agradvel. Em outubro, mudou-se para a casa de um amigo. Foi uma temporada muito feliz 
para ele. J muito distante de qualquer ressentimento sobre a maneira como nosso casamento acabara, eu passava por l sempre que podia e      enchia a geladeira 
dele de comida caseira. Manny adorava meus pratos da culinria sua. Ele foi cercado de cuidados.                          
        J no posso dizer o mesmo das poucas semanas que Manny teve de passar no hospital quando seus rins comearam a falhar. Embora estivesse cada vez mais fraco, 
seu nimo melhorou quando o levamos de volta para casa. Poucos dias antes de sua morte, eu precisava ir a Los Angeles para uma conferncia sobre clnicas de repouso. 
Sabendo como as pessoas que esto prximas da morte tm uma grande percepo do tempo que ainda lhes resta, sugeri cancelar minha ida, mas Manny disse que queria 
ficar um pouco sozinho com os outros membros da famlia.
        - Tudo bem, ento eu vou - disse. - Mas volto direto para c de avio daqui a uns dias.
        Meia hora antes de sair para o aeroporto, lembrei-me do trato que queria fazer com Manny caso ele morresse enquanto eu estivesse na Califrnia. Se minhas 
pesquisas sobre a vida alm da morte estivessem corretas, queria que ele me mandasse um sinal depois que morresse. Se no estivessem, ele no faria nada e eu continuaria 
a pesquisar. Manny tentou protelar.
        - Que tipo de sinal? - perguntou.
        - Alguma coisa remota - disse. - No sei exatamente, mas alguma coisa que eu saiba que s poderia vir de voc.
        Ele estava cansado e sem disposio para o assunto.
        - S vou embora quando voc apertar aqui - avisei, querendo selar o acordo com um aperto de mos.
        No ltimo minuto, ele concordou e sa satisfeita. Foi a ltima vez que o vi com vida.
        Naquela tarde, Kenneth levou Manny  mercearia. Era a primeira vez que ele saa de casa depois de passar trs semanas no hospital. A caminho de casa, Manny 
parou numa loja de flores e comprou uma dzia de rosas vermelhas de caule longo para Barbara, cujo aniversrio era no dia seguinte. Depois disso, Kenneth levou Manny 
de volta, arrumou as compras, enquanto o pai tirava um cochilo, e foi para sua casa.
        Uma hora depois, Kenneth voltou para fazer o jantar e viu que Manny estava morto. Morrera durante o seu cochilo.
        Quando voltei para meu quarto de hotel tarde da noite, a luzinha do telefone que indica recados estava piscando. Kenneth havia tentado avisar-me a respeito 
de Manny muito antes, mas s conseguimos falar um com o outro  meia-noite. Enquanto isso, Kenneth tinha telefonado para Barbara, que morava em Seattle e estava 
chegando em casa do trabalho, para dar a notcia e os dois tinham passado a noite no telefone. No dia seguinte, depois de dar mais telefonemas para a famlia, Barbara 
levou seu cachorro para passear. Ao voltar, encontrou nos degraus da entrada, sobre a neve que tinha cado durante toda a manh, a dzia de rosas que Manny mandara 
para ela.
        Eu no tinha conhecimento da entrega das flores at o enterro de Manny, em Chicago. J me reconciliara com Manny e estava feliz porque ele no iria sofrer 
mais. Quando estvamos em torno do tmulo, comeou a nevar intensamente. Notei que havia uma poro de rosas espalhadas pelo cho  volta do tmulo e achei uma pena 
deix-las ali se estragando sobre a neve. Assim, peguei aquelas rosas lindas e dei-as para os amigos de Manny, para as pessoas que estavam sinceramente abaladas 
com a sua morte. Dei uma rosa para cada pessoa. A ltima foi para Barbara, porque ela sempre tinha sido a queridinha do papai. Lembrei-me de uma conversa com Manny 
quando ela tinha mais ou menos dez anos de idade. Estvamos tendo uma daquelas discusses sobre minhas teorias de vida depois da morte. Ele virou-se para Barbara 
e disse:
        - Muito bem, se o que a sua me diz  verdade, ento, quando nevar pela primeira vez depois da minha morte, vai haver rosas vermelhas desabrochando na neve.
        Ao longo dos anos, essa aposta tinha se tornado uma espcie de piada na famlia, mas agora era verdade.
        Meu corao encheu-se de alegria, que meu sorriso revelou. Olhei para o alto. O cu cinzento estava cheio de um torvelinho de flocos de neve que, para mim, 
pareciam confete numa comemorao. Manny estava l em cima. Ah, aqueles dois, os dois maiores cticos de minha vida! Agora estavam rindo juntos. E eu tambm estava.
        - Obrigada - disse, olhando para Manny l em cima. - Obrigada pela confirmao.
        
      
      
      
      
      
      
      CAPTULO 39
      
     A borboleta
     
Como uma especialista em lidar com as perdas, eu no apenas conhecia os diferentes estgios por que se passa depois de uma delas, eu mesma os tinha definido. Raiva. 
Negao. Negociao. Depresso. Aceitao. Naquela fria noite de outubro de 1994, quando voltei de Baltimore e encontrei minha casa querida devorada pelas chamas, 
passei por cada um dos estgios. Fiquei surpresa com a rapidez com que aceitei o fato.
        - O que mais posso fazer agora? - disse a Kenneth.
        Doze horas depois, o fogo ainda era to intenso quanto na vspera,  meia-noite, quando eu passara pela tabuleta com o nome da fazenda e notara o soturno 
brilho alaranjado manchando a escurido do cu. Naquela hora, agradecera a Deus por no ter sido pior, inclusive pela sorte de no ter ali vinte bebs aidticos 
correndo perigo. Eu tambm estava ilesa. A perda de bens materiais era outra questo alm de minha prpria vida. Os lbuns de fotografias e os dirios de meu pai 
estavam destrudos. Assim como todos os meus mveis, utenslios e roupas. E o dirio que eu mantivera de minha viagem  Polnia, que mudara a minha vida. Fotografias 
tiradas em Maidanek. Tambm perdi vinte e cinco dirios nos quais tinha registrado meticulosamente todas as minhas conversas com Salem e Pedro. Milhares de pginas 
de documentao, anotaes e pesquisas tinham ido embora. Todas as fotografias que havia tirado de minhas entidades estavam destrudas. Inmeras fotografias, livros, 
cartas, agora no passavam de cinzas.
        Mais tarde, naquele dia, o impacto do desastre atingiu-me e entrei numa espcie de estado de choque. Tinha perdido tudo. At a hora de dormir, sentei-me, 
fumei e no consegui fazer mais nada alm disso. Na segunda manh, sa do buraco.
        Acordei muito melhor, lcida e realista. O que voc vai fazer, desistir? No. "Esta  uma oportunidade para crescer", lembrei a mim mesma. "No se cresce 
quando tudo est perfeito. Mas a dor  uma ddiva com um objetivo prprio."
        E qual era o objetivo? Uma oportunidade para reconstruir tudo? Depois de examinar os prejuzos, disse a Kenneth qual era meu plano. Iria reconstruir. Por 
cima das cinzas.
        -  uma bno - declarei. - No preciso mais fazer malas. Estou livre. Depois que reconstruir tudo, posso passar metade do ano na frica e metade aqui.
        Ele no teve dvidas de que eu no estava em meu juzo perfeito.
        - Voc no vai reconstruir coisa nenhuma - disse, categoricamente. - Da prxima vez, eles vo dar um tiro em voc.
        -  provvel que sim - disse. - Isso vai ser problema deles.
        Meu filho achava que tambm seria um problema dele prprio. No decorrer dos trs dias seguintes, ele me escutou ponderar sobre o futuro, enquanto estvamos 
praticamente acampados na casa de fazenda. Numa tarde, pegou o carro e foi  cidade com o pretexto de comprar coisas de primeira necessidade, como roupa de baixo, 
meias e calas jeans para mim. Em vez disso, voltou com alarmes contra fogo, detectores de fumaa, extintores de incndio e outros dispositivos de segurana - tudo 
o que era preciso para qualquer tipo de emergncia. Entretanto, no foi o bastante para diminuir a preocupao dele comigo. Kenneth no queria mais que eu ficasse 
morando ali, ponto final.
        No imaginava que ele estivesse tramando alguma coisa quando me levou  cidade para comer uma lagosta, uma das poucas coisas que eu nunca recusava. Porm, 
em vez de ir para um restaurante, acabamos dentro de um avio, a caminho de Phoenix. Kenneth mudara-se para Scottsdale para ficar perto do pai, e agora eu estava 
indo atrs.
        - Vamos procurar uma casa s para voc - disse.
        No reclamei muito. No tinha nada para carregar. No tinha roupas, no tinha mveis, livros ou quadros. Muito menos casa. No tinha sobrado nada que me 
prendesse na Virgnia. Por que no me mudar?
        Simplesmente disse sim  dor e ela desapareceu.
        Em meio ao vale de lgrimas, faa do tempo um amigo.
        Alguns meses mais tarde, um homem num bar de Monterey confessaria que "se livrara daquela mulher da AIDS". Mesmo assim, as autoridades locais recusaram-se 
a fazer acusaes for mais. A polcia do condado de Highland disse-me que no tinha provas suficientes. Eu no estava em condies de brigar, li quanto  fazenda 
propriamente dita? Apesar do dinheiro e do suor que colocara ali, simplesmente dei o centro e as instalaes dos workshops para um grupo que trabalhava com adolescentes 
perturbados e que haviam sofrido violncias.
        Essa  a grande vantagem do imvel. Eu tivera minhas oportunidades ali. Agora era a vez de outras pessoas tentarem fazer a terra trabalhar para elas.
        Mudei-me para Scottsdale e encontrei uma casa de adobe no meio do deserto. No havia nada  minha volta. A noite, entrava na piscina de hidromassagem, ouvia 
os coiotes uivarem e contemplava as milhares de estrelas da galxia. Era possvel sentir a infinitude do tempo. As manhs davam a mesma impresso enganadora de quietude 
e silncio. Entre as rochas, escondiam-se cobras e coelhos e os pssaros faziam seus ninhos nos cactos altos. O deserto podia ser ao mesmo tempo sereno e perigoso.
        No dia 13 de maio de 1995, na vspera do Dia das Mes, havia dito ao meu hspede, meu editor alemo, que eu estava aproveitando a oportunidade que o deserto 
me oferecia para refletir. Na manh seguinte, ouvi o telefone tocar, abri um olho e vi que eram sete horas. Ningum que me conhecesse se atreveria a ligar para mim 
quela hora. Talvez fosse para meu hspede, algum ligando da Europa. Quando tentei inclinar-me para atender, vi que alguma coisa estava errada. Meu corpo no se 
mexia. No queria se mexer. O telefone continuava a tocar. Meu crebro dava a ordem para eu me mexer, mas o corpo no obedecia.
        Ento percebi qual era o problema.
        "Voc acabou de ter outro derrame" - disse a mim mesma. "E desta vez foi grave."
        Como ningum atendeu o telefone, conclu que meu hspede tinha sado para uma longa caminhada matinal. O que me deixava entregue a mim mesma. Pelo que podia 
perceber, o derrame tinha decididamente causado uma paralisia, mas esta parecia estar mais concentrada no lado esquerdo. Embora no tivesse fora nenhuma, ainda 
podia mexer um pouco meu brao e perna direitos. Resolvi sair da cama e ir para o corredor, onde poderia gritar por socorro. Levei quase uma hora para me arrastar 
pouco a pouco at o cho. Parecia um pedao de queijo derretendo lentamente. S pensava em no cair para no quebrar o quadril. Teria sido demais, um derrame e um 
quadril quebrado.
        Uma vez no cho, levei outra hora para chegar at a. porta, que no podia abrir porque no alcanava a maaneta. Gastei mais tempo usando o nariz e o queixo 
para, com grande esforo, conseguir abri-la. Quando finalmente enfiei a cabea no corredor, ouvi meu editor l fora no jardim, longe demais para ouvir minha voz 
fraca. Depois de mais ou menos meia hora, ele entrou e ouviu-me pedindo socorro. Levou-me de carro para a casa de Kenneth, onde meu filho e eu discutimos sobre ir 
ou no para o hospital. Eu no queria ir.
        - Voc pode fumar quando sair - disse.
        Assim que Kenneth concordou que, no importa o que acontecesse, eu sairia do hospital em vinte e quatro horas, permiti que me internasse num hospital prximo. 
Ainda assim, e apesar de meu lado esquerdo paralisado, estava relutante, difcil, reclamando e louca para fumar um cigarro. Nem um pouco a paciente ideal. Submeteram-me 
a tomografias computadorizadas, ressonncias magnticas e a todos os exames de rotina, que confirmaram o que eu j sabia: tivera um derrame de tronco cerebral.
        No que me diz respeito, aquilo no foi nada comparado com os sofrimentos que passei causados pelo atendimento de sade moderno. Comeou no hospital com uma 
enfermeira antiptica e continuou com demonstraes inequvocas de incompetncia. Na primeira tarde no hospital, uma enfermeira tentou esticar meu brao, contrado 
numa posio recurvada e doendo tanto que at um sopro de ar sobre ele me incomodava. Quando ela o agarrou, dei-lhe um golpe de carat com meu brao direito bom, 
obrigando-a a pedir ajuda a duas outras enfermeiras para me segurar.
        - Cuidado, ela  brigona - disse a primeira enfermeira para as outras.
        Ela s sabia da missa a metade, porque sa do hospital no dia seguinte.
        De modo algum eu iria tolerar aquele tipo de tratamento. Infelizmente, uma semana depois, voltei para o hospital com uma infeco urinria por estar deitada 
o tempo todo e no beber lquido suficiente. Como precisava urinar a cada meia hora, era obrigada a contar com as enfermeiras para ser colocada na comadre. Na segunda 
noite, a porta do meu quarto se fechou, minha campainha de chamada caiu no cho e elas esqueceram-se completamente de mim.
        Fazia calor e o ar condicionado estava quebrado. Minha bexiga estava a ponto de explodir. No estava sendo uma noite das mais agradveis. Ento, vi minha 
xcara de ch sobre a mesa-de-cabeceira. Foi um presente dos cus. Usei-a para aliviar o desconforto de minha bexiga cheia.
        Na manh seguinte, uma enfermeira entrou, lpida e fagueira, com um sorriso no rosto.
        - Como  que est passando hoje, querida?
        Olhei para ela com uma cordialidade de arame farpado.
        - O que  isso? - perguntou, olhando para minha xcara de ch.
        -  minha urina - disse. - Ningum entrou aqui para ver como eu estava durante a noite inteira.
        - Oh - disse, sem se desculpar, e saiu do quarto.
        O tratamento em casa era um pouco melhor. Pela primeira vez em minha vida, estava aos cuidados do Medicare3, e aprendi um bocado de coisas - na maior parte, 
no muito boas. Designaram para mim um mdico que eu no conhecia. Por acaso, era um neurologista muito conhecido. Kenneth levou-me numa cadeira de rodas ao consultrio 
dele.
        - Como est? - perguntou.
        - Paralisada - respondi.
        Em vez de tirar minha presso e verificar meus sinais vitais, o mdico perguntou que livros eu tinha escrito depois do primeiro e deu a entender que gostaria 
muito de um exemplar do ltimo, de preferncia autografado. Eu quis mudar de mdico, mas o Medicare no consentiu. Um ms depois, entretanto, tive dificuldades para 
respirar e precisei de ajuda. Minha excelente fisioterapeuta telefonou trs vezes para o mdico sem conseguir falar com ele. Por fim, eu mesma telefonei. A secretria 
dele atendeu e informou-me que infelizmente o doutor estava muito ocupado.
        - Mas a senhora pode me perguntar o que quiser - chilreou alegremente.
        - Se quisesse uma recepcionista, teria procurado uma - disse. - O que eu quero  um mdico.
        E nunca mais o procurei. Sua substituta foi uma mdica maravilhosa que era minha amiga, Gladys McGarrey, e que cuidou muito bem de mim. Era realmente interessada. 
Vinha ver-me em casa, at nos fins-de-semana, e avisava-me quando ia sair da cidade. Ouvia o que eu tinha a dizer. Era como acho que um mdico deve ser.
        A burocracia do sistema de sade conseguiu superar as minhas piores expectativas. Indicavam-me assistentes sociais que no estavam dispostas a trabalhar. 
Uma mulher no me deu a menor ateno quando perguntei o que meu seguro cobria.
        - Seu filho pode tomar conta disso - disse.
        E ainda houve a questo aparentemente insignificante da almofada ortopdica. Uma enfermeira recomendara o uso de uma almofada especial para meu cccix, que 
doa pelo fato de ficar sentada quinze horas por dia. Quando a entregaram, vi que tinham cobrado ao Medicare quatrocentos dlares por algo que no valia mais do 
que vinte. Despachei-a de volta pelo correio.
        Uns dias mais tarde, a empresa telefonou para dizer que eu no podia devolver a almofada pelo correio. Esta teria de ser recolhida exclusivamente pelo servio 
de entregas. Estavam mandando o diabo da almofada de volta.
        - timo, podem mandar - disse, incrdula. - Quando vierem busc-la, vou estar sentada nela.
        O sistema de sade no tinha nada de engraado. Dois meses depois de meu derrame, embora ainda sentisse dores e sofresse as conseqncias da paralisia, minha 
fisioterapeuta disse-me que minha companhia de seguros tinha retirado o apoio financeiro para a continuao do tratamento.
        - Doutora Ross, sinto muito, mas no vou mais voltar - disse. - Eles no querem pagar.
        Que frase poderia ser mais assustadora quando relacionada  sade de uma pessoa? Minha suscetibilidade de mdica foi mortalmente ofendida. Afinal, eu me 
tornara mdica por vocao. Sentira-me honrada por poder tratar de vtimas da guerra. Tinha cuidado de pessoas consideradas incurveis. Tinha dedicado toda a minha 
carreira a ensinar mdicos e enfermeiras a serem mais afetuosos, prestativos e compreensivos. Em trinta e cinco anos de trabalho, nunca cobrara de um s paciente.
        Agora, diziam-me: "Eles no querem mais pagar."
        Era esse o atendimento mdico moderno? As decises eram tomadas por algum em um escritrio, que nunca vira o paciente? Ser que o trabalho de escritrio 
agora era mais importante do que a preocupao pelas pessoas?
        Na minha opinio, os valores esto fora dos eixos.
        A medicina de hoje  complexa e as pesquisas so dispendiosas, mas os chefes das grandes companhias de seguros e HMOs (Health Maintenance Organization) esto 
ganhando salrios anuais de milhares de dlares. Ao mesmo tempo, os pacientes aidticos no tm como pagar remdios que lhes prolongam a vida. Os pacientes com cncer 
so impedidos de se submeter a tratamentos que so chamados de "experimentais". Fecham-se setores de emergncia. Por que isso  tolerado? Como se pode negar a algum 
o direito  esperana? Ou aos cuidados mdicos?
        Era uma vez, h muito tempo, uma medicina que tinha a ver com cura, no com administrao. A medicina de hoje precisa adotar essa misso outra vez. Mdicos, 
enfermeiras e pesquisadores precisam reconhecer que so o corao da humanidade, assim como os sacerdotes so sua alma. Precisam fazer da ajuda a seus semelhantes 
- ricos ou pobres, brancos, pretos, amarelos ou pardos - sua mais alta prioridade. Acreditem em mim, em algum que recebeu pagamento em "terra abenoada da Polnia", 
eu sei: no h maior recompensa.
        Na vida alm da morte, todos tm de responder s mesmas perguntas. Que servios voc prestou? O que fez para ajudar?
        Se voc esperar at l para responder, vai ser tarde demais.
        A morte em si  uma experincia positiva e maravilhosa, mas o processo de morrer, quando prolongado como o meu,  um pesadelo. Vai minando todas as nossas 
faculdades, em especial a pacincia, a resistncia e a equanimidade. Durante todo o ano de 1996, lutei com as dores constantes e as limitaes impostas por minha 
paralisia. Dependo de cuidados alheios vinte e quatro horas por dia. Se toca a campainha da porta, no posso atender. E a privacidade? Pertence ao passado. Depois 
de quinze anos de total independncia,  uma lio difcil de aprender. As pessoas entram e saem. s vezes, minha casa parece a Grand Central Station. Outras vezes, 
fica quieta demais.
        Que tipo de vida  essa? Uma vida desgraada.
        Em janeiro de 1997, quando este livro est sendo escrito, posso dizer sinceramente que espero ansiosa pela minha formatura. Estou muito fraca, sempre com 
dores e totalmente dependente dos outros. De acordo com a minha Conscincia Csmica, sei que se deixasse de lado a amargura, raiva e ressentimento pela minha situao 
e apenas dissesse sim a essa espcie de "fim da minha vida", poderia partir, ir viver num lugar melhor e ter uma vida melhor. Mas como sou muito teimosa e rebelde, 
tenho de aprender minhas lies finais da maneira mais difcil. Como todo mundo.
        Mesmo com todo o meu sofrimento, ainda sou contra Kevorkian, que tira a vida das pessoas prematuramente apenas porque elas esto sentindo dores ou desconforto. 
Ele no compreende que priva as pessoas das ltimas lies, quaisquer que sejam, que precisam aprender antes de se formarem. No momento, estou aprendendo pacincia 
e submisso. Por mais difceis que sejam essas lies, sei que o Superior dos Superiores tem um plano. Sei que Ele reserva para mim a hora certa em que deixarei 
meu corpo como uma borboleta deixa seu casulo. Nossa nica finalidade na vida  crescer. Nada acontece por acaso.
      CAPTULO 40
    
    Sobre a vida e o viver
    
 bem do meu feitio j ter planejado o que vai acontecer. Minha famlia e meus amigos vo chegar de todas as partes do mundo, seguir o caminho atravs do deserto 
at encontrarem uma pequena tabuleta branca espetada numa estrada empoeirada onde est escrito Elisabeth, depois continuaro dirigindo seus carros at a tenda indgena 
e a bandeira sua que fica no alto de minha casa, em Scottsdale. Alguns estaro tristes. Outros vo saber como estou finalmente aliviada e feliz. Eles vo comer, 
contar histrias uns para os outros, rir, chorar e, num determinado momento, soltar uma poro de bolas de gs parecidas com extraterrestres no cu azul.  claro, 
eu estarei morta.
        Mas por que no dar uma festa de despedida? Por que no comemorar? Aos setenta e um anos, posso dizer que vivi de verdade. Depois de comear como "uma coisinha 
insignificante de menos de um quilo" que no se esperava que sobrevivesse, passei a maior parte de minha vida lutando contra as foras gigantescas, do tamanho de 
Golias, da ignorncia e do medo. Os que conhecem o meu trabalho sabem que, na minha opinio, a morte pode ser uma das maiores experincias da vida. Os que me conhecem 
pessoalmente podem testemunhar com que impacincia tenho esperado a transio da luta e dor deste mundo para uma existncia de amor total e irresistvel.
        No foi fcil essa ltima lio de pacincia. Nos ltimos dois anos, devido a uma srie de derrames, tenho dependido totalmente de outras pessoas para os 
cuidados mais bsicos. Passo os dias inteiros num esforo permanente para ir da cama para a cadeira, da cadeira para o banheiro e tudo de volta outra vez. Meu nico 
desejo tem sido deixar meu corpo, como uma borboleta deixa para trs seu casulo,  finalmente me fundir com a grande luz. Minhas entidades reafirmaram a importncia 
de fazer do tempo meu amigo. Sei que no dia em que minha vida terminar sob esta forma, neste corpo, ser o dia em que terei aprendido essa espcie de aceitao.
        A nica vantagem dessa lenta aproximao da passagem final da vida tem sido o tempo que oferece para meditao. Suponho que, depois de aconselhar tantos 
pacientes terminais, seja apropriado eu ter tempo para refletir sobre a morte quando  a minha prpria que est diante de mim. H poesia nisso, uma leve tenso, 
como uma pausa num drama de tribunal em que o acusado tem a oportunidade de confessar. Felizmente, no tenho nada de novo para confessar. Minha morte vir para mim 
como um abrao caloroso. Como disse h muito tempo, a vida num corpo fsico  uma parcela muito pequena da existncia total de uma pessoa.
        "Depois de passar por todas as provas para as quais fomos mandados  Terra como parte de nosso aprendizado, podemos ento nos formar. Podemos sair de nosso 
corpo, que aprisiona a alma como um casulo aprisiona a futura borboleta e, no momento certo, deix-lo para trs. E estaremos livres da dor, livres dos medos e livres 
das preocupaes... livres como uma linda borboleta voltando para casa, para Deus... em um lugar onde nunca estamos ss, onde continuamos a crescer, a cantar, a 
danar, onde estamos com aqueles a quem amamos e cercados de mais amor do que jamais poderemos imaginar."
        Felizmente, cheguei a um ponto em que no preciso mais voltar atrs para aprender mais lies, mas, infelizmente, no estou satisfeita com o mundo de onde 
estou partindo pela ltima vez. O planeta inteiro est em dificuldades. Esta  uma poca muito frgil da histria. A Terra foi muito maltratada durante um perodo 
longo demais sem que se considerasse a possibilidade de graves conseqncias. A humanidade deu livre curso  devastao dos frutos do jardim de Deus. Armas, ganncia, 
materialismo e gosto pela destruio tornaram-se o novo catecismo da vida, o mantra de geraes cuja meditao sobre o sentido da vida est perigosamente distorcida.
        Acredito que a Terra v em breve corrigir esses erros. Por causa do que a humanidade fez, haver terrveis terremotos, inundaes, erupes vulcnicas e 
outras catstrofes naturais numa escala nunca vista. Por causa do que a humanidade esqueceu, haver uma enorme quantidade de vtimas. Sei que isso vai acontecer. 
Minhas entidades disseram-me que podemos esperar por revolues e ataques de propores bblicas. De que outra maneira fazer as pessoas despertarem? Qual  a outra 
maneira de ensinar o respeito  natureza e a necessidade de espiritualidade?
        Assim como meus olhos viram o futuro, meu corao vai para aqueles que ficam para trs. No tenham medo. No h motivo para isso, se lembrarem que a morte 
no existe. Procurem ao contrrio conhecer a si mesmos e encarar a vida como um desafio em que as escolhas mais difceis so as mais elevadas, as que tero uma ressonncia 
de honradez e retido e que lhes daro foras e a percepo de Deus, o Superior dos Superiores. A maior ddiva de Deus para ns  a livre escolha. Nada  por acaso. 
Tudo na vida acontece por uma razo positiva. Se protegermos os canyons dos vendavais, nunca veremos a beleza de seus relevos.
        Preparando-me para passar deste mundo para o prximo, sei que o cu ou o inferno so determinados pela maneira como as pessoas vivem suas vidas no presente. 
A nica finalidade da vida  crescer. A suprema lio  aprender como amar e ser amado incondicionalmente. H milhes de pessoas no mundo que esto passando fome. 
H milhes sem um teto. H milhes que sofrem de AIDS. H milhes de pessoas que sofreram violncias. H milhes de pessoas que padecem de invalidez. Todos os dias, 
mais algum clama por compreenso e compaixo. Escutem o som de suas vozes. Escutem como se o chamado fosse msica, uma linda msica. Posso garantir que as maiores 
recompensas da vida inteira viro do fato de vocs abrirem seus coraes para os que esto precisando. As maiores bnos vm sempre do ajudar aos outros.
        Creio firmemente que minha verdade  uma verdade universal - acima de todos os credos, pontos de vista econmicos, de raa ou de cor -, e pertence  experincia 
da vida que  comum a todos.
        Todas as pessoas vm da mesma fonte e retornam  mesma fonte.
        Todos precisamos aprender a amar e ser amados incondicionalmente.
        Todas as dificuldades por que passamos na vida, todas as tribulaes e pesadelos, todas as coisas que vemos como castigo de Deus, so na realidade como ddivas. 
So uma oportunidade para crescer, que  a nica finalidade da vida.
        No podemos curar o mundo sem nos curarmos primeiro.
        Se voc est preparado para as experincias espirituais e no tem medo, voc as ter. No precisa de nenhum guru ou Baba para dizer-lhe o que fazer.
        Todos ns, quando nascemos da fonte a que chamamos de Deus, fomos dotados de uma faceta de divindade.  isso que nos d o conhecimento de nossa imortalidade.
        Devemos viver verdadeiramente at a hora da morte.
        Ningum morre sozinho.
        Todos so amados alm do que so capazes de compreender.
        Todos so abenoados e guiados.
         muito importante que voc faa apenas aquilo que gosta de fazer. Pode ser pobre, pode estar passando fome, pode estar morando num lugar miservel, mas 
estar vivendo integralmente. E, no fim de seus dias, abenoar sua vida porque fez o que veio fazer no mundo.
        A lio mais difcil a aprender  o amor incondicional.
        No h por que ter medo da morte. Pode ser a experincia mais deslumbrante de toda a sua vida. Depende de como voc viveu.
        A morte  apenas uma transio da vida para uma outra existncia onde no h mais dor nem angstia.
        Tudo  suportvel quando h amor.
        Meu desejo  que voc d mais amor a mais pessoas.
        A nica coisa que vive para sempre  o amor.
        
     
1 N. da Tradutora - Nos Estados Unidos, banheiro, toalete. Ao p da letra, sala de descanso.

2 N. da Tradutora - Um projeto que visa lembrar as vtimas da AIDS e arrecadar fundos para organizaes de assistncia aos aidticos. Consiste em um conjunto de 
41 mil painis colocados lado a lado, como uma colcha de retalhos, cada um deles lembrando a vida de uma pessoa que morreu de AIDS. Hoje, dez anos depois de sua 
criao, a Names Project Foundation tem 44 sedes locais nos EUA e 39 em outros pases de todo o mundo. J arrecadou quase dois milhes de dlares em recursos.

3 N. da Tradutora - Sistema federal norte-americano de seguro-sade para pessoas com mais de 65 anos de idade.

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